Sérgio comprou o melhor ramo de flores e foi para o encontro. Animado, esperava junto à fonte segurando o bouquet. Mas a Inês não estava em lado nenhum. Olhou à volta e ligou-lhe. Ninguém atendeu. “Se calhar está atrasada”, pensou, e voltou a ligar. Desta vez, Inês atendeu. “Já cheguei, onde estás?”, perguntou logo o Sérgio. “Entre nós acabou!”, respondeu Inês de repente. “O quê? Porquê?”, ficou Sérgio pasmado. “Por causa do teu ramo!”, disse ela inesperadamente. “O que é que tem o ramo?”, admirou-se ele sem perceber nada Sérgio já andava há muito tempo pela florista. Rosas vermelhas, tulipas amarelas, lírios brancos, flores em vasos e jarros, feitas em ramos luxuosos e decorados para todos os gostos. Mas ele estava indeciso. Sabia que já tinha falado com a Inês sobre flores, mas não se lembrava bem da conversa. Ela tinha dito certamente que havia flores que não gostava nada, mas outras que adorava e podia olhar para elas sem parar. Mas isso foi logo quando se conheceram. Ela falou muito nesse dia, e ele estava tão entusiasmado pelo novo encontro, e até animado pelo espumante do café, e por ela própria. Sérgio era sempre bom de conversa, mas dessa vez só acenava com a cabeça e ficava a admirar a rapariga bonita, o cabelo comprido e liso, a curva do pescoço e as covinhas nas bochechas. Talvez aquilo já fosse amor? E que diferença faz o que ela disse… a noite estava ótima! Agora, quanto mais tentava, menos se lembrava das flores de que ela gostava. — Olhe que gerberas lindas! Não encontra destas em mais lado nenhum! São de coleção, não é a época delas agora. Tinha de se despachar. Era preciso escolher. E lá estava, como tantas vezes, nesse exato momento em que ia escolher, a mãe ligou-lhe. Tinha andado a ligar demasiado. — Então, Sérgio, ainda não decidiste? É sexta-feira… Vens ao fim de semana? — Não, mãe, tenho coisas para fazer… — A avó está a perguntar por ti, olha sempre para a porta. — Desculpa, mãe, tenho mesmo muita coisa hoje… Despediu-se depressa. A mãe queria que ele fosse à aldeia, onde ela vivia com a avó dele. Não era a primeira vez que ela ligava — Sérgio começava a ficar irritado. O que é que se passa com a avó? Está doente há tempo demais, mas não se pode largar tudo para ficar com ela. A vida também tem de ser vivida! E essas vidas, essas agendas — ai… Tocavam no assunto do novo romance. Sérgio já sonhava com o futuro e fazia tudo para realizar esses sonhos. Se o encontro corresse bem, já no dia seguinte podia levar Inês ao campo. Sérgio sabia bem onde. Tinha um sítio sossegado, um turismo rural ali perto. No fundo, a mãe queria que a vida dele se arrumasse, e ele estava a tentar. Se ao menos se lembrasse das flores favoritas da Inês! Mas que cabeça! Na verdade, nunca teve muita vontade de se preocupar com esses detalhes femininos. Será assim tão importante? A florista já estava cansada de sugerir, limitava-se a olhar. “Pareceu-me que Inês não gostava de espinhos das rosas… Se calhar, é melhor não levar rosas!” Sérgio escolheu um ramo de grandes gerberas rosa e brancas. No fundo, era só um gesto de atenção. Tinha de ir trabalhar, o almoço estava a acabar. Encontraram-se junto à nova fonte da cidade. Sérgio já estava atrasado, um assunto no trabalho reteve-o. Reunião de última hora. Talvez fosse promovido. Ligou para avisar Inês do atraso e desligou o som. Enquanto estava na reunião, a mãe ligou, mas não atendeu. Depois, foi a correr para o encontro. Estava de bom humor, estacionou e chegou praticamente a