— Se vais para casa da tua mãe por três meses, então talvez seja melhor divorciarmo-nos de vez? Porque estou farta de que passes a maior parte do tempo…

Então, olha: o Gonçalo Nunes resolveu que no sábado vai a casa da mãe. Uns três meses, se calhar.

As palavras caíram em cima da mesa, entre o prato de batatas fritas e a salada. Caíram com naturalidade, como migalhas de pão. O Gonçalo disse-as sem tirar os olhos da comida, a espetar no garfo um pedaço de frango dourado. Para ele, era uma decisão tomada, que não precisava de discussão. Simplesmente um facto, anunciado durante o jantar. Nem sequer levantou a cabeça, convencido de que, como sempre, ia ouvir um cansado “está bem” ou, quando muito, uns suspiros de constrangimento.

Mas não houve resposta. Só o som da mastigação dele é que ficou subitamente ensurdecedor. Levantou a cabeça. A Inês Cardoso não se mexia. O garfo estava em cima da mesa, ao lado do prato em que já não tocava. Não olhava para ele. Tinha o olhar perdido na parede, mas percebia-se que não via o papel de parede desbotado nem o relógio da cozinha. Olhava para um vazio que se tinha acabado de abrir no meio da cozinha deles. A cara dela estava completamente calma, quase sem vida, e isso assustava o Gonçalo mais do que qualquer histeria.

— Não dizes nada? — perguntou, já com um tom de irritação. Aquele silêncio era um desafio. — Ela precisa que eu lhe arranje o muro, que eu refaça o telhado do alpendre. Sozinha não dá conta.

Falava com confiança, a enumerar tarefas de homem que, na opinião dele, não se comparavam com a vidinha que tinham na cidade. Era a armadura dele, o trunfo inquestionável que pousava na mesa pela terceira vez em dois anos de casamento. Três meses na primeira vez, dois e meio no ano passado, e agora outra vez três. Somado, quase um ano de vida em separado. Um ano dedicado ao muro e ao telhado.

A Inês virou a cabeça devagar. Olhou para ele durante um bom bocado, com um ar de quem o via pela primeira vez. Não como marido, mas como um estranho que se tinha sentado ali à mesa. Nos olhos dela não havia ressentimento nem raiva. Só uma curiosidade fria, distante.

— Gonçalo — disse em voz baixa, mas no ar parado a voz saiu-lhe clara e pesada. — A torneira da cozinha está a pingar há um mês. Lembras-te? Disse-te três vezes. Está a pingar. Ping, ping. À noite ainda se ouve melhor.

Ele piscou os olhos, sem perceber. A torneira? O que é que a torneira tinha a ver com aquilo?

— Bom, eu chamava um canalizador, já que o marido não tem mãos para isso — resmungou, sentindo a confiança a estalar.

— Não preciso de canalizador, Gonçalo. Preciso de um marido. Aqui, nesta casa. Eu casei-me, não me inscrevi no clube das mulheres dos marinheiros, à espera que o capitão volte da viagem. Só que a tua viagem é sempre para o mesmo lado.

Ele começou a ferver. A conversa não estava a seguir o guião. Ela atrevia-se a contestá-lo, a comparar o sagrado dever de filho com uma torneira a pingar.

— Tu não percebes! Ela é a minha mãe! Quem é que lhe vai valer, se não eu? Ela não tem mais ninguém! É uma mulher sozinha, não pode andar a remendar telhados!

Era o argumento final. De ferro. Imbatível. Sempre tinha funcionado.

A Inês esboçou um sorriso torto, mas o riso não chegava aos olhos.

— Tens razão. A mãe precisa de ajuda. Isso é sagrado.

O Gonçalo respirou de alívio. Finalmente! Ela tinha percebido! Agora ia suspirar e começar a preparar-lhe a mala. Mas a Inês continuou, com a voz mais firme e mais fria do que gelo.

— Então vamos fazer assim. Acabas de jantar, arrumas as tuas coisas e vais para lá. Ajudas com o muro, com o telhado, com a horta, com tudo o que for preciso. E ficas lá. Porque se preferes ser filho a ser marido, eu não te vou atrapalhar. Podes considerar-te um homem livre. Mando-te a morada do tribunal por mensagem. Tratas do divórcio quando acabares o muro.

Por um momento, o Gonçalo pensou que tinha ouvido mal. Que era uma piada de mau gosto, provocada por mau humor ou por uma enxaqueca feminina. Tentou soltar uma risada, mas o som ficou-lhe preso na garganta, e saiu qualquer coisa rouca, um espasmo. Pousou o garfo. O apetite tinha desaparecido, deixando um sabor metálico na boca.

