Depois de alguns encontros, a mulher de 45 anos convidoume para casa. Durante o jantar, arrependime de estar no apartamento dela não estava nem preparado para isso, nem com o molho de bacalhau.
Cheguei à casa da Filomena com uma garrafa de vinho e com um humor tão infantil que até eu próprio já me envergonhava. Tenho 48 anos, já devia estar mais sábio, perceber os sinais, sentir as pessoas e não construir castelos de areia depois de duas ou três conversas. Mas, como descobri, o Rui ainda tem um lado romântico e um lado pateta. Por vezes, esses lados coincidem.
Nós conhecênosmos num site de encontros há um mês. Primeiro trocámos mensagens, depois fomos duas vezes a cafés. Ela gostoume. Não era mentira. Sorriam calorosamente, escutavam com atenção, faziam piadas sem aquelas interrogações que parecem um holofote: Temes apartamento próprio? Onde está a exesposa? Recebes pensão alimentícia? Planos para a reforma?
Nos primeiros encontros tudo era fácil. Passeávamos, tomávamos um café, falávamos de filmes, de trabalho, de como, na nossa idade, os encontros já não são românticos, mas mais entrevistas com um toque de esperança.
Rimos. Parecia que nos entendíamos.
Então, ela convidoume para a sua casa.
Disse simplesmente:
Vem sábado. Vamos ficar. Eu preparo alguma coisa.
Eu, claro, não ouvi alguma coisa, mas tudo o que um homem quer ouvir. Já imaginei três vezes o cenário: o silêncio confortável, o vinho, a conversa na cozinha, talvez algo a mais. Até passei a ferro a camisa. Para mim, aquilo já era quase um sinal de intenções sérias.
Comprei uma garrafa de vinho tinto. Demorei a escolher, pareci um sommelier num supermercado de província. Não o mais barato, mas também não tão caro a ponto de olhar a conta e lamentar os sentimentos.
Cheguei por volta das sete.
Filomena abriu a porta quase que imediatamente, como se estivesse à porta à espera. Vestia um vestido arrumado, cabelo impecável, maquiagem. Tudo lindo, talvez demasiado lindo para um simples vamos conversar.
Entrei e percebi que o apartamento estava preparado como se esperassem uma inspeção da inspeção sanitária, da mãe da inspectora e do presidente da empresa de gestão.
O chão brilhava, de brilho mesmo. Tirei os sapatos, sentindome culpado por poder deixar marcas de masculinidade inadequada. O hall exalava limpeza, perfume e comida. E, claro, havia muita comida.
Cheguei à cozinha e fiquei pasmo.
Na mesa havia salada. Depois outra salada. Prato quente em forma. Uma travessa de sanduíches. Petiscos. Uns pastéis de carne. E, pasme, sopa. Sopa, entende? para um jantar romântico.
Olhei tudo e bradei:
Filomena, esperas um regimento?
Ela riu, mas com um leve nervosismo.
Ah, deixa. Só queria alimentarte bem. Um homem tem de comer comida caseira.
Nesse momento, algo coçoume interiormente. Não doía, só coçava. A frase parecia inocente, mas trazia já um pequeno sino de alerta.
Ofereci-lhe o vinho.
Aqui está, trouxe.
Ela pegou a garrafa, olhoume e disse:
Obrigada. Também tenho.
Abriu um armário.
Lá estavam três garrafas.
Três.
Sentime como quem chega a um casamento com uma única rosa, quando já está tudo organizado para cem convidados.
Uau disse. Iremos celebrar alguma coisa grande?
Por que não? respondeu. Já é hora de conversar de verdade.
Essas palavras já agarraramme. Na verdade, mal nos víamos talvez duas ou três vezes. Sim, trocámos mensagens, foi agradável. Mas já conversar de verdade soou como se eu tivesse evitado uma reunião de família importante.
Sentámonos.
