Como o facto de ter um apartamento próprio me impede de casar em Portugal

Ao fazer trinta anos, consegui finalmente comprar um T2 em Lisboa com o dinheiro que juntei durante anos de trabalho árduo. Moro sozinha e, até agora, ainda não encontrei nenhum homem digno de partilhar a vida comigo. Acham que sabem qual é o verdadeiro motivo das minhas dificuldades amorosas? Pois bem, para mim, está diretamente ligado ao facto de eu ter casa própria. Nos dias que correm, é complicado uma mulher ser independente e feminina ao mesmo tempo. Divido os candidatos em dois grupos muito distintos:

Primeiro, há aqueles que, assim que sabem que tenho um apartamento Meu Deus, que sorte! Mudamos já e não tenho de me preocupar com nada. Homens assim não querem esforçar-se, só precisam que o trabalho esteja feito o tecto já existe, querem formar família e ter filhos, desde que nada mude no seu sossego. Não tencionam fazer carreira ou ganhar mais dinheiroeu já solucionei o essencial, ter uma casa, não precisam de carro, e para a família basta o meu pequenino Polo. Não sentem necessidade de batalhar por mais nada.

Quando converso com este tipo de homem, sinto que encaixaria mais como meu filho do que como marido. Querem ser alimentados, mimados, cuidados, e depois ainda tenho de me preocupar que não fujam. Para esse felicidadezinha, prefiro ter a minha gata Carminho e tempo livre para os hobbies que tanto me dão prazer.

Depois há o segundo tipo. Tens casa própria? Eu prefiro ficar com os meus pais ou mudarmo-nos para a casa de campo da família. Ou então, vendemos o teu apartamento e compramos outro juntos. Este argumento é dos meus favoritos. Anos da minha vida perdidos para conquistar este cantinho e logo a primeira ideia é desfazer-me dele, entrar numa nova dívida, pagar crédito durante décadas. E, claro, se pelo menos o potencial marido se responsabilizasse pela prestação do banco seria diferente mas não. Tu recebes bem, podes pagar, eu ajudo como puder. E se um dia eu tiver de tirar licença de maternidade? Pagamos o empréstimo, depois podes pensar em bebé… Mesmo que já tenhas quarenta anos. O importante é que não me chateies com complicações, para eu continuar a viver descansado.

Cada vez mais penso que talvez fosse mais simples adotar uma criança do que achar um homem que não tenha medo de comprometer-se com a família. Parece que, mesmo que me case, terei de sustentar tudo sozinha: a casa, os problemas, e até o amor próprio. Se for assim, para quê ter um homem a meu lado?

Sou dona do meu lar, e da minha vida. Tenho tudo renovado, espaço amplo só para mim, e para fazer as coisas de que gosto. Às vezes, sinto falta de uma família, de alguém por perto, mas as experiências reais apagam depressa essa ilusão. Conto-vos uma das mais recentes.

Apaixonei-me por um homem que já conhecia, e ele parecia corresponder. Ficámos a ver um filme no meu sofá e, a certa altura, deu-nos vontade de pedir uma pizza. Pensei que, pelo menos nisto, ele pudesse mostrar algum gesto e aceitou, claro: foi até à porta receber o entregador e pagou… mas com o dinheiro que eu lhe tinha dado. A partir daí, a conversa e o interesse esfriaram por completo.

Talvez a culpa seja minha. As minhas amigas dizem que não devia ter-me oferecido para pagar a pizza. Eu quis ver se ele recusava ou aceitava o dinheiro. Para mim, não era pelo valor era pelo gesto. Mas a questão não era, nunca foi, só o dinheiro…

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Láska s horkosťou paliny