Revolta Tardia
Tu percebes o que estás a fazer? A voz da Leonor soava serena, quase sem emoção, e esse jeito calmo era mais aterrador do que um grito. Tu entendes o que isto significa para todos nós?
Maria Antónia estava junto à janela, a olhar para a rua. Lá fora, uma chuva miudinha de novembro caía sobre os transeuntes apressados que, de guarda-chuva aberto, passavam apáticos, sem se olharem.
Sei o que significa para mim, acabou ela por responder.
Para ti. Leonor repetiu a palavra, pesando-a, quase com desdém. Sempre assim: para ti. E nós?
Vocês são adultos.
Mãe, tu tens sessenta e um anos.
Eu sei a idade que tenho.
Leonor sentou-se no sofá. Um sofá velho, herdado da antiga casa, da vida anterior. Maria Antónia olhou para ele e pensou em todas as vezes que planeou deitá-lo fora, mas nunca o fez. Por hábito, por pena. Sempre lhe pareceu que deitar fora o sofá era como perder algo vivo.
Pensaste no que as pessoas vão dizer? perguntou a filha.
Não, respondeu Maria Antónia. Não pensei.
E era verdade.
***
Tudo começou em março, quando Maria Antónia Soares, professora de Português e Literatura já reformada, que complementava a pensão com algumas horas num ateliê infantil na biblioteca municipal, foi visitar a amiga Emília a Estremoz.
Emília Andrade morava lá há oito anos. Depois de enviuvar, comprou uma casinha nos arredores, cultivava uma horta e dizia, com orgulho, que finalmente conseguia respirar. Maria Antónia visitava-a todos os verões, mas dessa vez sentiu algo diferente. Uma vontade súbita: agora, não no verão. Agora.
O março de Estremoz estava húmido e silencioso. Havia neve antiga nos lados sombrios dos montes, mas já se avistava terra preta nos altos. As cúpulas das igrejas reflectiam o céu pálido. Maria Antónia caminhava por uma rua estreita e sentia uma paz rara, feita não de vazio, mas de verdadeiro silêncio. Só ali percebeu a diferença.
Emília recebeu-a à porta, de botas de borracha e um velho casaco acolchoado.
Finalmente disse, abrindo um sorriso. Já tenho as pataniscas prontas.
Sentaram-se na cozinha, beberam chá, e Emília contou novidades dos vizinhos, da horta, e que andava a pensar em comprar uma cabra.
Uma cabra? Maria Antónia levantou as sobrancelhas.
Porquê não? Leite fresco, até queijo posso fazer. Li que não é difícil.
Emília, nunca tiveste uma cabra na vida…
Tanto melhor, assim conheço coisas novas sorriu Emília, enchendo-lhe a chávena. E tu? Estás diferente, mais apagada, desculpa, mas é verdade.
Maria Antónia olhou para as mãos. Mãos de mulher comum, já idosa, com veias salientes.
Estou bem.
Bem não é resposta. Aconteceu alguma coisa?
Não, está tudo como sempre.
Pois, e isso é que é o pior disse Emília. Quando tudo está como sempre, é aí que começa o problema.
Maria Antónia ficou calada. Lá fora, a noite caía cedo; o primeiro candeeiro iluminava a rua.
No dia seguinte, Emília arrastou-a ao mercado. Não ao supermercado moderno, mas ao tradicional, onde as senhoras vendiam broas, azeitonas e luvas de malha. E foi ali, junto à banca das farinheiras, que Maria Antónia encontrou o Manuel.
Custou-lhe reconhecê-lo. Trinta e cinco anos tinham passado, mas aquele jeito de enfiar as mãos nos bolsos era o mesmo. Parou, sem saber o que dizer.
Ele também parou.
Maria? arriscou ele.
Manuel.
Foi tudo o que disseram no primeiro minuto. Depressa, Emília afastou-se para as meias de lã, e eles ficaram juntos naquele mercado com cheiro a terra húmida e azeite.
Moras aqui? perguntou Maria Antónia.
Há dois anos. E tu?
Vim visitar uma amiga.
Percebo.
Novo silêncio. Mas não era incómodo. Pareciam reconhecer que não havia pressa.
Não mudaste nada disse ele.
