O Joaquim tinha a certeza: a obra era mais importante, o filho que se aguentasse. O cão foi levado ao canil, apesar dos apelos do rapaz. Mas passados onze dias, a Inês entrou no quarto do filho e encontrou um desenho que mudou tudo.
O saco estava à porta de entrada. Dois sacos, para ser exacto: num estavam as tigelas, no outro os restos de ração e uma bola de borracha que o Caramelo arrastava pela casa desde que aprendera a andar.
O Tomás viu-os antes de tirar as sapatilhas.
O Caramelo encostou o focinho ao joelho do rapaz e abanou a cauda com tanta força que bateu no saco. A tigela lá dentro tilintou. O pelo ruivo cheirava a jardim, a folhas de outono e a qualquer coisa quente, só de cão, que fazia o Tomás sentir um aperto no peito. Agachou-se, abraçou o cão com os dois braços. O Caramelo imobilizou-se, encostou o corpo à camisa xadrez e pousou a cabeça no ombro do menino.
A pata traseira esquerda dobrava-se de forma estranha. O cão coxeava dela desde cachorro, e o Tomás habituara-se a ampará-lo pelo flanco quando ele se sentava.
Na cozinha, a chaleira apitava. A mãe estava ao fogão, a rodar a aliança no dedo anelar. Depressa, num gesto habitual, como fazia sempre que queria dizer alguma coisa mas não encontrava as palavras. O pai estava sentado à mesa, costas direitas, mãos cruzadas à sua frente. Uma chávena de café ao centro exacto do pires.
– Mãe. Para que é isto?
A Inês não se virou. Os dedos na aliança aceleraram.
– Pai, porque é que estão os sacos à porta?
O Joaquim bebeu o café de um trago. Pousou a chávena no pires com tanta precisão que nem tilintou.
– Tomás, decidimos. Vamos levar o cão hoje.
– Para onde?
– Para o canil. Boas condições, informei-me. Canis aquecidos, dão-lhe comida como deve ser.
O rapaz olhou para a mãe. Ela fitava a janela, onde o céu cinzento de Outono esmagava os telhados. A aliança continuava a rodar.
– Mãe?
A chaleira estalou e desligou-se. Ouviu-se o Caramelo a respirar no corredor.
– Mãe, diz-lhe qualquer coisa.
A Inês endireitou o pano no gancho. Tirou-o, pendurou-o de novo, apesar de estar direito.
– O teu pai tem razão, Tomás. Precisamos de fazer obras. O cão vai sofrer aqui…
– Caramelo! Chama-se Caramelo!
– O Caramelo vai ter dificuldades. Tinta, pó, ferramentas no chão. Pode passar mal.
Ela dizia-o com voz pausada, e cada palavra soava como se não fosse dita pela primeira vez. Como se ela e o pai tivessem ensaiado na noite anterior, enquanto o Tomás dormia.
O rapaz agarrou-se ao tampo da mesa. Os nós dos dedos ficaram brancos.
– Eu dou-lhe três passeios por dia. Fico com ele no meu quarto. Ele não vai atrapalhar. Por favor.
O Joaquim levantou-se. A cadeira rangeu curto no linóleo.
– Disse que é assim. Daqui a meia hora partimos.
– Por favor. Por favor, não.
A voz tornou-se fina. Não de criança, mas transparente, como se as palavras passassem pelo rapaz sem se fixarem. O Caramelo raspou as unhas no ladrilho, coxeou até à cozinha e sentou-se ao lado, encostando o corpo à perna dele. Pousou o focinho no joelho.
E imobilizou-se. Os olhos do cão eram castanhos, com pintas ruivas, e olhavam de baixo para cima, calmos. Não percebia. Confiava em todos naquela casa.
A Inês fechou os olhos. Por um segundo, talvez dois. Depois abriu-os e meteu a mão ao bolso à procura das chaves do carro.
O Tomás vestiu o casaco.
– Tomás, é melhor ficares em casa. Não precisas de ir.
– Não, vou! – O Tomás quase chorava.
No carro cheirava a gasolina e plástico aquecido. O sol não aparecia, e a cidade lá fora parecia desenhada a lápis cinzento em papel molhado. O Caramelo ia no banco de trás, com o focinho pousado no colo do Tomás. O rapaz não chorava. Sentava-se direito, a acariciar a cabeça ruiva, e os dedos moviam-se devagar, compassados, como se gravassem cada relevo, cada caracol do pelo.
O Joaquim olhou uma vez para o espelho retrovisor. Desviou o olhar depressa.
A Inês conduzia e pensava no papel de parede do corredor. Nos rolos, na cor marfim que tinham escolhido no sábado na loja de bricolage. Dentro de um mês, a casa estaria clara. Limpa. Sem pelo no sofá, sem o tique-taque das unhas de manhã.
