Não Vai Haver CasamentoNão Vai Haver Casamento

Catarina entrou no quarto e ficou imóvel na soleira, o coração a bater com uma emoção sufocante. Diante dela, vestida com um traje de noiva que realçava cada linha do corpo como uma escultura viva, estava Inês, emanando uma felicidade tranquila que lhe iluminava o olhar com uma luz quase etérea. Catarina não conseguiu reprimir o impulso:

Meu Deus, tu irradias uma luz tão forte! exclamou, sem conseguir desviar os olhos da amiga. Estou imensamente feliz por ti! Finalmente conseguiste virar esta página e abrir o coração a novos sentimentos, deixando o João para trás! És uma mulher de coragem!

Inês contraiu o rosto de forma quase impercetível, e o sorriso apagou-se de imediato. Apressada, agarrou nos fechos do vestido, evitando qualquer contacto visual com Catarina.

É melhor tirar isto murmurou, desprendendo com agilidade os pequenos ganchos no lado. Faltam apenas duas semanas para o grande dia. Se algo acontecer ao vestido, nunca mais encontrarei outro igual.

Catarina mordeu o lábio, sentindo o erro a pesar-lhe. Percebeu no mesmo instante que tinha tocado num ponto proibido. Para que trazer à conversa o João agora? Com um homem digno finalmente na vida de Inês, recordar o passado era um erro imperdoável. O João não merecia sequer uma lágrima daquela mulher, não depois de tudo o que lhe fizera passar!

Antigamente, Inês via nele o seu destino, o único. Acreditava que aquela relação era para a vida toda. Mas tudo começou a desmoronar-se aos poucos. Ele afastou-se, arranjando desculpas para não se encontrarem, depois passou a criticar abertamente as escolhas dela, os amigos, os sonhos. Convenceu-a a abandonar um projeto importante no trabalho, persuadiu-a a desistir de uma oportunidade de estágio no estrangeiro, e por fim obrigou-a a mudar de profissão por completo.

A família de Inês não compreendia o que se passava com ela. Viam-na a transformar-se, a perder-se, mas nada podiam fazer. As tentativas de conversa acabavam sempre em discussões o João tinha-a convencido de que os parentes não o aceitavam e tentavam destruir o seu amor perfeito. O conflito cresceu, e chegou o momento em que Inês quase deixou de falar com os pais.

Depois, ele simplesmente desapareceu. Foi-se embora sem explicações, sem uma palavra de despedida. Restou apenas uma ferida profunda na alma e uma criança que Inês decidiu manter, apesar de tudo.

Agora, a ver a amiga a despachar-se a tirar o vestido de noiva, Catarina sentia uma culpa cortante. Queria apenas alegrar-se com ela, vê-la feliz. E com certeza não pretendia reavivar memórias que ainda doíam tanto…

Atualmente, o pequeno Joãozinho completava quatro anos. Era uma criança cheia de vida e curiosidade, que fazia perguntas sobre tudo o que via. Ora tentava perceber porque o céu era azul, ora perguntava para onde seguiam as nuvens, ora observava fascinada os insetos nos passeios. As educadoras no jardim de infância elogiavam muitas vezes a sua inteligência: Joãozinho aprendia depressa, memorizava poemas com facilidade e ouvia com interesse histórias longas.

Passava quase todo o tempo com os avós os pais de Inês. Eles assumiram com alegria o cuidado do neto e procuravam desenvolvê-lo de todas as maneiras. Foram eles que escolheram o jardim de infância com inglês, que o levaram à piscina, que o inscreveram em aulas de dança. Inês visitava o filho várias vezes por semana, mas nunca ficava mais de uma hora.

A razão era simples e dolorosa. Joãozinho era incrivelmente parecido com o pai. Os mesmos cabelos escuros e encaracolados, o mesmo formato dos olhos, o mesmo sorriso ligeiramente irónico. Cada vez que olhava para o filho, Inês parecia voltar ao passado aos dias em que acreditava que a sua família seria feliz. Amava o menino com todo o coração, orgulhava-se dos sucessos dele, alegrava-se com cada sorriso. Mas com o amor vinha sempre uma dor aguda e apertada. Bastava pegar no filho ao colo ou fitar-lhe os olhos para que as lágrimas lhe subissem aos cílios. Virava-se, fingia arranjar a roupa ou procurar algo na mala, e depois chorava em silêncio quando Joãozinho já não via.

Certa noite, Inês foi buscar Joãozinho a casa dos pais. O menino estava no tapete a montar um quebra-cabeça, franzindo o sobrolho com concentração. Ao ver a mãe, saltou de alegria e correu até ela.

Mãe, olha! puxou-a para o tapete. Quase acabei. Aqui é a casinha e a árvore, e aqui… aqui vai estar o cão!

Inês agachou-se ao lado, forçando um sorriso.

Está muito bonito disse, acariciando-lhe a cabeça. És um rapazinho esperto, a montar tudo com tanto cuidado.

Joãozinho pensou um momento, depois ergueu os olhos para ela:

Mãe, e onde está o meu pai? No jardim de infância, todas as crianças têm pai, só eu é que não tenho…

Inês ficou petrificada. Por dentro tudo se contraiu, mas esforçou-se por manter a voz firme:

Não sei, meu filho. O pai está longe agora. Mas ele pensa em ti, acredita.

E porque é que ele não telefona? Joãozinho franziu o cenho, como se resolvesse um enigma complicado. Eu contava-lhe que aprendi a atar os atacadores sozinho!

Ele… está muito ocupado balbuciou Inês, sentindo um nó na garganta. Mas tenho a certeza de que se orgulha de ti.

O menino refletiu por um segundo, depois acenou com a cabeça, como se aceitasse, e voltou ao quebra-cabeça.

Está bem. Então vou acabar esta casinha, e o pai vai ver como sou inteligente!

Inês ficou sentada ao lado, a observá-lo, engolindo as lágrimas em silêncio. Queria dizer mais, consolá-lo, mas as palavras não saíam. Em vez disso, estendeu a mão e tornou a acariciar-lhe os cabelos, inalando o cheiro do champô infantil e tentando segurar aquele momento o instante em que o filho estava ali, feliz e confiante, apesar de todas as perguntas sem resposta.

Apesar disso, Inês não parava de pensar no João. No fundo da alma, continuava a arranjar desculpas para ele. Talvez lhe tivesse acontecido algo terrível? Talvez tivesse metido em sarilhos e não conseguisse dar notícias? Esses pensamentos ajudavam-na a aguentar, a não cair no abismo.

Os próximos tentaram várias vezes falar-lhe com franqueza. A mãe insinuava com cuidado que não valia a pena viver no passado, que devia focar-se no filho e na própria vida. Os amigos diziam abertamente: Ele abandonou-te. Está na hora de aceitar isso e seguir em frente! Mas Inês recusava ouvir os argumentos. Opunha-se com veemência, contava como eram felizes, recordava as promessas que ele fizera. As discussões acabavam muitas vezes com ela a fechar-se em si mesma, e os interlocutores, suspirando, recuavam.