Não é verdade.
Mudaste pouco.
Maria Antónia sorriu, surpreendendo-se com o próprio riso.
***
Manuel Oliveira fora colega de curso no instituto superior de professores. Não amigo íntimo, nem namorado apenas colega durante cinco anos. Depois, cada um para seu lado: ele para o interior, ela ficou em Lisboa, casou-se, teve filhos. Ouviu dizer, por outros, que ele também tinha casado e tido uma filha. Mais nada.
Agora encontravam-se assim, por acaso, entre farinheiras.
Combinaram reencontrar-se à noite num café da praça central. Emília não fez caso.
Vai, claro disse. Eu fico a ver a novela. E não me olhes assim, não é para fazer perguntas.
Não faço perguntas nenhumas.
Pensas, vá lá.
No café havia poucos clientes. Mesas de madeira, luz amarela, fotos antigas de Estremoz nas paredes. Pediram chá e uma tarte de maçã e conversaram. Falaram dos velhos amigos, reviveram histórias da faculdade, riram-se dos pequenos dramas que na altura pareciam o mundo.
A certa altura, Manuel disse:
A minha mulher morreu há três anos.
Sinto muito disse Maria Antónia.
Obrigado. Já já aprendi a viver de outra forma.
Compreendo.
E tu?
Ela pensou. O marido, António, fora-se embora há nove anos, para outra mulher. Sem justificar muito. Um dia chegou e disse que era assim. Maria Antónia tentou perceber, analisou cada ano do casamento como se contasse avé-marias. Depois cansou-se de pensar e limitou-se a viver: filhos, netos, o ateliê infantil, a Emília em Estremoz.
Há dias bons e maus disse apenas.
Ele acenou com a cabeça, sem insistir. Esse respeito soube-lhe bem.
***
Maria Antónia regressou a Lisboa, certa de que não passara de um reencontro casual entre velhos colegas. Nada mais.
Mas uma semana depois, Manuel enviou-lhe uma mensagem, através da Emília: Chegaste bem?
Ela respondeu. Daí a uns dias conversavam diariamente. Estranho, para quem não era dada a mensagens: a filha, Leonor, queixava-se sempre de que nunca obtinha respostas rápidas; desta vez, era Maria Antónia quem ficava à espera que o telemóvel vibrasse.
Manuel escrevia com simplicidade, dizia o que se passava, falava do trabalho, da restauração de igrejas. Fazia perguntas descontraídas, mandava fotos: igreja sob o nevoeiro, a gata em cima da mesa, um copo de chá junto à janela.
Leonor percebeu passado um mês.
Mãe, andas sempre de telemóvel na mão.
Estou a ler.
Sempre disseste que o telemóvel faz mal aos olhos.
Enganei-me, ao que parece.
Leonor olhou-a de lado, mas não insistiu.
Em abril, Manuel sugeriu passar por Lisboa, a tratar da restauração de uns painéis.
Se não te importares, encontramo-nos, escreveu ele.
Maria sorriu. Sério, atento.
Vem, escreveu ela.
Encontraram-se junto ao Terreiro do Paço, onde o Tejo brilha sob a luz de primavera. O vento soprava ainda frio, mas já havia o clarão de abril. Maria Antónia vestiu o casaco novo, aquele cinzento, quase guardado.
Manuel esperava-a junto ao rio, mãos nos bolsos, à semelhança do mercado.
Olá.
Olá.
Caminharam pela marginal, falaram do costume. Maria partilhou a história de um menino do ateliê, que escrevera uma composição sobre livros serem janelas ao contrário. Manuel parou.
Isso é brilhante. Oito anos?
Oito. Tem jeito.
Trabalhas bem com miúdos. Nota-se.
Porque dizes isso?
Porque falas deles como quem fala daquilo que importa.
Ela olhou-o. Ele, porém, contemplava o rio.
Tomaram café num bar da marginal, e Maria Antónia percebeu que há muito não se sentava assim com alguém, a conversar, sem pressas.
Antes de irem embora, Manuel perguntou:
Posso voltar? Gostava de te ver outra vez.
Podes.