O canil ficava nos arredores, para lá das garagens. Um edifício cinzento com porta de ferro, donde cheirava a lixívia, a betão húmido e a qualquer coisa azeda, densa, que fazia apetecer respirar pela boca. Do interior vinham latidos. Não altos, nem raivosos. Tristes, como se alguém chamasse sem acreditar que seria ouvido.
Uma mulher de avental verde veio recebê-los. Sorriu ao Caramelo, afagou-lhe a orelha.
– Rapaz bonito, o ruivinho. Tratamos dele, não se preocupem.
O Tomás segurava a trela. Com as duas mãos, apertada, de modo que a correia de couro lhe entrava nas palmas. Os dedos estavam vermelhos da tensão.
– Tomás, dá-a.
O pai estendeu a mão. Uma palma grande, com cheiro a óleo de motor, aberta diante do rosto do rapaz.
O Tomás olhou para a trela. Depois para o Caramelo. Depois outra vez para a trela.
E abriu os dedos. Devagar.
A mulher pegou na trela e levou o Caramelo pelo corredor. O cão coxeou na pata traseira esquerda, e as unhas tiquetaquearam no azulejo, e aquele som ecoava, porque o corredor era comprido e vazio. Na curva, o Caramelo voltou-se.
A mulher virou a esquina. O tique-taque foi diminuindo, diminuindo. E desapareceu.
No carro, a caminho de casa, o rapaz sentou-se atrás do banco do condutor. Onde, dez minutos antes, estivera o Caramelo. O estofo ainda guardava o cheiro: pelo quente, jardim, folhas de Outono. O Tomás encostou a face ao assento e fechou os olhos.
A Inês esticou a mão para o rádio. O Joaquim abanou a cabeça. Foram vinte minutos até casa. Nem uma palavra.
Em casa, o Tomás descalçou-se, passou pela cozinha e fechou-se no quarto. A porta estalou baixinho. Apenas se fechou.
A Inês guardou os sacos vazios, dobrou-os com cuidado, enfiou-os no lixo. Depois viu a tigela.
Uma tigela de plástico vermelha com marcas de dentes no rebordo. O Caramelo roera-a quando era cachorro, antes de saber que as tigelas não eram para isso. A Inês pegou-lhe, segurou-a nas mãos. O plástico era leve e liso, e as marcas de dentes ásperas sob os dedos. Pousou a tigela de novo no chão.
No dia seguinte, notaram estranhezas.
O Tomás não perguntou o que havia para o jantar. Não ligou a televisão. Não tirou o caderno da mochila. Chegou da escola, descalçou-se, foi para o quarto. Silencioso como uma sombra na parede.
A Inês bateu.
– Tomás, queres massa? Com queijo, como gostas.
Do outro lado, a cama rangeu. E nada.
Ela ficou à porta meio minuto. Escutou o silêncio. Foi-se.
À noite, o Joaquim disse: habitua-se. As crianças esquecem depressa. Daqui a uma semana anda a correr como dantes. Disse-o com segurança, de pé no corredor, onde ainda se via uma marca de unha na parede, deixada pelo Caramelo no primeiro mês.
Ao quinto dia, a professora telefonou. A voz dela era cautelosa, como quem pisa gelo fino.
– Tudo bem por aí em casa?
– Sim, claro. Porquê?
– O Tomás não responde nas aulas. Nada. Senta-se, olha pela janela. Ao intervalo fica encostado à parede. Os colegas aproximam-se, ele cala-se.
A Inês mordeu o lábio.
– É que… demos o cão. Para um canil. Ele habitua-se.
A professora calou-se. Uns segundos, e naquela pausa a Inês ouviu mais do que em qualquer palavra. Depois a voz no telefone disse:
– Compreendo.
Aquele «compreendo» pairou na casa toda a tarde. Como o cheiro da tinta que ainda não tinham aberto, mas que já estava lá.
Ao sétimo dia, o Tomás deixou de vir ao jantar. A Inês punha o prato. Recolhia-o intacto. A massa arrefecia e formava uma película, e aquilo era de repente insuportável.
O Joaquim comprou rolos e primário. Arrancou o papel de parede velho no corredor. Por baixo, as paredes estavam cinzentas, com manchas de cola antiga e uma fenda do chão ao tecto, que antes tapava o desenho de um barco à vela. Cheirava a humidade. Não ficou bonito. E também não ficou silêncio, porque o silêncio não era o que ele tinha planeado.
A tigela vermelha continuava na cozinha. A Inês não conseguia guardá-la. Três vezes a pegou, três vezes a pôs no lugar. À quarta, virou-a ao contrário. Depois tornou a pô-la como estava.