Ela começou a servirme comida. Nem sequer tive tempo de pedir vinho primeiro.
Experimenta esta salada, tem frango. Esta outra, com cogumelos. Em breve ponho o prato quente. Queres sopa?
Filomena, deixame
Não, sentate. Gosto de cuidar.
Ela servia como se eu tivesse atravessado a serra de Sintra a pé e agora a vida dependesse do próximo bocado de carne. O prato virou um mini armazém de alimentos.
Comi. Honestamente, tudo estava saboroso. Filomena cozinha bem. Mas sentiame desconfortável, não pela comida, mas por um contrato invisível que parecia já estar assinado, só não lembro quando.
Ela sentouse à minha frente, serviunos vinho, a ela e a mim.
Finalmente, não estamos num café, mas à portuguesa.
Sim, o teu apartamento está acolhedor respondi.
Era verdade. Acolhedor. Limpo. Bonito. Mas quase que demais, como se alguém tivesse inflado o conforto com uma bomba.
Filomena olhavame atentamente, não como uma mulher que gosta de um homem, mas como uma contabilista que examina um documento faltando assinatura.
Rui, eu estava a pensar em nós começou.
Assenti. O garfo ficou pesado na mão.
Em nós?
Claro. Não somos crianças. Não temos vinte anos para correr atrás de encontros.
Ali percebi que a noite estava a mudar de rumo. Eu esperava uma conversa leve, risos, lembraste daquele vizinho com a furadeira?. Em vez disso, era uma sessão de planejamento da minha futura vida.
Concordo que não somos crianças disse cautelosamente. Mas ainda estamos a conhecernos.
Ela franziu a testa.
O que me incomoda é o ainda. Quanto tempo ainda? Na nossa idade devemos saber o que queremos.
Quis dizer: Quero terminar a salada em paz, mas não consegui. A boa educação, à portuguesa.
Quero uma relação normal afirmei. Mas sinto que tudo deve avançar devagar.
Filomena reclinouse na cadeira.
Devagar como? Mais um ano a encontrarnos nos cafés?
Por que um ano?
Como assim? Os homens sempre dizem devagar. Depois desaparecem. Vens, sentas, vaite embora. E a mulher fica à espera.
Ela falava cada vez mais rápido. Eu percebia que aquele discurso não era improvisado. Era ensaiado, talvez até repetido perante o espelho, enquanto limpava a bancada reluzente.
Rui, não quero que esperes algo incerto disse. Mas só nos conhecemos há um mês.
Um mês basta para saber se és a pessoa certa.
Fiquei mudo.
Para ela, um mês era suficiente. Para mim, não. De repente, sentime culpado por não ter me apaixonado dentro do cronograma.
Ela empurrou outro prato em mim.
Come o quente antes de arrefecer.
Automaticamente, peguei o garfo. Enquanto mastigava batatas com carne, ela descrevia o meu futuro. Era como ser alimentado antes de assinar uma sentença.
Pensei disse Filomena que poderíamos ser diretos. Vives sozinho. Eu também. Temos casas. Mas o meu bairro é melhor, o caminho ao trabalho mais curto. Tem espaço suficiente.
Levantei os olhos.
Espaço para quê?
Ela olhoume como se eu fosse intencionalmente obtuso.
Para nós, Rui.
Nem o vinho bebi de imediato. Apenas segurei o copo.
Falas de viver juntos?
E o que te surpreende?
Tudo.
Ela sorriu.
Entendo.
Esse entendo não era compreensão, era ressentimento já vestindo um casaco e esperando na porta.
Rui, somos ainda pouco conhecidos.
Já disseste.
Porque é importante.
E eu não quero perder tempo. Não sou menina. Tenho quarenta e cinco. Quero família, normal. Um homem ao lado, jantar juntos, resolver coisas, ajudarnos.
As palavras eram normais, verdadeiras. Eu também não queria envelhecer sozinho com pizza congelada e a televisão a fazer barulho. Queria calor. Mas entre quero estar ao teu lado e na próxima semana vais ocupar a vaga de homem da minha vida há um abismo.