***
Leonor percebeu a situação em maio. Não porque Maria Antónia lhe tivesse contado, mas porque uma chamada fora de horas não obteve resposta, e quando Maria Antónia devolveu a chamada, estava distraída. Leonor cheirou logo a história.
Com quem estavas?
A passear.
Com quem?
Silêncio. Pouco, mas suficiente para Leonor perceber.
Quem é ele?
Um colega do curso. O Manuel. Disse-te que o encontrei em Estremoz.
Disseste que encontraste um antigo colega.
Pois, foi isso.
Mãe, tu
Sei a idade que tenho, Leonor.
Silêncio.
O que se passa? Só passeios?
Por agora, sim.
Por agora, repetiu Leonor.
Maria não explicou mais. Algumas coisas não se explicam; não por falta de palavras, mas porque as palavras nunca acertam o tom.
O filho, Ricardo, reagiu de modo diferente. Vivendo no Porto com a mulher e filhos, falava ao telefone de quinze em quinze dias. Quando Maria lhe contou, de passagem, que conhecera alguém, ele apenas perguntou:
É boa pessoa?
É, sim.
Então pronto, disse Ricardo.
Nada mais. Maria pensou muito nisto: seria melhor assim, ou à maneira da Leonor? Nunca decidiu.
***
O verão correu diferente. Manuel vinha a Lisboa, Maria ia a Estremoz. Visitavam mercados, museus, cafés. Um dia, mostrou-lhe a oficina: pequena, com janelas altas, cheiro a cera e madeira velha. Ao longo das paredes, imagens restauradas, algumas ainda sombrias, outras recuperadas.
Não te mete medo restaurar tanto antigamente? perguntou ela.
Pelo contrário. Gosto de sentir que isto existiu antes de mim e continuará depois.
Acreditas?
Ele hesitou.
Não sei se é fé. Mas sinto que há coisas importantes, mesmo sem razões racionais.
Maria olhou o ícone que ele reabilitava. O rosto, já quase limpo, via-se sereno.
O meu marido dizia que gastar o tempo no ateliê era disparate. Que por uns trocos não valia a pena.
E tu?
Fui convencendo-me que ele tinha razão. Durante anos. Quase até à reforma.
Manuel não respondeu nada. Olhou para ela. Bastou.
À noite, bebiam chá na cozinha dele, e Maria sentia uma calma antiga. Os problemas vinham, claro. Quando ela ia a Estremoz, Leonor quase não ligava, uma espécie de silêncio afirmativo. A neta Mariana, de oito anos, telefonou um dia: Avó, vens para casa? e Maria sentiu aquela dor de sempre, aguda e familiar.
Mas ali, naquela mesa, a dor diminuía. Não desaparecia, ficava mais suave.
Já pensaste em mudar de cidade? perguntou Manuel ainda nesse dia.
Maria ergueu a cabeça.
Mudar para onde?
Para aqui. Para Estremoz. Ou para outro lado. Só mudar.
Falava devagar, olhando o chá.
Estás-me a pedir?
Não é um pedido. Só pergunto se algum dia te ocorreu.
Não, disse ela. Já pensei uma vez, há muito tempo. Parecia impossível.
Porquê?
Filhos. Netos. Casa. Trabalho, ainda que pouco. Tudo aqui.
Os filhos já são adultos.
Isso não muda nada.
Ele anuiu.
Tens razão. Só queria saber.
Queria saber. Maria percebeu que aquela pergunta tinha ficado lá dentro, a moer.
***
Em agosto, Leonor apareceu em casa. Sem motivo aparente, vinda no Alfa Pendular, mala pequena, boca cerrada.
Beberam chá, Leonor a olhar a janela. Depois, perguntou:
É sério?
O quê?
Ele. Isto tudo.
Não sei, disse Maria Antónia com sinceridade.
Mãe, não achas estranho, com esta idade?
Com a tua, ou com a minha idade?
Com a nossa. Da família. O pai ainda está vivo e
O pai vive com outra senhora há nove anos.
Isso não apaga trinta anos casados.
Apaga retorquiu Maria. Muda tudo.
Leonor afastou a chávena.
E com a Mariana? Já pensaste no que ela vai perceber?
A Mariana tem oito anos.
Justamente. Já percebe tudo.
Ela vai perceber aquilo que lhe explicarmos.