Entretanto, Inês não ficava parada. De vez em quando verificava as redes sociais, telefonava a antigos conhecidos em sítios onde ele podia aparecer, até publicava pedidos de ajuda nas buscas. Tudo sem resultado! Mas não conseguia ou não queria aceitar que o João simplesmente se fora por vontade própria e não planeava voltar.

E então, passados cinco longos anos, apareceu na vida de Inês alguém que conseguiu derreter o seu coração. Aconteceu quase por acaso: conheceram-se no aniversário de um amigo comum. Pedro atraiu logo a sua atenção. O homem era… confiável, não havia outra palavra. Era autêntico! Sincero, bondoso, atencioso… O melhor!

Desde os primeiros encontros, Inês sentiu que com aquele homem podia ser ela própria. Pedro não exigia dela uma alegria fingida ou um sorriso perpétuo. Se ela estava cansada, ele simplesmente propunha ir para casa. Se ela queria ficar em silêncio, ele não tentava fazê-la falar. Pedro revelou-se exatamente o homem que ela, aparentemente, procurava: sério, equilibrado e, acima de tudo, sinceramente apaixonado.

Os sentimentos dele manifestavam-se até nos pormenores: na forma como descobria antecipadamente qual o café que ela gostava, como memorizava os nomes dos colegas dela e se interessava pelos assuntos deles, como assumia discretamente a resolução de questões do dia a dia. Estava pronto a tratá-la como uma rainha, e Inês, para ser honesta, aproveitava-se bastante desses sentimentos.

Sobretudo comoveu-a a forma como Pedro se entendeu com o Joãozinho. No primeiro encontro, o menino observava o estranho com cautela, agarrado à mão da mãe. Mas Pedro surpreendeu-a também aí! Agachou-se para ficar à altura do Joãozinho e perguntou que desenhos animados ele gostava. Meia hora depois, já montavam juntos um conjunto de construção, e o Joãozinho mostrava entusiasmado ao visitante os seus brinquedos preferidos.

Com o tempo, Pedro tornou-se um visitante frequente na casa dos pais de Inês, onde vivia o Joãozinho. Levava o menino ao parque, ensinava-o a andar de bicicleta, lia-lhe histórias antes de dormir. E uma vez, quando Inês os surpreendeu a desenhar juntos, Pedro disse calmamente: Gostaria de ser um verdadeiro pai para ele. Se me permitires, estou pronto a adotar o Joãozinho.

Catarina alegrava-se sinceramente pela amiga. Via como Inês ia mudando: aparecia brilho nos olhos, desaparecia a sombra constante de ansiedade no rosto, e o sorriso tornava-se genuíno, não forçado. Mas hoje Catarina cometera um erro lamentável tocara sem querer numa velha ferida, mencionando o João na conversa. Agora só esperava que Inês não se tivesse magoado demasiado e não caísse no desânimo.

Mas a jovem comportou-se surpreendentemente com calma.

Cresci disse com um leve sorriso, arrumando cuidadosamente o vestido na cama. E sei claramente que os meus sentimentos pelo João devem ficar no passado. Às vezes até me arrependo de ter dado o mesmo nome ao filho. Fui estúpida, não quis ouvir conselhos de ninguém… Como é que vocês me aturavam?

Catarina tocou-lhe cautelosamente a mão:

Planeias tirar o Joãozinho aos pais?

Sim respondeu Inês, tornando-se séria de repente. O Pedro insiste especialmente nisso. Até sugeriu mudar o nome ao menino. Diz que assim será mais fácil para mim. De qualquer forma, a certidão de nascimento terá de ser refeita quando a adoção for concluída.

Fez uma pausa, olhando as gotas de chuva a escorrer pelo vidro da janela.

Sabes, antes tinha medo que o Joãozinho me lembrasse constantemente o passado. Mas agora percebo que me enganava. Ele é meu filho, e merece uma infância completa, com dois pais que o amam! Os avós são ótimos, claro, mas não substituem os pais! E o Pedro compreende isso. Ele quer mesmo ser pai para ele! Se visses como se afeiçoou ao menino!

Ótima ideia! animou-se Catarina. Podes perguntar ao filho que nome ele prefere. Assim habitua-se mais depressa às mudanças.

Não tenho a certeza. Ainda não sei o que fazer. Há tempo, vamos pensar.

Na verdade, Inês estava a enganar. Continuava a amar o João, e esse amor não desaparecera. Só que esse amor não a levara a nada de bom. Os pais recusavam-se cada vez mais a deixá-la ver o filho, porque a rapariga quase em cada encontro começava a chorar, assustando o pequeno. Os amigos já não queriam ouvir falar dos problemas dela e duvidavam em segredo da sua sanidade mental. Por isso era altura de deixar o passado e concentrar-se no presente.

No casamento, por exemplo.

Só que era terrivelmente difícil!

O Pedro era sem dúvida um bom homem, mas… não era o João. Inês não sentia por ele sentimentos profundos, apenas aproveitava a sua afeição em proveito próprio.

Se o João voltasse… Ela daria tudo para estar ao lado dele…

Não vai haver casamento! exclamou Inês com os olhos a arder de excitação, quase a dançar de alegria. Vamos separar-nos como navios no mar!

Pedro olhava para Inês sem compreender, tentando assimilar as palavras dela. Faltava apenas uma semana para o casamento já tinham discutido o menu, escolhido as flores, convidado os convidados. Tudo parecia tão real, tão próximo… E agora ela dizia que não haveria casamento?

Como assim não vai haver? o homem tentava entender, se a noiva falava a sério ou se fazia uma piada de mau gosto. Inês, o que aconteceu? Explica direito.

Mas Inês limitou-se a afastar as perguntas com um gesto. Andava de um lado para o outro no quarto, agarrava coisas das prateleiras e atirava-as para a mala aberta. Os olhos dela brilhavam, um sorriso dançava nos lábios, tão invulgar, tão… sincero.

O João voltou! disparou ela, sem olhar para Pedro. Na voz dela soava uma felicidade tão genuína que o coração dele se partiu por dentro. Chegou ontem, explicámo-nos… Nem acreditei no início que fosse verdade!

Finalmente parou, virou-se para ele, e no olhar não havia sombra de arrependimento só euforia e impaciência.

Sou-te grata pelos últimos seis meses continuou, suavizando ligeiramente o tom. Contigo foi calmo, confortável… És uma pessoa maravilhosa, Pedro. Mas nunca te amei de verdade. Agora que tenho uma oportunidade de verdadeira felicidade, não posso deixá-la escapar.

Pedro sentiu uma frieza vazia a crescer no peito. João. Outra vez o João. Aquele homem de quem Inês falava com tal adoração que Pedro se sentia inevitavelmente supérfluo. Sabia que ela ainda pensava nele, mas esperava que o tempo e a vida em comum mudassem os sentimentos dela.

