Procuro uma mulher chamada Alexandra.

Olha, deixa-me contar-te uma história que parece saída daqueles romances antigos portugueses, sabes? É sobre um homem, vamos chamar-lhe António Figueiredo, que andava à procura de uma mulher chamada Leonor, nome tão portuguesinho

António já passava bem dos sessenta, daqueles senhores com ar distinto, um pouco pesado nos seus gestos, boné de cortiça com pêlo de coelho à volta, a espreitar com nostalgia pelos bairros antigos de Lisboa. Desta vez estava na Penha de França, entre prédios de andares altos e pátios quase esquecidos, onde os telhados juntam-se como se quisessem proteger memórias velhas de infância.

Eram já quatro pátios visitados. Havia baloiços, a criançada chutava um disco de plástico molhado, água a espalhar-se e ninguém se preocupava. António encostou-se a uma arcada, fita o pátio e sente aquele desejo invencível de que a memória tropece em algo um detalhe, um cheiro, qualquer coisa do tempo em que a Leonor morava ali. Antes, só havia cordas de estender roupa, um barracão, bancadas e canteiros de alecrim.

Agora mudou tudo, claro. Em Lisboa nada fica igual, ainda mais com tanta gente a comprar e vender casas. Andamos nós a tentar agarrar o passado e a cidade vai mudando sem pedir licença.

Ninguém olhava duas vezes para o senhor de voz calma, sobretudo porque muitos ali eram inquilinos novos. Lisboa, enfim

O prédio, esse, sabia António que era mesmo à direita da arcada. Três andares, segundo andar, porta no fundo à direita, mesmo à esquina. Lembrava pequenos detalhes dentro daquela velha casa partilhada: o trinco torto da janela, o bule verde, o soalheiro estranho daquele quarto onde apanhavam baratas a pares e para elas montavam verdadeiras caçadas.

Sabia a rua, nunca esqueceu o bairro. Mas porta? Número? E o prédio certo? Por ali, todos os blocos pareciam gémeos, feitos ao mesmo tempo pela mesma empresa, iguais ao pormenor, daqueles bairros que desenharam depois do 25 de Abril.

E lá andava ele, a entrar e sair dos pátios de Lisboa.

Quando havia intercomunicadores mais modernos, António carregava no botão 43.

Boa tarde, estou à procura da Leonor Pode ajudar-me? dizia ele, com aquela delicadeza de quem espera não ser enxotado.

Às vezes nem o deixavam acabar, diziam que na casa deles não havia Leonor. Ou, noutros casos, talvez tenha vivido uma senhora com esse nome, mas já foi há muitos anos, e pronto: António ia tirando notas num bloco gasto.

Durante duas tardes, voltou aos pátios onde não obteve resposta, fez listas de portas, falava com quem encontrava nas escadas poeirentas que cheiravam a gatos cheiro bem conhecido da sua infância.

Boa tarde, desculpe incomodar, procuro uma senhora chamada Leonor, talvez uns sessenta anos. Sabe se vivia aqui alguém assim?

Uma senhora idosa, de saco das compras na mão, olhou-o de cima a baixo:

Leonor? Aqui? Não, só moram agora os Castros com os dois filhos. Nunca ouvi esse nome

Obrigado, António agradeceu, já de cabeça caída, descendo as escadas gastas pelo tempo.

Mas diga lá, qual era o apelido?

Se eu soubesse, já tinha procurado nas listas! Só me lembro do nome respondia, ainda envergonhado.

E quem era a Leonor para ele? Nem sabia já explicar ao certo. Leonor, Léo, Nônô O amor não tem definição certa, não é?

António, ao longo da vida, enganou-se a pensar que sentimentos frágeis não resistem à distância. Afinal, passaram-se quarenta anos de silêncio, com dores escondidas. A mulher, com quem tinha partilhado uma vida quase em silêncio, morreu há pouco e António sentiu o peito apertar o tal enfarte.

Não tinham grandes discussões, ele e a mulher, só deixaram de realmente viver lado a lado, cada um no seu espaço na casa cheia de antiguidades, cristais e móveis pesados como a vida envernizada que levavam. No salão, um piano de cauda branco Steinway que só servia de apoio para um vaso de flores artificiais. Ela até tentou ter aulas de piano, mas desistiu passado pouco tempo.

Nunca conseguiram ter filhos. António achava mas sem poder afirmar com segurança que era a vaidade da mulher que nunca lhes deixou ser pais.

Nos últimos anos, caminharam juntos no jardim da Gulbenkian, sobretudo porque a saúde já não permitia mais do que alimentar patos e viver devagar.

Porque nunca viemos aqui antes, Maria?

Fomos parvos, António.

A verdade é que António nunca conseguiu esquecer a Leonor, a rapariga de quem se apaixonou antes de tudo desabar. E foi por ela que, muitos anos depois, se meteu na aventura de a procurar, entre ruas e pátios de Lisboa.

***

A primeira vez que António viu a Leonor tinha acabado de chegar de Coimbra, em plena década de 70, para um seminário sobre planeamento de novas habitações sociais a Lisboa ainda a abrir-se às promessas da Revolução. Ele ainda era jovem, tecnicamente braço-direito do futuro sogro, o Engenheiro Brandão, homem importante na Câmara de Lisboa.

Na estação do Rossio, António foi apanhado de surpresa por uma música doce, vinda do túnel de passagem para os comboios. E foi aí que a viu: jovem, pequenina, de tranças e boina azul-clara, a tocar violino como se o mundo parasse só para ouvir a alma dela.

À frente, o estojo do violino aberto, moedas de escudos a tilintar. O cenário paredes húmidas do túnel, a pressa da multidão da cidade, tudo enquadrado por um frio húmido e típico de Lisboa no outono.

