Faz as malas, conheci o meu primeiro amor, disse o marido. E uma hora depois era ele que se preparava para sair, mala na mão
António regressou do jantar de antigos alunos num domingo à noite. Leonor acabava de lavar os últimos pratos.
O marido estava diferente. Animado, de bochechas coradas, como se alguém lhe tivesse dado boas notícias, sei lá, uma promoção ou um prémio da lotaria. Leonor lançou-lhe um olhar rápido enquanto secava as mãos ao pano e pensou: Que bom, parece que correu bem.
António não disse nada. Despiu-se, foi dormir.
De manhã apareceu na cozinha com aquela postura de alguém que tomou, enfim, uma grande decisão digno de filme: mãos entrelaçadas em cima da mesa, olhar sério. Leonor pôs-lhe o café à frente e abriu o frigorífico, que era preciso arrumar o resto dos bolinhos de bacalhau. Foi aí que ele decidiu falar.
Leonor. Precisamos de conversar.
“Lá está,” pensou Leonor. Aquela frase prenunciava desastre, era como ouvir um anúncio de trovoada.
Ontem encontrei a Filomena. Lembras-te? Já te contei sobre ela. O meu primeiro amor.
Leonor lembrava-se. Filomena surgia nas conversas de cinco em cinco anos, normalmente regada a vinho do Dão, António nostálgico: Éramos tão novos. Nada de mais.
Conversámos. Muito tempo. E pronto, Leonor, prepara-te para sair.
Leonor virou-se. Os bolinhos de bacalhau ficaram esquecidos na prateleira.
O quê?
Decidimos ficar juntos. Eu e a Filomena. Percebes?
Leonor ficou a olhá-lo durante uns instantes.
O apartamento é meu, acrescentou António, num tom de só para deixar claro Devias procurar outro lugar.
Leonor pos os bolinhos de volta no frigorífico. Fechou a porta com cuidado, para o íman da Nazaré não cair.
Já decidiste tudo? perguntou.
Sim.
Ela assentiu. Foi para o quarto.
Sentou-se à beira da cama, contemplando a parede. Nela pendia um calendário de gatinhos que tinham comprado no Mercado do Bolhão em janeiro, só porque sim, era baratíssimo, um euro. Janeiro e fevereiro já tinham passado, mas os gatos continuavam lá. Um gatinho ruivo, de laço azul, olhava para Leonor com um ar quase filosófico de compaixão.
Então é isto, pensou Leonor.
Vinte anos a viver com alguém que agora estava sentado na cozinha à espera que ela começasse a fazer malas. Vinte anos é muito tempo.
Era o primeiro T1 em Chelas, que arrendaram juntos, onde a torneira pingava e à noite o vizinho Zé berrava do outro lado da parede.
Foram aqueles meses de falência, António cinzento, ela a fingir que não via as sagas de copos no terraço.
Foi aquela ida às urgências às três da manhã com apendicite, e o médico a dizer: Mais uma hora e. Foi a festa de finalistas dos seus alunos, quando António apareceu com flores à porta da sala, todo orgulhoso e envergonhado. Tudo isso existiu. Agora já não conta.
Levanta-se, ronda o quarto, pára junto ao guarda-fato.
Lá em cima, num canto, repousavam os documentos.
António continua na cozinha, entretido no telemóvel certamente a trocar mensagens com Filomena, pois de vez em quando sorria de lado, com um ar de quem espera palmas pelo feito ousado.
Leonor senta-se à mesa com uma pasta de documentos.
Estás a separar os papéis? indaga António, de soslaio.
Não. Quero só mostrar-te uma coisa.
Abre o dossier.
Leonor, não achas que agora não é altura
Cala-te um bocadinho.
Leonor procura e acha o papel certo. Coloca-o à frente dele.
Era o contrato de casamento. Quinze anos antes, quando António meteu mãos num negócio de materiais de construção civil, o advogado sugeriu que formalizassem tudo. António na altura não ligou muito. É só uma formalidade, Leonor. Somos família. Foi ela sozinha ao notário, assinou, trouxe a cópia e guardou-a.
António na altura disse “ok” e nunca mais lhe tocou. Leonor, claro, meteu-o no armário.
Nunca foi estratega, apenas organizada.
Quanto ao negócio: durou catorze meses, soluções milagrosas durante três anos, até cair como só caem as casas edificadas ao contrário.
As dívidas foram de respeito. Nessa altura Leonor sugeriu logo vender o apartamento para liquidar tudo. António recusou: “Eu resolvo.” Demorou seis anos, não três meses. Leonor trabalhou sem queixas, em dois empregos.
António pega no papel e lê.
Leonor bebe café frio, devagar.
Espera, diz António. Agora a voz um pouco mais miúda. Aqui diz…
Pois, responde Leonor.
Que o apartamento é teu em caso de divórcio.
Sim.
Mas como
Relê. Depois pousa o papel.
Leonor não se apressa. Deixa-o ler. Teve quinze anos para pensar, agora que faça as contas.
E as dívidas?
São tuas. Está aí, no ponto quatro.
António fica calado. O telemóvel pisca deve ser Filomena a perguntar se já está tudo. Ele ignora.
Leonor
Sim?
Guardaste isto de propósito?
Leonor pensa, diz a verdade:
Não. Eu nunca deito documentos fora.
E era assim. Leonor guardava tudo: recibos, garantias, manuais de máquinas que já foram para sucata, feitas do centro de saúde de dois mil e picos. Organizada. Não há cura.
António volta a olhar para o papel. Depois, para a janela.
Leonor arruma a pasta, leva a chávena ao lava-loiças. Vira-se.
António. Um de nós vai mesmo ter de procurar outra casa, diz Leonor. Tens razão.
E foi para o quarto.
