Miguel comprou o mais bonito ramo de flores e foi ao encontro marcado. Animado, aguardava ao lado da fonte no Rossio, com o ramo nas mãos. Não avistava Leonor em lado nenhum. Olhou à volta e ligou-lhe. Ninguém atendeu. Talvez esteja atrasada, pensou, e voltou a marcar o número. Desta vez, Leonor atendeu o telemóvel. Já estou aqui, onde estás? perguntou ele imediatamente. Miguel, está tudo acabado! disse-lhe, de repente, Leonor. O quê? Porquê? Miguel ficou estático. Por causa do teu ramo! espantou-a ela. O que é que tem? questionou Miguel, confuso.
No dia anterior, Miguel andara já algum tempo pelo florista. Cravos vermelhos, lírios brancos, tulipas amarelas, flores de cheiro em vasos e jarros, reunidas em requintados arranjos. Mas Miguel estava perdido.
Lembrava-se vagamente de uma conversa sobre flores com Leonor, mas recordar os detalhes era difícil.
Ela disse claramente que detestava algumas e adorava outras ver essas a encher-lhe os olhos seria uma alegria.
Mas, nesse primeiro encontro, Leonor falara sobre tanta coisa e Miguel, nervoso com a novidade, a bela presença dela, o vinho verde que haviam bebido no café e o sorriso doce da Leonor, só conseguira acenar e apreciar-lhe o cabelo comprido, o pescoço delicado e as covinhas nas faces rosadas. Seria isto o início do amor?
E, afinal, faria mesmo diferença que flores ela gostasse? A noite estava a ser fantástica!
Agora, por mais que tentasse, não se recordava da sua preferência.
Veja só estas gerberas! Não encontra destas em mais lado nenhum! São especiais, fora da época, elogiava a explicada do florista.
O relógio apertava, precisava de decidir-se.
E, como sempre acontece nos momentos menos próprios, mesmo antes de escolher, recebeu uma chamada da mãe. Ultimamente, ela ligava-lhe demasiadas vezes.
Então Miguel, já decidiste? Já sabes, é sexta-feira, vê lá se vens à aldeia neste fim de semana.
Não posso, mãe, tenho muita coisa para fazer…
A avó está sempre a perguntar, a olhar para a porta a ver quando chegas.
Desculpa, mãe, a sério, tenho mesmo muitas coisas para tratar…
Despediu-se apressadamente.
A mãe queria que ele fosse à terra, onde viviam as duas. Mas Miguel já estava saturado dos apelos.
A avó estava velha, adoentada há muito mas não era possível largar tudo para sempre estar ao pé dela. Tinha, afinal, a sua própria vida, os seus sonhos.
E os sonhos giravam em torno daquela relação recente. Se o encontro corresse bem, amanhã convidaria Leonor para sair de Lisboa, para um passeio pela Serra de Sintra.
A mãe ansiava por vê-lo de namoro sério. Quem sabe este fosse o princípio?
Só precisava de se lembrar das flores de que Leonor gostava. Que memória ingrata!
Afinal, vale a pena decorar todos estes pormenores femininos? Será mesmo importante?
A florista, cansada de tantas dúvidas, passava então a observar, em silêncio, o seu desespero.
Lembro-me de a Leonor mencionar espinhos das rosas se calhar, rosas não devia levar, pensou ele.
Assim, acabou por escolher um ramo de grandes gerberas rosa e brancas. Afinal, era um gesto de atenção, apenas um ramo. Tinha de regressar ao trabalho, o almoço estava por terminar.
Tinham combinado encontrar-se junto à fonte nova da cidade. Um atraso inesperado: o chefe quis falar-lhe. Talvez viesse ali uma promoção.
Avisou Leonor que se atrasaria e desligou o som do telemóvel. Durante a reunião, a mãe voltou a ligar. Não atendeu, não podia.
Assim que conseguiu, foi a correr até à fonte, gerberas na mão e coração leve.
Leonor, entretanto, não estava ali. Sentou-se num banco e marcou-lhe o número. Ninguém atendeu.