Tentei ser suave:
Entendote. Mas família não nasce à mesa do jantar.
Ela bateu o copo na mesa.
E como nasce? Por mensagens até de madrugada? Por caminhadas? Por esses veremos?
Percebi que vocês não se referia só a mim. Já estavam sentados ali todos os homens que a tinham desiludido: exmarido, cavalheiros do site, aquele que prometeu e desapareceu. E eles, invisíveis, comiam a sua salada enquanto eu devia responder.
Não sou eles disse baixinho.
E eu de onde sei?
Pergunta direta, desconfortável, mas honesta.
Olheia. Era bonita, cansada, composta e extremamente tensa, como se segurasse não um copo, mas a última esperança de arrumar a vida.
Sentira pena. Mas a pena não é boa base para um relacionamento. É como levar a mala ao elevador: ajuda a subir, mas não sustenta a casa.
De repente, levantouse.
Vou servir a sopa.
Rui, já não aguento.
Não, só um pouco.
Não precisa.
Ela ainda trouxe a sopa.
Aquela pequena decisão acabou por me derrubar mais do que a conversa sobre coabitação. Eu disse não precisa, mas ela não ouviu. Não porque fosse cruel, mas porque já tinha um roteiro. Eu tinha de comer a sopa. E assim o fez.
Ela colocou a tigela à minha frente.
Come. É caseiro.
Olhei a sopa e pensei: Rui, vieste buscar romance e acabaste num casting de maridos com degustação de obrigações. Foi engraçado. Nervoso, claro, mas engraçado.
Filomena percebeu.
Por que estás a sorrir?
Só porque
Está a ser engraçado?
Não, a situação é estranha.
Estranha? Ou seja, eu sou estranha para ti?
Ali precisava escolher palavras cuidadosas. Tentei.
Não, não és tu. Só parece que avançámos rápido demais nos temas sérios.
Ela ficou fria.
Claro, não vim aqui para temas sérios.
Fiquei em silêncio. Sim, não era isso que eu esperava. Dizera seria rude, mas talvez honesto.
E então, Rui, porque vieste?
A pergunta pairou sobre a mesa.
Eu, homem de quarenta e oito anos, com casamento, divórcio, hipoteca, obraprópria, costas doloridas, cabelos grisalhos, sentiame como um estudante apanhado a comprar cigarros ao balcão.
Vim à tua casa respondi.
Não, vieste para uma noite agradável.
Não respondi.
Ela acenou, como se já tivesse provado o ponto.
Sabia.
Filomena, passar um jantar com uma mulher que me agrada não é crime.
E depois?
Depois conversar, encontrarnos, descobrir se combinamos.
Não preciso de um homem que me teste.
Eu não te testo.
Testas. Todos testam. Se sou útil, se sou divertida, se não exijo demais, se cozinho, se fico calada quando precisas. Eu não quero isso.
Já não falava só comigo. Eu percebi que ela falava com todos os seus exmaridos. Mas não ficou mais fácil.
Empurrei o prato.
Filomena, acho que devemos parar.
Como?
Literalmente. Sinto que precisas de mais certezas do que eu consigo dar agora.
Que frase confortável.
Não é conforto. É honestidade.
Honestidade? riuse. Os homens sempre chamam de honestidade o que lhes convém.
Fiquei um pouco ofendido, mas não demais. Tentei ser sincero.
Não prometi viver contigo.
Eu também não prometi nada.
Mas conduzes a conversa como se eu devesse algo.
Ela levantouse de repente.
Ninguém deve nada a ninguém! Claro! Canção masculina típica.
Eu também levantei, não bruscamente, apenas percebi que não podia ficar mais tempo.
Vou embora.
Ela ficou imóvel.
A sério?
Sim.
Então vais embora agora?
Não quero discutir.
