Moça, sente a sua criança no colo, ralhou uma mulher corpulenta, já de seus cinquenta e poucos anos. Naquela época, lembro bem que paguei 30 euros por um lugar para meu filho no autocarro.
Naquele dia, eu levava o Tomás para a casa da avó. Embora tivesse apenas cinco anos, era o rapaz mais crescido da família, todos o consideravam já de idade escolar. Aliás, desde sempre tratavam-no como adulto. Por isso, comprava-lhe lugar próprio nos autocarros, Tomás já sabia portar-se bem e, além disso, era alto e pesava bastante; era impossível mantê-lo ao colo sem comprometer o conforto de ambos. Sentado, não atrapalhava os outros passageiros nem sujava ninguém com os sapatos. Era bem melhor assim, para todos.
Naquela viagem, o Tomás ia junto à janela e eu ocupava o assento ao lado. Escolhemos aqueles lugares da frente para sair com mais facilidade, pois tínhamos de descer antes dos demais passageiros. Avisei logo o motorista que também tinha bilhete para o menino, para evitar surpresas e garantir que não sentassem ninguém no seu lugar.
Saímos de Lisboa rumo à vila, e lá pelo meio da estrada, o autocarro foi detido por uma senhora volumosa. Havia lugares vazios mais atrás, por isso o motorista parou. Só que, quando a mulher entrou, o veículo tremeu levemente, e os passageiros ficaram em silêncio, observando. Quando ela, por fim, fechou a porta, o motorista suspirou alto. O autocarro retomou a marcha, mas a senhora continuou a avançar, aproximando-se do banco dos passageiros.
Menina, sente o seu miúdo no colo! repetiu a mulher, com voz autoritária. Respondi calmamente, dizendo que tinha pagado o lugar do meu filho e não iria pô-lo no colo. O motorista confirmou, sugerindo que ela procurasse um assento vazio lá atrás, mas a senhora discordou, dizendo de maneira rude que era obrigação nossa mudarmo-nos, pois ela merecia sentar junto à janela, já que costumava viajar frequentemente naquele transporte.
Recusei ceder o lugar. O autocarro acelerava, e a mulher foi ficando ali de pé, ao nosso lado, sem ir para os fundos. Por dentro, sentia a indignação crescer, mas decidi não armar escândalo diante do Tomás. Começámos a conversar para distração, o que só irritou mais a mulher, que gritou: Desapressa-te, muda o garoto e deixa-me sentar, não percebes? Respondi serena que não ia ceder. O Tomás é grande, tem o seu próprio bilhete, e entrámos primeiro, por isso escolhemos onde nos sentar. Ali não há reserva de lugares.
O motorista mantinha-se concentrado na condução, mas percebi que não era a primeira vez que passava por esse tipo de situação. Os passageiros, ao início, ignoravam o tumulto, uns de auscultadores, outros dormindo. Aos poucos, começaram a dar conselhos: “Ó senhora, vá sentar-se num lugar vazio.” “Não grite, não está em sua casa.” A mulher alegava que não ia para trás, pois era difícil para ela, devido ao tamanho. Mas todos percebiam que era só teimosia e que, na verdade, queria era aquele lugar nosso.
O ambiente ficou inquieto e tenso. Quando menos esperávamos, o motorista parou o autocarro. Saiu da sua cadeira, entrou pelo corredor, pegou nas sacolas da mulher e pô-las fora. Depois, gentilmente, indicou a saída e acompanhou-a para fora. A mulher, entre confusa e furiosa, mal teve tempo de reagir antes de o motorista entrar de novo, fechar a porta e continuar viagem.
Dentro do autocarro, reinou silêncio, alívio. Todos juntámos alguns euros para compensar ao motorista o que perdera pela saída da senhora. Quando chegámos ao destino, entregámos a quantia, e ele, sorridente, prometeu nunca mais deixar aquela mulher entrar no autocarro, pois só causava discussões e problemas.







