Marido por herança
Hoje foi um daqueles dias em que o destino colocou pessoas improváveis no meu caminho. Estava no comboio que liga Lisboa ao Porto, numa viagem longa, quando uma mulher alta e de voz estrondosa saiu do compartimento em frente ao meu. Bastou um olhar e um berro para calar todos aqueles que faziam barulho no corredor e impediam o resto de dormir. Impressionante como até aqueles homens atrevidos e corpulentos acataram de imediato, como se obedecessem a uma patrulheira.
O cabelo dela estava apanhado em duas longas tranças douradas, enroladas à volta da cabeça, revelando olhos azuis claros, quase luminosos, e uma cor de saúde nas bochechas que dava gosto ver. Espreitou na direção da casa de banho. Foi então que dali saiu um homem baixinho, franzino, com cabelos brancos como algodão e uma cara de menino enternecedor.
Ó Zeca! Estava já a pensar que te tinha perdido! Aqui esta chinfrineira toda, até a revisora tem medo de intervir! Pensei: será que está tudo bem contigo? Estas figuras são capazes de provocar sarilhos só porque sim! exclamou a senhora.
Oh, Verinha! Eu bem resolvia! Porque é que vieste cá fora, querida? Isto não é trabalho para ti respondeu ele, encolhido, mas com um sorriso doce, fugindo logo para dentro do compartimento.
Ela olhou demoradamente para mim e para outros dois passageiros sonolentos. Não viu perigo e afastou-se.
Mais tarde, reencontrei-a no vagão-restaurante. Estava tudo cheio e acabei por pedir-lhe licença para me sentar à mesa dela. Não vi sinal do marido. Assim que terminou o prato de carne com batatas, a senhora anunciou com aquela voz convicta:
Eu sou a Vera Andrada. Chame-me só Vera.
Viaja sozinha? O seu marido vem depois?
Está a descansar. Não vai aparecer. Enrolei-lhe o pescoço com um cachecol, dei-lhe um chá de frutos vermelhos daqueles caseiros. Imagina só, Zeca apanhou uma constipação bem na viagem! Molhou-se todo quando, armado em valente, sacudiu o tapete do corredor de casa só com uma camisola. Nem dei por isso, e pronto! respondeu ela, abanando a cabeça.
Deve gostar muito dele. Veja-se, pensou que o estavam a magoar e foi logo defender. E agora fala com tanto carinho! arrisquei, já meio romântica.
Zeca ficou-me por herança, filha. Não era meu marido, ao início. Mas agora vive comigo. Ele ainda está de luto A primeira mulher dele partiu há uns meses. Era uma santa pessoa. Doce como tudo suspirou Vera.
Por herança?! exclamei, incrédula.
Então Vera abriu-se comigo.
Zeca antes vivia com a Lídia. Cresceram juntos em Aveiro, desde os tempos do liceu e da universidade. Casaram, claro. Ele era um génio inventivo desenrascava sempre o que precisassem, recebia propostas de empresas importantes, nunca faltava dinheiro em casa. Mas na vida do dia a dia, o Zeca era completamente desastrado. Esquecia-se do troco no supermercado, atravessava a rua onde não devia, não sabia onde comprar nada. Um ingénuo de todo o tamanho. Capaz de oferecer notas a desconhecidos só porque sim.
O Zeca não é deste mundo, é como se tivessem trocado ao nascer. Nós a dar tudo por tudo para conseguir algum e ele, vê lá, nem se esforça e o dinheiro vem ter com ele! comentavam os amigos.
Lídia não tinha razão de queixa da vida. A energia e o pragmatismo dela davam para dois. Era ela que punha o marido pronto para o trabalho, conferia as luvas, o cachecol. Mais tarde comprou um carro para o levar e trazer, pois Zeca já apanhara o táxi errado por se distrair. Eram o equilíbrio perfeito.
Mas uma vez Lídia teve de ficar uma semana no hospital e, ao voltar, apanhou um susto: o marido só mastigara bolachas de água e sal, bebendo só água. Nem o micro-ondas usou, toda a comida congelada ficou intacta.
Sem ti não apetece nada. Nem tenho fome sorriu-lhe o Zeca, na sua graça.
O filho saiu ao pai: André. Brilhante a todos os níveis, mas tímido e distraído. Intelectualmente um prodígio, mas a precisar sempre do braço forte da mãe. A mulher que escolheu, uma Olívia do interior, era meiguinha e reservada, e claro, Lídia não largava o comando da família. Sobretudo quando nasceu o neto, Luísinho. Até ao dia em que Lídia caiu doente e definhou.