E como vamos explicar?
Maria olhou a filha. Era tão parecida com o pai: boca reta, sobrancelhas escuras. Em pequena, achava graça. Agora via algo diverso nesse traço, não sabia bem o quê.
Dizemos que a avó conheceu uma boa pessoa, explicou. Chega.
E depois?
Depois, vê-se.
Vê-se Leonor foi à janela. Dizes sempre isso quando não queres responder.
Não, digo quando realmente não sei o que vai acontecer. É sincero.
Silêncio. Depois, murmurou:
Tenho medo que te arrependas.
Também posso arrepender-me de nunca tentar.
A filha virou-se.
Filosofia. Não me consola.
Nem a mim sempre, mas aprendi a viver com isso.
Leonor partiu ao final da tarde. Ao abraçarem-se, Maria sentiu um calor misturado a tensão como quem segura o mundo, com medo de quebrar tudo.
***
Setembro trouxe frio. Apesar da reforma, Maria mantinha-se activa no ateliê da biblioteca, onde crianças iam às terças e sextas, liam, desenhavam, encenavam livros. Era uma sala pequena, estantes baixas, almofadas no chão.
A directora da biblioteca, Teresa Lima, sabia do Manuel. Não por confissões, mas pelo ar diferente: Maria estava mais recolhida, mas de um modo mais seu.
Alguma coisa se passa contigo disse Teresa um dia, simplesmente.
Pois passa.
Coisa boa?
Ainda não sei.
Menos mal. Ao menos mexe contigo. Estávamos a ficar como rios, a fluir sem rumo.
Maria riu-se.
Em setembro, Manuel sugeriu uma ida a Coimbra. Havia uma exposição de manuscritos, ele queria ver. Maria aceitou. Ficaram em quartos separados numa pensão pequena, visitaram museus, jantaram à beira do Mondego. De noite, no restaurante, Manuel afirmou:
Quero que percebas uma coisa.
Diz.
Não tenho pressa, nem te faço pressão. Se sentires isso, não é de mim.
Maria olhou-o.
Eu sei.
Quero que entendas: aos sessenta e três, não sou rapaz a esperar por milagres nem a desiludir-me se não houver resposta. Só gosto de te ter por perto.
Ela ficou calada. O Mondego, lá fora, escuro.
É difícil aceitar disse, afinal.
Porquê?
Porque estou habituada a que se esconda um pedido atrás das palavras. Uma condição.
Aqui não há condições.
Eu percebo. Só não estou habituada.
Ele assentiu. Acabaram o vinho, saíram. O vento frio, ela ergueu a gola do casaco, ele caminhava ao seu lado, sem lhe tocar. E isso soube-lhe bem.
***
Em outubro, Maria ligou à filha antes que ela ligasse.
Quero dizer-te uma coisa. O Manuel convidou-me a mudar-me para Estremoz. Estou a pensar nisso.
O silêncio foi longo.
Estás a falar a sério.
Sim.
Conhecem-se há sete meses.
Oito.
Mãe! Oito meses! Percebes?
Percebo. São oito meses.
Não é nada! Tu não sabes nada dele!
Sei o bastante.
O quê? Que gostas dele? Que é simpático? As pessoas mudam, mãe! Tudo muda!
Leonor
O pai também mudou. E viveram trinta anos.
Mais silêncio.
Isso não é justo murmurou Leonor.
Só quero ser honesta contigo. E comigo.
Depois, foi Ricardo a telefonar, visivelmente informado pela irmã.
Mãe, vais mesmo mudar-te?
Estou a pensar.
Ele é boa pessoa? As condições são boas?
Casa simples, mas boa. Trabalha, cuida-se bem.
Vais vender a casa?
Não, só arrendar.
E se quiseres voltar?
Ricardo.
O quê? Pergunto a sério.
Se precisar, volto. Mas desta vez gostava de tentar, sem pensar no e se.
Pausa.
Está bem. Liga com frequência.
Ligo, prometo.
Maria sentou-se junto à janela. Chovia lá fora, vento a balançar o candeeiro. Pensava como, aos sessenta e um anos, pela primeira vez decidia algo só por si. Nem por causa de alguém, nem pelo que era suposto. Porque queria.
