Natasha não conseguia acreditar no que lhe estava a acontecer. O seu marido, aquele em quem ela semp…

Inês não conseguia acreditar no que lhe estava a acontecer. O marido dela, o seu único, a quem sempre tomou por porto seguro, naquela manhã olhou-lhe nos olhos e atirou: Já não te amo.
Foi um choque tão grande que Inês ficou ali, paralisada, numa posição meio ridícula, enquanto ele andava num corrupio, a atirar roupa para dentro de mochilas e a fazer a orquestra das chaves. Ora, era só o que lhe faltava. Tinha perdido o pai de repente há pouco tempo; entre a sua dor e a da mãe já de cabelos brancos, e da irmã, que depois de um acidente gravíssimo aos dezoito ficou dependente. Viviam na vila ao lado, portanto era Inês a ter de acudir a todas. O filho, Martim, tinha acabado de entrar no primeiro ano. Em Junho, o emprego fechou portas. Ficou sem trabalho. E agora o marido.
Inês sentou-se à mesa, enterrou a cabeça nas mãos e chorou, sem aquela contenção que só se tem quando o mundo está inteiro.
Ai, meu Deus, o que é que eu vou fazer? Como é que se continua agora? Ai, o Martim! Tenho de o ir buscar à escola!
A rotina foi quem a pôs de pé.
Mãe, tu estavas a chorar?
Não, Martiminho, claro que não.
É do avô? Eu tenho tantas saudades dele
E eu, filho. Mas temos de ser fortes. O avô sempre foi assim, e agora está bem junto de Deus, já descansou, coisa que nunca fez em vida.
E o pai?
O pai olha, deve ter ido novamente em trabalho, sabes como é. Conta-me, então, como foi a escola?
A vida tem de continuar. Não gosta de mim? Olha, não há nada a fazer. O amor não se obriga. Ela, naquela azáfama, nem reparou quando tudo começou a descambar.
Enquanto Martim lanchava e brincava com os seus soldadinhos de plástico, Inês foi mexer no portátil que o marido deixara para trás. Nunca antes o fizera. Bastou clicar ali no canto da página para ficar com o email aberto o João Pedro nem apagara as últimas conversas. Amor tinha de sobra, só não era por ela. Ela, em dez anos, passou de minha luz do sol para a nossa mamã, depois de tantos anos a lutar para terem um filho.
Agora tudo mudava. E o mais urgente era mesmo arranjar emprego. Ninguém queria saber se tinha mestrado ou licenciatura; o subsídio de desemprego do Instituto também não resolvia problema nenhum, eram uns trocos.
Mas como é que aquilo aconteceu? O marido certinho, responsável, prestável, de repente, era quase um estranho. A única explicação plausível: deu-lhe um virote. A casa deles, construída tijolo a tijolo, nem sequer estava pronta. Felizmente, havia teto e um quarto habitável.
Ai trabalho, trabalho, porque é que és tão fugidio? quase ia chorar de novo, mas o Martim já gritava pelo legume.
Vários dias andou na procura. Sem sorte! O filho no primeiro ano, ela sozinha zero hipóteses. Quando só lhe apetecia enrolar-se na cama de tanto desânimo, toca o telefone o padrinho Ricardo:
Inês, então, o João Pedro não voltou?
Não.
Ó pá, e se fosses para armazém, como armazenista?
Estás a gozar?
Muito pelo contrário! Olha, tem horário com intervalo, podes sair um bocadinho para ir buscar o Martim ou metê-lo no ATL. Só pagam vinte e cinco mil euros por mês, é pouco, bem sei. Mas sempre é melhor que nada. Amanhã levo-te umas batatas, umas cebolas e um frango lá da aldeia.
Ó Ricardo, ainda tenho as minhas galinhas, são elas que nos vão valendo com os ovos.
Deixa lá as galinhas sossegadas, essas não são para ir à panela.
Obrigada, és um querido. A Lúcia está melhor?
Força de vontade não lhe falta. A minha mulher luta como ninguém.
É sempre assim: nunca uma queixinha, mesmo com tudo em cima dele. Inês suspirou. Talvez ainda desse para aguentar. Deus lá sabe das coisas; nunca falha. Obrigada, Senhor, pelo padrinho.
O trabalho até era simples, e por vezes dava para se isolar e pensar na vida, chorar um bocado sem ninguém ver.