correr, com as gerberas na mão. A Inês não estava lá. Olhou à volta, percorreu a praça e ligou-lhe. Ninguém atendeu. Sentou-se num banco. Se calhar ela também se atrasou. Lembrou-se que não chegou a ligar à mãe, mas não quis ligar agora — podia ser que ela ligasse entretanto. Mas a chamada não chegou. Passados dez minutos, foi ele que voltou a tentar. Desta vez, Inês atendeu. — Inês, onde estás? Já estou aqui. — Eu sei. Estou no café em frente, no segundo andar, já te vi daqui há bocado. — A sério? Estive a olhar para as janelas mas não te vejo. Não queres descer? Ou… — Estás atrasado… — cortou ela. — Sim, Inês, desculpa. Mas eu liguei, o chefe reteve-me. — E as flores! — Que têm as flores? — não percebeu Sérgio. — Nem te lembraste das flores de que gosto! — Inês, não havia essas! — Rosas? Não te lembras que adoro rosas? Há rosas por todo o lado! Falei-te tanto das minhas rosas favoritas… E tu… — Vou compensar… Já vou ter contigo, espera aí. Sérgio entrou no café. Inês estava lá no fundo, virada para a janela. Sérgio aproximou-se devagarinho e, sem coragem de lhe dar o ramo, pousou-o na mesa. Inês nem olhou. Normalmente era muito eloquente, e agora, sentindo-se culpado, usou todo o seu charme para se redimir. Parece que conseguiu. Ela já sorria. Beberam um café e foram até à saída, ela nem olhou para o ramo: — Esqueceram-se das flores! — correu atrás deles uma simpática empregada. — Fique com elas! — respondeu Sérgio, sorrindo. — Ai, obrigada — ela ficou surpreendida mas gostou. Mas a Inês voltou a ficar magoada. — Inês, agora vou já comprar-te um ramo enorme de rosas! — Obrigada, — respondeu ela seca, — Já chega de flores hoje. Desceram as escadas. Sérgio ia atrás da amiga ofendida. E de novo — chamada da mãe. — Desculpa, liguei outra vez sem dar jeito? Inês não ouviu. — Não, mãe, ligaste na melhor hora. Amanhã vou aí. Nessa noite ele e Inês despediram-se facilmente. Sérgio já percebera — não se iam voltar a ver. E no dia seguinte partiu para os campos conhecidos. Ali, até ao horizonte, um mar de cores. Cheio de vida, leve, vibrante ao vento. Sérgio parou e desceu até lá — naquele oceano colorido. Como um florista caprichoso, escolheu das flores do campo aquelas que mais gostou. Tinha a certeza: quem as ia receber ficaria feliz, ali não havia erro. Quando chegou a casa, dividiu o ramo em duas partes. A mãe estava radiante e encheu-o de beijos, e a avó… Ajudaram a avó a levantar-se. Ela pegou nas flores com mãos trémulas, quase sem ver. Há quanto tempo não recebia flores! Encostou um pouco o rosto às flores e, com a alma jovem de sempre, respirou fundo aquele aroma de juventude tão guardado, mas que agora, chamado pelo cheiro dos campos, regressava, estremecendo-lhe a alma. Aquilo não era só memória: era sentir novamente toda a esperança do novo e do presente. Que bom! A vida continua, a vida segue através do neto. Sérgio sentou-se junto à avó e encostou-lhe a cabeça no colo. Ela fazia-lhe festas, preocupada em não estragar o ramo que segurava com tanto cuidado… E ele pensava que um dia ainda ia encontrar uma rapariga, tão parecida com as duas mulheres mais importantes da vida dele. E iam amar-se como se amaram os avós, os pais. O mais importante: sentir isso a tempo. A avó não estava para ceder as flores à filha. — Espera… põe água primeiro… da cisterna… e uma jarra larga… com cuidado… põe ali… quero ver… O neto ofereceu flores. Flores, que há milhões por aí, mas aquelas… Aquilo, sim, foram as mais bonitas. Aquilo foram do neto.

