Dá-nos as chaves da casa de campo, podemos passar lá uns dias.
O casal abriu as portas aos amigos, sem prever as consequências.
A mãe de João adoeceu, então ele e a esposa, Filipa, decidiram ficar em Lisboa nos festejos de Ano Novo. Celebraram em silêncio, apenas os dois, com o calor da família. Os amigos, Teresa e Ricardo, ficaram desiludidos João e Filipa haviam prometido ir juntos para a casa de campo no Douro, mas tiveram de desistir no último instante por causa da súbita doença de Dona Maria da Graça.
Por mais que sentisse que não havia alternativa, Filipa ficou desconfortável com a situação.
No dia 2 de janeiro, Teresa ligou-lhe, lamentando-se do Ano Novo passado a três, apertados num apartamento pequeno. O peso da culpa apertou o coração de Filipa.
Tive de ouvir todos os caprichos da minha sogra. Apareceu cá mesmo no dia 31, a queixar-se que o aquecimento da casa dela se avariou! Agora quer ficar aqui com o Ricardo até ao fim dos feriados, enquanto os técnicos não resolvem o problema! Eu já não aguento! Já disse ao Ricardo, vou pedir o divórcio por causa dela! desabafou Teresa.
Lamento, querida. Sempre tive uma boa relação com Dona Maria da Graça, mas ela sofre muito quando está doente, suspirou Filipa, partilhando também o seu fardo. Se pudesse ajudar, ajudava.
“Sabes, Filipa há uma forma de ajudares.”
“Como?”
Empresta-nos a chave da vossa casa de campo. Vamos para lá fugir da minha sogra e deixamo-la aqui a viver sozinha, que ela se desenrasque!
Filipa hesitou. Por um lado, queria ajudar, mas não sabia bem como João reagiria à ideia. Apesar de partilharem a casa, era ele quem estava registado como proprietário.
Tenho de falar com o João primeiro, Teresa
Claro, percebo perfeitamente. Mas prometo que vamos cuidar bem da casa.
Olha que provavelmente as estradas estão cobertas de neve Não chamámos tractor para limpar, Filipa advertiu.
Não faz mal, temos um jipe. Chegamos lá sem problemas.
E o aquecimento? Não verificámos há imenso tempo. Seria bom ir lá antes
Filipa, somos adultos. O Ricardo percebe dessas caldeiras, trabalhou anos nisso. Fiz questão de avisar que não vamos estragar nada. Se for preciso, ele ainda põe tudo a funcionar.
Teresa parecia tão determinada que Filipa pensou: E porque não?
Prometeu ligar de volta após falar com João.
Estás mesmo certa disto? questionou João, inquieto.
Não sei, João. Mas Teresa é uma amiga de longa data. Iríamos todos se não fosse a doença da tua mãe
Se eles forem, não poderemos lá ir. Não convém deixar a minha mãe sozinha.
Pois e não quero deixar Teresa a sofrer, com aquela relação tensa com a sogra. Ela diz que a mãe do Ricardo é insuportável, que o casamento está por um fio.
Refletindo juntos, decidiram que, se dependesse deles o bem-estar do casal amigo, iriam ajudar.
Damos-lhes as chaves. Mas lidam sozinhos com os problemas. Que não nos aborreçam, pontuou João.
Teresa percebeu imediatamente o quanto confiam nela.
“Obrigada, amiga! Vou-te avisando e mandando novidades. E partiram.
Levaram mais de três horas a chegar à casa, situada numa vila pitoresca do Douro, longe do reboliço de Lisboa. Mas, como Filipa e João previram, o caminho estava bloqueado por neve pesada; nem o jipe escapou. Teresa e Ricardo tiveram de ligar aos proprietários.
O que fazemos agora? perguntaram, aflitos.
Voltem para trás. Ninguém vos limpa a estrada no dia 3 de janeiro. Está tudo de férias.
Não podemos! Viemos de tão longe Há uma aldeia grande ao lado. Disseste que o João conhece lá um tractorista!
Sim, ele costuma limpar os acessos.
Liga-lhe, pede que venha!
Está bem, envio o contacto.
Meia hora depois, Teresa ligou novamente.
Ele não atende! Peçam ao João para ligar, deve estranhar números que não conhece!
Filipa conseguiu convencer João a tentar. Por fim, o tractorista prometeu aparecer dali a uma hora.
Durante esse tempo, João sentia-se uma pilha de nervos. Teresa nunca parava de ligar, pressionando-os. Filipa já se sentia exausta e culpada.
Felizmente, o tractorista foi de palavra: limpou o acesso até à casa. Mas para entrar, ainda era preciso cavar com uma pá. Ricardo teve de se esforçar para abrir passagem e chegar à porta.
As radiadores não aqueciam o suficiente; o sistema precisava de manutenção. Ricardo percebeu que não sabia como mexer na caldeira e voltou a ligar para João. O dono perdeu duas horas a explicar o funcionamento por telefone.
Nunca vi disto devem ter uma versão antiga.
Pois é, pelo menos funciona! João, impaciente, sentiu que os problemas só começavam.
Não se enganou. Teresa ligava por qualquer minudência: perguntava pela localização da frigideira, ou queixava-se do frio constante.
Quando chegou a noite, Filipa e João desligaram os telemóveis precisavam de paz.
Na manhã seguinte, havia dezenas de chamadas perdidas dos amigos.
O que terá acontecido?
Não faço ideia Filipa, nervosa, ligou de volta. Teresa atendeu, aflita.
Alô? Onde vocês estavam?
Estávamos a dormir!
