Mamãezinha

Mãezinha

Ó, bichano! De quem és tu? perguntei, parando em frente à porta de casa, a observar o grande gato ruivo sentado no tapete.

O gato, claro, não deu resposta. Nem sequer se dignou a alterar a postura. Só uma das orelhas, meio rasgada, mexeu-se levemente, como quem diz: Ouço-te, sim, mas não contes comigo para dar conversa!

Também não faz mal! resmunguei, algo picada, procurando as chaves na mala.

Quando finalmente as encontrei e comecei a destrancar a porta, notei que o gato se afastou um bocadinho, mas sem sair do tapete. Continuou a observar-me com aqueles olhos verdes, atentos.

Este apartamento, eu e o Matias só o comprámos há dois meses. Pequeno, com dois quartos, era o nosso sonho. E que ninguém venha com a conversa de que devíamos aspirar a mais do que um T2 num prédio dos anos 70 ali em Benfica! Há um ano, morarmos num espaço só nosso parecia uma fantasia impossível. Tivemos sorte do avô dele nos ceder o quarto enquanto não surgia esta oportunidade.

Beatriz, olha lá, tem só cuidado para não arranjares problema com os vizinhos! avisou-me a mãe do Matias, Dona Filomena, enquanto me ajudava a limpar o quarto antes do casamento. Eles são boa gente, apesar de às vezes abusarem da pinga.

Boa gente se andam sempre a beber? Não percebo! retorqui, torcendo o pano e afastando os caracóis rebeldes do rosto.

O Matias adorava o meu cabelo, mas para mim, na altura de limpar, era uma praga. Podia usar quantos ganchos quisesse, acabavam fora do sítio e eu parecia sempre um ouriço descontrolado.

A vida maltrata muita gente, minha filha. Nem toda a gente sabe lidar com o que lhe bate à porta murmurou Dona Filomena, abanando a cabeça.

Compreendia bem. Cresci numa família de acolhimento, assim que fiz 18 anos despacharam-me. Conhecia demasiado bem a falta de compaixão de quem só pensa na própria miséria, esquecendo quem depende deles.

A minha mãe deixou-me quando eu tinha três anos. Sentou-me num banco da estação de comboios com um bilhete no bolso do casaco e um coelho de peluche invariavelmente zarolho e com uma orelha em falta. Ordenou-me que esperasse ali, e assim fiquei, de olhos fixos na multidão, apertando em mim o coelho Tobias. Morria de vontade de ir à casa de banho, mas achava que a mãe me ralharia tanto se me mexesse, que preferia aguentar. Esperei até que apareceu um polícia.

Como se chama o coelho de orelhas grandes? perguntou, vendo a minha resistência em responder.

Tobias murmurei.

Ele fez-me festas no cabelo, também no do coelho. Não aguentei e desatei num pranto que, pelos vistos, assustou tanto o polícia como todas as pessoas que esperavam o comboio naquela sala de espera. Ninguém me notara ali, durante horas. Às vezes pergunto-me como é possível.

Só muito mais tarde soube porque a minha mãe fez aquilo. Um dia, pouco antes do secundário terminar, apareceu-me à porta da escola, com os braços estendidos, a choramingar:

Filhinha, encontrei-te! Dá-me um abraço! Tive tantas saudades!

Nessa altura, já estava na família de acolhimento, com mais seis crianças entre miúdos e rapazes. As necessidades básicas tínhamos, mas calor nenhum. E sabíamos que aos dezoito anos tínhamos de nos pôr a andar alguém ocuparia o nosso lugar.

Nunca confiei nos meus pais de acolhimento. Para eles, amor era supérfluo bastava haver comida e disciplina em casa. Por isso, não corri ao encontro daquela mulher que me chamava filhinha.

Francamente, o mais estranho é que uma parte de mim queria mesmo ter ido. À noite, quando toda a casa dormia e só o Tobias espreitava debaixo da almofada, sonhava com isso: um abraço, um colo, alguém de verdade. Não é natural, uma criança ter como único familiar um coelho de peluche

Por isso, claro que sonhava com a mãe, que um dia viria buscar-me, amar-me, proteger-me Via como os outros tinham isso. Mas quando finalmente a mulher apareceu, a chorar e a pedir-me que a abraçasse, não cedi. Disseram-me várias vezes que não podia recordar aquele banco, o cheiro do comboio, a chuva que caía. Mas a verdade é que nunca esqueci, nem a sensação do abandono, nem o Tobias ao colo nem os olhos tristes da minha irmã de acolhimento.