Quem está a discutir? Eu estou a conversar contigo.
Estás a pressionarme.
Riu, já com ironia pesada.
Pressionar? Eu preparei o jantar, limpei o apartamento, esperei por ti, queria uma conversa normal. E chamas isso de pressão?
Olhei a mesa. Saladas, quente, sopa, sanduíches, três garrafas de vinho. A cozinha impecável, até o pano ao lado da pia alinhado como um soldado em desfile.
Sim, chamote de pressão disse. E é a coisa mais honesta que já falei esta noite.
Filomena corou, depois ficou pálida.
Então todo o meu esforço foi em vão.
Não foi em vão.
Falaste. Só com outras palavras. Ficaste assustado porque queres uma mulher sem exigências, sem pedidos, que sorria e aceitete quando te apetece, e que nada queira.
Não.
Sim. Exatamente.
Fui ao corredor. O coração batia inquieto, não de medo, mas daquele sentimento desagradável de ser o vilão na história de outra pessoa. Não podia mudar.
Ela seguiume.
Rui, sabes como isto parece?
Calcei os sapatos. As mãos pareciam não obedecer.
Entendo.
Não entendes. Chegaste, comeste e vais embora.
Aquele momento quase me fez tropeçar.
Filomena, não vim só para comer.
Claro. Tinhas outra intenção.
Levantei a cabeça.
Ela dizia isso de modo que me deu vergonha. Eu, adulto, devia poder falar de intimidade sem que parecesse roubar algo e fugir pela janela.
Não devias falar assim disse.
E como devo? Agradecerte pela honestidade? Obrigada, Rui, por teres desperdiçado o meu jantar? Obrigada por teres revelado quem realmente és?
Não queria magote.
És um covarde.
Fechei a jaqueta.
Talvez.
Isso a surpreendeu. Ela esperava que eu discutisse, que provasse que não era um covarde, nem um consumidor, nem mais um dos homens do site. Mas eu estava cansado. E, talvez, fosse mesmo um covarde. Não sei sair elegante dessas situações. Muitos dos meus atos são errados. Mas ficar onde não consigo respirar também não era opção.
Ela ficou à porta, braços cruzados.
Sabes, sentite suspeito desde o início.
Lamento não ter dito antes.
Frase estúpida. Não devia ter dito. Mas saiu.
Ah, é? ela estreitou os olhos. Um homem de quarenta e oito, solteiro, num site de encontros não é por acaso.
Assenti.
Provavelmente.
E a tua esposa, então, deixoute por alguma razão.
Isso feriu.
Respirei devagar.
Filomena, chega.
O que, está chato? Ou gostaste de me ver a sofrer? Sou, aliás, mulher, viva, quero uma vida normal.
Não discuto.
Não discutes nunca. Apenas foges. Muito cômodo.
Abri a porta.
Ela me gritou nas costas:
Vai. Mas não me escrevas depois. Não sou opção de reserva.
Vireime.
Não és opção de reserva. Só não sou o teu tipo.
Ela tentou responder, mas eu saí.
A porta bateu rápido. Algo tilintou talvez um copo, talvez um prato. Não dei ouvidos.
Lá fora fazia frio. Fiquei na escadaria do prédio, sentindome horrível. Não era herói que defendia fronteiras, nem adulto sábio. Era apenas alguém que entrou, comeu e saiu, deixando um banquete e uma mulher magoada.
Voltei ao carro, hesitei antes de ligar o motor. Na memória, a cozinha de Filomena: vestido, sopa, três garrafas de vinho, olhos cheios de expectativa, como se eu fosse a última peça do puzzle.
Pensei que poderia ter sido mais delicado ao dizer que não estava pronto. Poderia ter evitado sorrir à sopa. Poderia ter não soltar aquela frase boba no hall.Assim, fechei a porta atrás de mim, levando o amargo gosto da lição que ainda precisava engolir.







