Diário de Lídia Severina Sousa, 4ª feira
Hoje foi um daqueles dias que não consigo tirar da cabeça. Trabalho há seis anos no café À Beira do Tejo, aqui em Lisboa. Conheço de cor as caras que entram, sei logo quem vai pedir galão e pastel de nata, quem prefere a bica curta e um papo-seco. Mas esta tarde vi um senhor que nunca tinha visto. Já era de certa idade, trazia um casaco gasto e uma mala de pano pequena. Sentou-se num cantinho, devagar, abriu a carteira e ficou ali a contar moedas com as mãos trémulas.
Fiquei a olhar de longe. Doeu-me ver aquilo. Quando fui perguntar o que desejava, ele respondeu baixinho, com ar de desculpa:
Só queria um café. Não posso gastar mais.
Assenti, mas confesso que o aperto no peito foi maior do que eu esperava. Ninguém daquela idade devia ser forçado a escolher entre a dignidade e o estômago.
Fui à caixa e, sem ninguém reparar, paguei eu um prato do dia para ele: sopa quente e uma sandes de fiambre. Levei-lhe para a mesa e pus devagar à sua frente. Ele olhou para mim, surpreendido, com olhos molhados.
Eu não pedi isto.
Sorri-lhe:
É oferta da casa, senhor.
Os olhos dele brilharam de emoção. Ficou ali a saborear tudo devagar, como se cada colherada tivesse outro valor. Antes de sair, parou ao balcão, de olhos baixos. Escrevi o número do café no bilhete, caso algum dia precisasse de alguma coisa.
Hoje salvou-me, murmurou ele antes de sair.
Sorri, achei bonito mas não fiz grande caso.
Umas horas depois, o sino da porta tilintou de repente com toda a força. Entraram dois agentes da PSP.
Desculpe, conhece este senhor?
Mostraram-me uma fotografia. Era ele.
Fiquei gelada.
O que aconteceu? Está bem?
Trocaram olhares pesarosos.
Encontrámo-lo junto ao rio, disse um deles baixo.
Faleceu há pouco.
Tapei a boca. Não podia acreditar.
Ele esteve aqui há tão pouco tempo
O polícia acenou afirmativo.
No bolso dele estava o bilhete do café e o número que deixou. Parece que foi a última pessoa a falar com ele.
Entregou-me um papel dobrado.
As minhas mãos tremiam ao abrir. Dentro, em letra bem desenhada, li:
À boa empregada de mesa:
obrigado por me tratar hoje como pessoa.
Deu-me um pouco de calor quando ele quase já não existia em mim.
Agora posso ir em paz.
Chorei ali mesmo. Não de culpa. Mas de perceber que, às vezes, o mais pequeno gesto de carinho é o último raio de luz no dia de alguém.
Ninguém dizia nada. O polícia murmurou ao fim de um momento:
Não tinha família. Ainda bem que o dia dele acabou consigo.
Agarrei-lhe a nota ao peito.
A partir desse dia jurei que, sempre que pudesse, oferecia um almoço a um estranho não por pena, mas em honra daquele homem que conheci só por uma hora e que mudou a minha vida para sempre.