Miguel comprou o mais bonito ramo de flores e foi ao encontro marcado. Animado, aguardava ao lado da fonte no Rossio, com o ramo nas mãos. Não avistava Leonor em lado nenhum. Olhou à volta e ligou-lhe. Ninguém atendeu. Talvez esteja atrasada, pensou, e voltou a marcar o número. Desta vez, Leonor atendeu o telemóvel. Já estou aqui, onde estás? perguntou ele imediatamente. Miguel, está tudo acabado! disse-lhe, de repente, Leonor. O quê? Porquê? Miguel ficou estático. Por causa do teu ramo! espantou-a ela. O que é que tem? questionou Miguel, confuso.

No dia anterior, Miguel andara já algum tempo pelo florista. Cravos vermelhos, lírios brancos, tulipas amarelas, flores de cheiro em vasos e jarros, reunidas em requintados arranjos. Mas Miguel estava perdido.

Lembrava-se vagamente de uma conversa sobre flores com Leonor, mas recordar os detalhes era difícil.

Ela disse claramente que detestava algumas e adorava outras ver essas a encher-lhe os olhos seria uma alegria.

Mas, nesse primeiro encontro, Leonor falara sobre tanta coisa e Miguel, nervoso com a novidade, a bela presença dela, o vinho verde que haviam bebido no café e o sorriso doce da Leonor, só conseguira acenar e apreciar-lhe o cabelo comprido, o pescoço delicado e as covinhas nas faces rosadas. Seria isto o início do amor?

E, afinal, faria mesmo diferença que flores ela gostasse? A noite estava a ser fantástica!

Agora, por mais que tentasse, não se recordava da sua preferência.

Veja só estas gerberas! Não encontra destas em mais lado nenhum! São especiais, fora da época, elogiava a explicada do florista.

O relógio apertava, precisava de decidir-se.

E, como sempre acontece nos momentos menos próprios, mesmo antes de escolher, recebeu uma chamada da mãe. Ultimamente, ela ligava-lhe demasiadas vezes.

Então Miguel, já decidiste? Já sabes, é sexta-feira, vê lá se vens à aldeia neste fim de semana.

Não posso, mãe, tenho muita coisa para fazer…

A avó está sempre a perguntar, a olhar para a porta a ver quando chegas.

Desculpa, mãe, a sério, tenho mesmo muitas coisas para tratar…

Despediu-se apressadamente.

A mãe queria que ele fosse à terra, onde viviam as duas. Mas Miguel já estava saturado dos apelos.

A avó estava velha, adoentada há muito mas não era possível largar tudo para sempre estar ao pé dela. Tinha, afinal, a sua própria vida, os seus sonhos.

E os sonhos giravam em torno daquela relação recente. Se o encontro corresse bem, amanhã convidaria Leonor para sair de Lisboa, para um passeio pela Serra de Sintra.

A mãe ansiava por vê-lo de namoro sério. Quem sabe este fosse o princípio?

Só precisava de se lembrar das flores de que Leonor gostava. Que memória ingrata!

Afinal, vale a pena decorar todos estes pormenores femininos? Será mesmo importante?

A florista, cansada de tantas dúvidas, passava então a observar, em silêncio, o seu desespero.

Lembro-me de a Leonor mencionar espinhos das rosas se calhar, rosas não devia levar, pensou ele.

Assim, acabou por escolher um ramo de grandes gerberas rosa e brancas. Afinal, era um gesto de atenção, apenas um ramo. Tinha de regressar ao trabalho, o almoço estava por terminar.

Tinham combinado encontrar-se junto à fonte nova da cidade. Um atraso inesperado: o chefe quis falar-lhe. Talvez viesse ali uma promoção.

Avisou Leonor que se atrasaria e desligou o som do telemóvel. Durante a reunião, a mãe voltou a ligar. Não atendeu, não podia.

Assim que conseguiu, foi a correr até à fonte, gerberas na mão e coração leve.

Leonor, entretanto, não estava ali. Sentou-se num banco e marcou-lhe o número. Ninguém atendeu.