Estranho, quase irreconhecível.
Abriu a conversa com Manuel: Preciso de mais algum tempo.
Ele: Todo o tempo que quiseres.
***
Emília ligava todas as semanas, neutra. Sem insistências, apenas perguntava novidades e narrava as aventuras da cabra que finalmente comprou.
Qual é o nome?
Prazeres.
A sério?
Porquê não? Ela impõe respeito, achei o nome à medida.
Emília, tu és imprevisível.
Isso é bom ou mau?
Muito bom.
Olha disse ela , se tivesses trinta anos, pensavas tanto?
A idade não interessa.
Ou interessa em tudo. Com o tempo, pomos tantos mas Às vezes é sabedoria; outras, é o medo a mascarar-se de prudência.
Filosofas como a Teresa Lima.
É elogio?
É um facto.
Maria desligou e pensou. Medo a disfarçar-se de sabedoria. Está certo. Sempre teve medo de decidir, depois, medo de não decidir. Há medos que não têm a ver com Manuel; têm a ver com ela própria: sempre mãe de alguém, esposa, professora. Agora tinha de se redescobrir.
O ateliê fora escolha sua a primeira em muitos anos.
Agora, isto.
***
No fim de outubro, aconteceu o inesperado: telefonema da antiga sogra, D. Antónia, mãe do António, hoje com oitenta e dois anos, ainda sozinha em Lisboa. Maria visitava-a às vezes, já nem por obrigação, mas por carinho.
A Leonor contou-me, entrou de rompante.
O quê?
O teu amigo. Que vais embora.
Silêncio.
E a senhora acha?
Acho que já merecias disse a velha, sem hesitar. O meu filho nunca te deu o devido valor. Sempre achei, mas só agora te digo.
D. Antónia
Não me cortes. Cheguei à idade de falar claro. Vai se quiseres. Os netos estão bem, a Leonor só teme perder-te. Mas não tens obrigação de estar onde não vêem quem és.
Vêem-me.
Como mãe, como avó, como quem está sempre lá. E como pessoa?
Maria não respondeu.
Pois, é isso. Vai. Liga-me, fico contente.
Maria Antónia ficou à janela, a ver as folhas já caídas nos canteiros, a nudez das árvores.
Pensava como as pessoas a viam: Leonor, como mãe sempre presente; Ricardo, como alguém fiável; Teresa, como colega de instinto sensível; D. Antónia, finalmente, como pessoa.
E Manuel, o que via? Não tinha a certeza. Mas suspeitava que via apenas ela sem rótulos, sem passado compartilhado. Encontrara-a no mercado do interior, sem contexto. Apenas a reconheceu.
***
Em novembro chegou a primeira neve e a inesperada conversa com a Mariana.
A neta telefonou pelo tablet da mãe. Raro, já que em geral Leonor passava-lhe o telefone só para um beijo de despedida.
Avó, vais mesmo embora?
Maria ficou sentada.
Ouviste as conversas dos adultos?
Um bocadinho. Tu vais?
Ainda não sei, Mariana.
Se fores, vens visitar?
Claro que sim.
Prometes?
Prometo.
Mais silêncio. Depois:
É bonito aí onde podes ir morar?
Muito bonito. Igrejas brancas, neve no inverno. E rio.
Como aqui?
Um pouco diferente. Menos largo.
Percebo. Pausa. Avó, a mãe tem medo que fiques doente e que não consigamos chegar a tempo.
Maria sentiu um aperto fundo.
Diz-lhe que estou bem e quero continuar assim.
Ela sabe. Só tem medo.
Sei. Também eu.
De quê?
Pensou.
De muitas coisas. É normal ter medo.
Tu dizes que até os corajosos têm medo, só que avançam na mesma.
Digo, e lembras-te.
Eu não esqueço nada disse Mariana, orgulhosa. Agora vou, senão a mãe nota.
Mariana.
Sim?
Amo-te.
Também te amo. Adeus.
***
A meio de novembro, Maria rumou a Estremoz por uma semana inteira. Levou bagagem, avisou Teresa, pediu à vizinha para tomar conta da casa.
Manuel foi buscá-la à estação. Ia falando de restauros enquanto ela espreitava os campos cobertos de neve. Sentiu que se fechava um círculo.