Aqui aconteceu um desastre. A sauna cheirava a fumo, quase ardíamos!
Valha-nos Deus
Pois Que construção é esta?!
O que se passou?
Tinham de ter avisado que há uma tampa na chaminé Teresa criticava. Valeu o Ricardo, que tem cabeça para estas coisas.
Desculpa, não imaginei que fossem à sauna logo no primeiro dia
Porquê? Somos convidados, aproveitamos tudo! Não era suposto usar a sauna? Deviam avisar! Só conseguimos entrar depois de limpar a neve toda
Façam o que quiserem, cuidem-se Filipa transbordava tensão.
Também não encontramos a churrasqueira.
A antiga avariou.
E não avisaram?! Onde fazemos os grelhados agora?! Teresa reclamava.
Não sei, Teresa. Sinceramente, ando de cabeça perdida com tudo o que tem acontecido. Resolvem isso como conseguirem. Só não nos queimem a casa.
Filipa desligou. O comportamento da amiga deixava-a inquieta.
Problema novo? João perguntou, sem surpresa.
Sim.
Filipa contou-lhe o sucedido.
Ricardo esteve comigo lá no verão e sabe perfeitamente onde está a tampa da chaminé. Não há razão para tanta reclamação. E quanto à churrasqueira se quisessem cozinhar arroz de pato, pediam-nos o tabuleiro também? Se querem fazer grelhados, que vão à aldeia, há lojas com churrasqueiras descartáveis. Chega para os dias que precisam.
Foi isso que Filipa comunicou à Teresa quando ela voltou a ligar.
Certo. Entendi, vamos à aldeia, agora que a estrada está aberta, graças a nós.
Curiosamente, depois desse telefonema, Teresa parou de incomodar Filipa, percebendo talvez o quanto estava a exigir da amiga.
Já não ligam há tanto tempo. Devíamos saber se está tudo bem, ponderou João no dia seguinte.
Teresa não atendeu, mas enviou um SMS dizendo que estava tudo óptimo.
O casal decidiu então confiar-lhes a casa e esquecer o assunto pelos próximos dias.
Quando as férias de Ano Novo terminaram, Dona Maria da Graça melhorou.
Podes ir buscar as chaves à casa de campo? Aproveitas e confirmas como ficou tudo, sugeriu Filipa ao marido.
Sim, faz sentido. Vou de manhã e volto ao fim do dia, quero ver o estado da casa e da sauna.
João foi, enquanto Filipa ficou em Lisboa com a sogra.
Avisou os amigos de que o marido estava a caminho, esperando que tudo corresse normalmente. Ficou chocada quando João regressou aborrecido, sem vontade de conversar.
Tudo ficou claro no dia seguinte. Teresa ligou pedindo que Filipa fosse a sua casa, ali perto.
A tua sogra já vos deixou sossegados? questionou Filipa.
Graças a Deus, sim. Resolveram-lhe os problemas e foi-se embora ontem.
Ótimo. Vou passar aí daqui a uma hora, prometeu Filipa, sem mencionar nada a João. Estava determinada a descobrir o motivo de tanta contrariedade.
Teresa não perdeu tempo: estendeu-lhe uma folha de papel.
Toma. Está tudo contabilizado, anunciou.
Desculpa, o que é isto?
As nossas despesas na tua casa de campo.
Filipa leu o que estava na folha: serviço do tractorista, compra de pá elétrica, churrasqueira, carvão, líquido de acender, grelha, três lâmpadas, e óleos essenciais para a sauna.
Isso foi o que comprámos enquanto lá estávamos.
E para quê que me mostras isso?
Deixámos esses artigos lá. Podes usá-los. Nós e o Ricardo achámos que, já que vais beneficiar deles, era justo partilhar os custos.
Estás a brincar? Filipa soltou uma gargalhada incrédula.
Não. Se a casa tivesse churrasqueira, não gastaríamos dinheiro num kit novo. Sem a pá elétrica, não conseguiríamos abrir caminho ao frio. E, claro, se o tractorista tivesse limpado tudo antes, não teríamos perdido tempo e gasolina. Sem falar que na sauna não havia champô tive de comprar!
Teresa, estás a exagerar. Primeiro, a casa não é um hotel. Não temos de fornecer champô nem touca de banho. Segundo, compraram a pá e a churrasqueira por opção vossa. Não precisamos desses trastes, podem levá-los. Os óleos, o carvão e a grelha também. Quanto à estrada, não pagamos nada; vocês foram porque quiseram, por vossa conta e risco.
Mas também a usam
Quando voltarmos a ir à casa, já vai haver mais neve. De resto, normalmente limpam as estradas de graça, excepto nos feriados. Por isso pagaram. São vossos gastos. Pelas lâmpadas, tudo bem, isso precisava, obrigada por trocarem, disse Filipa, transferindo quinze euros pelo MB Way. Depois levantou-se e saiu sem mais palavras. Ignorou chamadas e mensagens. Para não ficarem em dívida, ela e João foram à casa e recolheram todas as coisas dos amigos, mandando-as por correio expresso.
Dona Maria da Graça estava quase recuperada, e o casal pôde voltar aos fins de semana no Douro. Teresa e Ricardo perderam o privilégio. Depois desse episódio, a amizade esfriou. Nunca mais confiaram em ninguém com as chaves a estranheza dos antigos amigos passou a ser motivo de irritação.
Tratámos deles, fizemos tudo por eles e veja-se a gratidão! queixou-se Teresa ao marido ao discar o número de Filipa mais uma vez. Não precisava da pá elétrica, mas só podia devolvê-la com o talão, que ficara na casa dos amigos.







