Gotas de Chuva

Gota a gota

E não é nada feia! É bonita! Martim, diz-lhes tu!

A Leninha apertava ao peito uma gata toda arranhada, magra como um palito, e chorava tanto que os vizinhos, reunidos à volta, tapavam os ouvidos.

Voz grossa e poderosa, como todos da sua família numerosa, Leonor sabia fazer-se ouvir se não era em belas palavras, pelo menos em volume. Tinha só cinco anos, mas já era a campeã do bairro quando se tratava de berrar até fazer as janelas tremerem.

Todos já estavam habituados a Leonor e ao seu monte de irmãos e irmãs. Ninguém ligava grande coisa ao que faziam, percebendo muito bem que a Teresa, mãe deles, nem sempre conseguia meter ordem naquela multidão. Trabalhava em horários tão estranhos que outra qualquer, no lugar dela, já teria deitado a toalha ao chão há muito.

Aquele portão, bonito, de ferro forjado, separava o velho solar, há muito convertido em prédio de apartamentos, da rua e era motivo de orgulho para toda a vizinhança. Todos os anos, Teresa, junto dos outros moradores, pintava-o na Primavera e, por isso, sentia-se de pleno direito a pendurar-se nele sempre que lhe apetecesse.

Mas desse privilégio ela ainda abdicava, suspirando:

Somos todas cavalos! Lindo, fortes, inteligentes. Mas vai lá saber O que é teu, ninguém leva nem carrega por ti. Só tu mesma! E só eu, meninas, sou uma pônei imortal. Corro em círculo, sem saber para onde. Para quê, já percebi. Mas para onde… Alguém te empurra, tu vais em frente, sonhas só com chegar à noite: todos na cama, lavados, bem comidos e felizes. E no lava-loiças, em vez de louça suja, tudo limpo… Porque alguém já lavou. Estranho, é verdade, mas é esse o nome da felicidade…

Teresa sempre teve jeito para filosofias e ainda era bastante bonita. Mas quem repara numa mulher com seis filhos pequenos e quase sem ajuda? Já há muito que a Teresa tinha posto cruz sobre a vida amorosa. Bastava-lhe a lida e o tumulto diário da casa.

Ser mãe de seis não é brincadeira!

Ninguém a criticava; todos sabiam da história daquela família.

A Leonor, como outros três dos filhos da Teresa, eram de sangue, mas também filhos do coração.

Não, a Teresa não os foi buscar ao lar ou ao estado; não fez nenhum grande resgate. Seria capaz de tamanha missão? Talvez. Mas não naqueles tempos e, muito menos, sozinha. Tinha os seus próprios planos, e tornar-se mãe de meia dúzia estava longe, mesmo muito longe, da sua cabeça.

Mas a vida, como sabemos, gosta de nos baralhar as cartas. E, ao lançar-nos desafios de fé, coragem e coração, raramente nos pergunta a opinião.

Toma lá! Agora pensa! Quem és tu afinal?

Lá teve a Teresa de pensar, sim senhor. Mas no fundo, ela sabia já à partida a resposta.

Todos os filhos que Teresa criou eram seu legado.

E um legado, ou aceitas, ou não. Teresa sabia que, para ela, desistir era impossível. Afinal, não a tinham deixado sozinha? Então, porque havia ela de deixar outros entregues ao que o destino trouxera? Ainda por cima, eram família sua, mais do que ninguém.

Motivos não lhe faltavam. Se eram ou não válidos, pouco lhe interessava. Bastava-lhe tê-los.

A Teresinha cresceu nos anos 90.

A mãe era rainha das festas, alvo de inveja de todas as raparigas da vila pitoresca nos arredores de Lisboa. Imagina só! Mal tinha feito dezoito e já estava casada: vestido de sonho, marido empreendedor Assustava pensar nos negócios que mexiam pelas mãos dele.

Pais? Teresa não se lembrava nunca.

Quando os visitava, era com a avó, no cemitério local. Ali estava o jazigo, com as fotos lindas, que ela quando era miúda passava os dedos, contando baixinho à avó o que se passava e sobre o desenho elogiado pela professora, e o cachecol às riscas vermelhas e brancas que a avó tinha tricotado.