Já falaste com ele? conseguiu dizer finalmente, a voz abafada, como se lhe faltasse ar. O que é que ele disse? Que justificação arranjou desta vez?

Ele não justificou nada respondeu Inês, um pouco bruscamente. Limitou-se a dizer que percebeu o erro que cometeu. Que todo este tempo só pensou em mim!

Voltou a virar-se, continuando a arrumar coisas, e Pedro ficou parado, sentindo o mundo à sua volta a perder lentamente as cores.

Falámos por telefone continuou ela, a remexer nas coisas da gaveta da secretária, a verificar se não faltava nada importante. Os pais dele insistiram para estudar em Londres, e ele não conseguiu avisar-me da partida. Imaginas? Todo este tempo ele pensou só em mim, simplesmente não teve oportunidade de contactar. Mas agora tudo se vai resolver vamos estar juntos e viver uma vida longa e feliz!

Na memória de Inês ressurgiu aquela conversa com o João o primeiro telefonema depois da longa separação. A voz de João soava agitada, um pouco entrecortada:

Inês, sei que tudo isto parece horrível. Mas compreende os meus pais puseram-me diante de um facto. Disseram: ou os estudos em Londres, ou deserdam-me. Tentei resistir, juro que tentei… Mas bloquearam todos os meus cartões, cortaram-me o acesso às contas. Nem telefone próprio tinha!

Porque não me telefonaste pelo menos uma vez? a voz de Inês tremeu, mas ela fez o possível para não mostrar a mágoa.

Não podia. O que é que te ia dizer? Que fui um fraco por me submeter aos pais?

Então, a ouvir as explicações confusas dele, Inês sentiu um calor a espalhar-se por dentro. Todas as mágoas, toda a amargura dos últimos meses pareciam dissolver-se na voz dele. Percebeu de repente que esperara aquele telefonema todo o tempo cada dia, cada hora.

Agora vai ser diferente continuou João. Deixei os estudos, voltei. E não vou a mais lado nenhum.

Estas palavras ecoavam na sua consciência enquanto estava agora diante de Pedro.

Calou-se por um segundo, examinou rapidamente o quarto, como se se certificasse de que não esquecera nada. E só então notou como Pedro empalidecera. O rosto dele estava quase branco, e o olhar fixo num ponto, como se visse através dela.

Não te preocupes acrescentou Inês já um pouco mais suave, mas sem sombra de dúvida na voz. Já avisei toda a gente do cancelamento do casamento. Expliquei tudo, pedi para não te importunarem. Claro que vais ser rodeado de pessoas solidárias, mas és forte, vais conseguir.

Aproximou-se da mala, puxou-a para si e ajustou o puxador, como se fosse agora a coisa mais importante. Depois olhou de novo para Pedro, e no olhar não havia arrependimento nem hesitações.

E, por favor, não me telefones, não me mandes mensagens sem sentido nem deixes recados de voz disse ela com firmeza, quase num tom de ordem. A minha decisão é definitiva, e não a vou mudar em nenhuma circunstância!

Agarrando a mala, oscilou ligeiramente com o peso, mas endireitou-se de imediato e dirigiu-se à porta, como se temesse que o menor atraso pudesse abalar a sua determinação.

Pedro ficou no meio do quarto, sentindo tudo a contrair-se por dentro de dor e perplexidade. Inspirou fundo, tentando controlar-se. Queria gritar, exigir explicações, mas conteve-se não queria parecer fraco ou desesperado. Apertou os punhos, depois abriu-os lentamente, esforçando-se por falar com calma, quase com naturalidade:

Talvez estejas a apressar-te demasiado? disse ele, olhando atentamente para Inês.

Ela parou à porta, a segurar o puxador da mala, mas não se virou. Os ombros dela estavam tensos, os dedos agarravam com força o puxador de couro.

E se ele não quiser retomar a relação? continuou Pedro, dando um passo mais perto. Ou se recusar a reconhecer o filho? Ou, talvez, já te tenha feito uma proposta?

Inês virou-se bruscamente. O rosto dela ardia de excitação e irritação. Deu alguns passos em direção a Pedro, como se quisesse provar algo, obrigá-lo a compreender.

Ele convidou-me para uma conversa séria! disparou ela. Isso basta! E não tentes denegrir a imagem dele o João não é assim!

A voz dela vacilou nas últimas palavras, mas ela controlou-se imediatamente, endireitou-se e tornou a puxar a mala para a porta.

Podias ajudar murmurou entre dentes, levantando com dificuldade a mala pesada.

Pedro deu um passo em frente mecanicamente, como se realmente fosse ajudar, mas parou. Para que ajudar alguém que lhe pisoteou os sentimentos? O homem via claramente que mentalmente a rapariga já estava longe, ao lado do João. Nos olhos dela lia-se confiança, quase euforia: dentro em pouco começaria uma nova vida, cheia de felicidade e amor. Ela imaginava claramente como o João a receberia com um sorriso, diria que tudo correria bem, que finalmente estariam juntos.

Mas na realidade as coisas eram diferentes. O João, que a convidara para uma conversa séria, não pretendia fazer uma proposta ou jurar amor eterno. Queria apenas explicar-se, fechar o capítulo antigo para começar um novo mas já sem Inês. Além disso, já estava comprometido.

E Inês, arrebatada pelos seus sonhos, não via o óbvio. Esperara tanto por aquele momento que agora estava disposta a acreditar em qualquer coisa, só para não se desiludir de novo.

Com dificuldade, arrastou a mala até à porta, parou por um segundo, pousou a mão no puxador, como se fosse dizer algo. Mas mudou de ideias, abriu a porta de rompante e saiu, sem sequer olhar para trás.

Pedro ficou no meio do quarto, a olhar para a porta fechada. No ar ainda pairava o leve aroma do perfume dela, e nos ouvidos soavam as últimas palavras: O João não é assim!

O homem sentou-se lentamente numa cadeira, sentindo o cansaço a cair sobre si como uma onda pesada. Tudo acontecera demasiado depressa, demasiado irreversivelmente. E agora tinha de aprender a viver com isso sem Inês, sem planos para o futuro, sem ilusões…

João abriu a porta, surpreendido com a visita tão cedo. No limiar estava Inês com duas malas, o rosto a brilhar de alegria, os olhos a arder de antecipação. Ele ficou paralisado, incapaz de pronunciar uma palavra. Na cabeça só lhe passava um pensamento: Como pôde ela enganar-se tanto?

Ele estava convencido de que tudo tinha acabado há muito. Quando Inês começou a namorar com Pedro, João finalmente respirou de alívio. Agora podia regressar tranquilamente a Lisboa, viver ali com a mulher, sem temer telefonemas repentinos, lágrimas e acusações. Até agradeceu mentalmente a Inês por ter encontrado outro isso resolveu todos os problemas de uma vez.