Viveram juntos uma semana. Em casa pequena, chão de madeira, janelas que gemiam ao vento. Maria cozinhava, Manuel arrumava. Bebiam café cedo, sentados à mesa da cozinha, vendo a neve cair a direito.
Uma noite, ela perguntou:
Não te custa viver a dois?
Como?
Viveste sozinho oito anos.
Pensou.
Custava-me quando vivia a fingir. Agora é diferente.
Como fingias?
Muitos anos trabalhei em construção. Pela família e dinheiro. A certa altura, mudei com mais de quarenta. Diziam que era tarde.
E tu?
Fui em frente. Sorriu. A minha mulher apoiou sempre. Era pessoa de apoiar.
Fala-me dela.
Ele ficou calado.
A Ana era serena. Não calada: sem pressas. Quando entrava, tudo acalmava.
Sentes saudades.
Sim, disse ele. Muitas. Mas isso não me impede de continuar. Entendes?
Entendo.
Também sentes assim?
Maria pensou no António. Mais preocupações do que serenidade; saudade de algo que, se calhar, nunca existiu.
De forma diferente. Mas entendo.
Sentaram-se juntos, partilhando o silêncio.
***
Quinta-feira, cinco dias depois, Leonor ligou.
Maria foi para o alpendre. A neve parara, céu limpo, as primeiras estrelas.
Ainda aí estás? perguntou Leonor.
Sim.
Até quando?
Domingo.
Silêncio.
Mãe, posso perguntar honestamente? Porquê isto tudo? Queres provar alguma coisa?
Maria olhou as estrelas.
Não. Não é provar nada.
Então o quê?
Só viver. De outra maneira.
Antes não vivias?
Vivia, mas não como queria.
Faltava-te o quê?
Maria pensou: tinha casa, filhos, trabalho, amigas. Não lhe faltava nada mas, no fundo, faltava estar no centro da própria vida. Vivera sempre justinha ao lado.
Faltava eu respondeu.
Tu? Não percebo.
Não percebes, mas talvez um dia entendas.
Longo silêncio.
Vais ser feliz?
Não sei, Leonor. Quero tentar.
Está bem. Pronto.
Não era aceitação, mas não era guerra.
***
No domingo, já pronta para voltar, Manuel perguntou:
Decidiste?
Quase.
Quase é bom ou mau?
Preciso de mais um pouco de tempo.
Ele acenou.
Tens medo de errar.
Sim.
Posso dizer-te algo?
Diz.
Há erros que se cometem e se ultrapassam. E outros que nunca se cometem e te deixam sempre na dúvida. Estes últimos são piores.
Maria olhou-o.
Dizes sempre aquilo que penso, mas não digo em voz alta.
Ele riu-se. Tinha um rosto bonito ao rir.
Não é de propósito. Sai assim.
Chegou a Lisboa ao fim do dia. A casa recebeu-a com a sua calma habitual, o cheiro das paredes, a luz conhecida. Arrumou o saco, ferveu água, sentou-se à mesa.
Sobre a mesa, o livro que lia antes de ir. Abriu-o na página marcada. Lia-se: A solidão faz parte do ser, mas não é sentença. Desta vez, percebeu realmente.
Fechou o livro.
Depois, enviou mensagem a Manuel: Vou em janeiro. Fico algum tempo. Logo se vê.
A resposta: Espero por ti.
***
Dezembro trouxe aquele estado indefinido. Maria ia à biblioteca, mantinha o ateliê, visitava D. Antónia. Igual a sempre, mas diferente por dentro. Parte da decisão estava tomada, parte ainda não.
Leonor ligou no início do mês.
Ainda não mudaste de ideias?
Não.
Vais arrendar a casa?
Sim, já tratei disso.
Pronto. Mãe, deixa-me perguntar: já pensaste que isto pode ser só aquela ilusão do novo, e depois?
Leonor.
O quê?
Aos sessenta e um, não sou adolescente. Já vivi bastante. Sei distinguir sensações.
Isso não te livra das ilusões.
Não, mas reduz o número.
E se ele não for como pensas?
E se A vida é sempre e se. Quando casaste, sabias tudo?
Tinha vinte e sete anos.