O que acontecera aos pais, Teresa só soube aos dezasseis anos:

Era bandido, aquilo do teu pai, menina. Foi cedo demais e levou a minha filha com ele. Falar mal dele é feio, mas não lhe perdoei nunca a perda da tua mãe. Chorei tanto! Pedi-lhe tantas vezes para não se envolver… Em vão! Não me ouvia, coitadinha Amava-o. E ele também a ela, enfim Dizem que no fim ainda se pôs à frente dela, quando vieram atrás dele. Tentou salvar a tua mãe Talvez amasse mesmo. Quem sabe? Pelo menos a ti te amou. Tu és a alegria que ficou da minha menina…

Foi então que Teresa percebeu quem eram aquelas pessoas estranhas que por vezes vinham lá a casa. Ficavam calados no corredor ou sentavam-se à cozinha com um chá entre as mãos, ouvindo a avó falar dos progressos na escola ou na música. Depois deixavam envelopes gordos e iam-se embora, sem nunca explicar nada.

A avó não recusava o dinheiro. Mas também não gastava punha de parte. Quando Teresa acabou o liceu, comprou um apartamento grande.

Toma, filha. Teu legado. Da tua mãe e do teu pai…

Mas Teresa não quis viver ali. Preferia a casa pequena da avó.

Mas porquê, Teresinha? Casa tão bonita! E mesmo no centro! Daí à escola é um minuto. Para o trabalho, nem pensar em transportes. Sais, caminhando cinco minutos, já lá estás! Porque é que teimas?

Não quero estar sem ti! Ou tu vens comigo, ou ficamos aqui!

A avó, hesitou, não queria largar a velhinha casa cheia das memórias da filha. Só aceitou quando apareceu a prima Paula.

Teresa, deixa-nos viver no teu apartamento. Por favor! Tenho dois filhos, tu nem lá moras. Está sempre vazio. E em troca, pago a renda; é uma ajuda para ti e para a avó. E se me deres morada, consigo pôr as crianças no infantário.

A Paula era despachada e ambiciosa, como a avó Teresa sempre dizia: capaz de cair nas boas graças de qualquer um.

Não a oiças, minha filha! É minha sobrinha, mas é mais fina que um alho. Mete-a fora!

Oh avó, mas ela tem filhos…

Então? É ela que deve cuidar deles ou sou eu? Eu cá preocupo-me é contigo!

Teresa escutava a avó, mas não conseguia afastar de si aqueles pequenos, Martim e Elisa, tão pequeninos e apegados a ela, que choramingavam quando a mãe os pedia para sair do seu quarto.

Vá lá! Limpa o ranho! A Teresa não é vossa ama!

Teresa afagava-lhes os cabelos e pensava: de que lhe serve a casa grande a ela sozinha, quando outros vivem apertados? Paula sempre insistia: são família, não se abandona quem é dos nossos.

Essa frase perseguia Teresa. Desde pequena, sempre ouvira a avó dizer: se o teu pai se tivesse portado com decência, a tua mãe ainda aqui estaria.

Isso doía-lhe, e tudo fazia para ouvir a avó dizer:

Muito bem, Teresinha! Assim é que se deve ser: com humanidade. Orgulho-me de ti. Estás a tornar-te gente!

Para Teresa, não havia maior elogio. E achava que com Paula devia agir igual. Mas aí, a avó surpreendeu-a.

Não é assim, Teresa! De todo!

Porquê? Não é justo que a Paula e os filhos debam andar de casa em casa, enquanto a minha está vazia?

É! Porque ela é ela! E porque já te esqueceste da história da raposa esperta e da casinha de gelo? Pois eu lembro-me bem!

Oh avó…

Basta! Não discutas. Paula não fica no teu apartamento, pronto! Ficamos nós lá.

Mas tu não querias mudar…

Agora vou ter de querer. Tens razão em parte. Negar ajuda à família não está certo. Mas dar-lhes tudo de mão beijada é tolice! A Paula é desenrascada! Há de arranjar tudo o que quer. Precisa é de tempo e uma vara de pescar não do peixe já servido. Percebes? Se lhe deres a casa agora, nunca mais a tiras de lá, nem vais querer tirar. Ficas sempre a dever-lhe e ela vai aproveitar-se disso, não hoje, mas um dia. Tem filhos? Tem. Quer viver bem e depressa. Acredita, dar demais não faz bem.

Porquê?

Porque se não tiver que lutar, não se esforça. Para quê? Já tem tudo na mão! E quando dás aquilo a que não é obrigada a ganhar, mais cedo ou mais tarde, há de queixar-se, nem que seja só por hábito. Olha, deixa-me tratar disto. Não te envolvas. A Paula que se chateie comigo. Tu só amas os miúdos dela. Isso é que importa!

Avó, a Paula ama os filhos!

Pois claro! Mas não faz mal que mais alguém os ame, pois não? Na vida, cada pinguinha de amor, mesmo mínima, é um tesouro, Teresa!

O tempo deu razão à avó.

