Tinha eu uns cinco ou seis anos, ainda nem andava na escola, no início dos anos 90, quando, lá na nossa aldeia, vieram para viver dois reformados vindos da cidade a Dona Amélia e o Senhor Joaquim. Compraram uma casa mesmo em frente à nossa pequena, baixa, com apenas duas janelas para a rua, mas com um enorme quintal nas traseiras, que eles, devido à idade, decidiram não cultivar. Todos os dias passeavam ora pelo pinhal, ora até ao rio, indo só de vez em quando à vila comprar o que lhes faltava para comer. Viviam calmamente, quase sem se dar por eles. Não costumavam ir a casa de ninguém, exceto duas vezes por semana, quando vinham buscar leite à nossa porta. Nós tínhamos muitos animais e campos para tratar, mas a verdade é que a vida não nos sorria em abundância, e a Dona Amélia, sempre muito discreta, vinha-me oferecer uns miminhos: ora um chocolate, ora um caderno, ora até algumas moedas de escudos. Eles nunca tiveram filhos.
Passaram talvez uns três anos com eles a viverem na aldeia, até que, numa fria noite de inverno, mal nos tínhamos deitado depois de ver televisão, bateram de leve à janela. Era a Dona Amélia. Disse baixinho: O Joaquim já cá não está.
Ajudámos como podíamos nos preparativos do funeral.
A Dona Amélia ficou destroçada com a partida do marido, adoeceu, quase não saía mais de casa. Nós começámos a visitá-la quase todos os dias, e ela contava sempre as histórias dos 52 anos de vida ao lado do Senhor Joaquim, os muitos anos a trabalhar juntos numa fábrica de Lisboa, e de como, já reformados, decidiram deixar o apartamento à sobrinha e mudar-se para o campo, para estarem em paz com a Natureza.
Chegou a primavera. A Dona Amélia já se começava a habituar à solidão, voltava a si pouco a pouco, até que um dia chamou-me a casa dela e mostrou-me um cachorrinho cinzento que rastejava dentro de uma caixa. Eu nunca fui grande fã de cães, mas ao olhar para aquele ser pequenino, o meu coração deu um salto e fiquei, por estranho que pareça, perdidamente apaixonado.
Anos depois, ainda hoje me lembro bem de estar sentado no chão, a fazer festas ao cachorro com o dedo, enquanto a Dona Amélia me espreitava, sorrindo com aquela ternura discreta de quem quase já não tem dentes.
Nunca tivemos cães, nem gatos. Nem filhos para animar o lar. E olha, faz-me tanta falta alguém por perto. Este pequenino apanhei-o hoje junto ao mercado, ao lado dos contentores. Não tive coragem de o deixar ali. Olha como ele é lindo, não achas?
Eu não conseguia desviar os olhos do cachorro. Nem respirar.
O que é que ele come? Deve estar cheio de fome, não? perguntei quase a chorar.
Aqueçi-lhe leite, mas não sabe beber da tigela, precisa de tetina, e não tenho, mas amanhã compro respondeu-me, envergonhada, quase num sussurro.
Corri para casa, tirei suavemente a chupeta da boca da minha irmã, então com cinco meses.
O cachorrinho devia ter apenas uns dias de vida. Com muito jeitinho, dei-lhe leite na chupeta, a temer que se deixasse morrer.
Durante mais de uma semana, nem eu nem a Dona Amélia conseguimos encontrar nome para o cachorro. Ela ria, queria chamar-lhe Foguete, pelos ouvidos meio alaranjados. Eu zangava-me e insistia em chamar-lhe Sombra, porque quase não fazia barulho e sempre se punha muito sossegado, e até nós, quando estávamos com ele, falávamos baixinho como um segredo. Sombra, Sombrinha, Sombrico, o nome pegou.
