Dei o meu apelido aos filhos dela. Agora sou obrigado a sustentá-los enquanto ela vive feliz com o pai biológico deles.
Vou-vos contar como passei de ser o tipo divertido ao multibanco oficial de duas crianças que só me mandam mensagem quando precisam de dinheiro para o cinema, mas que me ignoram no Natal.
Tudo começou há três anos. Conheci a Filipa uma mulher incrível, divorciada, com dois filhos de 8 e 10 anos. Apaixonei-me perdidamente. Fiquei completamente cego. Ela repetia-me sempre:
As crianças gostam tanto de ti!
E eu, feito parvo, acreditava. Claro que gostavam levava-os ao Jardim Zoológico e ao Oceanário quase todos os fins de semana.
Num daqueles serões de conversa em que as pessoas dizem disparates decisivos, a Filipa comentou:
Fico mesmo triste por eles não terem o apelido do pai. Ele nunca os reconheceu oficialmente.
E eu, na minha maior idiotice até hoje, respondi:
Olha se quiseres, eu posso adotá-los. Já os trato como filhos.
Sabem aqueles momentos nos filmes em que o tempo para e uma voz off diz Foi aí que percebi que ia correr mal?
Comigo não houve voz. Mas devia ter havido.
A Filipa desmanchou-se em lágrimas de alegria. As crianças abraçaram-me. Senti-me herói de novela. Parvo, mas herói.
Depois foi aquela saga: advogados, cartórios, tribunais. As crianças passaram a ser Sebastião Oliveira e Carminda Oliveira com O MEU apelido.
Eu exultava. A Filipa estava radiante. Até fizemos uma pequena cerimónia de família, com direito a bolo.
Seis meses depois. SEIS.
A Filipa lança:
Temos de conversar Não sei bem como dizer isto, mas o André voltou.
Que André? pergunto eu, já com o coração a bater mais rápido.
O pai biológico deles. Mudou. Cresceu. Quer a família de volta.
Fiquei sem palavras.
E o que vais fazer?
Vou-lhe dar uma oportunidade. Pelos miúdos, percebes?
Pois, percebi tão bem como se me tivessem mostrado uma saída com luzes de néon.
Filipa, eu ADOTEI-OS. Eles são legalmente meus filhos.
Sim, sim Depois resolvemos isso. Para já, o importante é eles terem o pai.
Depois resolvemos isso.
Como se falasse de pagar o IMI.
Fui ao meu advogado. O homem até se engasgou com o galão.
Assinaste adoção plena?
Assinei.
Então, és o pai. Com tudo a que isso obriga pensão de alimentos, escola, saúde. Tudo.
Mas já nem vivo com a mãe deles
Não interessa. És pai. A lei é essa.
E aqui estou hoje a pagar pensão a Filipa, que vive feliz com o André no MEU apartamento. Porque as crianças precisam de estabilidade e não devem mudar de casa.
O MEU apartamento. Pago por mim. Mas eu é que tive de sair, porque seria demasiado traumatizante para os miúdos.
O mais surreal?
O André o pai fantasma que anos a fio não deu um tostão agora leva-os ao parque, à bola, faz o papel de super-pai.
E eu recebo todos os meses um email do meu advogado:
Pensão transferida: 500
Com um emoji triste no fim, que só piora tudo.
No mês passado, o Sebastião envia-me mensagem:
Olá, podes transferir mais um bocadinho? Quero comprar uns ténis novos.
E o André não os pode comprar?
Ele disse que tu és o meu pai legal. Ele é só pai de coração.
Pai de coração.
Um jeitinho. Eu sou o pai do multibanco.
Adotar quase não tem volta a dar. O tribunal ainda me fazia passar por vilão, como se eu quisesse abandonar as crianças.
Os meus amigos já nem têm pena.
Ó pá, em que momento achaste que isto era boa ideia?
Estava apaixonado.
Apaixonar-se não devia desligar o cérebro.
Ele tem razão.
Agora, quando vejo um casal com filhos que não são deles, apetece-me gritar:
NÃO ASSINEM NADA! SEJAM TIOS, NAMORADOS, O QUE FOR MAS NÃO ASSINEM PAPÉIS!
A minha mãe só disse:
O amor deixou-te tolo
e deu-me um abraço tão forte que ainda mais me doeu.
Ontem outra vez:
Despesa extra: material escolar 200
Extra. Como se a escola fosse surpresa anual.
A Filipa publica fotos da família feliz.
As crianças – com o MEU apelido – ao lado daquele que as abandonou.
O auge?
A Carminda (com 10 anos, claro que já tem Instagram) escreveu na bio:
Filha da Filipa e do André
O meu nome? Nem vê-lo.
Sou o patrocinador anónimo do dia-a-dia deles.
E cá estou sozinho, com menos 500 todos os meses, com dois filhos que só me escrevem para pedir dinheiro, e a ter a certeza absoluta de que foi o maior disparate que já fiz por amor.
A única vantagem? Quando me perguntam se tenho filhos, digo tenho e uso esta história para animar o jantar. Toda a gente ri.
Eu? Só choro por dentro.
E vocês? Alguma vez assinaram algo por amor que depois vos custou caro ou será que fui só eu o artista que ofereceu apelido e conta bancária num pack irresistível?