Paula, quando a avó lhe recusou a casa grande, só suspirou.

Já sabia que não iam deixar a Teresa sem defesa.

Ias fazer-lhe mal, era?

Claro que não! Só me resta vocês…

Então mantém-te por perto que ajudamos e apoiamos, sabes isso.

Sei…

Olha, Paula, compreendo tudo: crianças, tua vida. Mas a Teresa é orfã. Se eu deixo que lhe façam mal, nunca terei descanso. O que eu diria à minha filha, quando a encontrasse? Não posso, não posso! Nem olhes assim. Podem não ficar ressentidas agora, mas lá mais à frente, oh se vão! Não dou a casa, só empresto a pequenina por agora. Dá para viver. O bairro é ótimo, não falta escola nem infantário. Que mais queres?

Obrigada! Pela franqueza e pela casa!

Tu és das nossas, Paula! Não esqueças!

Mudámo-nos, eu e a avó, e começámos a montar nova vida.

Mas o tempo corre, não espera por ninguém.

E eu só queria que a avó, finalmente, pudesse viver em paz. Mas o destino mandou outras contas.

A saúde da avó era cada vez mais frágil. Ia ao centro de saúde do outro lado da rua como quem vai trabalhar.

Quase me pagavam para lá ir, menina! ria ao folhear as receitas da médica.

Eu fazia questão de a acompanhar, ela recusava sempre.

Que eu sou inválida, não?! Vai tu à tua vida, menina. Consigo bem!

Como me arrependi de não ter insistido…

Uma queda banal Inverno, escorrega e cai; um golpe na cabeça, desmaiou. As pessoas, apressadas, passavam sem ligar a uma idosa caída junto ao passeio, já quase na relva.

Foi um taxista, acabara de deixar um cliente, que encontrou os contactos dela na carteira, chamou a ambulância e ligou-me. Mas já era tarde

A avó morreu no hospital, passadas vinte e quatro horas. Eu, agarrada à Paula, que correu logo, fiquei sentada no corredor, sem chão.

E agora, Paula? O que faço sem ela?

Achas que estás só? Nem penses nisso! Tens de acreditar! dizia a Paula, tão firme mas tão triste.

Os médicos evitavam o olhar. Paula percebeu logo: não havia esperança.

Teresa, a tua avó ia odiar ver-te assim!

O quê?

Essa tua choradeira! Ela era forte! E a ti educou para seres igual, não foi?

Foi…

Então limpa lá a cara. Por ela…

É o que vou fazer.

No dia seguinte, o mundo caiu de novo. Mas já não cheguei a tempo de evitar a perda; agora tinha que tomar conta de tudo.

E muita coisa mudou.

Surgiu o Hugo, com quem vivi quase cinco anos. Separámo-nos sem dramas, fiquei com dois filhos em casa, mas sem magoar o coração. Hugo era daqueles direitos, sem trapaças, coisa rara. Arranjou nova paixão, foi honesto, despediu-se sem mentiras.

Somos amigos, não somos, Tete? disse ele, enfiando roupa no saco, sem me olhar.

Pois somos, Hugo… Tu ouves-te? Não consegui zangar-me com ele, estava dorida, mas não zangada.

Havia razão? Por honestidade? Por ter outra? Ora, a vida é assim! Os filhos é que custam mais…

Não lhe disse mais nada. Ajudei a fazer as malas, disse-lhe adeus.

Depois fui ver os miúdos, liguei à Paula:

Vem cá…

A Paula, que continuava a morar no apartamento da avó, era chefe de equipa numa enfermaria. Ainda se preparava para ralhar, já quase deitada, mas ao ouvir-me, percebeu o desespero e só disse:

Já estou a caminho!

Meia hora depois, tinha-me nos braços, xingando os parentes do Hugo até à terceira geração.

Vá, deixa de chorar! Que se vá à vida! Tu és maluca por ele? Teresa! Tinha de ser, mais tarde ou mais cedo!

Porquê?! Em que é que falhei?!

Ai filha, não tem nada que ver contigo. Há homens assim, puro e simples! Perdoa a franqueza: cão é cão! Tanto lhe faz, tu ou outra. Há de abandonar também aquela outra. Olha, ao menos não virou costas aos miúdos! Aposto que vai ajudar sempre. Pode custar-te agora, mas é raro. O meu, vê lá, também me deixou, paga a pensão, mas nunca liga nem se importa. Sou mãe e pai E isto é justo?! Vê lá o Martim! Precisa de pai… Mas é como se nunca tivesse existido…

Paula, o que faço?

Não te zangues! Tudo se resolve. O tempo é que é preciso!