E então?
Silêncio novamente.
Pronto, disse Leonor. Pronto, mãe.
Ajudas-me a empacotar as coisas antes da mudança?
Longa pausa.
Ajudo., claro que ajudo.
***
O Ano Novo foi passado em casa de Leonor, com a Mariana, o genro João, e Ricardo com mulher e filhos, vindos do Porto. À mesa, confusão, miúdos a correr, adultos a falar alto.
Mariana sentou-se ao lado da avó, relatando-lhe em segredo as origens dos pratos.
Este a mãe fez; este comprou-se, mas ela diz que foi ela.
Tu não devias estar a contar-me isso.
Só estou a dizer, avó.
À meia-noite, crianças dormindo pelo sofá, Leonor anunciou:
A mãe vai para Estremoz, em janeiro.
Soou neutro, factual.
João anuiu. Ricardo olhou a mãe.
Por muito tempo? quis saber.
Logo se vê.
Ricardo sorriu.
Mariana, meio acordada:
Avó, vais mesmo?
Vou, Mariana.
Prometeste vir visitar-nos.
Prometi.
Está bem murmurou, fechando os olhos.
Maria olhou-a e pensou: isto é a vida. Criança a dormir, filhos adultos à volta da mesa, sofá antigo. E, longe, alguém que escreveu: Espero por ti.
***
Quinze de janeiro, Maria telefonou a Teresa Lima.
Sra. Teresa, vou sair do ateliê.
Silêncio.
Quando?
Em fevereiro. Fica com tempo para encontrar substituição.
Vais para onde?
Para Estremoz.
A viver com ele?
Sim. E comigo.
Gosto dessa expressão disse Teresa. Vais fazer falta, mas arranjamos solução.
Obrigada.
Boa sorte, Maria. Daquela verdadeira.
No último dia, as crianças fizeram um postal grande. O menino das janelas ao contrário desenhou uma janela e escreveu: Para olhares para dentro.
Maria guardou o postal na mala.
***
Vinte e três de janeiro, chegou a Estremoz. Manuel ajudou-a com as malas. Arrumaram-nas num quarto pequeno, preparado especialmente. No parapeito estava um vaso com gerânios.
Quem trouxe?
Comprei. Pensei que uma flor fazia falta.
Boa ideia.
Ela olhou pela janela. O quintal coberto de neve, sossegado. O muro, as hortas, os telhados dos vizinhos.
Então, que tal? perguntou ele.
Pergunta-me daqui a um mês.
Pergunto.
Virou-se para ele.
Manuel.
Sim?
Obrigada por não me apressares.
Esperou um pouco.
Obrigado por teres vindo.
***
Três meses passaram. Maria foi-se adaptando, devagar. Estremoz é pequena, e isso é bom e difícil: bom, porque é calma; difícil, porque toda a gente se conhece e ela era a nova.
Emília apresentou-a ao grupo do clube de leitura no centro cultural: dez pessoas, livros, conversas.
Não sei se sou capaz murmurou Maria.
Vê se gostas. Se não, não há problema.
Maria foi. E gostou.
Com Leonor, falava semanalmente. Com o tempo, a filha passou a perguntar por Manuel, pelo clube, pelos livros. Era um processo de habituação lenta, como os olhos que se adaptam à penumbra.
Mariana escreveu-lhe uma carta de verdade, de papel: desenho de duas igrejas e um rio, e, a caneta: Vou visitar-te nas férias da Páscoa. A Emília contou-me do Prazeres é mesmo uma cabra?
Maria respondeu por carta.
***
Em abril, Leonor foi visitar Maria. Sozinha, sem Mariana. Chegou de manhã, ainda com o orvalho a brilhar.
Entrou, olhou ao redor. Maria viu-a a medir o chão de madeira, o gerânio, a mesa.
Manuel ofereceu chá e retirou-se.
Ficaram as duas na cozinha.
É bonito aqui admitiu Leonor, não tanto como elogio, mais como surpresa.
É.
Pequeno, claro.
Mas tranquilo.
Não sentes saudades de Lisboa?
Sinto. Sinto de vocês, da Teresa, do Tejo. Mas mesmo assim
Mas mesmo assim.
Leonor enrolava a chávena.
