Não vou ao formatura dos trinta anos da faculdade, fico de parto, depois vem a melancolia. gritoume a única amiga ao telefone, a minha irmã de alma, **Catarina**.
E tu, como estás? Por que esse medo? respondeu, surpresa, **Leonor**. Parece que nos vimos há cinco anos, eras normal, nada de especial. Já te alargaste de algum jeito?
Não, só não quero, ponto final. disse **Catarina**, tentando encerrar a conversa para passar ao próximo nome da lista. Mas a amiga agarroua com garras de ferro.
Catarina, as filas já estão a encolher.
O que? Alguém entregou a alma ao senhor? exclamou **Catarina**, atônita. Ainda que se ache já não tão jovem, não se sente tão velha a ponto dos pares mergulharem num outro mundo.
Não, nada disso. Só alguém do país desabou. E o nosso querido **André Silva**, que morreu há vinte e cinco anos, ainda era um rapaz. Já te falei disso.
Então não te preocupes, o nosso lote vai se esgotar: quatro turmas, porém só trinta pessoas efetivas. Já casaste o teu filho, finalmente? Pode ser que te libertes um pouco.
**Leonor** continuou a falar, enquanto **Catarina** recordava **André Silva**. Ele tinha sempre círculos escuros sob os olhos e um olhar pesado; os rapazes do grupo o achavam fraco. Descobriuse que o coração dele era fraco. Estudava bem, sonhava erguer uma ponte de cabos sobre a aldeia, mas nunca chegou a nada. E o que **Catarina** conseguiu?
Ela apaixonouse por **Ígor Costa**, capataz da obra onde ela começou a trabalhar depois do diploma. Ele guardava a portaria da cidade e depois voltava para casa. Juntos, encontravamse por longos períodos; **Ígor** chamavaa de esposa à frente de todos, alegando que o casamento civil era prova de amor verdadeiro. Não se casavam por certificado, mas por sentimento.
Quando **Catarina** descobriu que esperava um bebé, **Ígor** não apareceu ao posto. Surgiu que tinha três filhos e a esposa estava enferma. Ele deixou o emprego por motivos pessoais, sem nem avisar **Catarina**.
Ela percebeu que não podia exigir nada de um homem com três crias e esposa doente. Abandonou a obra, sem que ninguém lhe perguntasse o motivo. Um dos operários, ainda brincando, disse:
Então, o certificado de casamento ainda é mais sólido que a convivência?
Mas **Catarina** já não se importava. Encontrou trabalho numa mercearia ao lado da escola, graças a uma conhecida do seu prédio. Concordaram que, mesmo quando se tornasse mãe, trabalharia dois dias por semana.
A mãe aceitou cuidar do **Dimas** (o filho), pois a filha era incompetente e havia perdido um bom emprego.
Foi você que me criou assim! gritou **Catarina**, quando a mãe a ultrapassou.
Pensei que fosse uma filha obediente, mas és um desastre! rebateu a mãe, ensaiando críticas.
Que raiz, que semente, era essa que plantaste? respondeu **Catarina**, lamentandose imediatamente.
Abraçaramse e choraram, mas sem saber para onde ir.
Cinco anos depois, quando **Rita** (a outra amiga de longa data) lhe telefonou para o reencontro, **Catarina** não foi. Passaria o dia a lavar chão em três lugares: escadinhas do prédio, escola e creche. O que contar a elas? Ou, melhor, o que elas teriam a dizer a ela?
Por **Dimas**, ela faria tudo; ele era o único consolo. Quando o filho foi à préescola, a mãe decidiu que havia cumprido a missão e partiu para a irmã no interior, alegando precisar de ar puro.
Alguns anos depois, **Catarina** recebeu um contrato a tempo parcial como técnica de manutenção. **Dimas** entrou na escola, e ela conseguia fazer tudo sozinha, ainda pegando o filho logo após o almoço, despertando inveja nos vizinhos.
Um colega do trabalho tentou cortejála, mas ela barrouo de imediato. Já tem filho, não precisa de um tio estranho em casa. O pai não será substituído, só os problemas que surgirem.
No emprego, **Catarina** surpreendeu, subindo a salário até 100% e assumindo um cargo de engenheira. Ainda assim, sentiase incompleta, como se fosse só casca de ovo. Vestiase modestamente, não tingia o cabelo, e depois dos quarenta anos a prata surgiu nos fios.