Sim, telefonou-lhe e tentou explicar que tudo mudara, e até propôs encontrar-se em terreno neutro, mas foi pura formalidade!

E agora ela estava à porta dele com as coisas, claramente à espera de algo mais do que uma simples conversa. João recuou involuntariamente um passo, tentando organizar as ideias.

João! exclamou Inês, mal o viu. Decidi tudo. Estou aqui, e finalmente vamos estar juntos!

A voz dela soava tão confiante, como se não houvesse outra hipótese. Deu um passo em frente, mas João ergueu instintivamente a mão, detendo-a.

Inês, espera… começou ele, tentando falar o mais suavemente possível. Provavelmente não sabes tudo.

Ela franziu o sobrolho, o sorriso a desaparecer lentamente do rosto.

Do que estás a falar? Combinámos encontrar-nos e discutir tudo!

João suspirou profundamente, percebendo que o momento era inevitável.

Estou casado, Inês. Há dois anos. Somos muito felizes com a minha mulher.

Inês ficou paralisada, os olhos a dilatarem-se de choque. Calou-se alguns segundos, como se não conseguisse acreditar no que ouvira. Depois o rosto distorceu-se no olhar misturavam-se pânico, mágoa e indignação.

O que estás a dizer? sussurrou ela, abanando a cabeça. Isso não pode ser… Tu telefonaste-me, disseste que tudo mudara!

Telefonei para me despedir como deve ser respondeu João em voz baixa. Queria explicar que o tempo passou, que cada um de nós tem agora a sua vida. Mas tu, aparentemente, interpretaste de outra forma.

Inês recuou um passo, as mãos a tremerem. Apertou os punhos, tentando controlar-se, mas as emoções transbordavam.

Tu… mentiste-me todo este tempo! gritou ela, a voz a tremer de raiva. Como pudeste fazer uma coisa destas? Deixei tudo por ti!

João sentiu a irritação a crescer por dentro. Não queria uma cena, não queria justificar-se, mas Inês claramente não ia embora sem esclarecer as coisas.

Nunca te prometi nada disse ele com firmeza. Tu própria decidiste que ficaríamos juntos. Eu só não queria magoar-te, por isso falei com cuidado. Mas agora está tudo claro, não é?

Inês soltou um grito, agarrou uma das malas e atirou-a com força ao chão. As coisas espalharam-se pelo corredor, mas ela não se importou. Gritava, acusava, exigia explicações, a voz a ficar cada vez mais alta.

João teve de a expulsar educadamente mas com firmeza para o patamar. Fechou a porta, esperando que isso pusesse um ponto final na conversa. Mas Inês não se acalmava batia à porta, gritava, chamava-o pelo nome. Os vizinhos começaram a espreitar das portas, alguém resmungava descontente, alguém protestava em voz alta.

Uma hora depois, quando os gritos de Inês se tornaram ainda mais altos, e os vizinhos já ameaçavam seriamente chamar a polícia, ela finalmente foi-se embora. Antes de sair, virou-se, olhou para a porta do apartamento de João e gritou entre lágrimas:

Eu volto! Tu ainda vais arrepender-te!

João fechou os olhos, sentindo o cansaço a envolvê-lo. Percebia que não era o fim. Inês era teimosa, e se decidia algo, não desistia facilmente.

Entrou na sala, sentou-se no sofá e ponderou. Precisava de tomar medidas urgentes. Não podia ficar naquele apartamento Inês podia voltar, fazer uma cena, incomodar os vizinhos. João tirou o telemóvel e abriu o site de imobiliário.

É preciso vender o apartamento e procurar outro decidiu ele. De preferência no outro lado da cidade…

Inês andava pela rua, sem notar nada à volta. Os olhos toldados pelas lágrimas, fragmentos de pensamentos a rodar na cabeça, o coração pesado e vazio. Ainda não conseguia perceber completamente o que tinha acontecido. Na sua imaginação, o João deveria recebê-la de braços abertos, dizer que esperara por aquele momento, que finalmente estariam juntos. Mas a realidade revelou-se bem diferente cruel e impiedosa.

Andou muito tempo pela cidade, tentando reunir forças. Os pés levaram-na à casa de Pedro. Inês parou à entrada do prédio, limpou as lágrimas, arranjou o cabelo queria parecer pelo menos um pouco composta. Inspirando profundamente, subiu ao andar certo e premiu hesitante o botão da campainha.

Pedro não abriu a porta imediatamente. Quando finalmente apareceu no vão, o rosto permanecia frio e distante. Olhou em silêncio para Inês, sem fazer qualquer tentativa de a convidar a entrar.

Pedro, por favor começou ela com a voz a tremer. Sei o que fiz. Compreendo quão estúpido e cruel foi o meu ato. Mas eu… eu quero corrigir tudo.

Calou-se, tentando encontrar as palavras. Os olhos voltaram a brilhar com lágrimas.

Nunca mais vou mencionar o nome do João continuou, olhando-o diretamente nos olhos. Juro. Tudo isto foi um erro. Percebi que só contigo posso ser feliz. Por favor, dá-me uma oportunidade.

A voz dela soava sincera, quase desesperada. Ela realmente acreditava no que dizia naquele momento parecia-lhe que, se Pedro a perdoasse, tudo se resolveria.

Pedro abanou lentamente a cabeça. Não, desta vez não cairia na mesma.

Inês disse ele em voz baixa , tu já decidiste tudo. Há algumas horas estavas no meu apartamento com as malas e dizias que ias embora com ele. Estavas certa da tua escolha.

Então enganei-me! interrompeu ela. Não percebia o que fazia! Estava emocional! Eu…

Pedro suspirou, passou a mão pelo cabelo. Não era fácil, mas sabia firmemente: não podia voltar a ceder às emoções.

Não saíste só de mim saíste para ele. Fizeste uma escolha, e eu aceitei-a. E agora, quando as coisas não correram como querias, queres voltar?

Sim! exclamou Inês. Porque te amo. Só a ti.

Ele ficou em silêncio alguns segundos, depois sorriu de lado e declarou inesperadamente com firmeza:

Já não acredito na sinceridade das tuas palavras. Adeus.

Inês sentiu tudo a partir-se por dentro. Pedro olhava para ela com calma, sem raiva, mas nos olhos não havia uma gota de dúvida. Realmente já não acreditava nela.

Por favor… sussurrou ela, mas a voz tremeu e cortou-se.

Desculpa disse Pedro. Mas vai ser melhor para nós os dois.

