Herança de Bondade

Ó Leonor! Chegaste mesmo na altura certa! Acredita que já nem sei o que fazer!

A Leonor pousou o saco pesado das compras no banco do jardim à frente do prédio e inspirou fundo.

O que foi agora, senhora Verónica Almeida?

Calma, Leonor! Já sabes educação, sempre educação! Sobretudo quando falas com os mais velhos! Mesmo que sejam algo complicados.

É que toda a vizinhança conhecia bem a dona Verónica Almeida fama de refilona tinha ela, mas tudo com um ar de etiqueta e compostura, como só ela. Não havia senhora mais escandalosa no bairro mas escandalizava com polidez, como se dissesse bom dia, e, ainda assim, conseguia tirar qualquer um do sério.

Minha querida, não está a agir corretamente.

Eu não sou sua querida, senhora dona Verónica!

Que chatice! No meu tempo, era um elogio ser-se tratada por querida. Mas pronto, tempos modernos… Um desgosto! Só lhe peço: limpe o cocó do seu cãozinho, por favor.

E se não o fizer?

Então, saiba que todo o bairro irá saber desse seu pequeno deslize!

Os que pensavam que ela estava a falar da boca para fora aprendiam rapidamente que, com a senhora Verónica, o melhor era não arriscar. No dia seguinte, lá estavam as fotografias dos prevaricadores coladas nos postes, árvores ou placards: Não nos orgulhamos disto!. Seguia-se uma descrição detalhada da asneira cometida pelo infeliz. Era rara a rua do bairro sem uma dessas folhas A4 coladas. O neto do lado ensinou-a a usar a impressora, que estava sempre operacional. E como a pensão era muita razoável e os filhos ajudavam, comprava papel às resmas. Aquilo de fazer de fiscal era, para a Verónica, um autêntico dever cívico, e nem as multas que às vezes lhe saíam em tribunal lhe faziam grande mossa. Cumpria religiosamente as sessões, já era conhecida dos juízes uns por acharem-lhe graça, outros por puro fastio.

De vez em quando davam-lhe valor, principalmente quando depois de anos a batalhar, conseguiu que a junta de freguesia resolvesse finalmente o problema do esgoto já toda a gente dizia que era obra da senhora Verónica. O bairro, desde então, passou a respeitá-la: deixou de ser só a refilona e tornou-se quase uma instituição até os donos dos carros agradeceram, pois já podiam circular depois das chuvas sem receio da viatura virar submarino. E lá iam eles, acenando à pressa para a senhora Verónica, a temer secretamente que qualquer dia fossem eles a estampar-se nos papéis brancos das denúncias de boas maneiras.

Levavam puxões de orelhas dela os donos de cães despreocupados, mães distraídas que preferiam a cerveja no banco do jardim ao filho no baloiço, os caloteiros de pensões alimentícias, alcoólatras mais ou menos barulhentos e todos aqueles que preferiam viver à sua maneira, desrespeitando a comunidade.

Claro que nem todos a admiravam. Um dia, até a esperaram num beco depois de uma visita à irmã doente. Ela levou porrada, mas logo apareceu alguém e os ladrões fugiram. Não baixou os braços, antes pelo contrário: Se chegaram ao ponto de se chatearem assim comigo, é porque vale a pena!, dizia. Os hematomas passaram, mas a perna ficou a recordar-lhe o episódio sempre que o tempo mudava.

Ainda assim, sacava o melhor da situação:

Olha, ao menos já sei quando é dia de levar chapéu de chuva! Uma delícia, não é?

Os agressores não demoraram a ser apanhados toda a polícia da zona conhecia a figura. Aliás, depois disso, Verónica ganhara bons contactos na PSP e até um inspetor ao dispor, que não se importava de ser importunado de vez em quando.

Oh Tiago, meu querido, preciso mesmo de ti agora! ligava ela ao agente.

O Tiago, um verdadeiro armário de bigode farto que, por coincidência, era vizinho de porta da senhora Verónica desde que comprou casa no prédio, não recusava os apelos dela. Afinal, foi graças àquela senhora magra, de olhos vivos e língua afiada, que conseguiu finalmente convencer a mãe a não aparecer em casa dele todos os dias.

Com licença, minha senhora, já educou o Tiago assim tão mal?

Olhe que eu fui uma mãe exemplar!

