Natália chega a casa às oito da noite, exausta depois do trabalho, e encontra o apartamento num caos…

Lisboa, 20h Cheguei a casa depois de um longo dia no hospital. Antes mesmo de rodar a chave, respirei fundo, sentindo um cansaço que parecia nunca acabar. Assim que abri a porta, ouvi logo o choro da pequena Beatriz.

Passando pela sala, lá estavam a minha filha Mariana e o genro, João, estendidos no sofá a ver televisão enquanto a casa parecia um campo de batalha.

Brinquedos de criança espalhados pelo sofá, cama, chão. Na mesa, embalagens vazias de iogurtes, ossos de frango, garrafas terminadas de refrigerante e cascas de maçã. Roupa suja pendurada na cadeira, e um fraldão usado dobrado (mal) por cima do banco.

O ambiente estava pesado, abafado e um cheiro difícil de descrever nada agradável, certamente. Senti o desespero a crescer dentro de mim, a ponto de quase largar tudo e chorar.

A minha neta, ao ver-me, correu para mim com um sorriso rasgado, como só os miúdos sabem fazer, e atirou-se aos meus braços.

Abri logo a janela, para tentar arejar a sala, e segui para a cozinha em busca de um pouco de ordem.

O que encontrei deixou-me de rastos: louça suja acumulada na banca, restos de pão e chá derramado pela mesa. Debaixo dela, cacos de vidro o João partiu uma caneca das que o meu marido, já falecido, me tinha oferecido em tempos. Na placa, uma frigideira com bifes já frios e queimados. Abri o frigorífico: vazio, só mesmo um rato ousaria sobreviver ali.

Mariana entrou a correr, beijou-me na face e disse:

Olá, mãe. Já que chegaste, eu e o João vamos sair um bocadinho, está bem? Vou-me vestir. Dei jantar à Beatriz há uma hora.

Espera lá, Mariana. Onde é que vão assim? perguntei, já perdida entre a desarrumação e o meu próprio cansaço.

Oh mãe, vamos ao cinema e depois comer um gelado. Nem sei como chegávamos lá se não nos deres uns euros. Podes dar-nos, por favor? Não temos quase nada.

Ouvi o João da sala a gritar:

Dona Leonor, não quer fazer um caldo verde amanhã? Vi um chef na televisão a comer e fiquei cheio de vontade. E uma salada fresca também, se puder ser! Ah, e não se esqueça do café, que já está a acabar!

E eu? soltei, quase suplicante, olhando para a Mariana Trabalhei todo o dia, nem tempo para almoçar tive. Sinto-me exausta, só queria descansar. Não podem levar a Beatriz?

Mãe, precisamos de um tempo a dois. Andamos numa fase difícil. Dizem os psicólogos que faz bem passear sozinhos de vez em quando. E a Beatriz morre de saudades tuas, claro! Vocês vão divertir-se. Vamos só dar um saltinho, não te preocupes. És a melhor mãe do mundo.

Nem tive tempo de responder. Mariana desapareceu num ápice. Uns minutos depois, já os dois estavam fora, deixando a sua filha e todo o caos para trás.

Senti-me mesmo sem chão. Diante de tanto cansaço e mágoa, apetecia-me chorar alto. Não era mais do que mão-de-obra sem salário, fonte de dinheiro e algum conforto para eles.

A dor de cabeça latejava. Tinha fome, não comia há horas. Mas ainda havia tanto por fazer: limpar toda a casa, dar banho à Beatriz, pensar num jantar e tudo isto sem descanso.

Parecia que tinha vivido uma guerra interior. Sentei-me, suspirando fundo, e as lágrimas acabaram por cair

Quando Mariana e João vieram viver para minha casa, há uns anos, o meu mundo virou do avesso. Antes, vivia com calma, tranquila no meu T2 com a memória do meu marido. Eles tinham ficado sem casa porque o senhorio os expulsou, e imploraram para ficar comigo temporariamente. A história do costume: as rendas eram caras, ficava longe dos trabalhos, más condições

E depois o João ficou desempregado trabalhava numa loja, mas foi despedido. Mariana jurava que os colegas o tramaram e que ele ia arranjar outro emprego rápido, mas o tempo passou e ele ficou entregue ao sofá e ao computador.

Viviam apenas do salário da minha filha. E depois, a notícia da gravidez. Tudo mudou. Mariana começou com tratamentos caros, exames, consultas, medicamentos tudo pago por mim, com o salário de ortopedista na clínica privada.