A casa mergulhou na tristeza. Zeca andava sem norte. Procurou os melhores médicos, prometeu gastar tudo, mas nada resultava.
O coração de Lídia sofria não por si, mas por eles dois, pelo neto. Como poderiam sobreviver sem ela? Rezava noite e dia para que Deus protegesse os meninos. E foi então que Vera apareceu. Trabalhava como cuidadora e era parente afastada de um médico conhecido de Lídia.
À porta recebeu-a um homem delicado, semblante de visconde, voz baixinha quase sumida. O apartamento estava num desalinho penoso: montes de roupa suja, louça por lavar, ar saturado de desespero, apesar de terem máquina da loiça.
No quarto repousava Lídia, já muito magra, olhos enormes. Sorrira a Vera, que, com um suspiro, arregaçou as mangas.
Ao fim do dia, a casa estava irreconhecível: um perfume de almôndegas, empadas e frango alourado pairava; Lídia dormia como um anjo nos lençóis acabados de mudar. O Zeca, pronto para saltar porta fora com um corta-vento de verão, foi travado pela voz potente de Vera:
Alto lá! Não pense que me sai assim com esta aragem, homem! Não posso com mais doentes cá em casa. Traga lá o casaco, vou-lhe pôr o cachecol, cubra as orelhas com o gorro! Pronto, vá e olhe, porte-se!
Naquele momento, Lídia deixou deslizar uma lágrima de gratidão.
Obrigada, Senhor. Agora estão seguros murmurou ela.
Já sem esperança, teve uma conversa séria com Vera. Perguntou-lhe onde vivia, como era a vida. Vera morava numa casa pequena em Oeiras, num T2 com a mãe e família da irmã. Sempre cheia. Passava o máximo de horas fora, no trabalho. Solteira, nunca casara, os namoricos nunca tinham dado nada. Nada que não se aguente. Posso passar bem sozinha!, dizia com bravura. Lídia então sussurrou:
Vera, cuida dele quando eu não estiver cá. Deixo-te o meu marido por herança! Não estou a brincar. Ele apanha doenças com um ar, acredita em toda a gente.
Vera ficou sem fala e, quando quis recusar, Lídia implorou:
Por favor. Ao menos cuida dele durante uns tempos. Eu agradecia-te de joelhos, se pudesse!
Vera prometeu.
Lídia partiu pouco depois. Vera teve dúvidas. Vão pensar que é pela casa… nem sequer gosto dele assim. Ele também não está interessado em mim. Parece uma joaninha.
Mas sentiu o peso da palavra dada. E foi. Bateu à porta, não responderam. Empurrou a porta, não estava trancada. Na antiga sala de Lídia, Zeca estava agachado, agarrado a um robe da mulher, a chorar como um cão abandonado.
Vera correu para ele, sentou-se ao lado dele, pegou-lhe na mão.
Ai, rapaz, que tristeza. A Lídia tinha mesmo razão! Vá, meu querido, vamos fazer um chá, há-de passar e Vera pôs mão à obra.
Era de uma ternura rara, boa como tudo.
O lar ressuscitou. Zeca, a cada dia, aguardava a Vera à porta. Alegrava-se.
Depois decidi mudar-me. Para quê deixá-lo? A minha família ainda festejou ganharam espaço, e eu fiquei com um miúdo crescido. Mas tão inteligente! Dinheiro nunca faltou, ele é generoso. Fez-me deixar os outros trabalhos de cuidadora. E se alguém me tentava por má língua, calava-os rápido. Há quem salve cães e gatos da rua, não é? Mas um ser humano também pode precisar! Há pessoas que são como tartarugas viradas ao contrário, ninguém sabe o que fazer delas. Faço o que posso. O Zeca é uma boa pessoa, carinhoso. No fundo, precisamos um do outro.
Agora vamos a caminho da casa do filho dele, André. Pediu-me ajuda com o neto! E eu, toda contente se for preciso, cuido de dez!
Nesse momento, abriu a porta do restaurante do comboio. Era o Zeca, com um enorme cachecol e um raminho de flores silvestres.
Comprei estas àquelas avós na estação, Verinha! Gostas?
Ela corou ainda mais e pousou a mão carinhosamente no ombro dele.
Saíram da carruagem antes de todos. Vera levava uma mala enorme, Zeca uma sacola. Ela ia-lhe sempre com a mão ao casaco, entre a multidão, para não se afastar dele. E iam os dois a sorrir, como se caminhassem de mãos dadas pela primeira vez. Agora percebi: a Vera ia mesmo ser a mulher dele. Afinal, algumas famílias constroem-se assim por herança, dedicação e… carinho.