Não duvido nada! Mas convenhamos: se ele foi tão bem educado, porque lhe há de limpar ainda o nariz? Não será hora de o deixar ser homem?

Ela atarantada, sem saber o que responder, e desde então as visitas reduziram-se o sossego familiar agradeceu, e a gratidão para com a senhora Verónica nunca teve preço.

A Leonor, assistente social de profissão, já sabia estas histórias todas de cor por isso mesmo até ficou surpreendida, numa tarde, ao ver aquela mulher temida do bairro a chorar no banco.

Está a chorar, senhora Verónica?

Oh Leonor a sua protegida, a senhora Maria Fernanda

O que é que lhe aconteceu?! Leonor olhou instintivamente para a janela do segundo andar.

Está lá agora o Tiago. Já não está entre nós, a Fernanda…

Leonor deixou-se cair quase ao lado do banco, sem forças.

Que dia! Logo de manhã o esgoto rebentara perto de casa e atrasara os miúdos para a escola. Depois, uma valente discussão com o marido, o Pedro. Não lhe podia dizer que não gostava dele bem pelo contrário, era um bom homem e um excelente pai, todos lhe diziam o mesmo. Só que, às vezes, tinha que lhe puxar as orelhas como pela lâmpada trocada, que ela própria acabaria por substituir, se não fosse por andar a pedir uma semana seguida e ninguém fazer caso.

Enfim, dramas de quem vive junto. E, depois, isto Ontem mesmo, a Fernanda pediu-lhe ração para os gatos, e hoje nada.

O choro veio em ondas, sem conseguir controlar.

Minha querida Não faça assim, tome um lenço!

O lenço branco foi-lhe pousado no colo como o que a Maria Fernanda lhe ofereceu no último Natal.

Para si, Leonor! Um presente simples com a minha sincera gratidão!

Que coisa bonita! É bordado?

Com as suas iniciais, Leonor.

Que pena, tenho pena de o usar até… Um lenço tão bonito merecia ser guardado!

Leonor, é só um lenço! Não posso oferecer mais nada a reforma já não chega para tudo.

A minha avó dizia que o melhor presente é ser lembrado

Era sábia, a sua avó. Ainda está viva?

Não já só tenho o meu Pedro e os miúdos. Não ficou ninguém, da minha família.

É uma pena! Não leve a mal fico triste, não é por ser casada e mãe, é que nunca tive família minha. Os parentes são muitos, todos acham que sabem como eu devia viver. Irmãs, irmãos, tios, pais… Sempre quisemos ajudar mas, no fim, fiquei sozinha. Ora não gostavam das minhas escolhas, ora achavam que eu não era capaz de decidir e pronto, cá estou. Claro que também tenho culpa. Mas isto de estar só, Leonor Não desejo a ninguém! Se não fossem os meus gatos, nem sei para que cá continuava. A minha sobrinha até já me sugeriu que fosse de vez, para ela ficar com o apartamento vou-te dizer…

E porque não ficou com ela? Assim tinha companhia!

Não percebeu, Leonor. Não era só para ficar com ela era para lhe dar a casa.

Como assim?!

Pois, acham que a casa é para os novos, para estudar, casar, ter filhos E eu? Ia para a minha irmã. Mas não por muito tempo: já me arranjou vaga num lar de idosos! Nem sei o que dizer

Decidir assim a vida de outra pessoa ainda fosse uma criança!

Pois, Leonor dizem logo que eu já não penso direito. Pronto.

Com família assim, não são precisos inimigos…

Mas são meus, Leonor. E gosto deles, mesmo assim. Já deixei a casa de herança dividida pelos sobrinhos, mas, no fundo, acho que não lhes vai servir. Se deixo só para um, tenho a consciência pesada. Mas ao pensar no que vão fazer aos meus gatos todos os odeiam! Só falam em tirá-los logo dali quando eu morrer. Quem quer saber de gatos…?

Isso não pode ser! Eu fico com eles! Faça um testamento a deixá-los para mim!

Achas possível?!

Claro! Eles são considerados bem material, não são? Então, pode deixar-me os gatos no testamento. Assim eles ficam em segurança, aconteça o que acontecer.

Leonor, és mesmo um anjo Nunca me teria lembrado! Mas será um trabalho…

Trabalho? De maneira nenhuma como se diz, Casa sem gato é triste? e fez festas ao malandreco Pança, enquanto Sacarrabos, o outro gato, lhe pedia mimo.