Sentia que não tinha direito à felicidade, pois vivia com um marido casado e quase tirava o pai dos três filhos. Não podia vestir cores vivas, pintar o cabelo ou chamar atenção; senão alguém poderia lançar-lhe um olhar suspeito.
Já não acreditava mais nos finais felizes; ao redor só havia casais divorciados, e ela não se sentia melhor, talvez pior.
**Dimas** cresceu grato, a entrega da mãe não o corrompeu. Passava os verões na aldeia da avó **Iria** e da irmã **Lurdes**, ajudando nas hortas, plantando batata, beterraba e cenoura, cavando e regando, e no outono recolhia a batata e fechava potes de compota. Desde pequeno era forte, empilhando lenha com destreza. A mãe dizia que era uma felicidade imensa ter tal filho, e a irmã **Lurdes**, solteira, chamavao neto amado.
Chegou então o dia da celebração dos trinta anos da faculdade. Pensamentos habituais voaram pela cabeça de **Catarina** como insetos de luz.
Lembraste? insistiu **Leonor**, a voz ancorada na memória. Café em frente ao refeitório universitário, próxima sextafeira, às três da tarde. Vem, preciso de alguém para conversar, pois estou à deriva.
A voz de **Rita** estremeceu, e **Catarina**, sem saber porquê, aceitou:
Vou
Abriuse a porta da gaveta, e o telefone caiu sobre a mesa. Arrependeuse da promessa. Olhouse no espelho, pegou o telefone novamente e tentou cancelar, mas a linha da presidente estava sempre ocupada, e o embaraço a invadiu.
Já era noite quando abriu o armário e tirou o vestido azul que o **Dimas** lhe dera no seu casamento simbólico. **Dimas** e **Natália** (a cunhada) quase a convenceram a ir ao centro comercial, onde a filhapadrasto a sobrecarregou com provadores.
O vestido azul agradou a todos, até a **Catarina**. Escolheram sapatos, levarama ao salão onde tingiram o cabelo e fizeram penteado. Foi há um ano; **Dimas** e **Natália** vivem separados, mas felizes.
A prata voltou a crescer nos cabelos; não havia ninguém para embelezála, mas ainda assim arrumouos, vestiu o vestido azul que ainda pendia na arara, pintou levemente os lábios e depois apagouos com um guardanapo, por excesso de ousadia.
No café, o barulho era ensurdecedor. **Rita** avistoua imediatamente e saltou:
Catarina, que formosura! Que prazer te reencontrar!
**Leonor**, ainda magra, esfregouse os braços, mas isso só lhe deu aparência mais jovial. Sentaramse à mesa, porém alguém distraiua e **Catarina** ficou apenas a beber sumo, observando os cantos e a música que lembrava os tempos de estudante, quando ainda sonhavam com o futuro.
De repente, uma voz cortou a melodia:
Posso convidarte para uma dança?
**Catarina** ergueu a cabeça e reconheceu o timbre. Era **Luis Pereira**, da turma paralela. Casouse no terceiro ano e **Catarina** ainda se lembrava dele, pois lhe tinha agradado na época.
Catarina, como estás linda! Vim ao reencontro e não reconheço ninguém, mas a ti reconheci na hora!
Luis estendeu a mão; **Catarina** aceitou, levantouse e foi ao ritmo, sob o olhar surpreso de **Rita**, que regressou à mesa. Dançaram várias músicas, silenciosas, até que Luis, inesperado, perguntou:
Posso levarte para casa? Aviso que estou divorciado há tempos, mas se esperas alguém em casa, eu apenas te acompanho porque já é tarde
Levoua até a porta, mas no dia seguinte encontraramse de novo e nunca mais se separaram.
A **Natália** ajudoua a escolher vestido e sapatos para o casamento simbólico. Ela já estava mais cheia, e **Catarina** sentirsea avó em breve, o que a deixava desconfortável por ser noiva novamente.
**Catarina** finalmente concedeuse a felicidade. **Natália** sussurrou:
Senhora **Catarina Silva**, você está esplêndida! **Dimas** e eu estamos radiantes por ti; ser feliz não tem idade, não há lei que o proíba!
E **Catarina**, ao sentarse à mesa de casamento imaginário, lançoulhe o olhar iluminado ao marido **Alexandre** e pensou:
Agora talvez eu possa também.
Perdoouse, permitiuse ser feliz
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