Fechou a porta, deixando Inês de pé no corredor vazio. Ela ficou imóvel mais alguns segundos, depois baixou-se lentamente para um degrau, cobriu o rosto com as mãos e chorou. Desta vez as lágrimas não eram de mágoa ou raiva eram de amarga consciência de que perdera tanto o João como o Pedro, e agora não sabia como viver dali em diante…Catarina entrou no quarto e ficou imóvel na soleira, o coração a bater com uma emoção sufocante. Diante dela, vestida com um traje de noiva que realçava cada linha do corpo como uma escultura viva, estava Inês, emanando uma felicidade tranquila que lhe iluminava o olhar com uma luz quase etérea. Catarina não conseguiu reprimir o impulso:

Meu Deus, tu irradias uma luz tão forte! exclamou, sem conseguir desviar os olhos da amiga. Estou imensamente feliz por ti! Finalmente conseguiste virar esta página e abrir o coração a novos sentimentos, deixando o João para trás! És uma mulher de coragem!

Inês contraiu o rosto de forma quase impercetível, e o sorriso apagou-se de imediato. Apressada, agarrou nos fechos do vestido, evitando qualquer contacto visual com Catarina.

É melhor tirar isto murmurou, desprendendo com agilidade os pequenos ganchos no lado. Faltam apenas duas semanas para o grande dia. Se algo acontecer ao vestido, nunca mais encontrarei outro igual.

Catarina mordeu o lábio, sentindo o erro a pesar-lhe. Percebeu no mesmo instante que tinha tocado num ponto proibido. Para que trazer à conversa o João agora? Com um homem digno finalmente na vida de Inês, recordar o passado era um erro imperdoável. O João não merecia sequer uma lágrima daquela mulher, não depois de tudo o que lhe fizera passar!

Antigamente, Inês via nele o seu destino, o único. Acreditava que aquela relação era para a vida toda. Mas tudo começou a desmoronar-se aos poucos. Ele afastou-se, arranjando desculpas para não se encontrarem, depois passou a criticar abertamente as escolhas dela, os amigos, os sonhos. Convenceu-a a abandonar um projeto importante no trabalho, persuadiu-a a desistir de uma oportunidade de estágio no estrangeiro, e por fim obrigou-a a mudar de profissão por completo.

A família de Inês não compreendia o que se passava com ela. Viam-na a transformar-se, a perder-se, mas nada podiam fazer. As tentativas de conversa acabavam sempre em discussões o João tinha-a convencido de que os parentes não o aceitavam e tentavam destruir o seu amor perfeito. O conflito cresceu, e chegou o momento em que Inês quase deixou de falar com os pais.

Depois, ele simplesmente desapareceu. Foi-se embora sem explicações, sem uma palavra de despedida. Restou apenas uma ferida profunda na alma e uma criança que Inês decidiu manter, apesar de tudo.

Agora, a ver a amiga a despachar-se a tirar o vestido de noiva, Catarina sentia uma culpa cortante. Queria apenas alegrar-se com ela, vê-la feliz. E com certeza não pretendia reavivar memórias que ainda doíam tanto…

Atualmente, o pequeno Joãozinho completava quatro anos. Era uma criança cheia de vida e curiosidade, que fazia perguntas sobre tudo o que via. Ora tentava perceber porque o céu era azul, ora perguntava para onde seguiam as nuvens, ora observava fascinada os insetos nos passeios. As educadoras no jardim de infância elogiavam muitas vezes a sua inteligência: Joãozinho aprendia depressa, memorizava poemas com facilidade e ouvia com interesse histórias longas.

Passava quase todo o tempo com os avós os pais de Inês. Eles assumiram com alegria o cuidado do neto e procuravam desenvolvê-lo de todas as maneiras. Foram eles que escolheram o jardim de infância com inglês, que o levaram à piscina, que o inscreveram em aulas de dança. Inês visitava o filho várias vezes por semana, mas nunca ficava mais de uma hora.

A razão era simples e dolorosa. Joãozinho era incrivelmente parecido com o pai. Os mesmos cabelos escuros e encaracolados, o mesmo formato dos olhos, o mesmo sorriso ligeiramente irónico. Cada vez que olhava para o filho, Inês parecia voltar ao passado aos dias em que acreditava que a sua família seria feliz. Amava o menino com todo o coração, orgulhava-se dos sucessos dele, alegrava-se com cada sorriso. Mas com o amor vinha sempre uma dor aguda e apertada. Bastava pegar no filho ao colo ou fitar-lhe os olhos para que as lágrimas lhe subissem aos cílios. Virava-se, fingia arranjar a roupa ou procurar algo na mala, e depois chorava em silêncio quando Joãozinho já não via.

Certa noite, Inês foi buscar Joãozinho a casa dos pais. O menino estava no tapete a montar um quebra-cabeça, franzindo o sobrolho com concentração. Ao ver a mãe, saltou de alegria e correu até ela.

Mãe, olha! puxou-a para o tapete. Quase acabei. Aqui é a casinha e a árvore, e aqui… aqui vai estar o cão!

Inês agachou-se ao lado, forçando um sorriso.

Está muito bonito disse, acariciando-lhe a cabeça. És um rapazinho esperto, a montar tudo com tanto cuidado.

Joãozinho pensou um momento, depois ergueu os olhos para ela:

Mãe, e onde está o meu pai? No jardim de infância, todas as crianças têm pai, só eu é que não tenho…

Inês ficou petrificada. Por dentro tudo se contraiu, mas esforçou-se por manter a voz firme:

Não sei, meu filho. O pai está longe agora. Mas ele pensa em ti, acredita.

E porque é que ele não telefona? Joãozinho franziu o cenho, como se resolvesse um enigma complicado. Eu contava-lhe que aprendi a atar os atacadores sozinho!

Ele… está muito ocupado balbuciou Inês, sentindo um nó na garganta. Mas tenho a certeza de que se orgulha de ti.

O menino refletiu por um segundo, depois acenou com a cabeça, como se aceitasse, e voltou ao quebra-cabeça.

Está bem. Então vou acabar esta casinha, e o pai vai ver como sou inteligente!

Inês ficou sentada ao lado, a observá-lo, engolindo as lágrimas em silêncio. Queria dizer mais, consolá-lo, mas as palavras não saíam. Em vez disso, estendeu a mão e tornou a acariciar-lhe os cabelos, inalando o cheiro do champô infantil e tentando segurar aquele momento o instante em que o filho estava ali, feliz e confiante, apesar de todas as perguntas sem resposta.

Apesar disso, Inês não parava de pensar no João. No fundo da alma, continuava a arranjar desculpas para ele. Talvez lhe tivesse acontecido algo terrível? Talvez tivesse metido em sarilhos e não conseguisse dar notícias? Esses pensamentos ajudavam-na a aguentar, a não cair no abismo.

Os próximos tentaram várias vezes falar-lhe com franqueza. A mãe insinuava com cuidado que não valia a pena viver no passado, que devia focar-se no filho e na própria vida. Os amigos diziam abertamente: Ele abandonou-te. Está na hora de aceitar isso e seguir em frente! Mas Inês recusava ouvir os argumentos. Opunha-se com veemência, contava como eram felizes, recordava as promessas que ele fizera. As discussões acabavam muitas vezes com ela a fechar-se em si mesma, e os interlocutores, suspirando, recuavam.