Os dias, semanas, meses passaram, e um ano depois Inês deu por si com vontade de comer, de dormir, de rir e até de se orgulhar dos feitos do Martim. A ferida da traição abria-se sempre que o ex-marido passava para levar o filho ao fim-de-semana, mas ela tentava não azedar aquilo ao Martim o desgosto não era dele, não havia que o carregar com isso. Apetecia-lhe perguntar ao João Pedro o que é que falhara, mas sabia lá no fundo que não era dela o problema, só dele, que andava apaixonado por outra. Recordou uma frase de um filme qualquer: O amor dura até à primeira esquina, depois começa a vida. Ela não fazia distinção, amor e vida sempre juntos. E ele
O Outono entrou de mansinho, mas parecia uma prorrogação do verão: calor, folhagem ainda verde, miudagem aos gritos na rua, uma palete de cores no jardim. O dia em que Inês topou o olhar do Miguel, não parecia diferente dos outros, talvez só o sol brilhasse um pouco mais, a música de um rádio vizinho estivesse mais alta ou quem sabe era mesmo a hora marcada de dois sozinhos se conhecerem.
Menina, deixe-me ajudar não é de bom tom uma beleza destas a carregar tanto peso.
Olhe que já estou habituada, veja lá.
Habituada? Isso é que é pior!
Faz sempre isto? Fica à cata das moças à porta do supermercado?
Ui, nem queira saber quanto já esperei. Nem sabia que ainda existiam mulheres tão bonitas.
Foi impossível não desatar a rir. E ali ficaram, a rir tanto que quase se engasgavam.
Miguel e ofereceu-lhe a mão, com os olhos ainda cheios de sorrisos.
Inês.
Já ouviu aquela cantiga, Inês, Inês, que saudades tenho eu?
Não conheço. Mas olhe que não sou mulher de ninguém.
A sério? Que sorte a minha! Finalmente encontro a mulher que só existia nos meus sonhos
Engraçado não lhe falta. E quanto a seriedade?
Posso garantir, tanto humor como seriedade. Inês, e se fôssemos hoje ao cinema, conversar um bocadinho?
Impossível, tenho de ir buscar o Martim ao ATL.
Não acredito. Tem um filho? Mas você não terá mais de vinte anos!
Tenho trinta e cinco.
Eu também! Que coincidência Olhe, pela idade, enganava bem.
Agora já sabe.
E pronto. Todos os homens querem um filho, mas ninguém quer saber das mães. Achei que era solteira O pai do Martim?
Não lhe quero falar disso por agora.
Combinado, não se fala. Então ao fim-de-semana, vamos os três ao cinema, sessão infantil.
Ao fim-de-semana, o Martim está com o pai.
Inês, não quero ser maçador, mas se tiver um tempinho livre, ligue-me. Aqui fica o meu cartão por acaso sou médico, hematologista pediátrico.
Isso sim, é profissão.
E tira-me tempo para procurar bonitas como você.
Tem piada respondeu Inês, genuína, aceitando o cartão.
Fico à espera, então.
Aquele Outono, meu Deus, foi mesmo um presente! Raios de sol doces, folhas a desafiar a paleta mais criativa, os dias a pedirem parque e passeio. E a ternura, a crescer devagarinho, a roubar o lugar da dor. Chegou um dia, passado mês e meio da primeira conversa, em que Inês, a tremer de nervos, convidou-o para um chazinho, só para conversar.
Inês, não leves a mal, mas hoje não vou a tua casa. É importante, tudo o que me está a acontecer agora, e quero tomar conta disto como deve ser. Confias?
No fim-de-semana seguinte, Miguel levou-a para um refúgio, uma casinha de turismo rural que parecia um mini-castelo. Por dentro era confortável, mas Inês só via os olhos grandes avelã daquele homem que, sem saber como, lhe virara o mundo do avesso. Nunca pensara que aquilo o mais íntimo entre um homem e uma mulher pudesse ser tão doce.
Miguel, onde estou, o que me está a acontecer? Sinto-me a morrer de tanto que te amo. Como vivi tanto tempo sem ti?
Não sei se mereço tanta sorte sussurrou ele, emocionado.
Com o tempo, já mal se conseguiam despedir.
Inês, casa comigo.
Miguel, só estou oficialmente separada no fim do mês!
Então pronto, casamos logo depois, senão ainda mo levam!
Vá devagar, senhor. Esta rapariga é de ideias próprias. Mas contigo só aceito sem festa, sem cerimónias, só papel assinado e vamos já, já para o nosso castelo.
O que tu disseres, miúda.
