Eu subia a escada para cortar os ramos secos da macieira, quando o meu cão, Gaspar, começou de repente a ladrar com força e a puxar-me as calças para me fazer descer. Ao início, achei mesmo que ele tinha enlouquecido ou estava a fazer uma brincadeira parva e que, sem querer, ainda me ia fazer cair da escada
Bem tentei afastá-lo, e até me zanguei com ele, mas, poucos segundos depois, aconteceu algo completamente imprevisível.
Já estava a meio da escada, com a tesoura de poda esticada, pronta para cortar aqueles ramos secos e retorcidos da velha macieira no quintal da casa em Óbidos. Desde cedo que o dia estava estranho. O céu tapado de nuvens densas, o ar parado, húmido, como se anunciasse uma tempestade. Sentia no peito que o clima ia virar, mas mesmo assim insisti em terminar aquele serviçoesses ramos andavam a pedir para serem cortados há semanas.
De manhã, ajeitei a escada contra o tronco, bem encostada e conferi, mais do que uma vez, se estava segura. Subi alguns degraus e ia já para a primeira poda, quando senti um puxão forte nas calças, por trás.
Virei-me, surpreendida, e ali estava o Gaspar, atrapalhado a tentar trepar a escada atrás de mim. As patas escorregavam nos degraus de alumínio, as unhas tilintavam nervosamente e ele, de olhos enormes, não desviava o olhar de mim.
Oh Gaspar, mas que disparate é este? disse-lhe, a rir nervosa Vai brincar para o jardim, vá.
Acenei com a mão a ver se ele percebia, mas o Gaspar não arredou pé, antes subiu mais um pouco, agarrou-se com as patas e, de repente, cravou-me o tecido das calças com os dentes.
Começou a puxar. Forte.
Virei-me de chofre, quase perdendo o equilíbrio.
Gaspar, estás maluco? Larga! gritei, zangada.
Mas ele não largava. Puxava-me para baixo, apoiado nos quartos traseiros, e ladrava desesperado, como se a cada instante quisesse avisar-me de algo.
No início, enervei-me mesmo, mas passado um momento percebi que aquilo não era brincadeira nenhuma. Ele nunca tinha feito tal coisa. Havia nos olhos dele um alarme real.
Como se tentasse dar-me um recado que eu não entendia.
Ainda quis subir mais, mas o Gaspar puxou as minhas calças com tal força que acabei por agarrar a escada com ambas as mãos, num reflexo.
Suspirei, irritada, e comecei a descer.
Pronto, chega, resmunguei por entre dentes Se não te acalmas, vais para dentro do canil.
O Gaspar baixou o focinho, culpado, mas levei-o mesmo até ao cercado e fechei bem a porta. Queria despachar-me, antes que começasse a chover.
Mas foi exatamente naquele momento que tudo aconteceu, deixando-me petrificada e, de repente, fez todo o sentido o comportamento estranho do Gaspar
Voltei à escada, pisei o primeiro degrau, e ouvi um estalo sinistro por cima da minha cabeça.
O som foi seco e alto, igual ao de um galho a rachar. Olhei, assustada. Vi então uma das grandes ramas secas desprender-se da árvore velha.
Caiu a pique, mesmo onde segundos antes estava a minha cabeça. Estatelou-se no chão, partindo-se em estilhaços, a centímetros de mim.
Senti imediatamente as pernas fraquejarem. Fiquei ali, sem reação, encarando os pedaços do ramo partido, com o coração a martelar-me nos ouvidos.
Só aí percebi. O Gaspar não queria brincar nem me aborrecer. Ele estava a tentar salvar-me.
Tinha pressentido o perigo antes de mim. Talvez tivesse ouvido um ranger estranho dentro da madeira ou sentido a força do vento a empurrar. Olhei devagar para o cercado.
Gaspar estava por trás da rede, atento. Os olhos calmos, a cauda mexendo-se de leve, esperando por um sinal meu.
Aproximei-me, abri a porta, e ajoelhei-me junto a ele. De imediato, encostou-se ao meu peito.
Abracei-o ao pescoço e sussurrei-lhe, emocionada:
Salvaste-me a vida, Gaspar.
A partir daquele dia, nunca mais ignorei o instinto do meu amigo.







