Hoje foi mais um dia igual aos outros, mas sinto que preciso escrever tudo para não enlouquecer. O meu pai entrou pela cozinha dentro como se fosse dono do mundo, desabou no banco e as pernas rasparam no chão. A minha mãe não disse nada, e eu fiquei parada no meu quarto, a ouvir.
— Estou a falar com quem? Olha para mim! — berrou ele, e bateu com o punho na mesa. Eu sabia que a minha mãe se tinha virado, os olhos dela cheios de medo. — Que estás a olhar? Dá de comer! Um homem chega a casa depois do trabalho. Sei bem como são as mulheres, só servem para falar da vida alheia e dar em cima dos outros. — resmungou, já mais baixo.
A minha mãe começou a bater com a loiça, a tirar um prato do escorredor às pressas.
— Outra vez massa? Já estou farto! — rosnou ele. Eu encolhi-me no quarto, a esperar ouvir o som de um prato a partir. Mas não. Ficou tudo em silêncio por uns instantes. Saí do quarto e espreitei. O meu pai estava de costas para mim. A minha mãe fez-me sinal para desaparecer, e eu sumi-me da porta como se nunca lá tivesse estado. Fechei-me no quarto e fingi estudar, mas a cada parágrafo parava para escutar. Estava sossegado. Hoje ele portou-se quase bem. Depois ouvi-o passar pelo meu quarto a caminho do deles, a resmungar qualquer coisa, e calou-se.
Isto acontece quase todos os dias. Já sei pelos sons o que se passa na cozinha. O meu pai nunca tem um trabalho fixo, não consegue aguentar-se num sítio por causa da bebida, vive de biscates. Quando a minha mãe não está, eu evito ficar sozinha com ele no apartamento; vou para casa de amigas depois da escola ou sento-me nas escadas à espera que ela volte.
— Olá. Que fazes aí sentada? Perdeste as chaves? — O Nuno parou à minha frente. Mora no quinto andar.
— Parece que sim. — respondi, a roçar. Tinha vergonha que ele me visse ali.
Ele passou por mim, subiu dois degraus e parou.
— Vais ficar com frio, não podes estar sentada no cimento. Vem cá a minha casa.
Eu não respondi.
— Anda. — disse ele com firmeza, e eu obedeci. Ele era mais velho, do secundário, e eu estava habituada a obedecer aos mais velhos.
O Nuno abriu a porta do apartamento e fez-me passar à frente.
— Mãe, cheguei. E não vim sozinho! — gritou ele, fechando a porta.
— Com quem? — A Dona Maria, mãe do Nuno, apareceu no corredor.
— Boa tarde. — cumprimentei baixinho.
— Olá. És a Inês, não é?
— Imagina, ia a subir as escadas e ela estava sentada nos degraus. — disse o Nuno, a despir-se.
— Perdeste as chaves? — perguntou a Dona Maria. — Descalcem-se e lavem as mãos, vou aquecer o almoço.
Entrei na sala e olhei à volta. O apartamento era igual ao nosso, mas mais acolhedor e bonito. O almoço soube-me muito bem, embora fosse só sopa de galinha e massa com salsichas.
— Obrigada, estava delicioso. — agradeci.
— Da próxima vez não fiques nas escadas, sobe logo. Combinado? — disse a Dona Maria.
Eu assenti.
— Obrigado, mãe. Vamos para o meu quarto. Anda. — O Nuno levantou-se e fez-me um gesto. Olhei para a Dona Maria, que acenou que sim.
Quando entrei no quarto dele, fiquei surpreendida por estar arrumado, limpo, sem coisas espalhadas. Na parede, posters de bandas famosas e de motas coloridas.
— Gostas de corridas? — perguntei.
— Não especialmente, os posters são bonitos.
— Eu não tenho computador. Tenho, mas o meu pai partiu o monitor. Não há dinheiro para um novo.
— Eu tenho um tablet, queres que te empreste? — ofereceu-se logo.
— Não, o meu pai via e vendia.
— Então vem aqui sempre que precisares de estudar.
— Já sabes o que vais fazer depois da escola? — Toquei num modelo de avião. — Fizeste tu?
— Claro. Quero entrar no Instituto Aeronáutico.
— Vais ser piloto?
— Não, vou projectar aviões. — sorriu com superioridade.
Ele era o sonho de todas as minhas colegas. Um bonitão. Amanhã na escola vou contar que estive em casa do Nuno Soares, vão ficar todas a morrer de inveja.
