Na Av. da Liberdade, dei comigo a ver, por mero acaso, a minha filha Mafalda e o meu netinho Tiaguinho, ambos de roupa que, francamente, já viu melhores dias, a pedirem esmola: Filhinha, e a casa e o dinheiro que vos dei?
O marido, com a preciosa ajuda da sogra, agarrou-se a tudo deles e despachou-os rua fora sem pena. O que eu fiz para pôr essa gente na linha deixou toda a gente de boca aberta
Ora então, lá ia eu pela Baixa, e apanho vermelho no semáforo. Saía do hospital, a cabeça a zunir, as ideias todas baralhadas. Só queria chegar à minha santa terrinha e não ouvir falar de dramas.
Até que os meus olhos tropeçaram numa rapariga entre os carros. Ia com a mão estendida e o pequeno agarrado ao peito. Era uma daquelas imagens que a malta vê todos os dias e já nem repara.
Mas algo me gelou por dentro: aquela era a minha Mafalda.
No início até achei que estava a ver mal. O rosto magrinho, cabelo todo despenteado, os pés descalços, o Tiaguinho numa daquelas mochilas de bebé e aquele olhar envergonhado, meio assustado, como se só faltasse abrir buraco no chão.
Baixei o vidro.
Mafalda
Ela estremeceu toda, olhou-me de repente e tentou esconder a cara.
Ó pai por favor segue caminho.
Já lá estava eu fora do carro.
Entra. Agora.
Atrás de mim metem a buzinar, mas nessa altura já só via a minha filha e o meu neto, vermelho que nem um tomate do calor e da choradeira.
Fomos andando. Liguei o ar condicionado, estive calado uns segundos, mas não aguentei muito.
Então e a casa? E o carro, que demos aos dois? E o dinheiro das transferências? Como é que vais parar à rua? E o senhor teu marido?
Primeiro, silêncio. Depois vi-lhe cair uma lágrima pela cara.
Lá na Av. da Liberdade dei de caras com a minha filha e o neto, esfarrapados, a pedirem trocos: Filhinha, e a casa e o dinheiro que vos dei?
O Eduardo e a mãe dele ficaram com tudo. Casa, carro, dinheiro. Uma bela manhã, correram connosco. Disseram que se eu levantasse ondas, ainda ficava sem o Tiago.
Estacionei o carro à beira da estrada e virei-me para ela. Mafalda ficou toda encolhida, à espera de ouvir um sermão. Aposto que pensava: Lá vem o eu avisei-te do costume.
Mas só lhe peguei na mão fria e leve que até fazia impressão.
Não chores, Mafalda. Eu cá trato deles.
O que fiz a seguir fez cair o queixo a toda a gente Continua nos comentários
Não trouxe a Mafalda logo para casa. Fui com ela à polícia.
Ela ficou logo a tremer.
Pai, não Eles disseram que não se prova nada
Olhei de frente e disse-lhe, numa calma de quem já viu tudo:
Prova, sim. Aquela casa é minha, lembras-te?
Fomos juntos à esquadra. Depois, seguimos com os polícias para aquela casa sim, aquela mesmo que eu dei à Mafalda, onde mais tarde a enxotaram, ela e o bebé.
Abre a porta o Eduardo. Quando vê polícia, fica branco como farinha. A sogra desata aos gritos: que aquilo é tudo dela, que está tudo legal, que a nora é que é ingrata.
Eu, calminho, saco dos documentos.
Na mesma Av. da Liberdade vi a minha filha e neto na miséria: Filhinha, e a casa e o dinheiro que vos dei?
Estas pessoas estão a ocupar a minha casa ilegalmente. O dinheiro que transferi foi desviado. O carro, em nome da minha filha, ficou-lhes na posse à força.
A sala ficou sepulcral.
Os polícias fizeram umas perguntinhas, foram ligar umas pontas, passados dez minutos o Eduardo já cozinhava com as pulseiras de aço. A sogra, essa, só faltou subir pelas paredes. Mas também foi de cana.
Foram levados dali mesmo sem direito a café sequer.
Devolveram tudo à Mafalda: casa, carro, dinheiro. Tudo limpinho e assinado.
Olhei para ela: ali estava, com o Tiaguinho ao colo, e pela primeira vez em muito tempo vi-lhe um sorriso.
Ainda tratei de mais qualquer coisa: mexi uns cordelinhos para que não arquivassem o disparate todo. Que ameaças, roubos e pôr mãe e bebé na rua não fossem arrumados à conta de tenho cá em casa, resolvo em casa.
Vou fazer tudo para que sintam o peso da justiça. Ora, batoteiros em Portugal, só com favas contadas!