— Inês, tu estás boa? Divórcio? Perdeste o juízo? Por causa de eu ir ajudar a minha mãe?

Tentou pôr na voz aquela condescendência de quem fala com uma criança irrazoável. Mas a calma da Inês, a postura imóvel, o olhar direito e firme estavam a destruir-lhe a defesa. Ela não estava a representar. Não estava a blefar.

— Estou no meu juízo, Gonçalo. Talvez pela primeira vez em dois anos. Não é por ires. É por ficares lá. De cabeça, de corpo, é igual. Tu não estás aqui. Eu não tenho marido ao meu lado. A tua vida está lá, no quintal da tua mãe, com o muro dela e o telhado dela. Aqui, tu só dormes, nos intervalos entre uma e outra façanha de filho.

Ele levantou-se de repente. A cozinha pequena ficou apertada, cheia da indignação dele. Começou a andar de um lado para o outro, do frigorífico à janela, a gesticular como quem afasta moscas.

— Mas o que é que tu estás para aí a dizer? Qual outra vida? Eu estou a matar-me a trabalhar em dois empregos para termos uma vida normal, para aguentar este apartamento! Não vou para a tasca com os amigos, não vou de férias! Vou para a labuta! Ajudar a única pessoa que me criou! E tu, sentada aqui no quentinho, ainda tens coragem de me censurar! Tu é que não percebes o que é uma obrigação!

Despejou para cima dela tudo o que tinha guardado para estas ocasiões: o cansaço, o trabalho, o dever sagrado. Era o escudo dele, a arma testada, que a fazia calar e sentir-se culpada. Mas, naquela noite, a arma falhou.

A Inês nem se mexeu. Continuava sentada à mesa, e aquela imobilidade dizia mais do que todos os passos que ele dava pela cozinha.

— Eu percebo tudo, Gonçalo. Percebo que a tua mãe é a tua mãe. Não te estou a pedir que escolhas. Tu já escolheste há muito tempo, só tiveste medo de admitir. E eu estou cansada de fingir que não vejo. Cansada de ser segunda, logo a seguir às telhas e às tábuas do muro.

— Que é que estás para aí a dizer, Inês? Já chega!

— Se vais passar três meses em casa da tua mãe, se calhar mais vale divorciarmo-nos. Porque eu estou farta de tu estares lá a maior parte do tempo.

A cara do Gonçalo contorceu-se. Parou no meio da cozinha e ficou a olhar para ela, e no olhar dele já não havia só raiva, mas um espanto sincero de criança. Ele não percebia mesmo. Na visão que tinha do mundo, era o herói, o cavaleiro que se desdobrava entre o dever e a casa. E ela, a ingrata, não reconhecia isso. Percebeu que os argumentos não estavam a funcionar. Estava num beco sem saída e, naquele beco, como sempre, só havia uma saída, uma chamada de socorro.

Virou-se de repente, tirou o telemóvel do bolso e, de costas voltadas, marcou o número. Falou em voz baixa, mas no silêncio tenso da cozinha cada palavra ouvia-se como se ele estivesse a gritar.

— Mãe, olá. Sim, está tudo bem… quase. Olha, está cá uma coisa… A Inês está a fazer um drama. Sim, por causa da viagem. Imagina? Diz que se eu for, divorciamo-nos… Não, não estou a brincar, está mesmo a falar a sério… Diz que eu escolho a ti e não a ela… Não sei o que lhe deu! Por tudo e por nada! Sim… Sim, claro. Também acho. Está bem, mãe. Fico à espera.

Desligou e pôs o telemóvel em cima da mesa, com o ar de quem acabava de colocar uma peça no tabuleiro e dava xeque-mate. Voltou a olhar para a Inês. Já não tinha ar de quem estava perdido. Tinha uma confiança emprestada. Já não estava sozinho na batalha. Tinha chamado reforços. Artilharia pesada.

Esperaram pouco tempo. Vinte minutos, talvez meia hora. Não foi um silêncio vazio, nem um silêncio constrangedor. O Gonçalo, de novo com energia, serviu-se de um chá, pôs a chaleira ao lume com estrondo e sentou-se no lugar dele, com o ar de quem quer mostrar que a vida continua e que os caprichos das mulheres eram só um obstáculo. Já não olhava para a Inês. Olhava para o telemóvel, onde andava a ver esquemas, como se já estivesse a planear a obra do telhado da mãe. Estava no elemento dele, no mundo dos trabalhos de homem e das tarefas compreensíveis, onde as pequenas exigências dela não entravam.