António ficou na cozinha mais uns vinte minutos.
Ou trinta. Leonor não contou. Limitou-se a fazer o que se faz nos sonhos estranhos: alinhou livros em pilhas, trocou o vaso de gerânios do parapeito para a prateleira, limpou o pó do armário. Quando as mãos ocupam-se, a cabeça berra menos.
António apareceu à porta.
Leonor.
Ela virou-se. Ele segurava o contrato como se fosse o bilhete que o podia salvar de um destino absurdo.
Leonor, espera. Podemos falar calmamente?
Podemos, disse Leonor. Não sorriu. Não entoou. Só podemos.
Esse contrato… foi há tanto tempo, eram outros tempos… não pensávamos que
Que o quê?
António cala-se. Fica desarmado. Que não pensavam separar-se? Que achavam o contrato inútil? Que não pensavam?
Está tudo legalizado, diz Leonor. O notário confirmou. Verifiquei.
Quando?
Há uns cinco anos. Por causa da herança da minha mãe, perguntei também do nosso contrato. O notário disse: Relaxe, está válido. Eu relaxei e esqueci. Até hoje.
António olha com um ar espantado, como se só agora percebesse a dimensão.
Planeaste isto?
Leonor pensa.
Não. Sou só organizada, repete.
E era verdade.
António volta à cozinha, agita-se a matraquear armários, depois silencia-se, depois abre portas, depois pára. Volta a erguer-se, imóvel.
Leonor aparece à porta.
O que estás a fazer?
A pensar.
Em quê?
Não responde.
Leonor avança, põe o chá a ferver.
António, posso perguntar: já pensaste para onde ir?
Olha-a, calado.
Pois, conclui Leonor.
António talvez imaginasse a cena diferente. Ele dizia as palavras importantes, Leonor chorava, ia para casa duma amiga. Ele ficava com a casa. Filomena entrava. Previsível, simples.
Que Leonor pudesse sacar um papel esquecidíssimo da cartola nem em sonhos.
A água ferve. Leonor faz chá.
Eu não vou a lado nenhum, diz Leonor. O apartamento é meu, é aqui que fico.
António, em silêncio.
E eu onde é que
Vai ter com a Filomena, Leonor recorda-o. Foi o que disseste. Que decidiram ficar juntos.
Filomena não lhe ocupava o pensamento, nem com rancor, nem com pena. Era alguém da história de outrem, de uma nostalgia regada a espumante num jantar de antigos alunos. Para Leonor, ali só era incómoda.
Que mais se há-de fazer?
Ela começa António, detém-se.
O quê?
Ela ainda não sabe ao certo Não conversámos sobre isso. Não está totalmente preparada.
Leonor pousa a chávena.
António.
Sim?
Vieste dizer-me para arrumar as minhas coisas sem sequer teres decidido com a Filomena onde vais viver?
Ele calou-se. Pelo olhar adivinhava-se que sim.
Alguns homens adoram tomar decisões grandes, mas tropeçam nos detalhes.
Leonor levanta-se. Vai buscar uma mala de viagem castanha, coloca-a na mesa.
Pronto, diz. Leva o que quiseres.
Leonor
António. Decidiste. Eu registei. Agora faz o que te compete.
António encara a mala. Alguma coisa parte-se interiormente.
Vai fazer a mala.
Leonor fica na cozinha, ouve o ranger do armário, o tilintar metálico lá dentro talvez a navalha.
Vinte anos juntos. Bastaram-lhes para encher só uma mala de viagem.
Depois de uma hora, António aparece no hall. Traz a mala na mão e o semblante de quem subestimou a dimensão do sonho em que entrou.
Leonor, diz. Liga-me, está bem?
Está bem, responde ela.
Papéis do divórcio, temos de tratar disso.
Liga. Depois vemos.
Fica ali a vais tentar arrancar algum sinal de reconciliação, talvez lágrimas ou escândalo, mas não há nada.
António abre a porta e desaparece.
Três semanas depois, Leonor ouviu pela D. Margarida, ex-colega que tudo sabia, que com a Filomena as coisas não correram lá grande coisa.
Filomena morava com a irmã: T1 em Algés, cunhado e dois filhos. Sem espaço e nem sombra de romantismo. António, claro, não foi para lá; alugou um quarto pequenino nos Olivais, a uma senhora já de idade que proibia cigarros e queria saber sempre de visitas.
Quando Filomena percebeu que António estava sem casa e sem perspetiva de ter uma, o encanto desvaneceu. Rápido. O herói que largava tudo pela paixão parecia, à distância, bem mais atraente que a realidade de uma mala e dívidas antigas. O primeiro amor é atraente com filtro. Sem filtro, não muito.
Leonor ouviu, acenou e foi servir chá à D. Margarida.
Então, e tu? perguntou a outra, com aquele ar de se for preciso, consolo horas a fio.
Estou bem, disse Leonor.
E era verdade. Nessas semanas, inscrevera-se finalmente num curso de massagem andava há anos para isso. Telefonou à amiga Dalila, que não via há séculos: foram ao café, conversaram. Comprou passe mensal para a piscina. Coisas pequenas. Mas é dessas coisinhas que se faz uma vida inteira.
Às vezes, à noite, quando a casa silenciosa parecia flutuar num nevoeiro de sonho, Leonor pensava em António. Sem raiva. Apenas pensava. Um dia percebeu: ainda bem que foi ele a abrir aquela porta. Ela, provavelmente, ficaria ali agarrada ao passado tempo demais.
O calendário dos gatos continuava preso na parede. Janeiro, fevereiro, e o gatinho ruivo de laço azul fixo. Leonor olhou para ele e pensou: está na altura de virar o mês.
E depois achou: fica para amanhã.







