UM CASO NA NOITE DE ANO NOVO
Ao cair da tarde de trinta e um de dezembro, Lídia não queria mesmo regressar a casa. O expediente daquele dia fora curto; as suas colegas, todas mulheres, tinham desaparecido apressadamente corriam para os filhos, os maridos, para a azáfama do bacalhau e do bolo-rei. Riam alto, sorridentes, ansiosas, carregando sacos cheios de castanhas e garrafas de espumante, presente de fim de ano do senhor António Ilídio.
Mas Lídia, essa, não tinha ninguém à sua espera no seu pequeno apartamento de Lisboa. O famoso salpicão ou o arroz de marisco, também, não teria com quem partilhar. Olhou a montanha de tangerinas, pousada num saco de plástico transparente sobre a mesa do escritório, e deixou escapar um suspiro.
Definitivamente, regressar ao lar não apetecia. Voltou-se para os relatórios, mergulhando de novo no trabalho. Passado pouco tempo, irrompeu pela porta o senhor António Ilídio, ainda a arfar, de boina e sobretudo aberto único homem no grupo delas e o chefe, por sinal.
Olha para isto, Lídia, ainda aqui? Esqueci-me do presente para a mulher, imagina só! exclamou, desaparecendo logo no seu gabinete.
Voltou passados cinco minutos.
Ainda aqui, menina? Por que não vai para casa?
Sozinha também por lá fico, senhor António Ilídio.
O chefe, prestes a sair disparado para a sua família, estacou, sentou-se ao lado de Lídia, fitou-a com ar muito sério.
Assim não pode ser, Lídia. É noite de passagem de ano! Olhe para si, parece uma alma penada. Esta cara ainda a vai deixar sozinha por muitos anos. Uma mulher tem de saber sorrir! Ora, vá lá, nada de tristezas repetia ele, apressando-se a arrumar-lhe os papéis e juntando-os numa pilha arrumada. Todas já foram e veja no que deu!
Não se aflija, senhor António Ilídio. Eu agora vou para casa, arrumo tudo e fecho o escritório.
Tem a certeza?
Claro!
Então pronto, fico descansado. Bom ano!
Lídia suspirou de novo. Ridículo isto, passar a noite de Ano Novo no escritório. Era mesmo hora de sair.
«E se mandasse vir uma pizza?», pensou. «Será que alguma pizzaria está aberta agora?»
Do primeiro número ninguém atendeu. No segundo, uma rapariga declarou, radiante, que fechavam às seis da tarde e desejou-lhe bom ano. Lídia consultou o relógio eram seis e cinco. Tentou o último que lhe veio à cabeça. Aceitaram o pedido, para surpresa dela. Lídia juntou os papéis, vestiu o casaco, apanhou as tangerinas e o espumante e saiu para a rua.
Do lado de fora, uma brisa fria acariciou-lhe as faces e o ar cheirava a promessas de recomeço. Pisava o chão gelado que rangia sob as botas. As luzes dos candeeiros faziam as ruas sonhar, e por todos os lados piscavam lâmpadas coloridas. Pessoas apressadas, de sacos e embrulhos, rumavam a casa, os últimos retardatários espreitavam prateleiras em busca do presente perfeito. Lídia sentiu o coração aquecer-se, devagar, contagiado pela inquietação festiva da cidade.
«Mas que disparate é este!», ralhou consigo mesma e avançou decidida para dentro do supermercado.
Pouco depois, já desembrulhava as compras na cozinha.
«Espero que as batatas cozam depressa», murmurou.
Ligou a televisão, pendurou a nova grinalda na janela e ligou-a à ficha. Uma centopeia de luzes fazia correr arco-íris pela madeira fria. Com os braços erguidos, Lídia ensaiou um passo de dança antes de se dedicar ao seu banquete de Ano Novo.
«Ora pois! É para mim para a melhor companhia!»
Enquanto as batatas arrefeciam na varanda, a mesa vestia-se de festa: tostas com paté de sardinha, as fatias de salmão que tanto gostava, enchidos do mercado arrumados em leque sobre folhas de alface bem verde, porções de queijo fresco, um ananás, uma taça de tangerinas do senhor António Ilídio.