O Pança já tinha uns bons dez anos, Sacarrabos era mais recente foi a própria Verónica que o achou, ainda minúsculo, à porta do supermercado:

Fernanda, sabes bem cuidar destas criaturinhas. Eu tenho alergias, não posso com eles em casa. Mas não podia deixar o bicho na rua

Verónica, aceito mas é a última vez. Já tenho o Pança, que já foi teu presente, chega de gatos a reforma não estica.

Ouvido, Fernanda! Obrigada

O que Verónica e Fernanda não sabiam era que Sacarrabos, afinal, não era macho apenas uns dias antes daquela fatídica manhã, Fernanda acordou com a nova mãe a apresentar-lhe umas criaturinhas minúsculas na cama.

Sacarrab… não! Sacarrabinha Olha-me só estes bebés lindos! Muito bem, menina. E tu, Pança, vê lá se ajudas

Pança, mais esperto do que parecia, até se agarrou ao papel de pai. Leonor ria-se sempre:

Achávamos que sabíamos tudo e nem vimos que era gata!

Só pensei que andava a comer melhor e riam juntas. E agora, Leonor, o que faço com os gatinhos?

Eu ajudo-te! Tenho espaço no quintal. E se for preciso, pedimos à Verónica. Ela sempre resolve tudo!

Mas agora, de repente, lembrando-se dos gatinhos, Leonor saltou do banco.

Que estou eu aqui a fazer? Os bichos estão com fome!

Nesse mesmo dia, Leonor tirou a sua herança: Tiago ajudou a levar o cesto para casa dela.

Deixa-me ficar com um pediu o Tiago. Os meus filhos andam a pedir há anos, mas a minha mãe nunca deixou bichos em casa. Agora já posso, e a Fernanda era tão boa pessoa

Claro! Qual queres? Leonor destapou o cesto.

Esse ruivinho!

Está prometido! Quando estiver crescido, é teu.

Obrigado!

Não tem de quê E os parentes dela?

Ah, já apareceram: disseram que não têm disponibilidade…

Leonor ficou de boca aberta.

Pois então, trato eu de tudo! Ela era minha amiga, cinco anos de convívio valem muito. Às vezes um dia chega para ver quem é quem. E às vezes não chega uma vida Ela merece algo digno.

O Tiago sorriu, tocou-lhe ligeiro no ombro:

Estás a falar como uma certa senhora Verónica Mas eu ajudo!

Obrigada respondeu Leonor.

Já sozinha, entrou no jardim da casa que herdara dos pais, mesmo no centro da cidade, herança dos avós, construída pedra a pedra. Ali sempre se sentiu aconchegada, porque, como lhe diziam, o que faz um lar não são as paredes mas quem lá vive. Por isso, Leonor não percebia como havia gente capaz de desprezar a família ou não cuidar dos velhos.

Ao entrar em casa, o cheiro a comida enchia o ar e ouvia os miúdos na cozinha. O Pedro foi ao corredor:

Leonor, fica descansada! Já mudei a lâmpada e consertei a torneira do jardim Agora as tuas tulipas vão agradecer, vais regá-las à vontade. E vá, não chores, mulher!

Não choro… só um bocadinho e limpava as lágrimas.

E isso? pegou ele no cesto. Pesado!

São gatos. voltou-se para ele e suspirou.

Mesmo gatos? Deixa-me ver!

Vem ver! chamou os miúdos, que apareceram logo a gritar de alegria.

Baixinho! ralhou Pedro.

Os gatos acomodaram-se em dois dias. O Pança até caçava ratos para agradecer a boleia, e ia visitar a casa da dona antiga. Ficava no muro a olhar para a janela, à espera de uma resposta, mas sabia que quem cuidava dele não mais voltaria. Os vizinhos não se queixavam todos entendiam que ele estava a cumprir o luto.

Às vezes passava horas assim, e voltava tarde, a miar à porta até Leonor resmungar, meio a dormir:

Ó artista! Amanhã trabalho

O Pança, satisfeito, dava uma volta pela casa, de inspecção, verificava os miúdos e o Pedro, deitava-se ao pé da Sacarrabinha e dos gatinhos e adormecia.

Maria Fernanda teve direito a uma despedida digna; Leonor ficou surpreendida com a quantidade de gente. Viu ex-alunos ela dava aulas de física, depois fazia explicações e tinha-se tornado uma professora querida na cidade, até os olhos começarem a falhar.