Passámos muito tempo, quase até ao verão, a cuidar do nosso Sombra a aquecer leite, a preparar-lhe comida. Quando começou o calor, passou a poder sair da caixa e passear no quintal. Sombra, talvez porque nunca tivera mãe a lamber-lhe o pêlo e a alimentá-lo, era canito débil e adoentado. Mas nunca lhe faltaram cuidados. Eu, mal largava a escola, corria para a casa da Dona Amélia ver como estava o nosso cão; depois fazia os trabalhos, ajudava a mãe com as tarefas e, quando podia, ficava até ao anoitecer a brincar com ele. Jogava com ele como se fosse um gatinho, e a Dona Amélia, sentada no sofá, sorria-nos, cheia de ternura.
Durante o verão, Sombra cresceu bastante, embora se visse que era de raças pequenas, não passou dos trinta centímetros. Ia comigo apanhar peixe ao rio, levar as vacas ao pasto. Quando eu não podia, sentava-se com a Dona Amélia, fiel companheiro. Desde que Sombra chegou, a Dona Amélia pareceu renascer ficou mais saudável, mais carinhosa, leu tudo o que havia sobre cães, tratava-o como gente, fazia-lhe comida especial, escovava-o, cuidava de cada tosse ou mancada.
Passou um ano, dois, três, cinco. Sombra morava sempre com a Dona Amélia, mas todas as manhãs vinha esperar-me ao portão, acompanhava-me três quilómetros até à escola. Às duas da tarde, lá vinha ele, pronto para me trazer de volta a casa. Nem lamaços de primavera nem frio de inverno o impediam de acompanhar-me, fiel, todos os dias. Assim se passaram nove anos.
A escola da outra aldeia só dava até ao nono ano. Para continuar a estudar, ou ia para o liceu na vila e ficava lá em residência, ou então rumava à cidade, onde tinha família. Após muita conversa em família, decidiu-se que eu iria estudar para o Porto.
No dia em que tive de sair cedo para apanhar o autocarro para a cidade, fiquei muito tempo sentado nas escadas da Dona Amélia, segurava o Sombra nos braços e chorava.
Leva-o contigo, se te custa tanto deixá-lo, dizia-me ela, também a chorar.
Mas para onde? O Sombra é seu. Cuide de si. A mãe irá cá todos os dias. E eu telefono sempre.
Quando o autocarro partiu, estava eu na janela, lavadinho em lágrimas, e o Sombra, de língua de fora, corria atrás dos meus olhos, como quem não entende porque razão o deixo assim.
O curso de agropecuária absorveu-me de corpo e alma. Dias passados nos livros, entre veterinária e economia rural. Poucos amigos, só esporadicamente metia conversa com um colega da escola que vivia perto do meu dormitório.
Já perto do Natal, pronto para a pausa e regressar a casa, a mãe ligou-me: A Dona Amélia está mesmo a piorar. Não se levanta da cama há uma semana, e o Sombra não sai de perto dela, tivemos de pôr-lhe a comida ao lado.
Voltei a casa antes do previsto. Sombra estava ali, sentado no banco junto à cama, os olhos tristes postos nela, ganindo baixinho. Dona Amélia, descarnada e fraca, tentava, com a mão enrugada, fazer-lhe uma festinha na cabeça, tocar no seu focinho escuro. Notava-se nos dois a mesma magreza, a mesma dor. Era um quadro tocante: a velhinha que partia sem filhos, com o seu cãozinho último e único afeto da vida.
Quando, depois do Natal, voltei à cidade, soube por dentro que seria a última vez que veria a Dona Amélia viva. Sombra só me acompanhou ao portão. Não conseguia deixar a Dona Amélia sozinha nem por instantes. Senti o peso daquela pequena alma canina, a cuidar dela como um filho amoroso.
Em fevereiro, a Dona Amélia morreu.
Alguém perguntaria: O que tem um rapaz de 16 anos que se pesar tanto por uma velhinha e o seu cão? Mas nem todos percebem a dor de perder o único laço familiar real, e de ganhar, mesmo assim, a amizade de um cão leal. Um cão que te sobrevive e, na hora da tua partida, sentirá um sofrimento difícil de explicar.