Em pouco tempo, o salpicão estava pronto, as pernas de frango estalavam na frigideira. Lídia arrastou a mesinha de apoio até ao sofá, cobrindo-a com uma toalha rendada. Levou cuidadosamente os pratos, pôs um copo e um cálice, colocou faca e garfo, afastou-se e, com olhar crítico, avaliou o seu trabalho como se preparasse tudo para convidados.
Às vinte e três e trinta, ia a abrir o espumante quando tocou o intercomunicador.
Encomendaram pizza? soou uma voz masculina, cheia de força.
«Valha-me Deus! Esqueci-me da pizza!»
Sim, sim! Pode subir! respondeu, premindo o botão.
Entre, por favor. Quanto é que devo? perguntou ao jovem sorridente, com uma caixa quadrada nas mãos.
Nada deve. É oferta da casa!
O sorriso dele era franco, contagiante.
Não posso aceitar. Vão descontar-lhe…
Nada disso. Palavra de honra. É compensação pelo atraso da entrega. Fique com a pizza, anda lá.
Lídia notou que ainda segurava o espumante fechado.
Segure-me o espumante, faz favor pediu, trocando a garrafa pela caixa de pizza. Vou já à cozinha.
Não tem ar de estafeta atirou Lídia, ao regressar.
Pois não sou. Sou o dono da pizzaria. Despachei mais cedo todos os meus funcionários, vê? Ano Novo é para estar em família. Depois vi que o seu pedido estava esquecido na base de dados. Decidi tratar eu. Afinal, ninguém me espera, ao contrário da pizza… Até demorei demais.
Dez minutos para a meia-noite! exclamou Lídia. Abra o espumante! Ainda temos de brindar ao ano velho!
Fácil. Tem copos por aí?
Enquanto Lídia procurava os copos, soou um estrondo.
Ao velho ano!
Ao velho ano!
Tocaram levemente os copos, beberam em golada o líquido borbulhante.
Ai, agora fizemos asneira!
Que se passa? assustado, ele perguntou.
Bebi o espumante consigo e está de carro!
É verdade sorriu ele, largo, largo.
Agora como vai conduzir?
Não vou, parece-me.
E impossível arranjar táxi nesta noite…
Impossível repetiu ele, cheio de alegria.
Então, tire já os sapatos e venha para dentro, senão passamos o Ano Novo no hall!
Que casa acolhedora a sua.
Sirva-se depressa, o Presidente já acabou o discurso!
Feliz Ano Novo, oh…
Lídia, disse ela.
Feliz Ano Novo, Lídia! Eu sou Rafael.
Feliz Ano Novo, Rafael! Prove do salpicão. Fui eu quem fez. Só tenho um talher, mas…
Não se preocupe, sabe melhor diretamente do prato! Rafael falava com alegre informalidade.
Lídia gostava de o ouvir, de como a sua voz enchia a sala. Sentia-se leve e feliz.
Humm, ainda sabe melhor assim. Tem aí pão de mistura? Estou esfomeado, como… como nunca!
Já lhe trago!
Ao regressar com pão, encontrou Rafael com duas pernas de frango, uma em cada mão.
Desculpe, não resisti, está ótimo. Sabe mesmo cozinhar, Lídia!
Obrigada, Rafael. Pensei que fosse tudo para o lixo. Veja só o que preparei sozinha nunca acabaria com isto tudo.
Sozinha? Agora já tem ajuda!
Pois então, ajude mesmo!
Assim, sentados lado a lado, começaram a comer juntos o salpicão, a pizza, bebendo espumante, vendo o programa de Ano Novo na televisão portuguesa, conversando sobre tudo e nada.
Acho que acabámos com o espumante!
Tenho mais no carro! Vou buscar.
Não, eu vou junto!
Que ar tão fresco! exclamou Lídia, abrindo os braços ao céu estrelado, sob o clarão dos foguetes.
Do outro lado da rua, ouviam-se vozes e gargalhadas, e as luzes das janelas acendiam e apagavam, como sinais secretos.
Sabe, Lídia? Case comigo! Não já… lá para o ano que vem! Tem de me conhecer melhor, claro.
Está a brincar, espero…
Não acredite nisso!
Nesse caso, prometo pensar.
Podemos continuar a festa?
Lídia acenou, satisfeita; Rafael tirou mais uma garrafa do carro e juntos desapareceram na noite lisboeta, prontos a festejar até ao amanhecer.