Vieram então os nove dias, quarenta. Cada noite Leonor acordava para deixar entrar o Pança e pensava sobre a vida, sobre a morte já desconfiava o porquê dos nervos, das tonturas de manhã, mas por enquanto era segredo até para o Pedro. Fazia festas na Sacarrabinha, e sussurrava:

Vou ser mãe outra vez medo tenho, é certo. Já passaram uns anos desde o último, mas achas que me vou safar?

Sacarrabinha ronronava tão alto que o Pança vinha logo para ver o que se passava Leonor sorria.

Pois claro, não me faltam ajudantes. Haveremos de nos safar!

No dia em que ia contar ao Pedro a novidade, algo a deixou ainda mais convencida que nada na vida é por acaso.

O Pança desapareceu dois dias. Nunca ficava assim: Leonor andava por todo lado, nem o Tiago ou a dona Verónica o tinham visto.

Vai dormir, Leonor. Há-de aparecer!

Não consigo! Vão chover, disseram; apanha-se todo molhado Onde se meteu ele?

Sentou-se na cadeira e adormeceu ali mesmo, nem ouviu o Pança a tentar entrar.

Mas lá apareceu andava a miar, a correr à volta da casa feito louco. Como estava frio, as janelas estavam fechadas, só a Sacarrabinha ouviu e acordou, foi à Leonor, arranhou-lhe a perna.

Ai! Sacarrabinha, o que foi?! Porquê?!

Só então Leonor ouviu o miar do Pança, sentiu cheiro a fumo e aos gritos chamou toda a gente.

Pedro! Meninos! Estamos a arder!

O resto foi um corre-corre: Leonor pegou no mais pequeno, empurrou o outro para o Pedro e agarrou no cesto dos gatinhos. Os vizinhos chamaram os bombeiros, que conseguiram apagar o fogo. No fim, lá estavam eles, família e gatos, todos juntos.

Pronto, acabou! Casa salva! Ainda bem que acordaram!

Leonor, abraçando a gata, agradeceu em voz baixa.

O Pedro, deixando os miúdos irem agradecer aos bombeiros, abraçou-a:

Estás bem?

Estou…

Mesmo? pousou-lhe a mão na barriga e ela só não desatou a chorar porque não lhe restava energia.

Já sabias?

Claro que sim! A nossa família está a crescer. Somos para aí cinco, seis com os gatos! Achas que não dou conta?

Leonor sorriu e, antes de entrar em casa, olhou para o céu escuro:

Obrigada, dona Maria Fernanda, pelo seu carinho. ObrigadaNaquela noite, enquanto todos dormiam, Leonor saiu ao jardim. O cheiro a terra molhada misturava-se com o ar fresco; entre as sombras, Sacarrabinha deslizava como quem vigia mundos misteriosos. Pança, enroscado no degrau da porta, mal abriu um olho ao vê-la passar.

Olhou para a casa, agora marcada pelas cicatrizes do fogo, mas ainda de pé, cheia de vida, de calor. Pensou na gentileza repentina do Pedro, nos filhos que riam na sala sem se darem conta do susto que tinham apanhado, no ronronar dos gatos que era afinal o fio mais forte da memória da Fernanda. Sentiu a pequena vida crescer dentro dela uma esperança miúda e vibrante.

No céu, a primeira estrela brilhou entre as nuvens dissipadas. Leonor fechou os olhos, agradeceu em silêncio e, por um instante, pareceu-lhe ouvir entre o farfalhar das folhas a voz da Fernanda, doce, sábia, como quem acarinha sem se mostrar:

Cuida deles, Leonor. Sempre.

Sorriu largo, sentindo-se menos só. Voltou devagar a casa, com Pança na dianteira e Sacarrabinha a seguir, como sentinelas discretas da felicidade. Naquele lar improvável, entre fios de gatos e gente de todas as formas, Leonor percebeu: havia muito de vida naquilo a que chamamos família. Tanto para perder, sim mas tanto, tanto para ganhar.

E, por tantas noites depois, enquanto os gatinhos exploravam o jardim e os filhos inventavam jogos sob as tulipas a florescer, era sempre Pança a vigiar a porta. Como a dizer: aqui, ninguém fica sozinho.

E nunca mais ficou.

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