Vais-me dizer o cliché de que cura tudo?

Não digo. Não cura. É mentira. Mas há de chegar qualquer coisa nova, diferente, e acabar por ocupar o lugar daquela dor. Não desaparece, só se esconde. Ficas ocupada com outras dores.

Paula, és tão sábia…

Sabedoria que veio da tua avó! Ela é que sabia explicar a vida. Vês? Disse-te que ela não morria nunca vive enquanto a recordares… Eu a dizer-te coisas e ouço-a cá ao lado

Obrigada, avó… Puxo pela toalha já molhada de lágrimas e tento sorrir. Mas, porque é que dói tanto, Paula?

Isso é normal! Ela limpa-me o nariz e ri. Se não te doesse, aí é que estava mal!

E tinha razão. O tempo andou, e eu acalmei. Não havia tempo para sofrimento.

O Hugo nunca deixou de ver os filhos, levava-os nos fins de semana e tentava garantir que nada lhes faltava.

Por isso, quando ele me contou que ia ser pai novamente, já não me custou tanto.

Que bom…

Obrigado!

Pelo quê?!

Pela tua reação. És admirável, Teresa!

Obrigada! E consegui sorrir-lhe.

Depois dessa notícia veio outra.

Oh, Paula! Como assim?!

Que queres, mulher? Sabes como é! Já foste casada e tens dois filhos! Queres que te explique o resto? Ela tentou rir, mas os olhos estavam cheios de medo.

Tonta! Paula, e o pai?

Não interessa! Mal soube da gravidez, sumiu-se. Que vá à vida! Nem o consegui assustar direito!

Assustar com o quê?

Com isto! Vêm gémeos! Vais dizer-me tu o que fazer? Agora não sou enfermeira, sou só mulher. Vou ter mais dois, com nada para lhes dar E o Martim e a Elisa Como levantar isto tudo?

Ela foi à casa de banho chorar, e eu fiquei a olhar para as crianças, que vinham à cozinha devorar as bolachinhas.

Ei, malta! comandava o Martim. Cada um com a sua! Nada de ganância! Tia Teresa, estás triste? Toma uma bolacha! Ajuda.

Olhei para ele, pedaço do meu coração, e tomei a decisão que muita gente diria insana.

Perdeste a cabeça! a Paula tremia com a escritura na mão. Não posso aceitar…

Claro que podes! Olhei para o notário e sorri. É justo, Paula. A minha avó compreenderia. Os teus filhos são incríveis. Que fiquem com uma casa. Por ora, mais tarde logo se vê.

A casa da avó passou para o nome da Paula e aquela família ficou à espera dos gémeos.

A Leonor e a Maria nasceram certinhas. Minúsculas, logo fizeram saber ao mundo que tinham chegado e eram para ser respeitadas.

Meninas de pulmão forte! Que nomes vai escolher, mãe?

Uma será Leonor, como a mãe da minha tia e a outra será Maria, pela minha irmã, sem ela não existiam.

Da maternidade, Paula saiu recebida pelas crianças e por mim.

Pois é! Somos mais uns quantos! Disse eu, espreitando para dentro dos mantos rendados do berço. Que bonitas!

Ser felizes, só isso… Paula abraçava os filhos, escondendo o medo que não confessava.

Se tivesse contado a verdade, e procurado o médico a tempo, tudo teria sido diferente.

Mas, que mãe pensa em si própria quando tem bebé?

Sentiu-se mal uma semana depois de sair da maternidade. Chamou o Martim, que já ia para a escola, apontou para os berços dos gémeos.

Olha por elas. Chamei a ambulância. Liga à Teresa. E não chores! Não assustes a Elisa… Ainda não…

Paula não resistiu.

O coração, que nunca reclamara, falhou.

Caiu-me todo o peso do mundo. Mas poderia decidir de outra forma?

Só tem seis filhos, e os outros ainda são seus! resmungava a assistente social. Isto é de mais…

Não discuti. Só sabia que entregar o Martim, a Elisa e as gémeas ao Estado ou a estranhos era impossível. Sobre cada escolha, temos de responder. Foi assim que a avó me ensinou.

E sendo assim, ficou decidido: todos juntos, sempre!

O Hugo ajudou. Arranjou advogada, tratou dos papéis. Ficou com as crianças quando eu andava pelos serviços, a provar que dava conta.

E a tua mulher, não se importa?

Não. É mãe também. E percebe uma coisa.

Que coisa?

Que eu não volto para ti. Certo?

Certo…

Pronto, então ela não se rala. Teresa, tens a certeza?

De quê?

