Olha, deixa-me contar-te o que se passou cá em casa há pouco tempo, numa altura bem sensível para a família. Estávamos a preparar um jantar para lembrar o nosso pai que já partiu, e o comportamento do meu irmão Roberto deixou toda a gente surpreendida. Ele esteve a viver em França mais de quinze anos, e só veio a Portugal duas vezes nesse tempo todo. Agora, nove dias depois da morte do nosso pai, aparece de repente, sem avisar ninguém.
Notas mesmo que ele estava inquieto, andava de um lado para o outro a perguntar onde estavam certas coisas, vasculhou a casa dos nossos pais toda. Até o cozinheiro ficou meio naquela, porque está mais que visto que ele sumiu durante todos estes anos, enquanto a minha irmã Filipa esteve sempre aqui a amparar o nosso pai e a cuidar da nossa mãe. Mas o Roberto não voltou para se despedir do nosso pai, nada disso… Veio à procura de algo.
A Filipa ficou tonta com aquilo. Pensou mesmo que ele vinha apoiar-nos neste momento tão duro, mas nem por sombras. O que se passou foi o contrário: o Roberto começou a pôr tudo em causa, a dizer que as coisas eram dele. Até sacou uns papéis e jurou a pés juntos que os nossos pais lhe tinham passado todos os bens há vinte anos. Fez a Filipa sentir-se super mal, como se ela estivesse a tentar ficar com a casa à má fila. Ela ficou mesmo em baixo, acabou por sair em lágrimas, seguida pelos outros familiares, todos preocupados com aquela atitude dele.
Mesmo com o ambiente carregado, o Roberto ainda ficou mais uma semana. Mudou todas as fechaduras, pôs grades novas nas portas e janelas… e depois voltou para a mulher em França. Uns tempos mais tarde, um vizinho lá do prédio onde ele mora ligou-nos com uma notícia que nos deixou de rastos: o Roberto estava muito doente e o prognóstico não era nada bom. Aos poucos, a saúde dele foi piorando, tal como aconteceu com o nosso pai. Quando a mulher soube do estado dele, sugeriu logo que viesse para Portugal, porque diz que já não aguenta mais esta carga.
Mas olha, a Filipa, a minha irmã, nunca vacilou no amor à família. Apesar de tudo que passou com o Roberto, ela sente que tem de cuidar dele, porque afinal é o nosso irmão. A filha dela, a Mariana, anda aflita e acha que a mãe se vai sacrificar mais uma vez por alguém que não merece. A Mariana até teve uma conversa dura com a Filipa, pediu-lhe para pensar bem e para não se esquecer que os netos adoram a avó e querem muito mais tempo com ela.
A Filipa agora está num sufoco, sem saber o que fazer. Por um lado sente pena do irmão, por outro percebe bem o que a filha lhe diz. E tu sabes como é, o peso desta decisão está-lhe a consumir a cabeça e o coração, porque tem medo de escolher mal e magoar aqueles que mais ama. Isso tudo me deixou a pensar no significado da família, sabes? Não é nada fácil.






