Sabes aquela história que só podia acontecer aqui num bairro português? Olha, vou-te contar como a Madalena acabou por ser mãe, tudo por causa do seu coração gigante
Então, a Madalena tinha acabado de chegar ao prédio, cansada do trabalho, e encontra uma caixa ao pé da porta do apartamento dela. Olha para aquilo, sem perceber se era alguma encomenda, mas quando espreita lá dentro, dá de caras com um cãozinho e um gato, todos encolhidos, com um ar de quem não percebe nada do que lhes está a acontecer e a tremer de medo.
Quem são vocês, hein? pergunta baixinho, um pouco a medo, como se os bichos pudessem de repente responder-lhe.
Nisto abre-se a porta da vizinha do lado, a D. Carminho, que mete logo conversa, como é costume.
Ai Madaleninha, boa noite! Já viste esta desgraça? Olha que a D. Leonor do segundo andar morreu na semana passada, e a sobrinha dela não ficou com os animais
Já andou a perguntar pela vizinhança toda, mas ninguém os quis. Eu nem posso, que o meu Tobias não suporta outros gatos, e depois há quem tenha alergias Mas olha, tu e o Jorge não querem ficar com eles? Não têm filhos, são jovens, dão-se bem na vida
Mas nós nunca pensámos em ter animais, muito menos dois ficou logo sem saber o que responder, coitada.
Separá-los seria uma crueldade, habituaram-se um ao outro! Até dormiam sempre juntos, a D. Leonor passeava o cão e o gato também andava por aí, nem dão trabalho nenhum, acredita.
Anda lá, querida, pensa neles Quem sabe se vocês não lhes davam mesmo um bom lar? pedia a D. Carminho, com aquela voz doce.
E se não ficarmos? O que é que lhes vai acontecer? perguntou a Madalena, já a sentir o coração apertado.
Olha, ouvia-se que iam levá-los ao canil Até já cá puseram a caixa. A casa já está quase vendida, sabes, e aos novos donos não lhes interessa. E abanou a cabeça, pesarosa.
Nisto aparece o vizinho do terceiro andar que, ao ver a Madalena ali com a caixa, também mete conversa:
Não quer mesmo ficar com eles? São tão calmos, nem comem muito, já são velhotes É uma pena, porque ninguém os quer. Eu gostava, mas não posso. A senhora adorava-os
A Madalena, que já estava de lágrimas nos olhos, lá se rendeu:
Pronto, pronto tragam-nos cá para dentro. Não consigo imaginar que os levem para serem abatidos. Como se chamam? Só moramos aqui há dois anos, não conhecemos muito bem ninguém
O vizinho ficou mais contente e pôs a caixa no hall de entrada da Madalena. Deixou também uma nota de cinquenta euros e a trela do cão em cima da cómoda:
O cão chama-se Chico e o gato é o Gaspar. Obrigado a sério Olhe, isto é para as primeiras necessidades. Muito obrigado mesmo.
A Madalena fechou a porta, tirou o casaco e sentou-se ao lado dos novos amigos.
Então meninos, prontos para conhecerem o vosso novo lar? O Jorge vai apanhar um susto quando chegar Mas ele é um bom coração, logo aceita esta surpresa.
Não tenham medo, ninguém vos vai fazer mal aqui. Já andavam a falar em canil Nem pensar nisso!
O Gaspar percebeu logo, saiu devagar da caixa e foi explorar tudo muito curioso. O Chico ficou parado, parecia que nem respirava, só observava cada movimento da Madalena e do seu companheiro felino.
Ela foi à cozinha, abriu o frigorífico comida de cão ou gato, zero, claro. Então improvisou uma daquelas sopas de arroz com pedacinhos de frango, a pensar que, em desespero, servia para ambos.
Para surpresa dela, o Gaspar lá cheirou primeiro, mas depois atirou-se ao prato com satisfação. Ela chamou o Chico, que ficou a ver o gato comer com um ar tristíssimo, mas acabou por ganhar coragem e comeu também.
Quando o Jorge chegou do trabalho, ficou de boca aberta, claro. Mas acabaram os dois por combinar que iam tentar procurar alguém com casa maior, com jardim talvez, para dar uma nova família aos bichos.
A Madalena e o Jorge já estavam casados há quatro anos, a casa tinham-na comprado há só dois. Viviam bem, eram felizes juntos, discutiam pouco só lhes faltava mesmo algo, pois não conseguiam ter filhos.