Seis é muita fruta…

Confesso, Hugo… também estou cheia de medo! Mas não há alternativa. São todos meus. Como é que divido, como é que dispenso?

Tens medo de quê?

Achas que não é de mais? E se eu não conseguir? Estou sozinha…

Não estás. Se quiseres, ajudo. Tenho essa dívida para contigo, lembras-te? Ele enxugava-me as lágrimas. Não chores! Vamos dar conta. E sabes, Teresa?

O quê?

Melhor mulher não há! Nem pessoa igual! Tu és única! Vais conseguir, acredita! Os outros não sei… tu, sim!

Que Deus te ouça, Hugo.

Ouve, ouve. E sabe tudo. Não te esqueças. Está lá a tua avó! E se tiver dúvidas, ela explica tudo!

Ah, isso é verdade… sorri, pela primeira vez depois da Paula morrer.

O resto o resto foi duro.

Aguentei-me, mas havia noites em que desabava, como em criança, de cabeça na almofada para não acordar ninguém.

Avó, ajuda-me. Como faço agora? Tu sabias todas as respostas… Dá-me uma pista…

E a memória trazia-me recordações, uma solução, uma lembrança, um recado subliminar, e eu sentia-me mais calma, pronta a avançar. Nem sempre acertava, mas os miúdos iam crescendo. Para eles, eu era o porto seguro, a mãe da vida e do coração. Sabiam que, acontecesse o que acontecesse, era a mim que deviam correr. Eu ia sempre entender, ajudar, perdoar se fosse caso disso, nunca ferir de propósito.

Agora, a Leonor segurava a gata magra, abanando a cabeça para o protesto dos vizinhos:

A Teresa vai pôr-te na rua com essa gata. Vê como está suja! E parece ter sarna! Deixa-a!

Não! a Leonor mirou o irmão mais velho, depois a porta do prédio.

Nesse dia, ia levar as crianças ao Jardim Zoológico. Acordei cedo, fiz o pequeno-almoço, levantei a família e, em menos de uma hora, pus tudo pronto. Só precisei de uns minutos mais, pedi ao Martim para olhar pelos mais pequenos no pátio.

Anda, Martim. Leva os pequenos ao baloiço. Dou um instante. Onde pus a caixa dos ténis velhos?

Vê no armário da Elisa! Ela arrumou tudo! Vamos para o pátio! O Martim empurrou as irmãs para fora e parou. Mãe, vê lá esse olho, pinta o outro igual, se não, parece estranho. E não tenhas pressa! Fico de olho neles.

Procurei pelo apartamento, achei os ténis, arranjei o outro olho e até passei batom coisa que raramente fazia ao domingo. Para trabalhar, sim, mas ao fim-de-semana, nem tanto.

Nesse dia, olhei-me ao espelho e pensei: não é justo. Tenho uma data de filhos e preocupações, mas não terei também direito a sentir-me bem e arranjada, nem que seja só para passear com os miúdos? Para quê procurar problemas quando se pode buscar alegria?

Dei por mim a entender: podia passar o tempo todo às voltas atrás dos miúdos, ralhando por cada nódoa, cada t-shirt suja de chocolate.

Ou podia ser diferente.

Comprei algodão doce para todos, mais um gelado, e proclamei:

Eu vou espreitar o elefante! Quem vem comigo?

E lembrei-me: quando era miúda, ao parque ia com a avó, bebia compota de casa e comia sandes na beira do jardim dos elefantes. Dava-lhe a mão e sonhava que aquele dia nunca acabava.

Agora, sou eu a cozinhar as compotas, encher o saco de sandes. Os meus filhos um dia farão o mesmo. É o que está certo.

Olhei-me ao espelho mais uma vez, peguei na mochila e saí.

A vizinha, a subir, soltou uma risada.

Vai, Teresa! Tens surpresa à tua espera!

A Leonor correu para mim, erguendo o tesouro.

Mãe! Viste? É mesmo bonita, não é?

E o que podia eu responder?

Nada.

Segurei a gata pelo cachaço, observei-a, suspirei fundo.

O Jardim Zoológico fica para depois. Agora temos uma tigresa em casa. Martim, onde é a clínica veterinária mais perto? Vamos!

E ia ser um grande dia. Mesmo sem Jardim Zoológico, não faltaria animação.

E aquela gata, magra e feiosa, que a Leonor levou a reboque para casa, há-de transformar-se em breve numa lindíssima, mimada, felina, a espalhar felicidade pela casa e a trazer mais uma gota de alegria e talvez um oceano de felicidade.

E ninguém se admirará. Nem eu, nem os miúdos. Porque para nós, é simples: onde há amor, nunca é de mais.

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