Talvez ela também tivesse atrasado.

Pensou na mãe, mas decidiu não ligar de volta para não perder a chamada de Leonor. Dez minutos depois, ligou-lhe de novo.

Desta vez, ela atendeu.

Leonor, onde estás? Já cá estou à tua espera.

Eu sei. Estou no café do outro lado da praça, estou a ver-te há um bom bocado.

A sério? Não te vejo desces?

Chegaste atrasado, interrompeu ela.

Desculpa, Leonor, o chefe atrasou-me, tentei avisar.

E as flores!

O que têm as flores? surpreendeu-se Miguel.

Nem sequer te lembraste das que eu gosto!

Não havia, Leonor!

Rosas? Eu disse-te tantas vezes que gosto de rosas! E há rosas em todo o lado! Como te esqueceste?…

Eu posso corrigir vou já ter contigo, a sério.

Miguel entrou no café. Leonor estava ao fundo, de costas para a janela.

Aproximou-se em silêncio, nervoso, e pousou o ramo na mesa, sem coragem de lho entregar em mãos. Ela nem olhou.

Miguel costumava saber usar as palavras; agora, usando o seu charme, tentou remediar a situação.

Achou que estava a funcionar. Leonor começou a sorrir.

Tomaram um café e saíram juntos, mas Leonor deixou o ramo esquecido na mesa. Uma simpática empregada acercou-se:

Esqueceram-se das flores!

Fique com elas, são para si! respondeu-lhe com um sorriso.

Ai, obrigada! A jovem ficou surpreendida, mas parecia cheia de alegria.

Leonor voltou a fechar-se.

Leonor, eu posso já agora comprar-te um enorme ramo de rosas!

Não é preciso, Miguel. Hoje já chega de flores.

Descendo as escadas, Miguel vinha atrás dela. O telefone voltou a tocar era novamente a mãe.

Desculpa, mãe, outra vez no mau momento?

Leonor não escutava.

Não, mãe, ligaste na hora certa. Amanhã vou aí. Prometo.

Nessa noite, Miguel despediu-se de Leonor sem grande esperança. Pressentiu: não voltariam a encontrar-se.

No dia seguinte, rumou ao Alentejo, por entre campos imensos e floridos até ao horizonte, cheios de cor e vida ao sabor do vento.

Miguel parou o carro e caminhou entre as flores silvestres. Tal como o florista, escolheu com carinho as que mais lhe agradavam.

Agora sabia: para quem ia, não havia erro possível; a mãe e a avó iam gostar.

Ao entrar em casa, dividiu o ramo ao meio.

A mãe sorriu e beijou-o nas duas faces. Já a avó

Ajudaram-na a sentar-se. Com mãos trémulas, pegou no ramo oferecido, tocando-o delicadamente, quase sem ver.

Não lhe ofereciam flores há demasiado tempo!

Mergulhou-lhe o rosto e respirou fundo aqueles aromas da terra, que faziam acordar dentro dela as memórias mais doces e jovens, guardadas no recanto da sua alma.

Foram evocadas não só recordações, mas também a expectativa do novo e da esperança presente.

Tão bom! A vida segue, através do neto.

Miguel encostou a cabeça ao colo da avó, que o afagava, receando estragar o ramo que segurava com tanto carinho

Ali deitado, Miguel sentiu com o coração: um dia, encontraria uma mulher com a ternura destas duas, que o amariam como os seus avós e pais tinham sabido amar-se. O mais importante era estar atento e sabê-lo sentir a tempo.

A avó demorou-se sem querer largar as flores.

Espera, Miguel leva água do poço, uma jarra larga, coloca-as aqui quero vê-las bem

O neto ofereceu-lhe flores.

Flores que existem aos milhões nos campos, mas aquelas eram especiais. Foram-lhe dadas pelo neto, e isso fez toda a diferença.

Na vida, aprende-se: o valor está no gesto, no carinho de quem oferece e na ternura de quem recebe. É esse amor simples que perdura.