Entretanto, Inês não ficava parada. De vez em quando verificava as redes sociais, telefonava a antigos conhecidos em sítios onde ele podia aparecer, até publicava pedidos de ajuda nas buscas. Tudo sem resultado! Mas não conseguia ou não queria aceitar que o João simplesmente se fora por vontade própria e não planeava voltar.

E então, passados cinco longos anos, apareceu na vida de Inês alguém que conseguiu derreter o seu coração. Aconteceu quase por acaso: conheceram-se no aniversário de um amigo comum. Pedro atraiu logo a sua atenção. O homem era… confiável, não havia outra palavra. Era autêntico! Sincero, bondoso, atencioso… O melhor!

Desde os primeiros encontros, Inês sentiu que com aquele homem podia ser ela própria. Pedro não exigia dela uma alegria fingida ou um sorriso perpétuo. Se ela estava cansada, ele simplesmente propunha ir para casa. Se ela queria ficar em silêncio, ele não tentava fazê-la falar. Pedro revelou-se exatamente o homem que ela, aparentemente, procurava: sério, equilibrado e, acima de tudo, sinceramente apaixonado.

Os sentimentos dele manifestavam-se até nos pormenores: na forma como descobria antecipadamente qual o café que ela gostava, como memorizava os nomes dos colegas dela e se interessava pelos assuntos deles, como assumia discretamente a resolução de questões do dia a dia. Estava pronto a tratá-la como uma rainha, e Inês, para ser honesta, aproveitava-se bastante desses sentimentos.

Sobretudo comoveu-a a forma como Pedro se entendeu com o Joãozinho. No primeiro encontro, o menino observava o estranho com cautela, agarrado à mão da mãe. Mas Pedro surpreendeu-a também aí! Agachou-se para ficar à altura do Joãozinho e perguntou que desenhos animados ele gostava. Meia hora depois, já montavam juntos um conjunto de construção, e o Joãozinho mostrava entusiasmado ao visitante os seus brinquedos preferidos.

Com o tempo, Pedro tornou-se um visitante frequente na casa dos pais de Inês, onde vivia o Joãozinho. Levava o menino ao parque, ensinava-o a andar de bicicleta, lia-lhe histórias antes de dormir. E uma vez, quando Inês os surpreendeu a desenhar juntos, Pedro disse calmamente: Gostaria de ser um verdadeiro pai para ele. Se me permitires, estou pronto a adotar o Joãozinho.

Catarina alegrava-se sinceramente pela amiga. Via como Inês ia mudando: aparecia brilho nos olhos, desaparecia a sombra constante de ansiedade no rosto, e o sorriso tornava-se genuíno, não forçado. Mas hoje Catarina cometera um erro lamentável tocara sem querer numa velha ferida, mencionando o João na conversa. Agora só esperava que Inês não se tivesse magoado demasiado e não caísse no desânimo.

Mas a jovem comportou-se surpreendentemente com calma.

Cresci disse com um leve sorriso, arrumando cuidadosamente o vestido na cama. E sei claramente que os meus sentimentos pelo João devem ficar no passado. Às vezes até me arrependo de ter dado o mesmo nome ao filho. Fui estúpida, não quis ouvir conselhos de ninguém… Como é que vocês me aturavam?

Catarina tocou-lhe cautelosamente a mão:

Planeias tirar o Joãozinho aos pais?

Sim respondeu Inês, tornando-se séria de repente. O Pedro insiste especialmente nisso. Até sugeriu mudar o nome ao menino. Diz que assim será mais fácil para mim. De qualquer forma, a certidão de nascimento terá de ser refeita quando a adoção for concluída.

Fez uma pausa, olhando as gotas de chuva a escorrer pelo vidro da janela.

Sabes, antes tinha medo que o Joãozinho me lembrasse constantemente o passado. Mas agora percebo que me enganava. Ele é meu filho, e merece uma infância completa, com dois pais que o amam! Os avós são ótimos, claro, mas não substituem os pais! E o Pedro compreende isso. Ele quer mesmo ser pai para ele! Se visses como se afeiçoou ao menino!

Ótima ideia! animou-se Catarina. Podes perguntar ao filho que nome ele prefere. Assim habitua-se mais depressa às mudanças.

Não tenho a certeza. Ainda não sei o que fazer. Há tempo, vamos pensar.

Na verdade, Inês estava a enganar. Continuava a amar o João, e esse amor não desaparecera. Só que esse amor não a levara a nada de bom. Os pais recusavam-se cada vez mais a deixá-la ver o filho, porque a rapariga quase em cada encontro começava a chorar, assustando o pequeno. Os amigos já não queriam ouvir falar dos problemas dela e duvidavam em segredo da sua sanidade mental. Por isso era altura de deixar o passado e concentrar-se no presente.

No casamento, por exemplo.

Só que era terrivelmente difícil!

O Pedro era sem dúvida um bom homem, mas… não era o João. Inês não sentia por ele sentimentos profundos, apenas aproveitava a sua afeição em proveito próprio.

Se o João voltasse… Ela daria tudo para estar ao lado dele…

Não vai haver casamento! exclamou Inês com os olhos a arder de excitação, quase a dançar de alegria. Vamos separar-nos como navios no mar!

Pedro olhava para Inês sem compreender, tentando assimilar as palavras dela. Faltava apenas uma semana para o casamento já tinham discutido o menu, escolhido as flores, convidado os convidados. Tudo parecia tão real, tão próximo… E agora ela dizia que não haveria casamento?

Como assim não vai haver? o homem tentava entender, se a noiva falava a sério ou se fazia uma piada de mau gosto. Inês, o que aconteceu? Explica direito.

Mas Inês limitou-se a afastar as perguntas com um gesto. Andava de um lado para o outro no quarto, agarrava coisas das prateleiras e atirava-as para a mala aberta. Os olhos dela brilhavam, um sorriso dançava nos lábios, tão invulgar, tão… sincero.

O João voltou! disparou ela, sem olhar para Pedro. Na voz dela soava uma felicidade tão genuína que o coração dele se partiu por dentro. Chegou ontem, explicámo-nos… Nem acreditei no início que fosse verdade!

Finalmente parou, virou-se para ele, e no olhar não havia sombra de arrependimento só euforia e impaciência.

Sou-te grata pelos últimos seis meses continuou, suavizando ligeiramente o tom. Contigo foi calmo, confortável… És uma pessoa maravilhosa, Pedro. Mas nunca te amei de verdade. Agora que tenho uma oportunidade de verdadeira felicidade, não posso deixá-la escapar.

Pedro sentiu uma frieza vazia a crescer no peito. João. Outra vez o João. Aquele homem de quem Inês falava com tal adoração que Pedro se sentia inevitavelmente supérfluo. Sabia que ela ainda pensava nele, mas esperava que o tempo e a vida em comum mudassem os sentimentos dela.