Do nada, um miúdo tenta roubar-lhe o estojo, mas António reage rápido, corre atrás do rapaz, apanha a mala, embora já meio partida quando a devolve. E aquela miúda, tão séria apesar do gesto, disse-lhe apenas: Obrigada, deixe estar as moedas, o estojo já estava quase sempre assim.

Ele quis saber mais, mas ela não estava para conversas. Disse-lhe só que, desde que a mãe morreu havia dois meses, não tinha para onde se virar e tocava na rua por necessidade. Ao ouvir isto, António sentiu o peito doer, não sabia o que dizer. Tentou dar-lhe algum dinheiro, mas Leonor recusou.

No dia seguinte, voltou à estação à procura dela. Passou horas por ali, a ver pessoas, a ouvir música, e cada nota dela parecia aquecer-lhe a alma. Quando ele finalmente foi falar com ela e deixou-lhe uma nota maior no estojo, Leonor assustou-se, arrebanhou o violino e convidou-o a sair dali antes que aparecessem os do costume, que cobravam aos músicos de rua.

Ao chegarem à casa da Leonor por acaso, a tal no bairro onde António andava a voltar anos depois , António ficou a pensar nos detalhes: quartos altos, cheiro a cera de chão, o piano herdado da mãe, uns livros antigos, e as inevitáveis discussões com os vizinhos por causa do barulho do violino.

Jantaram chá e torradas, ela arranjou-lhe a roupa rasgada e, no meio da conversa, António foi-lhe contando das saudades do Norte onde nascera, dos planos para o futuro, e ela partilhou-lhe a vida dura sem mãe e sem apoio, pronta a desistir da música para poder pagar a renda.

Ele voltou lá mais vezes, com sacos do Pingo Doce cheios de comida, e aos poucos, em longas conversas à noite e passeios debaixo da chuva pela cidade, começaram a aproximar-se. Era aquela paixão rápida e avassaladora, naquela Lisboa ainda a aprender a ser livre, que só se vive uma vez.

Chegou a pedí-la em casamento, queria levá-la para Coimbra. Mas Leonor hesitou. Em vez de lhe responder, leu-lhe versos, falava do passado e do futuro com aquela tristeza doce de quem sabe que a vida nem sempre faz sentido.

Num desses dias, tudo mudou. António foi envolvido numa teia de problemas pela empresa do sogro denúncias, fraudes inventadas. Chamaram-no à polícia e, de repente, teve de sair de Lisboa à pressa.

Lá se foi o sonho, António apanhou o comboio, enquanto um concerto para violino tocava nas colunas da estação do Oriente. Chorou como não chorava desde miúdo.

***

Já velho, nos pátios da Penha de França, António percebeu que as melhores dicas para encontrar alguém vêm das senhoras idosas sentadas ao sol, a espreitar quem passa.

Leonor? Olhe, houve uma mas morreu há uns meses. Ou será que foi a Natália? diziam entre si, de qualquer das maneiras, viveu sempre no andar da esquina. Dona Nônô, violinista, era famosa

O coração de António apertou, os joelhos fraquejaram. Tinha medo disto: chegar tarde demais.

Mas alguém corrigiu: Não, não, a Leonor está viva, sim senhor, só já não mora cá. Agora quem lá está é a filha dela, Maria das Dores.

Foi bater à porta, sobe as escadas e, quem lhe abre, é uma mulher de trinta e tal anos com o mesmo cabelo da mãe que ele amou. António quase caiu para o lado era igual à Leonor em nova.

Lá dentro, o marido, médico, percebeu logo o quadro e pô-lo a descansar, aplicou-lhe calmamente um daqueles remédios modernos e perguntou-lhe o que queria: Só quero saber notícias da vossa mãe

A filha, Maria das Dores (nome, como vês, bem de cá), percebeu tudo. Na conversa à mesa da cozinha, António percebeu: tinha uma filha de quem nunca soube, e um neto, Simão.

Ouviram-se histórias de vida dura, anos de trabalho, a mãe a dar aulas de música para criar a filha, tilintares de moedas que davam quase para o pão.

António chorou, mas sorriu. A filha pegou-lhe na mão:

Podia ter faltado tudo, mas não a esperança, Sr. António. A mãe dizia sempre que um dia um homem importante ia bater-lhe à porta.

E assim foi naquele fim de tarde, com o coração a bater forte e a sentir-se incrivelmente vivo, António foi levado pelo genro médico ao novo bairro onde Leonor agora vivia.

Não se atrase, vá, que a felicidade não espera.

Chegou a casa da Leonor, subiu, tocou à campainha. Diante dele, ela própria, só um pouco mais velha, de rosto ainda bonito e olhos enormes. Ficaram a olhar-se, como se a vida toda deles coubesse ali, naquele abraço por dar.

Leonor, perdoa-me. Vim tarde

Ela puxou-o para dentro, fizeram as pazes sentados no chão, como se o tempo tivesse voltado atrás. Trocaram versos poemas do Eugénio de Andrade que ambos sabiam de cor, palavras de amor e de reencontro enquanto as lágrimas lhes corriam devagar.

Foram de braço dado para o hospital, mas agora juntos, com a certeza de que nunca mais haveria separação. Ela prometeu ficar ao lado dele até ao fim dos dias. E assim, António percebeu que, por muito que Lisboa mude, há sentimentos que nem o tempo, nem os desencontros, conseguem apagar.

Agora sim, Leonor, agora vamos envelhecer juntos disse ele, sorrindo, enquanto olhava para a janela daquela nova casa sobre os telhados de Lisboa, com cheiro a jacarandás e a promessas por cumprir.

E assim terminou a busca. O amor, afinal, ainda o esperava ali mesmo, num pátio português.

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On réglera ça plus tard, d’une manière ou d’une autre