O tempo passou a voar. Olhei para o relógio e saltei.
— Tenho de ir, a minha mãe já deve ter chegado.
Não queria ir-me embora, mas também não queria abusar. O Nuno veio despedir-se ao corredor.
— Volta, não fiques nas escadas. — disse ele.
Entrei em casa e vi o casaco da minha mãe no cabide. Da cozinha vinha o barulho da loiça — ela estava a fazer o jantar.
— Donde vens tão tarde? — espreitou ela.
— Estive no quinto andar, no apartamento quinze.
— Não devias andar de casa em casa. O que é que as pessoas vão pensar? Queres jantar?
— Não, a Dona Maria já me deu comer. Vou fazer os trabalhos. Ele está em casa?
— Não ouves? Está a ressonar como um comboio. Onde é que foi buscar dinheiro? Embebedou-se outra vez. — suspirou a minha mãe.
A partir daí, comecei a ir muitas vezes a casa do Nuno. Quando o via nos intervalos, acenava e ficava vermelha. Ele cumprimentava e seguia.
Às vezes não o apanhava em casa; ele andava no ginásio à noite. Então a Dona Maria contava-me histórias do filho e do marido, que tinha morrido há uns anos.
O inverno deu lugar à primavera, chegou o verão. Eu já não subia tanto ao quinto andar, andava com as amigas ou sentava-me no banco do prédio.
— Porque é que não apareces? — perguntou-me o Nuno um dia, ao encontrar-me na rua. Encolhi os ombros.
— Já acabaste os exames? Quando vais para a universidade?
— Não vou. Vou estudar aqui no politécnico. Não quero deixar a minha mãe sozinha.
— Que bom! — fiquei contente.
No outono, fui lá uma vez com a desculpa de que não sabia resolver um problema. Mas não conseguíamos conversar como antes. Eu sentia vergonha do Nuno, estava constrangida. Ele tinha mudado, amadurecido, e estava ainda mais bonito.
Nesse inverno, o meu pai morreu, envenenado com vodka falsificada. A minha mãe nem chorou no funeral, e eu, por estranho que pareça, tive pena dele. Agora não precisava de esperar pela minha mãe a sair do trabalho, não tinha motivo para subir a casa do Nuno.
A minha mãe ainda se sobressaltava sempre que tocavam à campainha, os olhos dela cheios de medo.
— Mãe, que é isso? Ele já não está cá. — dizia eu.
— É o hábito. — respondia ela.
Eu já andava no décimo primeiro ano. Uma noite, estava à janela à espera do Nuno.
— O que é que fazes às escuras? À espera do Nuno? — a minha mãe entrou no quarto e acendeu a luz.
— Estou só a olhar para a rua. — respondi, zangada por ter sido apanhada.
— Ele é crescido, já tem namorada. Uma rapariga bonita. Mais valia estares a estudar. — suspirou ela.
O Nuno tinha namorada! O coração partia-se de ciúmes e de mágoa. Nunca a tinha visto, mas já a odiava. Até que um dia os encontrei no pátio.
— Inês? Olá, porque é que não apareces? — perguntou o Nuno, simpático. A namorada estava ao lado, a olhar para mim com um olhar gelado. Por ser alta, olhava de cima, quase com desprezo, como se eu fosse um rato. O Nuno também era alto, mas olhava para mim de outra maneira.
— Já estás em que ano?
— No último.
— Como o tempo passa. Estás mais bonita, crescida, mal se te reconhece. Para onde vais candidatar-te?
— Nuno, vamos. — a rapariga puxou-o pela mão, aborrecida.
— Adeus, boa sorte! — disse ele, e foram-se de braço dado.
Fiquei a olhar para eles. «Fria como um peixe, os olhos são duas pedras de gelo», pensei, furiosa. «Bem que lhe ficava o nome de Rainha da Neve, mas é demasiada honra.» E comecei a chamar-lhe Peixe, para mim.
O tempo passou, acabei a escola e entrei na Faculdade de Medicina. O Nuno formou-se e arranjou emprego, e pouco depois comprou um carro. Eu aprendi a reconhecer o som do motor, e corria para a janela sempre que ele parava à porta do prédio.
Um dia vinha da faculdade e encontrei a Dona Maria no pátio. Ela andava devagar com uma bengala, a coxear visivelmente.
— Olá, Dona Maria, o que é que tem? Porque é que coxeia? — perguntei.