Num desses dias, a Inês entrou no quarto do filho enquanto ele estava na escola. Queria arrumar.
Na mesa estava um desenho.
Uma casa com telhado triangular e chaminé, donde saía fumo. Normal, como todas as crianças desenham. Ao lado, um rapaz: pernas de pau, cabeça redonda, braços abertos. E ao lado do rapaz, uma mancha alaranjada com quatro patas e uma cauda em caracol. O rapaz e o cão estavam pintados com cores vivas, caneta vermelha e lápis cor de laranja, com tanta força que o papel se marcava.
E a casa estava vazia. Janelas sem cortinas, porta escancarada. Lá dentro, sem figuras, sem móveis. Branco.
Nem mãe. Nem pai. Só um espaço branco atrás da porta aberta.
A Inês sentou-se na cama do filho. Pegou no desenho, aproximou-o. Em baixo, por baixo da casa, em letras tortas e pequenas: «Caramelo eu vou».
Sem vírgula. Sem ponto final. Uma promessa escrita por uma mão que ainda não sabia fazer o «s» direito.
A aliança no dedo apertava tanto que a Inês a tirou. Pousou-a na mesa, ao lado do desenho. E ficou sentada a olhar para a parede, porque não pensava no papel de parede. Nem na cor marfim. Nem no pelo nem nas unhas.
Pensava que o filho tinha desenhado uma casa onde ela não existia.
À noite, a Inês pôs o desenho diante do Joaquim. Não explicou nada. Apenas o colocou na mesa, ao lado do prato.
Ele olhou muito tempo. Depois afastou o prato.
– Vamos buscá-lo.
A Inês pestanejou.
– O Caramelo. Amanhã de manhã.
E foi ele quem disse, não ela. Ela esperava ter de discutir, convencer, apontar para o desenho. Mas o Joaquim olhava para a casa vazia sem pessoas, e no rosto dele alguma coisa mexia-se, como se os músculos não soubessem que expressão tomar.
– Amanhã. De manhã.
A Inês anuiu. Quis dizer «obrigada», mas a palavra ficou presa. Não havia que agradecer. Não era um presente. Era uma tentativa de reparar o que eles próprios tinham partido.
De manhã, foram ao canil. A mesma porta de ferro. O mesmo cheiro a lixívia e betão húmido. A mulher veio recebê-los, desta vez de avental azul, mas a cara era a mesma.
O Caramelo reconheceu-os da entrada. Lançou-se contra a grade do canil, ganindo, abanando a cauda de modo que o corpo todo balançava. Emagrecera naqueles dias: as costelas viam-se sob o pelo ruivo, e a pata traseira esquerda dobrava-se mais do que antes. Coxeou na direcção deles mais depressa do que podia.
O Joaquim pegou na trela. A mesma, de couro, gasta. A palma envolveu a correia como se nunca a tivesse largado.
Em casa, o Tomás estava no quarto. Porta fechada.
As unhas tiquetaquearam no ladrilho do corredor. Baixinho. Descompassadas, com um intervalo a cada quarto passo.
A porta do quarto abriu-se.
O rapaz estava no vão. O Caramelo atirou-se a ele, enterrou o focinho na barriga, lambeu-lhe a mão, o joelho, a mão outra vez. A cauda batia na parede.
O Tomás ajoelhou-se no chão. Os dedos enterraram-se no pelo ruivo que cheirava a canil, a lixívia, a estranho. Mas por baixo daquele cheiro vinha outro, antigo, verdadeiro, aquele que lhe apertava o peito.
Disse a primeira palavra naqueles dias:
– Caramelo.
Depois levantou a cabeça. Olhou para a mãe. Para o pai.
A Inês ajoelhou-se ao lado.
– Tomás…
Ele não se afastou. Mas também não se encostou. Apenas ficou no chão, abraçado ao cão, e olhava para eles como se os visse pela primeira vez. E não tinha a certeza de os reconhecer.
O Caramelo lambeu-lhe o queixo e acalmou-se. Deitou-se ao lado, colado, o corpo quente.
A Inês deitou ração na tigela de plástico vermelha com marcas de dentes no rebordo. O Caramelo coxeou até à cozinha, as unhas tiquetaquearam, começou a comer com fome, com pressa. O Tomás sentou-se ao lado.
E o Joaquim ficou no corredor, onde as paredes descascadas cheiravam a humidade e cola velha. O rolo estava no canto, coberto de pó. O primário secara no balde. A fenda do chão ao tecto não tinha desaparecido.
Da cozinha vinha o bater da tigela no chão e o som de um cão a comer.
O Joaquim ficou a olhar para as paredes. A obra nunca tinha avançado. E agora já não interessava se avançava. Porque naquela casa, havia muito mais para reparar.






