É correto dizer que recentemente comecei a trabalhar numa loja de animais em Lisboa. O meu período experimental terminou em junho e, após isso, fui efetivado como membro do quadro permanente. Deixem-me explicar o que isso representa.
O pessoal efetivo desta loja tem, no fim de cada mês, a oportunidade de levar para casa produtos que já saíram do inventário, como rações com embalagens danificadas ou acessórios com pequenas imperfeições para animais de estimação.
A dinâmica é simples: conversamos entre colegas para decidir quem leva o quê. Não tenho animais, mas costumo escolher algo que possa oferecer a alguém querido.
Da primeira vez, fiquei com um saco de comida para gatos. Os pais da minha esposa, Beatriz, têm uma gata lá em casa, por isso ofereci-lhes a comida.
Nesse momento, percebi que iria sempre tentar escolher produtos para gatos.
No mês seguinte, trouxe um arranhador, que estava um pouco danificado, mas a minha sogra, Dona Rosalina, conseguiu coser facilmente.
Contudo, quando levei o arranhador, em vez de agradecimento, ouvi apenas queixas: já não havia comida para a gata, e então disseram-me:
Devias ter trazido comida, não te lembraste de vir cá sozinho só com isso!
Admito que fiquei desconfortável, porque já lhes tinha explicado como surgem estes produtos. Voltei a recordar-lhes o processo, e fingiram perceber.
No caminho para casa, sugeri à minha esposa que traria todos os meses comida de qualidade para a gata dos pais dela. Quando não houvesse nada, compraria eu. Pareceu-me uma solução justa.
O insólito foi que, após um mês, o saco de 10kg tinha desaparecido. Perguntei à minha sogra, que acabou por confessar que prometera à vizinha, Dona Lurdes, levar-lhe também comida para o gato.
Ela sabia que eu voltaria a trazer mais, então distribuiu do stock que tinha. E nós, sem saber, comprámos comida ainda mais cara. Tive de explicar de novo: os produtos eram para a gata dela.
Mas ouvi, indignada:
Tu trabalhas numa loja de animais! Não podias arranjar mais?
Percebi que, para eles, nunca seria suficiente, por muito que explicasse as minhas intenções.
Foi nesse instante que decidi terminar com toda aquela expectativa. Disse aos pais da Beatriz que, por princípio, não lhes traria mais nada. Foi a melhor decisão. Expliquei-lhes para não contarem com nada vindo de mim.
Com o tempo, aprendi que ajudar deve vir do coração, não da obrigação dos outros. E, acima de tudo, que há que saber colocar limites, mesmo perante a família, para manter o respeito mútuo e não transformar generosidade em cobrança.