Já falaste com ele? conseguiu dizer finalmente, a voz abafada, como se lhe faltasse ar. O que é que ele disse? Que justificação arranjou desta vez?

Ele não justificou nada respondeu Inês, um pouco bruscamente. Limitou-se a dizer que percebeu o erro que cometeu. Que todo este tempo só pensou em mim!

Voltou a virar-se, continuando a arrumar coisas, e Pedro ficou parado, sentindo o mundo à sua volta a perder lentamente as cores.

Falámos por telefone continuou ela, a remexer nas coisas da gaveta da secretária, a verificar se não faltava nada importante. Os pais dele insistiram para estudar em Londres, e ele não conseguiu avisar-me da partida. Imaginas? Todo este tempo ele pensou só em mim, simplesmente não teve oportunidade de contactar. Mas agora tudo se vai resolver vamos estar juntos e viver uma vida longa e feliz!

Na memória de Inês ressurgiu aquela conversa com o João o primeiro telefonema depois da longa separação. A voz de João soava agitada, um pouco entrecortada:

Inês, sei que tudo isto parece horrível. Mas compreende os meus pais puseram-me diante de um facto. Disseram: ou os estudos em Londres, ou deserdam-me. Tentei resistir, juro que tentei… Mas bloquearam todos os meus cartões, cortaram-me o acesso às contas. Nem telefone próprio tinha!

Porque não me telefonaste pelo menos uma vez? a voz de Inês tremeu, mas ela fez o possível para não mostrar a mágoa.

Não podia. O que é que te ia dizer? Que fui um fraco por me submeter aos pais?

Então, a ouvir as explicações confusas dele, Inês sentiu um calor a espalhar-se por dentro. Todas as mágoas, toda a amargura dos últimos meses pareciam dissolver-se na voz dele. Percebeu de repente que esperara aquele telefonema todo o tempo cada dia, cada hora.

Agora vai ser diferente continuou João. Deixei os estudos, voltei. E não vou a mais lado nenhum.

Estas palavras ecoavam na sua consciência enquanto estava agora diante de Pedro.

Calou-se por um segundo, examinou rapidamente o quarto, como se se certificasse de que não esquecera nada. E só então notou como Pedro empalidecera. O rosto dele estava quase branco, e o olhar fixo num ponto, como se visse através dela.

Não te preocupes acrescentou Inês já um pouco mais suave, mas sem sombra de dúvida na voz. Já avisei toda a gente do cancelamento do casamento. Expliquei tudo, pedi para não te importunarem. Claro que vais ser rodeado de pessoas solidárias, mas és forte, vais conseguir.

Aproximou-se da mala, puxou-a para si e ajustou o puxador, como se fosse agora a coisa mais importante. Depois olhou de novo para Pedro, e no olhar não havia arrependimento nem hesitações.

E, por favor, não me telefones, não me mandes mensagens sem sentido nem deixes recados de voz disse ela com firmeza, quase num tom de ordem. A minha decisão é definitiva, e não a vou mudar em nenhuma circunstância!

Agarrando a mala, oscilou ligeiramente com o peso, mas endireitou-se de imediato e dirigiu-se à porta, como se temesse que o menor atraso pudesse abalar a sua determinação.

Pedro ficou no meio do quarto, sentindo tudo a contrair-se por dentro de dor e perplexidade. Inspirou fundo, tentando controlar-se. Queria gritar, exigir explicações, mas conteve-se não queria parecer fraco ou desesperado. Apertou os punhos, depois abriu-os lentamente, esforçando-se por falar com calma, quase com naturalidade:

Talvez estejas a apressar-te demasiado? disse ele, olhando atentamente para Inês.

Ela parou à porta, a segurar o puxador da mala, mas não se virou. Os ombros dela estavam tensos, os dedos agarravam com força o puxador de couro.

E se ele não quiser retomar a relação? continuou Pedro, dando um passo mais perto. Ou se recusar a reconhecer o filho? Ou, talvez, já te tenha feito uma proposta?

Inês virou-se bruscamente. O rosto dela ardia de excitação e irritação. Deu alguns passos em direção a Pedro, como se quisesse provar algo, obrigá-lo a compreender.

Ele convidou-me para uma conversa séria! disparou ela. Isso basta! E não tentes denegrir a imagem dele o João não é assim!

A voz dela vacilou nas últimas palavras, mas ela controlou-se imediatamente, endireitou-se e tornou a puxar a mala para a porta.

Podias ajudar murmurou entre dentes, levantando com dificuldade a mala pesada.

Pedro deu um passo em frente mecanicamente, como se realmente fosse ajudar, mas parou. Para que ajudar alguém que lhe pisoteou os sentimentos? O homem via claramente que mentalmente a rapariga já estava longe, ao lado do João. Nos olhos dela lia-se confiança, quase euforia: dentro em pouco começaria uma nova vida, cheia de felicidade e amor. Ela imaginava claramente como o João a receberia com um sorriso, diria que tudo correria bem, que finalmente estariam juntos.

Mas na realidade as coisas eram diferentes. O João, que a convidara para uma conversa séria, não pretendia fazer uma proposta ou jurar amor eterno. Queria apenas explicar-se, fechar o capítulo antigo para começar um novo mas já sem Inês. Além disso, já estava comprometido.

E Inês, arrebatada pelos seus sonhos, não via o óbvio. Esperara tanto por aquele momento que agora estava disposta a acreditar em qualquer coisa, só para não se desiludir de novo.

Com dificuldade, arrastou a mala até à porta, parou por um segundo, pousou a mão no puxador, como se fosse dizer algo. Mas mudou de ideias, abriu a porta de rompante e saiu, sem sequer olhar para trás.

Pedro ficou no meio do quarto, a olhar para a porta fechada. No ar ainda pairava o leve aroma do perfume dela, e nos ouvidos soavam as últimas palavras: O João não é assim!

O homem sentou-se lentamente numa cadeira, sentindo o cansaço a cair sobre si como uma onda pesada. Tudo acontecera demasiado depressa, demasiado irreversivelmente. E agora tinha de aprender a viver com isso sem Inês, sem planos para o futuro, sem ilusões…

João abriu a porta, surpreendido com a visita tão cedo. No limiar estava Inês com duas malas, o rosto a brilhar de alegria, os olhos a arder de antecipação. Ele ficou paralisado, incapaz de pronunciar uma palavra. Na cabeça só lhe passava um pensamento: Como pôde ela enganar-se tanto?

Ele estava convencido de que tudo tinha acabado há muito. Quando Inês começou a namorar com Pedro, João finalmente respirou de alívio. Agora podia regressar tranquilamente a Lisboa, viver ali com a mulher, sem temer telefonemas repentinos, lágrimas e acusações. Até agradeceu mentalmente a Inês por ter encontrado outro isso resolveu todos os problemas de uma vez.