Durante esse tempo, a Inês não se mexeu. Não tocou no jantar frio, não se levantou para arrumar a mesa. Ficou sentada, direita como uma estaca, transformada numa peça muda do cenário. A calma dela deixou de ser passiva. Passou a ser ativa, quase ofensiva. Era a calma de quem tinha tomado uma decisão e se limitava a observar a agitação de quem ainda tentava mudar o inevitável.

A campainha tocou de forma curta e autoritária. Não perguntava, afirmava. O Gonçalo saltou da cadeira e correu a abrir. À porta estava a Amália Nunes. Não parecia uma velhinha frágil, precisada de ajuda. Alta, imponente, com os lábios apertados e um olhar seco, avaliador, entrou na casa não como visita, mas como uma inspetora que vinha fazer uma vistoria. Despiu o casaco bom, pendurou-o no cabide e, sem sequer olhar para a Inês, foi direita à cozinha. A mala dela — grande, de cabedal, quase uma mala de médico — bateu com força em cima do tamborete. O território estava marcado.

— Então, conta lá, filho. Que é que se passa aqui? Estava em casa da dona Gracinda Monteiro, pensava que amanhã seguíamos juntos para a terra, e afinal aparece-me isto… — disse, dirigindo-se apenas ao Gonçalo, como se a Inês fosse invisível.

O Gonçalo, sentindo o apoio há muito esperado, falou. Contou a versão dele, onde ele era a vítima e a Inês uma mulher egoísta e ingrata, que não entendia as coisas simples da vida. Falou do dever, da ajuda, de que a mãe era sagrada.

A Amália ouviu, a acenar lentamente que sim. Depois virou-se para a Inês. O olhar era frio, como o de um cirurgião antes de uma operação.

— Sempre disse ao Gonçalo que uma família se constrói com respeito, Inês. Respeito pelos pais, pelas obrigações. Um homem não se mede por estar sentado no sofá, mede-se por cuidar dos seus. De todos os seus. E a mulher deve ser o apoio dele, não uma pedra no pescoço.

A Inês calou-se. Olhava para os dois — para o filho a procurar aprovação nos olhos da mãe, e para a mãe pronta a defender a cria do mundo inteiro, incluindo da própria mulher. Eram uma coisa só, um monólito, e a Inês era apenas um pedaço solto, a mais.

— Mãe, eu expliquei-lhe tudo! — atalhou o Gonçalo, convencido de que tinha razão. — Que não é um capricho, é uma necessidade! A torneira pode esperar, o telhado furado não! Mas ela não ouve!

— É o que acontece quando uma pessoa só pensa nela — suspirou a Amália, com um ar pesaroso, a olhar de novo para a Inês. — Quando o conforto próprio está acima de tudo. O teu marido não vai descansar, vai trabalhar, para o bem de todos, incluindo o teu futuro. E tu ainda o atrapalhas.

A pressão aumentava. Falavam um de cada vez, completavam-se um ao outro, fazendo um cerco cerrado de acusações. Não gritavam. Falavam com calma, com uma condenação moral na voz, o que era muito pior do que qualquer grito. Tentavam espezinhar a Inês, fazê-la sentir-se pequena, culpada, errada. E foi nesse momento que a Inês levantou os olhos. Não olhou para a sogra. Olhou diretamente para o Gonçalo, para o marido, que naquele momento estava ao lado de outra mulher, a destruir a família deles em uníssono com ela.

— Já disse: se fores, divórcio. Que mais é que não percebeste?

Não foi uma pergunta, nem uma ameaça. Foi uma constatação. Um diagnóstico final, que já não se discute.

A cara da Amália ficou de pedra. Os lábios transformaram-se numa linha fina e má.

— Então é isto… Ultimatos. Decidiste impor condições ao meu filho?

— Ouviste, mãe? — exclamou o Gonçalo, com uma risada amarga. — É esta a gratidão dela por tudo o que eu faço! Só quer ver-se livre de mim e das minhas obrigações para contigo!

— Então é assim que decidiste? — disse o Gonçalo, avançando para a Inês, com a cara congestionada, entre a ofensa e a raiva. — Qualquer coisa não é à tua vontade, é logo o divórcio? Pensas que me assustas?

A Amália apoiou o filho, dando um passo em frente, ombro a ombro com ele. A frente única era quase física.