Foi a Andreia quem me protegeu nesse dia. Estava comigo na escola.

Bia, quem é esta? Ergueu-se entre mim e a mulher.

Não sei respondi, sentindo tudo à volta a rodopiar.

Olhe, engana-se. Esta é minha irmã. Não a conhecemos! atirou Andreia, pegando-me pela mão.

Casa adentro, de mãos dadas. A mãe de acolhimento arregalou os olhos.

Então? respondemos as duas, sincronizadas.

Foi nesse momento que ganhei uma irmã. Andreia também precisava de alguém. No caso dela, foi o pai alcoólico quem desapareceu. Às vezes basta alguém, disse-me mais tarde.

Acabei por falar com a minha mãe biológica, mas só por insistência da Andreia.

O que perdes em perguntar? Fica tudo dito, podes deixar de te culpar.

Como sabes aquilo que eu penso? perguntei, surpreendida.

Pfft! Achas que não sei? Todas pensamos. O que fizemos nós de mal para sermos deixadas?

Tu também?

Todos temos esse pensamento, Bia. Só que não se diz.

E como é que se vive com isso?

Chora-se em silêncio. E seguimos em frente. Crescer dói.

Não me resolveu nada, aquele diálogo com a minha mãe.

Deixaste-me.

Perdoa-me

Não me chames isso! Irrita-me!

Está bem, querida, não volto a chamar.

Por que me deixaste?

Eu era nova, não tinha ninguém, o teu pai não me quis

Disseste-lhe que não era filha dele? Era verdade?

Não mas estávamos zangados, fiz asneira, magoei

E depois?

Disse à minha mãe que ia embora, mas com uma filha pequena para onde ia eu? Achei que te tratariam. Deixei bilhete, expliquei

Achaste que o bilhete bastava? Tu não és nada

Sei que errei gostava de compensar

E como compensas? Vais dar-me os anos que perdi sem mãe? Desculpa, mas não quero voltar a ver-te.

Não me vais perdoar?

Não sei. Esquecer, nunca vou.

Nada tens que esquecer! Eras tão pequenina!

Virei-lhe costas. Decidi naquele instante: ninguém mais ia decidir por mim o que devo sentir ou recordar.

Andreia percebeu.

É a tua vida. Se achas que foi certo, não te arrependas.

És tão esperta

Nem por isso, mas quero ser. Gostava de ser psicóloga. Talvez assim percebesse como viver certo.

Durante anos gozámos com isto. Um dia, já mãe de uma menina, Andreia comentou:

Tretas! Ninguém sabe como é que se vive certo.

E então?

Vive-se com alegria. Que ao menos os teus estejam bem, e os de fora não invejem.

Tu consegues isso.

Tento! riu, embalada pela filha ao colo.

Olhar para a vida com mais leveza. Se era só um quarto na casa de Benfica? Sim, mas central, perto do trabalho. Um jeitinho dado com as minhas mãos e tudo ficava melhor. A Dona Filomena tinha razão, os vizinhos eram pessoas decentes. Tinham perdido uma filha, afogavam mágoas na bebida, mas não incomodavam só mereciam compaixão.

Foi estranho, aprender isso. Nunca fui habituada a ser alvo de pena. Nem de beijos ou afectos.

O avô do Matias foi outra ajuda. E Dona Filomena, capaz de feitos notáveis: abraçou-me como filha. Andreia chamou-lhe feito heróico.

Não esperes muito preveniu-me Andreia, quando fui apresentada à sogra. Nada de contas sobre possíveis casas, vai-se lá saber quanto tempo demora. E mantém-te atenta: nem tudo se entende logo de início.

No início tudo me soava exagerado: voz alta, energia sem fim, desejo desmedido de fazer o bem. Quase irritante. Pouco habituada à preocupação dos outros, não sabia lidar.

