Lembrome bem daquele tempo em que a vida parecia um filme antigo projetado na varanda da casa da minha avó, quando Lurdetinha, a minha amiga de infância, vivia o seu drama amoroso.
Mas entendes, Lurdetinha, que homens como eu nunca se casam com donzelas como tu dizia António, calmamente, enquanto servia o café na tasca do centro de Lisboa há quem procure apenas um caso passageiro, e há quem guarde a virgindade até o casamento. Infelizmente, tu não és dessa espécie.
E o que há em mim que não te agrada, António? Cozinho bem, vistome impecável, a casa está sempre limpa. Sou uma mulher que te agrada, não sou? Lurdetinha olhavase surpresa ao homem que, até então, considerara o seu grande amor.
Esse é precisamente o problema! Já estás estragada. Percebe: mulheres como tu não são levadas a ser esposas. São apenas companheiras sem compromisso. Casamse, porém, com donzelas castas, nas quais somos o primeiro e único. Que prepares os pés ao marido e bebas a água como diz o provérbio. António, satisfeito por terminar a frase, virouse para a parede e deu um suspiro profundo.
Uma semana antes, Lurdetinha encontravase no Café A Brasileira, cercada pelas amigas, a partilhar os seus planos. A vida está a encaixar, dizia ela. Aos trinta anos já não era mais uma rapariga, mas tinha carreira, casa, carro, vestiase como quem saiu de revista. Posso até casar e ter filhos! E ainda falava do candidato perfeito, quase como um sonho. António, nunca casado, vivia só, embora tivesse comprado um apartamento junto à mãe. Quatorze anos mais novo, bonito, bemcuidado, quase sem vícios e com um cargo importante num banco. Sorte pura, dizia a gente.
Conheceramse no trabalho ele chegou à clínica dentária onde Lurdetinha atendia como dentista, como paciente, e saiu já enamorado. Lurdetinha trabalhava a viver: na clínica pública, na privada, e mal lhe sobria tempo para si. Então António apareceu com flores, não as rosas habituais, mas peónias em pleno fevereiro. Um jantar num restaurante à beiraRio Tejo, e tudo girou.
Só havia um ponto que a incomodava: já faziam dois anos que estavam juntos e ainda não havia nenhuma proposta de casamento. As amigas começavam a insinuar: Já está na hora de Lurdetinha casar. Ela também sentia aquilo. Decidiu, então, levar a conversa para a noite. E, ao deitarse, ouviua dizer que estava estragada, não dá para casar.
A palavra não se encaixava. Que direito tem ele de me dizer isso?!. Na noite seguinte, Lurdetinha encontrouse novamente com as amigas no Café São Bento, à procura de conselhos.
Imaginem, meninas começou Lurdetinha ele disse que já não sou a pessoa certa! Que em mulheres como eu não se casa!
Tu estás a brincar! exclamou Catarina, incrédula. És uma beleza, és inteligente, és independente!
Ele diz que só se casa com donzelas castas. E eu, segundo ele, sou do terceiro grau, uma espécie de defeito. E o que faço agora? Em tudo o resto ele encaixa: é inteligente, tem dinheiro, na cama tudo bem.
Lurdetinha, largao, antes que destrua a tua autoestima resmungou Lígia.
Melhor ainda acrescentou Catarina : trazo à nossa casa! Hoje celebramos dez anos de casamento dizia ela, referindose a mim e ao meu marido, Mário. Que ele veja o que é uma família!
Decidimos convidálo. António, que normalmente evitava esses eventos, aceitou de repente e até conduziu o carro. Lurdetinha já pressentia um fim de tarde agradável com as amigas finalmente não seria ela a conduzir o carro de volta.
Na casa de campo de Catarina e Mário, tudo era caseiro: crianças a brincar, churrasco, o canto dos pássaros, e o nosso cão, Pingo, que corria como se tivesse uma bateria invisível a abastecêlo. O almoço prolongouse do meiodia ao entardecer. Os adultos foram embora, as crianças já dormiam, e ficaram à mesa apenas a gente as amigas, os donos da casa e António.
Tomámos chá com pastel de nata e conversámos. Foi então que António retomou o seu discurso:
Digame, Catarina, por que é que Lurdetinha ainda não se casou? Vocês já têm dez anos de casamento.
Nem todos têm a sorte de se apaixonar no terceiro ano da universidade, como eu respondeu Catarina, encolhendo os ombros. Lurdetinha então estudava, trabalhava, não tinha tempo.
E vocês casaramse castas?
Mas que! riuse Catarina. Mário e eu nos conhecemos no primeiro ano!
Mas ele foi o primeiro?
E tu queres ver o passaporte? rebateu Mário, irritado. Eu fiz dela a minha esposa, ponto final.
Vês! Então ela era pura. É questão de respeito. Como casarse com alguém que já teve vários? É vergonha para a família!
E qual é a sua linhagem tão respeitável que exige sem passado? gargalhou Lígia. Por que é que lhe davas esperança, António?
Não prometi nada a ninguém encolheu os ombros António. A tua amiga devia perceber que é uma mulher de segundo grau. Para casara, há de ser um motivo sério, e não vejo nenhum.
Então eu sou o terceiro grau, divorciada, com uma criança sorriu Lígia. Que pena, homem. Que pena da tua família.
Como ousas falar assim das mulheres na minha casa? exclamou Mário. Grau é sua palavra! Tu és um arenque vencido! Agarrou António e jogouo para fora, num pátio de duas metros de altura, grande e forte.
Sai daqui! Não vou deixar que estragues a festa. Se não fosse pelas meninas, já te teria dado um cabo! Não és convidado.
Lurdetinha, eu vou embora. Vens comigo ou ficas? declarou António, levantando a mala com orgulho.
Lurdetinha, entre risos, não soube responder. António saiu sem esperar resposta, bateu a porta do carro e partiu.
Então, Mário, obrigada riuse Lurdetinha. Chega! Não quero mais nenhum homem. Nem mesmo um arenque vencido!
Foi má ideia, tentar iluminar o rapaz sobre o casamento sorriu Catarina. Mas que personagem! Meninas, ouviram? Eu sou o primeiro grau, e vocês já perceberam.
As piadas prolongaramse a noite inteira. Depois, Lígia levou Lurdetinha de volta à sua casa em Lisboa. A vida voltou ao ritmo habitual de consultas dentárias e registos de pacientes.
António já não ligou mais.
Doutora Lurdetinha, deixaramnos um envelope na recepção.
Obrigada, Lena, vou ver mais tarde.
Ao terminar o expediente, Lurdetinha abriu o envelope. Dentro havia
E assim, lembrandome desse capítulo, percebo como as palavras de quem nada tem a perder podem mudar o curso de uma vida. Ainda que todos os dias o tempo nos leve adiante, alguns episódios permanecem gravados nas memórias, como as manchas de tinta num velho manuscrito, prontas a ser lidas quando o coração pede uma história.