— Eu e o pai do teu marido vivemos quarenta anos, muita coisa se passou. Mas uma mulher dizer a um homem se vai ou não vai à mãe… Isso nunca vi. Ele não vai para casa de estranhos, vai para a casa dele, de onde o tiraste!

Esperavam uma resposta. Discussões, desculpas, gritos. Estavam prontos para um cerco prolongado, para uma noite de sermões e recriminações, depois da qual a Inês, arrasada, como das outras vezes, se rendesse e fosse arrumar-lhe as malas. Estavam certos da força deles, da razão deles, da união inquebrantável entre mãe e filho.

Mas a Inês não respondeu. Não entrou na discussão. Em vez disso, levantou-se devagar, sem um único movimento supérfluo. Na cara não tinha raiva nem desespero. Só uma concentração vazia, cansada, queimada. Contornou os dois, que estavam no meio da cozinha, e saiu para o corredor.

— Estás a ver, mãe? Foge! — sussurrou o Gonçalo, vitorioso. — Não tem nada a dizer!

A Amália limitou-se a soltar um risinho de desprezo, convencida de que a adversária se tinha ido refugiar no quarto, para chorar e ter pena de si mesma.

Um minuto depois, a Inês voltou. Trazia na mão a mala de viagem grande do Gonçalo. Não era a que ele levava nas raras viagens de trabalho; era a velha, gasta, com que costumava ir para casa da mãe. Pousou-a em silêncio no meio da cozinha e abriu o fecho. O som seco, alto, calou-os.

A Inês saiu novamente e voltou com uma braçada de roupa. Não andou a vasculhar o roupeiro, não revirou gavetas. Pegou exatamente no que estava numa prateleira à parte, que ela própria tratava de deixar pronta para “as necessidades da mãe”. Atirou para a mala as calças de trabalho velhas, com os joelhos desbotados, a camisola de lã grossa que ele só usava lá, um par de t-shirts desbotadas. Fez tudo sem pressa, de forma metódica, como uma enfermeira a preparar o material para uma operação. Cada gesto era exato, medido.

— Que é que estás a fazer? — A voz do Gonçalo tremeu, perdeu toda a segurança.

A Inês não respondeu. Foi à entrada e voltou com as botas de trabalho pesadas, ainda com restos de barro do ano passado. Atirou-as para a mala, por cima da camisola. Cada gesto era um golpe, muito mais doído do que qualquer palavra. Ela não estava a deitar fora as coisas dele. Estava a equipá-lo para a viagem. Para a viagem da qual, para ela, ele já não voltava.

— Acaba com este circo! — exclamou a Amália, vendo que a situação lhe escapava. — Inês, estou-te a dizer, acaba já com isto!

Mas a Inês parecia surda. Fechou o fecho da mala. Depois foi ao suporte das chaves, junto à entrada da cozinha. Estavam dois conjuntos pendurados: o dela e o dele. Tirou o dele. O tilintar metálico no silêncio soou a sentença. O Gonçalo olhava para as chaves na mão dela e, finalmente, começou a perceber. Não era bluff. Não era teatro. Era uma execução.

A Inês foi até à mala, abriu com calma o bolso lateral, tirou de lá um segundo jogo de chaves da casa e fechou o fecho. Pronto. O toque final.

Ergueu a mala pesada, sem se curvar, levou-a até à porta da entrada. Abriu a porta e pôs a mala no patamar. Depois voltou-se. Não olhou para o marido, olhou para os dois, de pé um ao lado do outro, atordoados, sem qualquer soberba, fulminados por aquela frieza metódica e implacável. O olhar dela estava tranquilo.

— Pronto. Agora estás pronto. Podes ir. A tua mãe está à espera.

E fechou a porta. Não bateu com ela, não se trancou por dentro. Apenas fechou, cortando-os da vida dela. O estalido da fechadura foi baixo, quase banal. Mas para o Gonçalo e para a Amália, deixados no patamar meio às escuras ao lado da mala de viagem órfã, soou mais alto do que qualquer explosão. Tinham ganho. Ele estava livre para ir para a mãe. Só que já não tinha casa nenhuma.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

four × 2 =

— Se vais para casa da tua mãe por três meses, então talvez seja melhor divorciarmo-nos de vez? Porque estou farta de que passes a maior parte do tempo…
„Съжалявам, майко, не можех да ги оставя там“, ми каза 16‑годишният ми син, когато донесе у дома двойка новородени близнаци.