Ele é boa pessoa? agora sem subentendidos.
É.
Estás feliz?
Maria pensou.
Não sei se é felicidade. É paz. Sinto-me bem. Mesmo bem.
Leonor acenou.
Pronto.
Pronto significa?
Significa isso. E fitando a mãe: Continuo com medo por ti. Não sei se algum dia não terei.
Eu percebo.
Mas tento compreender.
Isso basta.
Beberam chá, partilharam novidades.
Depois, Leonor começou a preparar-se para sair. Maria acompanhou-a.
O ar de abril cheirava a terra molhada. Os plátanos já tinham um verde suave, quase translúcido.
Mãe disse a filha, junto ao portão.
Sim?
Não entendo isto tudo. Talvez nunca compreenda.
Eu sei.
Mas quero que saibas uma coisa.
Diz.
Leonor hesitou, depois olhou a mãe bem nos olhos os mesmos olhos do pai.
Sempre estiveste lá, para tudo. Tive sempre a certeza de que me bastava ligar e tu estavas.
Continuo a estar.
Eu sei. Só que agora a distância é outra. Preciso de me habituar.
Vais habituar-te.
Achas?
Maria olhou-a. Recordava o dia do nascimento, ela tão miúda, agora ali, adulta.
Acho mesmo. Sempre foste capaz. Força tens de sobra.
Não tanta como tu.
Tanto como eu.
Leonor sorriu. Abraçaram-se, firme.
Ligo-te quando chegar.
Espero.
Leonor desceu a rua, costas direitas, passos decididos. Maria viu ali algo do pai.
No fim da rua, Leonor virou-se:
Mãe!
Sim?
O teu gerânio está a florir. Eu vi.
Está.
Que bom.
E foi-se.
***
Maria entrou em casa. Manuel já aquecia sopa. Ela ficou à janela, a ver a rua já vazia, de onde Leonor desaparecera. Ao longe, uma senhora carregava sacos, devagarinho.
O gerânio florido no parapeito.
Correu bem? Manuel, sem se virar.
Correu.
Pausa.
Ela é boa pessoa. Só tem medo.
É normal.
É.
Maria pôs pratos na mesa. Tudo já rotineiro.
Manuel?
Sim?
Achas que fiz bem?
Ele olhou-a.
E tu, achas?
Ela pensou.
Acho que sim. Pela primeira vez, tudo meu.
Então, está respondido.
Sentaram-se para jantar. Lá fora, o Alentejo ainda com restos de frio, mas já com verde a despontar.
Maria olhava, pensando: é isto. Não é felicidade em abstracto, nem um ponto final. É jantar, é janela, é este homem. Basta? Talvez não saiba.
Mas a sopa estava quente. O gerânio, florido. E, na mala, ainda o postal do menino das janelas.
***
À noite, Mariana telefonou.
Avó, a mãe disse que lá esteve.
Esteve.
Vocês estão bem?
Correu bem.
Ela chorou?
Não. Porque perguntas?
Porque às vezes chora e pensa que não vejo. Por tua causa.
Maria fechou os olhos.
Mariana.
Sim?
Diz à mãe que venho em breve. Mesmo breve.
Está bem. Avó?
Sim?
É Primavera aí já?
Quase. Há neve ainda, mas pouco.
Aqui está calor. Engraçado, não é? País pequeno, mas o tempo muda tanto.
É normal.
Avó, tens saudades nossas?
Maria olhou a noite, as primeiras estrelas.
Muitas. Sempre.
Isso é bom. Porque se tens saudades, é porque gostas.
Maria não soube o que dizer.
Adeus, avó.
Adeus, Mariana.
Guardou o telefone. Manuel lavava a loiça, cantarolando baixo. O gerânio na janela era agora sombra rosada. Ao fundo, um cão ladrava som já familiar, parte desta nova paz.
Maria sentou-se, pensando que Mariana tinha razão. Ter saudades é gostar. E, talvez, gostar é ter saudades: há sempre alguém a quem sentir falta.
Talvez seja isto a vida. Nunca perfeita, só vivida. Com proximidades, distâncias, decisões certas ou não, mas suas.
Levantou-se para ajudar a lavar a loiça.