Sim, telefonou-lhe e tentou explicar que tudo mudara, e até propôs encontrar-se em terreno neutro, mas foi pura formalidade!

E agora ela estava à porta dele com as coisas, claramente à espera de algo mais do que uma simples conversa. João recuou involuntariamente um passo, tentando organizar as ideias.

João! exclamou Inês, mal o viu. Decidi tudo. Estou aqui, e finalmente vamos estar juntos!

A voz dela soava tão confiante, como se não houvesse outra hipótese. Deu um passo em frente, mas João ergueu instintivamente a mão, detendo-a.

Inês, espera… começou ele, tentando falar o mais suavemente possível. Provavelmente não sabes tudo.

Ela franziu o sobrolho, o sorriso a desaparecer lentamente do rosto.

Do que estás a falar? Combinámos encontrar-nos e discutir tudo!

João suspirou profundamente, percebendo que o momento era inevitável.

Estou casado, Inês. Há dois anos. Somos muito felizes com a minha mulher.

Inês ficou paralisada, os olhos a dilatarem-se de choque. Calou-se alguns segundos, como se não conseguisse acreditar no que ouvira. Depois o rosto distorceu-se no olhar misturavam-se pânico, mágoa e indignação.

O que estás a dizer? sussurrou ela, abanando a cabeça. Isso não pode ser… Tu telefonaste-me, disseste que tudo mudara!

Telefonei para me despedir como deve ser respondeu João em voz baixa. Queria explicar que o tempo passou, que cada um de nós tem agora a sua vida. Mas tu, aparentemente, interpretaste de outra forma.

Inês recuou um passo, as mãos a tremerem. Apertou os punhos, tentando controlar-se, mas as emoções transbordavam.

Tu… mentiste-me todo este tempo! gritou ela, a voz a tremer de raiva. Como pudeste fazer uma coisa destas? Deixei tudo por ti!

João sentiu a irritação a crescer por dentro. Não queria uma cena, não queria justificar-se, mas Inês claramente não ia embora sem esclarecer as coisas.

Nunca te prometi nada disse ele com firmeza. Tu própria decidiste que ficaríamos juntos. Eu só não queria magoar-te, por isso falei com cuidado. Mas agora está tudo claro, não é?

Inês soltou um grito, agarrou uma das malas e atirou-a com força ao chão. As coisas espalharam-se pelo corredor, mas ela não se importou. Gritava, acusava, exigia explicações, a voz a ficar cada vez mais alta.

João teve de a expulsar educadamente mas com firmeza para o patamar. Fechou a porta, esperando que isso pusesse um ponto final na conversa. Mas Inês não se acalmava batia à porta, gritava, chamava-o pelo nome. Os vizinhos começaram a espreitar das portas, alguém resmungava descontente, alguém protestava em voz alta.

Uma hora depois, quando os gritos de Inês se tornaram ainda mais altos, e os vizinhos já ameaçavam seriamente chamar a polícia, ela finalmente foi-se embora. Antes de sair, virou-se, olhou para a porta do apartamento de João e gritou entre lágrimas:

Eu volto! Tu ainda vais arrepender-te!

João fechou os olhos, sentindo o cansaço a envolvê-lo. Percebia que não era o fim. Inês era teimosa, e se decidia algo, não desistia facilmente.

Entrou na sala, sentou-se no sofá e ponderou. Precisava de tomar medidas urgentes. Não podia ficar naquele apartamento Inês podia voltar, fazer uma cena, incomodar os vizinhos. João tirou o telemóvel e abriu o site de imobiliário.

É preciso vender o apartamento e procurar outro decidiu ele. De preferência no outro lado da cidade…

Inês andava pela rua, sem notar nada à volta. Os olhos toldados pelas lágrimas, fragmentos de pensamentos a rodar na cabeça, o coração pesado e vazio. Ainda não conseguia perceber completamente o que tinha acontecido. Na sua imaginação, o João deveria recebê-la de braços abertos, dizer que esperara por aquele momento, que finalmente estariam juntos. Mas a realidade revelou-se bem diferente cruel e impiedosa.

Andou muito tempo pela cidade, tentando reunir forças. Os pés levaram-na à casa de Pedro. Inês parou à entrada do prédio, limpou as lágrimas, arranjou o cabelo queria parecer pelo menos um pouco composta. Inspirando profundamente, subiu ao andar certo e premiu hesitante o botão da campainha.

Pedro não abriu a porta imediatamente. Quando finalmente apareceu no vão, o rosto permanecia frio e distante. Olhou em silêncio para Inês, sem fazer qualquer tentativa de a convidar a entrar.

Pedro, por favor começou ela com a voz a tremer. Sei o que fiz. Compreendo quão estúpido e cruel foi o meu ato. Mas eu… eu quero corrigir tudo.

Calou-se, tentando encontrar as palavras. Os olhos voltaram a brilhar com lágrimas.

Nunca mais vou mencionar o nome do João continuou, olhando-o diretamente nos olhos. Juro. Tudo isto foi um erro. Percebi que só contigo posso ser feliz. Por favor, dá-me uma oportunidade.

A voz dela soava sincera, quase desesperada. Ela realmente acreditava no que dizia naquele momento parecia-lhe que, se Pedro a perdoasse, tudo se resolveria.

Pedro abanou lentamente a cabeça. Não, desta vez não cairia na mesma.

Inês disse ele em voz baixa , tu já decidiste tudo. Há algumas horas estavas no meu apartamento com as malas e dizias que ias embora com ele. Estavas certa da tua escolha.

Então enganei-me! interrompeu ela. Não percebia o que fazia! Estava emocional! Eu…

Pedro suspirou, passou a mão pelo cabelo. Não era fácil, mas sabia firmemente: não podia voltar a ceder às emoções.

Não saíste só de mim saíste para ele. Fizeste uma escolha, e eu aceitei-a. E agora, quando as coisas não correram como querias, queres voltar?

Sim! exclamou Inês. Porque te amo. Só a ti.

Ele ficou em silêncio alguns segundos, depois sorriu de lado e declarou inesperadamente com firmeza:

Já não acredito na sinceridade das tuas palavras. Adeus.

Inês sentiu tudo a partir-se por dentro. Pedro olhava para ela com calma, sem raiva, mas nos olhos não havia uma gota de dúvida. Realmente já não acreditava nela.

Por favor… sussurrou ela, mas a voz tremeu e cortou-se.

Desculpa disse Pedro. Mas vai ser melhor para nós os dois.

Fechou a porta, deixando Inês de pé no corredor vazio. Ela ficou imóvel mais alguns segundos, depois baixou-se lentamente para um degrau, cobriu o rosto com as mãos e chorou. Desta vez as lágrimas não eram de mágoa ou raiva eram de amarga consciência de que perdera tanto o João como o Pedro, e agora não sabia como viver dali em diante…

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