Talvez ela também tivesse atrasado.
Pensou na mãe, mas decidiu não ligar de volta para não perder a chamada de Leonor. Dez minutos depois, ligou-lhe de novo.
Desta vez, ela atendeu.
Leonor, onde estás? Já cá estou à tua espera.
Eu sei. Estou no café do outro lado da praça, estou a ver-te há um bom bocado.
A sério? Não te vejo desces?
Chegaste atrasado, interrompeu ela.
Desculpa, Leonor, o chefe atrasou-me, tentei avisar.
E as flores!
O que têm as flores? surpreendeu-se Miguel.
Nem sequer te lembraste das que eu gosto!
Não havia, Leonor!
Rosas? Eu disse-te tantas vezes que gosto de rosas! E há rosas em todo o lado! Como te esqueceste?…
Eu posso corrigir vou já ter contigo, a sério.
Miguel entrou no café. Leonor estava ao fundo, de costas para a janela.
Aproximou-se em silêncio, nervoso, e pousou o ramo na mesa, sem coragem de lho entregar em mãos. Ela nem olhou.
Miguel costumava saber usar as palavras; agora, usando o seu charme, tentou remediar a situação.
Achou que estava a funcionar. Leonor começou a sorrir.
Tomaram um café e saíram juntos, mas Leonor deixou o ramo esquecido na mesa. Uma simpática empregada acercou-se:
Esqueceram-se das flores!
Fique com elas, são para si! respondeu-lhe com um sorriso.
Ai, obrigada! A jovem ficou surpreendida, mas parecia cheia de alegria.
Leonor voltou a fechar-se.
Leonor, eu posso já agora comprar-te um enorme ramo de rosas!
Não é preciso, Miguel. Hoje já chega de flores.
Descendo as escadas, Miguel vinha atrás dela. O telefone voltou a tocar era novamente a mãe.
Desculpa, mãe, outra vez no mau momento?
Leonor não escutava.
Não, mãe, ligaste na hora certa. Amanhã vou aí. Prometo.
Nessa noite, Miguel despediu-se de Leonor sem grande esperança. Pressentiu: não voltariam a encontrar-se.
No dia seguinte, rumou ao Alentejo, por entre campos imensos e floridos até ao horizonte, cheios de cor e vida ao sabor do vento.
Miguel parou o carro e caminhou entre as flores silvestres. Tal como o florista, escolheu com carinho as que mais lhe agradavam.
Agora sabia: para quem ia, não havia erro possível; a mãe e a avó iam gostar.
Ao entrar em casa, dividiu o ramo ao meio.
A mãe sorriu e beijou-o nas duas faces. Já a avó
Ajudaram-na a sentar-se. Com mãos trémulas, pegou no ramo oferecido, tocando-o delicadamente, quase sem ver.
Não lhe ofereciam flores há demasiado tempo!
Mergulhou-lhe o rosto e respirou fundo aqueles aromas da terra, que faziam acordar dentro dela as memórias mais doces e jovens, guardadas no recanto da sua alma.
Foram evocadas não só recordações, mas também a expectativa do novo e da esperança presente.
Tão bom! A vida segue, através do neto.
Miguel encostou a cabeça ao colo da avó, que o afagava, receando estragar o ramo que segurava com tanto carinho
Ali deitado, Miguel sentiu com o coração: um dia, encontraria uma mulher com a ternura destas duas, que o amariam como os seus avós e pais tinham sabido amar-se. O mais importante era estar atento e sabê-lo sentir a tempo.
A avó demorou-se sem querer largar as flores.
Espera, Miguel leva água do poço, uma jarra larga, coloca-as aqui quero vê-las bem
O neto ofereceu-lhe flores.
Flores que existem aos milhões nos campos, mas aquelas eram especiais. Foram-lhe dadas pelo neto, e isso fez toda a diferença.
Na vida, aprende-se: o valor está no gesto, no carinho de quem oferece e na ternura de quem recebe. É esse amor simples que perdura.






