Desapareceu, e graças a DeusA família respirou aliviada, pois finalmente poderiam viver em paz sem aquela sombra que tanto os atormentava.

**Diário de um homem qualquer – 2 de Novembro**

Não sei bem por onde começar, mas hoje preciso escrever isto.

Há duas semanas que eu reparava nisto: os meus vizinhos do quarto andar não paravam de pôr o gato deles para fora. Pegavam nele pelo pescoço e atiravam-no para o corredor. Ora o dono, ora a dona. Uma vez, o bicho passou mesmo à minha frente — e eu ainda lhes disse: «Tenham mais cuidado!» A mulher nem me respondeu, olhou de lado e bateu com a porta com tanta força que os vidros vibraram. Deve ter rachado o cimento.

No início pensei que fosse para o gato passear, ou aprender a sair sozinho. Depois percebi que era castigo. Fazia asneira — ia para o corredor.

E lá ficava ele, horas a fio, encostado à porta forrada a pele castanha, à espera que o perdoassem. E perdoavam, sim, mas não logo. Se miava ou arranhava, levava com a vassoura. Eu vi. Ia a subir as escadas (o elevador está avariado há meio ano) e quando cheguei ao quarto andar, o gato estava a miar e a raspar a porta com as unhas. A dona abriu, de roupão, e sem dizer palavra deu-lhe uma vassourada. Fechou a porta num instante.

Aproximei-me. «Doeu-te muito, amigo?» — perguntei. O gato olhou para mim com uns olhos tristes, mas também agradecidos. Alguém lhe ligava.

Ouvi uma vez a vizinha gritar: «Ai, seu malandro, outra vez derrubaste o vaso! Sérgio, deita-o já para fora!» Minuto depois, uma mão cabeluda apareceu pela porta entreaberta, largou o gato, e a porta fechou-se. O bicho sentou-se de frente para a entrada, à espera. Eu abanei a cabeça. Não percebo estas maneiras de educar.

Fiz-lhe uma festa e fui para casa. Mas aquela imagem ficou-me cá dentro como um espinho.

Não sou dado a sentimentalismos, mas aquilo roía-me. «Como é que se trata assim um ser vivo?», pensava. Com o tempo, passava por ele e abrandava o passo; o gato reconhecia-me e começava a ronronar baixinho. Às vezes agachava-me, coçava-lhe atrás da orelha, e ele fechava os olhos e encostava a cabeça. Depois esfregava o nariz molhado na minha mão. Era quente, vivo, confiante. E isso fazia-me sentir uma tristeza funda.

Na sexta-feira, o meu dia tinha sido péssimo: discussão no trabalho, transportes cheios, a chover miudinho. Estava com o humor no zero, talvez abaixo. Ao subir as escadas, ainda no terceiro andar, ouvi o miado conhecido. O gato estava à porta, como sempre. Frio no corredor. Não é Maio, como costumamos dizer. Parei, ele viu-me, ronronou e veio ter comigo.

E então — pum! De repente, todos os meus problemas pareceram insignificantes. O gato é que tinha problemas. Era tratado como um objecto, um brinquedo. O que pode ser pior? Escutei o silêncio atrás da porta. Ninguém queria saber dele.

— Chega — disse eu em voz alta, surpreendido pela minha decisão. — Anda comigo.

Abaixei-me, peguei nele ao colo. Ele ronronou mais alto e esfregou a cabeça no meu casaco molhado, deixando manchas de pelo. Subimos ao sétimo andar, a minha casa.

Ficaria só uns dias. «Que os donos se assustem, que o procurem, que percebam que não se faz isto», pensei. Em casa, ele adaptou-se depressa. Cheirou os cantos, saltou para o sofá, rodou e enroscou-se na manta, a olhar para mim agradecido. Enquanto ele descansava, e apesar da chuva e do cansaço, fui à loja de animais. Comprei a melhor ração, areia, brinquedos — para o caso de ele se aborrecer enquanto eu estivesse fora.