Tiveram como testemunhas apenas o padrinho Ricardo e a esposa. A mãe e a irmã mandaram telegrama bem entusiasmado. Logo se mudaram para um T2 alugado que juntos pintaram e arrumaram com tanto carinho. Miguel planeou a quarto do Martim ao pormenor. O miúdo já o conhecia, mas para ele, a mãe e o pai eram as duas metades da sua maçã não dava tréguas ao namorado novo.
Inês, não te assustes sugeriu o Miguel, sério precisamos ver o sangue do Martim. Ele está demasiado pálido.
Oh Miguel, são nervos! Ainda acredita que iam voltar para trás Li que para uma criança o divórcio é pior que perder um dos pais.
Sei do que falas. Passei pelo mesmo, achei o mundo inteiro que caía. Mas temos de fazer análises, está bem, campeão?
Um dia, o Miguel entra em casa cabisbaixo. Inês percebe logo.
Inês, não entres em pânico. Há alterações na análise do Martim. A minha intuição não falhou Vou levá-lo amanhã comigo.
Não era justo. Como se a felicidade fosse coisa que se paga, logo com isto. Leucemia, palavra que corta o ar.
Nova vida: Inês pede licença sem vencimento; seguir o Martim em cada gota, picada, medicação. Segura-lhe a mão e repete: Tu és forte, filho. O meu melhor companheiro, sempre. Nunca te vou largar.
Quando não aguentava mais, Miguel mandava-a dormir mas ela só fechava os olhos para contar as manchas no tecto.
O ex-marido, do nada, liga a exigir que ela largue de vez a casa inacabada:
Eu cuido do Martim, ele pode vir passar tempo cá a casa.
Mais valia ires fazer-lhe uma visita.
Não posso agora, estou de partida.
Miguel ouve e afaga-lhe o ombro:
Inês, deixa isso. Faz-te pouca falta o passado.
Custa-me, Miguel. Trabalhei tanto, investi ali
Inês, mete toda essa força no Martim. O resto trato eu. Deus não me tira a família que me deu.
E as análises?
Tudo feito. Ainda estão más.
Chorava em silêncio. O Martim não podia saber que nada estava bem.
Tio Miguel, o que tenho eu no sangue?
Sabes, temos barquinhos brancos e vermelhos lá dentro. Os teus estão numa batalha.
E quem vai ganhar?
Temos de ajudar os vermelhos!
Mãe, leva-me para outro sítio. Cansei.
Inês, pensei nisso. Vamos os três para o nosso castelo. Está bom tempo, ar puro vai fazer-lhe bem.
A primavera trouxe flores de perder a conta. Andaram pelos trilhos a saborear cada cor. Mas havia momentos em que Martim se isolava, muito concentrado.
O que foi, filho, estás mal?
Shhh, mãe, estou em batalha naval
As férias voaram. O Martim ganhou cor, até parecia mais forte.
Mãe, e o pai?
Está em serviço, filho.
Outra vez? Pois
No regresso ao hospital, nova análise. A chefe do laboratório aparece para entregar novidades.
Dr. Miguel, onde levou o Martim?
Só ali ao parque, porquê?
O sangue está ótimo. Ele está em remissão!
Miguel invadiu o quarto aos pulos:
Martim, o que estiveste a fazer por lá? Estás melhor, rapaz! Não chores, Inês. Ele está a recuperar! Conta lá, campeão!
Pai, lembras-te dos barquinhos? Eu jogava sempre para dar a vitória aos vermelhos Lembro, claro que lembro!
Uns afundam, outros salvam, não é? Mas mãe, às vezes a mãe também parece um barco. Porque nunca se afunda?
Inês ajoelhou-se juntinho à cama, abraçou o filho e sorriu, as lágrimas a caírem-lhe pelo rosto como chuva miudinha.
Porque os barcos das mães são feitos de esperança, Martim. Não afundam mesmo quando o mar se zanga.
Miguel tocou-lhes nos ombros, com o mesmo olhar de antes, aquele olhar de quem já viu muitos naufrágios e sabe reconhecer portos seguros.
Martim fechou os olhos, embalado entre os dois, um sorriso cansado mas vitorioso. E naquele instante, naquela sala cheia de luz e promessas, Inês compreendeu ainda que o passado doesse e o futuro fosse incerto, o presente estava ali, inteiro, a respirar com força renovada.
O mundo podia sempre virar do avesso, mas havia barcos que sabiam sempre onde era a margem. Agora, sabiam os três navegar juntos.
O sol, lá fora, já pedia verão.

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