Tu tão organizada, sempre a dizer que não querias animais dizia-lhe o Jorge, meio a rir.
Eu pensava que íamos ter um bebé Mas agora aparecem-me eles assim Achas que conseguia deixá-los ir para o canil? Não sou capaz e ela, já com os olhos molhados.
Olha, eu também gosto de animais. Amanhã pergunto no trabalho, pode ser que alguém queira. Mas se não, cá ficam e deu-lhe um abraço apertado.
E foi daí em diante que tudo mudou lá na casa. O Chico e o Gaspar adaptaram-se num instante. Ainda por cima, moravam no andar de baixo de onde vivia a D. Leonor, o prédio era igual, o pátio o mesmo, nem estranharam muito.
Já parecem que sempre viveram cá connosco! dizia a Madalena, cheia de mimo.
Ela passou a levar o Chico à rua três vezes por dia, e o Gaspar já fazia as suas aventuras pelo quintal, entrando e saindo pela janela, à vontade dele.
A D. Carminho ficou radiante de ver a Madalena adotar os bichos, sempre que podia levava uns ossinhos de sopa para o Chico, ou restinhos de arroz para o Gaspar.
À noite era uma animação riam-se, viam o Gaspar divertir-se com bolas de papel e o Chico a ressonar na nova caminha, todo feliz.
Dormiam os dois juntos, claro, inseparáveis. E a Madalena e o Jorge rapidamente perceberam que nunca conseguiriam separá-los, nem muito menos livrar-se deles.
A mãe da Madalena, que morava ali ao lado, começou a passar lá aos sábados. Também acabou rendida ao charme dos dois, mesmo tendo estranhado tanto presente no início.
Eu até levava o Gaspar, só que moro no terceiro andar e ele gosta é de andar na rua dizia à filha.
A Madalena reagiu logo:
Nem penses, mãe! Vais antes é ficar de babá dos dois quando formos passear ou nas férias! Vais regar as plantas e olhar por esta bicharada.
Chegado o Verão, foram passar uma semana ao Algarve e a mãe tomou conta dos peludos. A Madalena telefonava todos os dias, aflita a perguntar pelos filhos.
Está tudo bem, filha! Comem, dormem, passeamos pelo pátio, nem imaginas como estão contentes! respondia-lhe a mãe, divertida.
Quando regressaram, o Chico quase teve um chilique de tanta festa, saltos, latidos, lambidelas. O Gaspar, mais calmo, enroscou-se nas pernas do Jorge a ronronar.
Vês, Madalena? Os nossos animais adoram-nos! ria-se o Jorge. E ela respondia, já com o Chico ao colo, pronta para lhes dar o jantar.
E foi assim, sem dar conta, que a rotina da Madalena mudou. Passou a levantar-se cedo para passear o Chico, alimentar a bicharada, e ia para o trabalho com outro ânimo.
Alguns meses depois, com voz trémula, disse ao Jorge que finalmente estava grávida. Foi uma alegria sem tamanho lá em casa.
A mãe da Madalena dizia-lhe:
Não foi por acaso que vieram ter contigo o Chico e o Gaspar. Deus escolheu-te para testares o teu coração, filha. E viu que eras merecedora. Agora prepara-te para a maternidade!
Acho que tens razão, mãe. Não acreditava nessas coisas, mas agora pelo menos já me ando a treinar como mãe: entre limpar, cuidar, ensinar Eles são mesmo como filhos!
Queres que fique com eles quando nascer o bebé? perguntou-lhe a mãe.
Não, mãe, vamos dar conta do recado. Só precisas de vir cá para passear o neto e de vez em quando fazer-lhe companhia. Estes ficam com a nossa família.
Vieram os meses bonitos da gravidez, o bebé nasceu saudável e veio trazer ainda mais alegria aquela casa. O Chico, pela idade, nem ladra muito. O Gaspar, todo independente, passava as tardes de Verão no jardim ou em cima da figueira.
Assim se foi formando a família completa da Madalena e do Jorge. Agora até as vizinhas gabam e contam a toda a rua como a Madalena se tornou mãe graças ao seu bom coração.
A D. Carminho, sempre pronta para a conversa, dizia mesmo: O universo retribui! Quem é bom, recebe coisas boas!
E tu, achas que a D. Carminho tem razão? O que farias tu no lugar da Madalena? Escolhe o coração ou a razão? Quero saber diz-me tudo!







