Lurdes, não vamos levar muito. Embala o teu bolo especial e duas frascos de compota para a viagem diz Guilherme, com um sorriso preguiçoso.
Lurdes olha para o visitante, sem acreditar na ousadia. Como pode pedir assim, sem cerimônia?
Na sua cabeça giram os pensamentos de todo o esforço para que o bolo ficasse perfeito, de como preparou a casa para a chegada.
E agora Guilherme, que a semana inteira não levantou um só martelo, senta à sombra e exige para levar.
Ela lança o olhar a Tiago, que parece nem notar como o irmão se comporta.
Guilherme, não estás a pedir demais? pergunta Lurdes, tentando manter a calma.
Ah, calate, Lurdes! rebate ele, sem se virar. Não somos estranhos, devemos partilhar. E tens aqui um monte de coisas!
Lurdes sente dentro de si uma mistura de repulsa e raiva.
A casinha junto ao lago, comprada há três anos, era para Lurdes e Tiago um verdadeiro refúgio.
No verão não há dias de preguiça: acordar cedo, capinar, colher frutos, cuidar das galinhas, fazer reservas para o inverno. Qualquer ajuda vale ouro.
Por isso a exigência de Guilherme soa como insulto. Ele não vê ou não quer ver todo esse trabalho.
Para ele, a casa é apenas um resort gratuito, e Lurdes e Tiago, a equipa
Tudo começou há três semanas, quando Guilherme ligou e propôs vir, ajudar na lavoura e ainda descansar na natureza.
Essas palavras chegam de surpresa. Guilherme e a sua esposa Sofia são citadinos até ao osso: festas, bares, cinema, compras nos fins de semana.
Ajudar? repete Lurdes, com leve dúvida.
Mas Guilherme continua entusiasmado:
Claro! Somos família! Vai ser mais fácil para vocês e nós ganhamos ar puro. Já fazia tempo que queria colher framboesas, aquecer a banheira
Lurdes desliga e fica sentada na varanda, a passar os dedos na toalha do avental.
Conhece o carácter de Guilherme gosta de prometer, mas raramente cumpre. No fundo duvida, mas Tiago, ao ouvir a notícia, animase:
Então, talvez recolham algumas frutas. E ainda o meu irmão pode ajudar com a cerca.
Nos dias seguintes Lurdes se afoga em tarefas, como se o próprio presidente fosse visitarlhe.
Lava e passa a roupa de cama, prepara toalhas limpas. Vai à cidade comprar mantimentos: peixe fresco, carne para churrasco, fruta, doces para que os parentes se sintam bemvindos.
Talvez tudo corra bem diz a si mesma, ao estender as toalhas. Se ajudarem um pouco, já é ótimo.
Quando Guilherme e Sofia chegam, Lurdes os recebe com um sorriso, tentando esconder as dúvidas.
Os parentes parecem relaxados, como se tivessem acabado de regressar de um resort.
Finalmente estamos aqui! exclama Guilherme, abraçandoa.
Lurdes força o sorriso e convidaos a sentar à mesa. Na varanda já esperam saladas, pastelinhos quentes e compota fria.
A primeira meiahora conversam animadamente, trocam novidades, e depois Tiago apresenta o plano para os próximos dias.
Amanhã começamos a cortar a erva, depois recolhemos as frutas. Há muito a fazer, mas juntos conseguimos.
Isso, isso, claro concorda Sofia, embora nos olhos de Lurdes perceba um leve espanto e até um traço de confusão, como se a palavra corte de erva fosse de outro mundo.
Lurdes capta esse olhar e sente uma premonição: a ajuda pode revelarse inexistente.
O primeiro dia passa como festa. Lurdes tenta não pensar na relva alta, nos morangos cobertos de ervas daninhas, e na caixa no celeiro cheia de maçãs.
Guilherme está a mil: conta piadas, estala as sementes, vangloriase de estar cansado da cidade e de ter a sorte de fugir para a natureza.
Sofia, de vestido leve, faz poses ao pôrdosol e ao lago, tirando dezenas de fotos.
Tiago sorri está feliz porNo final, Lurdes, Tiago e Sofia juntamse ao fogo da lareira, brindam ao silêncio que finalmente devolve a paz ao seu pequeno refúgio à beira do lago.