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Sérgio comprou o melhor ramo de flores e foi para o encontro. Animado, esperava junto à fonte segurando o bouquet. Mas a Inês não estava em lado nenhum. Olhou à volta e ligou-lhe. Ninguém atendeu. “Se calhar está atrasada”, pensou, e voltou a ligar. Desta vez, Inês atendeu. “Já cheguei, onde estás?”, perguntou logo o Sérgio. “Entre nós acabou!”, respondeu Inês de repente. “O quê? Porquê?”, ficou Sérgio pasmado. “Por causa do teu ramo!”, disse ela inesperadamente. “O que é que tem o ramo?”, admirou-se ele sem perceber nada Sérgio já andava há muito tempo pela florista. Rosas vermelhas, tulipas amarelas, lírios brancos, flores em vasos e jarros, feitas em ramos luxuosos e decorados para todos os gostos. Mas ele estava indeciso. Sabia que já tinha falado com a Inês sobre flores, mas não se lembrava bem da conversa. Ela tinha dito certamente que havia flores que não gostava nada, mas outras que adorava e podia olhar para elas sem parar. Mas isso foi logo quando se conheceram. Ela falou muito nesse dia, e ele estava tão entusiasmado pelo novo encontro, e até animado pelo espumante do café, e por ela própria. Sérgio era sempre bom de conversa, mas dessa vez só acenava com a cabeça e ficava a admirar a rapariga bonita, o cabelo comprido e liso, a curva do pescoço e as covinhas nas bochechas. Talvez aquilo já fosse amor? E que diferença faz o que ela disse… a noite estava ótima! Agora, quanto mais tentava, menos se lembrava das flores de que ela gostava. — Olhe que gerberas lindas! Não encontra destas em mais lado nenhum! São de coleção, não é a época delas agora. Tinha de se despachar. Era preciso escolher. E lá estava, como tantas vezes, nesse exato momento em que ia escolher, a mãe ligou-lhe. Tinha andado a ligar demasiado. — Então, Sérgio, ainda não decidiste? É sexta-feira… Vens ao fim de semana? — Não, mãe, tenho coisas para fazer… — A avó está a perguntar por ti, olha sempre para a porta. — Desculpa, mãe, tenho mesmo muita coisa hoje… Despediu-se depressa. A mãe queria que ele fosse à aldeia, onde ela vivia com a avó dele. Não era a primeira vez que ela ligava — Sérgio começava a ficar irritado. O que é que se passa com a avó? Está doente há tempo demais, mas não se pode largar tudo para ficar com ela. A vida também tem de ser vivida! E essas vidas, essas agendas — ai… Tocavam no assunto do novo romance. Sérgio já sonhava com o futuro e fazia tudo para realizar esses sonhos. Se o encontro corresse bem, já no dia seguinte podia levar Inês ao campo. Sérgio sabia bem onde. Tinha um sítio sossegado, um turismo rural ali perto. No fundo, a mãe queria que a vida dele se arrumasse, e ele estava a tentar. Se ao menos se lembrasse das flores favoritas da Inês! Mas que cabeça! Na verdade, nunca teve muita vontade de se preocupar com esses detalhes femininos. Será assim tão importante? A florista já estava cansada de sugerir, limitava-se a olhar. “Pareceu-me que Inês não gostava de espinhos das rosas… Se calhar, é melhor não levar rosas!” Sérgio escolheu um ramo de grandes gerberas rosa e brancas. No fundo, era só um gesto de atenção. Tinha de ir trabalhar, o almoço estava a acabar. Encontraram-se junto à nova fonte da cidade. Sérgio já estava atrasado, um assunto no trabalho reteve-o. Reunião de última hora. Talvez fosse promovido. Ligou para avisar Inês do atraso e desligou o som. Enquanto estava na reunião, a mãe ligou, mas não atendeu. Depois, foi a correr para o encontro. Estava de bom humor, estacionou e chegou praticamente a correr, com