Só depois dos exames, já no final de maio, pude regressar ao lar. Ninguém sabia do Sombra desaparecera. Diziam que, no funeral, correu à volta da campa e tentou saltar para dentro, mas afastaram-no. Trouxeram-no para nossa casa, o pai fez-lhe até um abrigo forrado a mantas, mas Sombra recusou-se a ficar, rondando a casa da Dona Amélia até aparecerem os primeiros calores de maio. E então, sumiu. Não esperou por mim.
Meio verão andei eu por aldeias e vilas à procura do meu amigo, mostrando a sua fotografia, perguntando por todo o lado. Percorri tudo, do centro de Vila Real à barragem, nada. Talvez, pensei, Sombra acreditou que, ao enterrarem a Dona Amélia, ela um dia voltaria ali, esperou-a em casa, mas como isso nunca acontecia, foi ele procurar. Andaria perdido, à sua procura, infeliz.
Chegou agosto.
Numa manhã, fomos todos juntos ao cemitério da Mata dos Santos. Lá da aldeia eram cinquenta quilómetros. Nem me lembraria de procurar o Sombra ali, longe de tudo.
Mas mal saímos do carro, vejo um vultozinho a correr, as orelhas para trás, a língua pendurada era o meu Sombra!
Caí de joelhos no chão a chorar.
Sombra, Sombrinha, meu querido! Estive todo o verão à tua procura, tontinho, jamais pensei que viesses parar aqui!
Enquanto eu me sentava na terra, ele punha-se em pé e lambia-me a cara sentidamente, parecia que também chorava. Saltava tanto que quase me batia na cara com o focinho. O meu cãozinho estava sujo e magro. Tirei do carro toda a comida que levámos: sandes de queijo, croquetes, rissóis. Ele devorou tudo, os olhos sempre cravados em mim, rogando que não o deixasse ali de novo.
Enquanto eu limpava as lágrimas, uma senhora saiu da igreja e perguntou:
Esse cão é vosso?
É o Sombra. É dele, respondeu a minha mãe, também emocionada.
Trabalho aqui há anos, e desde a primavera que este cão vive numa das campas. Passava o dia a escavar tanto que quase tombava a cruz. Fechei a terra com a pá, mas ele voltava a escavar.
Estava claro era a campa da Dona Amélia e do Senhor Joaquim.
Fomos visitar as campas dos nossos familiares. Sombra nunca mais me largou o lado. Ia sempre colado às minhas pernas, olhos postos só em mim.
O monte onde repousavam a Dona Amélia e o Senhor Joaquim estava revolvido de terra escavada pelo Sombra, sobretudo do lado da Dona Amélia. O pai endireitou a cruz, a mãe pôs flores, e eu sentei-me em cócoras, com Sombra ao colo, que, orelhas levantadas, olhos tristes, ora me lambia ora olhava a campa.
Não o obrigues a vir contigo, pode ser que queira ficar cá. Deixa-o escolher, disse-me o meu pai, sentado a meu lado.
Não quero deixá-lo aqui. O outono já aí vem e, depois, o inverno. Morre aqui de frio. Não é novo, já tem quase dez anos. Mas dentro de mim sabia: se Sombra quisesse, voltava ali a pé, nem que fossem mais cinquenta quilómetros.
Ao sairmos do cemitério, Sombra hesitou. Ora ia à campa, ora nos seguia. Só quando nos metemos no carro é que veio atrás, entrou ao meu colo, decidido.
Sombra, meu querido, nunca mais te deixo sozinho neste mundo disse eu, lavado em lágrimas.
Na vida percebemos, por vezes tarde demais, que as maiores lições vêm da lealdade silenciosa daqueles cuja linguagem é feita de gestos simples. Nada substitui o amor fiel de quem fica ao nosso lado até ao fim seja pessoa, ou um pequeno cão. Aprendi a dar valor a esses laços, a gratidão e o amor persistente, que sobrevivem à distância, ao tempo e à própria perda.