Bia, o meu casaco já está velho. Ajudas-me? pediu uma vez.

Ajudar em quê?

Vens comigo ao centro comercial? O Matias odeia, agarra o que encontra e foge. Eu preciso de tempo. És capaz?

Ia a contragosto, mas depois vinha de lá com mais sacos para mim do que para ela Um casaco, botas, malas que nunca sonhei em comprar. Assim que ela via que os meus olhos brilhavam para algo: Fica-te mesmo bem! Protestar era inútil. Acabei a agradecer por dentro, sem conseguir entender tamanha generosidade.

Filomena, ao contrário do que dizem das sogras, nunca me amargou a vida. Lembrando os conselhos da Andreia, mantive-lhe alguma distância, sempre com gratidão. E ela compreendeu, respeitou esse recuo.

Quando chegou a altura de o avô vender o quarto, fiquei triste.

Preocupada com o vosso futuro? perguntou, enquanto arrumava papéis.

Não, logo se vê respondi. Sempre arranjamos alguma coisa, um quarto ou até um estúdio. Agora só com os salários ainda vamos demorar a juntar dinheiro para algo nosso. Mas já temos um fundo, por pequeno que seja. A Andreia diz que ter ali uns euros guardados é meio caminho para sentir segurança. E talvez tenha razão.

Como uma mulher crescida, Bia! sorriu ele, tranquilo.

Disse alguma coisa maluca?

Não respondeu, só me pediu para pôr água para o chá.

Agora conversamos e matamos o tempo. Sabes, a minha Filomena gosta muito de ti. E gostava que a deixasses entrar na sua vida.

Não é preciso pena protestei.

Ai não? E porquê?

Ninguém precisa disso!

Calma, rapariga! Pensa bem: pena, no tempo dos nossos avós, era sinónimo de afecto. Não era só amor: era também preocupação, querer cuidar. Quando alguém está mal, não é um amo-te que resolve É toma lá uma mão. É ou não é?

É, acho que sim.

Mas não se pode abusar. Dar de vez em quando, quando faz sentido. Se não, estraga-se tudo.

Mas eu também gosto de si admiti.

E eu de ti, filha. Só tens de saber: quem se deve cuidar é quem o coração manda.

Lembrei-me deste diálogo ao ver o gato ruivo de novo à porta, desta vez acompanhado. Carregava pela boca um minúsculo gatinho, a sua cópia em ponto pequeno.

Ora bolas! exclamei, recebendo o miúdo nas mãos. O gato subiu de novo, voltou com outro, irrequieto, a cair do seu apertado abraço. Ria com vontade com a cena.

Que bela mãe que tu me saíste! disse eu, convidando a família inteira a entrar.

O gato foi desconfiado, mas entrou atrás de mim, ainda atento aos passos. Perguntei-lhe pela mãe dos pequenos sem resposta, como sempre. Ajeitou um dos bebés no tabuleiro que lhe trouxe e, entre jornais velhos, mostrou-lhes como se usava a areia.

És um verdadeiro progenitor! brinquei. Esperem aí que eu vejo o que há no frigorífico!

Gato entusiasmado, fui procurar leite e preparei tudo para os recém-chegados.

Nessa noite, sentei-me à mesa e chamei o conselho de família.

Dona Filomena, se não concordar, arranjo solução para eles. Mas pô-los na rua, já não faço. O que terá acontecido à mãe destes gatinhos? Não sei, mas é estranho ser o gato a cuidar deles

Beatriz, tu agora és dona da tua casa. Tu e o Matias decidem quem fica. Toma lá esse no colo que eu já fico feliz. E os outros?

Vou procurando dono para os gatinhos, mas este fica. Tenho muito que aprender com ele.

Aprender o quê, meu amor? perguntou Filomena, com os olhos vivos.

O Matias sorriu e fez sinal para eu partilhar a novidade, que guardávamos para o aniversário dela.

Como ser boa mamã. Agora tenho dois professores: a senhora e este peludo.

Afaguei o gato, olhei para Filomena e claro, não aguentei chorei como há muitos anos não chorava.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

12 − four =

Mamãezinha
Všetkých pozývam k sebe domov