as gerberas na mão. A Inês não estava lá. Olhou à volta, percorreu a praça e ligou-lhe. Ninguém atendeu. Sentou-se num banco. Se calhar ela também se atrasou. Lembrou-se que não chegou a ligar à mãe, mas não quis ligar agora — podia ser que ela ligasse entretanto. Mas a chamada não chegou. Passados dez minutos, foi ele que voltou a tentar. Desta vez, Inês atendeu. — Inês, onde estás? Já estou aqui. — Eu sei. Estou no café em frente, no segundo andar, já te vi daqui há bocado. — A sério? Estive a olhar para as janelas mas não te vejo. Não queres descer? Ou… — Estás atrasado… — cortou ela. — Sim, Inês, desculpa. Mas eu liguei, o chefe reteve-me. — E as flores! — Que têm as flores? — não percebeu Sérgio. — Nem te lembraste das flores de que gosto! — Inês, não havia essas! — Rosas? Não te lembras que adoro rosas? Há rosas por todo o lado! Falei-te tanto das minhas rosas favoritas… E tu… — Vou compensar… Já vou ter contigo, espera aí. Sérgio entrou no café. Inês estava lá no fundo, virada para a janela. Sérgio aproximou-se devagarinho e, sem coragem de lhe dar o ramo, pousou-o na mesa. Inês nem olhou. Normalmente era muito eloquente, e agora, sentindo-se culpado, usou todo o seu charme para se redimir. Parece que conseguiu. Ela já sorria. Beberam um café e foram até à saída, ela nem olhou para o ramo: — Esqueceram-se das flores! — correu atrás deles uma simpática empregada. — Fique com elas! — respondeu Sérgio, sorrindo. — Ai, obrigada — ela ficou surpreendida mas gostou. Mas a Inês voltou a ficar magoada. — Inês, agora vou já comprar-te um ramo enorme de rosas! — Obrigada, — respondeu ela seca, — Já chega de flores hoje. Desceram as escadas. Sérgio ia atrás da amiga ofendida. E de novo — chamada da mãe. — Desculpa, liguei outra vez sem dar jeito? Inês não ouviu. — Não, mãe, ligaste na melhor hora. Amanhã vou aí. Nessa noite ele e Inês despediram-se facilmente. Sérgio já percebera — não se iam voltar a ver. E no dia seguinte partiu para os campos conhecidos. Ali, até ao horizonte, um mar de cores. Cheio de vida, leve, vibrante ao vento. Sérgio parou e desceu até lá — naquele oceano colorido. Como um florista caprichoso, escolheu das flores do campo aquelas que mais gostou. Tinha a certeza: quem as ia receber ficaria feliz, ali não havia erro. Quando chegou a casa, dividiu o ramo em duas partes. A mãe estava radiante e encheu-o de beijos, e a avó… Ajudaram a avó a levantar-se. Ela pegou nas flores com mãos trémulas, quase sem ver. Há quanto tempo não recebia flores! Encostou um pouco o rosto às flores e, com a alma jovem de sempre, respirou fundo aquele aroma de juventude tão guardado, mas que agora, chamado pelo cheiro dos campos, regressava, estremecendo-lhe a alma. Aquilo não era só memória: era sentir novamente toda a esperança do novo e do presente. Que bom! A vida continua, a vida segue através do neto. Sérgio sentou-se junto à avó e encostou-lhe a cabeça no colo. Ela fazia-lhe festas, preocupada em não estragar o ramo que segurava com tanto cuidado… E ele pensava que um dia ainda ia encontrar uma rapariga, tão parecida com as duas mulheres mais importantes da vida dele. E iam amar-se como se amaram os avós, os pais. O mais importante: sentir isso a tempo. A avó não estava para ceder as flores à filha. — Espera… põe água primeiro… da cisterna… e uma jarra larga… com cuidado… põe ali… quero ver… O neto ofereceu flores. Flores, que há milhões por aí, mas aquelas… Aquilo, sim, foram as mais bonitas. Aquilo foram do neto.
Este sem-abrigo salvou a minha vida com um simples aviso