Eles nada compravam para casa: nem comida, nem produtos de limpeza, nem ajudavam nas contas. Só gastos, mais pedidos, mais exigências. Viam-se, nitidamente, a aproveitar-se do meu esforço e silêncio. Eu calava, por medo de perder o afeto da filha única, ainda por cima grávida.

Como podia deitar a minha filha grávida à rua? Tudo o que podia fazer era trabalhar e suportar.

Tocaram à campainha. Fui enxugar as lágrimas e abrir a porta. Era a minha velha amiga Filomena, que não tinha avisado da visita e apanhou a casa num estado lastimável. Não tinha como recusar entrada. Forçou-me a sorrir, entrei com ela para a cozinha.

Ela já conhecia toda a minha situação, sempre me aconselhou a ganhar coragem e pôr a Mariana e o João na rua. Mas eu não conseguia.

Nada disse; apenas abriu o frigorífico, tirou ovos e iogurte, lavou a frigideira e preparou um omelete para mim. Enquanto cozinhava, embalei a Beatriz, que acabou por adormecer no meu colo. Deixei-a na cama dos pais.

Voltei para a cozinha, o omelete já pronto. Olhei para a Filomena com uma gratidão silenciosa ela era a única que realmente me compreendia.

Come, Leonor disse baixinho Aposto que não comeste nada hoje. Já se te veem os ossos. Assim não pode ser. Tens que cuidar de ti. A tua filha e o teu genro estão a sugar tudo o que tens. Tens de os pôr fora, percebes?

Filomena, como posso fazer isso? Têm uma filha pequena, para onde iriam?

Eles só ficam porque tu permites. Porque vão querer encontrar casa ou arranjar emprego, se tu dás tudo de mão-beijada? Eles só estão bem porque tu és boa demais. Se não fizeres nada, eu meto-me ao barulho.

Sabia que a Filomena tinha razão. Prometi que conversaria com a Mariana logo que chegasse.

Ela ficou comigo, ajudou a limpar a cozinha, preparou chá de camomila e até me fez uma massagem aos ombros.

Quis ficar até eles voltarem, para eu não recuar.

Já eram quase onze quando Mariana e João regressaram. Estávamos na sala quando entraram.

Boa noite, tia Filomena disse Mariana, visivelmente aborrecida por ver ali a minha amiga.

Boa noite respondeu seca a Filomena, já a ferver por dentro Então, divertiram-se muito ou vieram cedo demais?

Mãe, vamos dormir respondeu Mariana, tentando escapar, mas eu interrompi.

Espera, senta-te. Chama o João também. Preciso de falar convosco.

O que aconteceu, dona Leonor? perguntou o João.

Aconteceu que têm uma semana para encontrarem uma casa para alugar. Acabou o vosso tempo aqui. São uma família, vão viver a vossa vida noutro sítio. É a minha decisão final.

Mãe, como podes fazer-nos isto? Não temos dinheiro! Estou em casa com licença de maternidade, como é que sobrevivemos?

Vão ter de se desenrascar. São adultos, sabiam tão bem fazer uma filha, agora têm de aprender a ser responsáveis. Não posso protegê-los o resto da vida. E se amanhã me acontecer alguma coisa? Mariana, é hora de abrires os olhos para a vida.

Que tipo de mãe és tu!? gritou Mariana Vais pôr a tua filha e neta na rua? Que mãe és tu? Pareces uma madrasta!

Mariana, modera-te. Não falas assim com a tua mãe interveio Filomena Vão agora para o quarto, pensem no que vos foi dito.

Isto é tudo culpa sua! gritou o João à Filomena Está a envenenar a cabeça da minha sogra! Não tem nada a ver com a nossa vida! Vá tratar da sua.

O ambiente quase explodia, mas o choro da Beatriz obrigou-os a sair. Filomena apertou-me a mão em apoio.

Uma semana depois, foram-se embora. Tornei-me a vilã na história da minha filha.

Tudo de bom que fiz ficou esquecido. Fui a má, a egoísta, a madrasta. Mas, dentro de mim, sabia que tomei a decisão correta.

Só espero que um dia a Mariana perceba que fiz tudo para o bem dela. Às vezes, é preciso ser dura até com quem mais amamos. Talvez, um dia, ela me perdoe.

Oxalá que perceba. Oxalá que sim…

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