No sábado, abri a porta várias vezes e espreitei o corredor. Silêncio. Ninguém procurava o gato, ninguém colava cartazes. Estranho. Muito estranho. Voltei para dentro, olhei para ele, encolhi os ombros. O gato espreguiçou-se no sofá, sem vontade de sair.

— Olha, queres voltar para o corredor? — perguntei no domingo. — Não te prendo. Vai, se precisas.

Ele olhou para a porta, depois para mim, e começou a lamber a pata. Levantou-se, veio e esfregou-se na minha perna. Resposta clara. Fechei a porta, sorri e peguei nele. Fomos para a cozinha almoçar, depois para a sala ver televisão. Ele aninhou-se no meu colo e ronronava como um tractor. Pela primeira vez em muito tempo, a casa ficou realmente acolhedora.

Chegou segunda-feira. Ninguém o procurou. Decidi não o devolver. Mas uma coisa não me largava: podiam acusar-me de roubo. Afinal, tinha levado um bem alheio, mesmo que com boas intenções. Mentalmente, ensaiava cenários: a polícia, as explicações, a desconfiança. Estive todo o dia no trabalho como em brasa, a ver o telemóvel. Nenhuma chamada perdida.

Ao regressar a casa, encontrei o vizinho a deitar o lixo. Num saco preto, via-se o contorno de algo parecido com uma caixa de areia. Acenei-lhe para parar e aproximei-me, como quem não quer a coisa.

— Então, vizinho, já não vejo o vosso gato no corredor. Como é que ele está? Vai bem?

O vizinho iluminou-se.

— Desapareceu há uns dias. Ainda bem, graças a Deus!

— Porquê graças a Deus? — perguntei, a controlar a voz.

— A minha mulher queria levá-lo para a quinta e deixá-lo lá. Diz que está farta: pelos por tudo, miar à noite, vasos partidos. Ao menos que caçasse ratos. Mas eu não queria ir à quinta. É longe e ela obriga-me a trabalhar. Com o gato fugido, já não é preciso. Bebi dois litros de cerveja ontem para festejar.

— Não têm pena dele? E se lhe acontece alguma coisa?

— Pena de quê? Não é pessoa. Olha, mas porque perguntas tanto? — Ele semicerrrou os olhos, desconfiado.

— Por nada, só curiosidade — respondi, e sem me despedir, virei costas e subi as escadas a passo rápido.

Fervia por dentro. «Para a quinta… no fim de Outubro. Levá-lo e deixá-lo morrer. Nem um pingo de arrependimento. Até contentes que ele se foi sozinho para não terem de se sujar as mãos.» Imaginei o gato, tão confiante, sentado à porta de uma casa vazia, ou debaixo de uma cerca, à espera. A esperar, como esperava no corredor. Para eles, era um objecto que ora agrada, ora atrapalha. Se atrapalha muito, põe-se fora. Primeiro umas horas no corredor, depois para sempre na quinta.

Quando cheguei ao sétimo andar e abri a porta, o gato estava à minha espera, fiel. O coração aqueceu. Percebi que tinha feito o correcto. Correcto, sim. Roubei-o daquelas pessoas sem coração, que iam abandoná-lo no fim do Outono.

Sorri, peguei nele ao colo e fomos para a cozinha preparar o jantar. Depois do jantar, deitámo-nos no sofá a ver televisão. Ele virava-se de um lado para o outro. De repente, virou-se de barriga para cima, confiante, mostrando a parte mais frágil. Fez-o sem pensar. Porque já não tinha medo.

Aprendi hoje que uma verdadeira casa não é só um tecto ou uma tigela de comida. É o sítio onde não precisamos de merecer o direito de estar. E onde nos amam. Sem condições. Porque existimos.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

10 − 5 =

Desapareceu, e graças a DeusA família respirou aliviada, pois finalmente poderiam viver em paz sem aquela sombra que tanto os atormentava.
Nie manželka ho takým urobila, ale ty si ho takým urobil.