— A perna dói-me, não aguento mais. Mal ando. O médico disse que preciso de uma operação, meter uma prótese, mas tenho medo. — queixou-se.
— Diga o que precisa de comprar, vou já à mercearia, não me custa nada. — ofereci-me logo.
— Vai, sim? O Nuno nunca está em casa…
Assim, comecei a ir a casa dele outra vez, embora com ele me encontrasse muito raramente. Ia às compras, ajudava a limpar a casa da mãe dele.
Um dia ganhei coragem e perguntei pela namorada.
— A Lara é bonita, sim, mas muito esquisita. Está sempre calada, não se sabe como lhe falar. É uma estranha. Tu és diferente, és da casa. Não é essa a nora que eu quero para o meu filho. — suspirou a Dona Maria. — E porque é que perguntas? Não estarias apaixonada por ele?
Baixei os olhos.
— Não fiques triste. Se fosses mais velha, não havia melhor mulher para o Nuno. Ainda hás-de encontrar o teu amor.
— Não quero outro amor. — disse baixinho e fugi.
Um dia fui lá para perguntar o que precisava de comprar. Quem abriu a porta foi a Peixe.
— O que é que queres? — perguntou, antipática.
— Vim ver a Dona Maria…
— Não está. O Nuno levou-a ao hospital de carro.
Parecia que ela fazia questão de levantar o queixo para me olhar de cima.
— Porque é que andas sempre a rondar aqui? — os olhos de gelo brilharam.
— Não rondo, ajudo a Dona Maria, vou às compras.
— Pois, boa ajuda. Não voltes mais. Se for preciso, ajudo eu. Nós vamos casar em breve e vamos morar aqui. Vai-te embora, que depois de tu vires desaparecem coisas. — disse ela, rude.
— Que coisas? — corei.
— Um anel. Deixei-o no lavatório da casa de banho. Depois fui lá e já não estava. Tu levaste, não podia ter sido mais ninguém.
— Eu nunca passo do corredor! — exclamei, furiosa.
— Não sei, podes ter entrado quando eu não estava. O melhor é devolveres, senão chamo a polícia. — Ela inclinou-se para a frente, os olhos gelados muito perto. Eu recuei.
— Não levei o teu anel!
— Prova. — ela deu um passo, os olhos-peixe a centímetros. Não aguentei, virei-me, puxei a porta e dei de caras com o Nuno.
— Porque é que estão a falar tão alto? Ouve-se nas escadas. — Ele olhou de mim para a Peixe. Eu também me virei.
A Peixe endireitou-se e sorriu docemente para o Nuno.
— Já voltaste? — perguntou, como se nada tivesse acontecido.
Eu queria fugir, mas o Nuno segurou-me pelo braço.
— O que se passou?
— Ela… Ela acusou-me de ter levado o anel dela. Não levei nada, nem entrei na casa de banho.
— Que anel? — O Nuno segurava-me firme e olhava para a Peixe.
— O de pedra rosa. Acho que o perdi, não sei onde o deixei. Perguntei se ela o tinha visto. — disse a Peixe com voz de mel.
— Está a mentir! Disse que fui eu que o levei, queria chamar a polícia. — Eu soltei o braço e desci as escadas a correr. As lágrimas sufocavam-me.
— Vão os dois para o diabo! — gritei, já dentro de casa, a bater com a porta.
— O que foi? — a minha mãe espreitou.
— Mãe! — atirei-me a ela e contei tudo.
— O anel há-de aparecer, não chores. O Nuno resolve. — consolou-me ela.
No dia seguinte, o Nuno veio ter comigo. A minha mãe não estava.
— Precisamos de falar. — disse ele.
Levei-o ao meu quarto. Ele viu a minha fotografia na estante e sorriu. Eu tinha-me esquecido dela. Fiquei vermelha e baixei os olhos.
— Roubaste-ma? E dizes que não roubas. — gracejou.
— Não roubei nada. — murmurei, ainda mais corada.
— Pronto, não me importo. Vim pedir desculpa. O anel apareceu.
— Onde?
— Que importância tem? — agora ele desviou o olhar.
— Tem. Ela acusou-me de roubo. Achas que é agradável? — a minha voz tremia.
Ele pegou-me nos ombros.
— Inês, desculpa. Nunca acreditei que tu tivesses levado. A sério. A Lara não gostava que tu viesses cá tantas vezes, por isso resolveu difamar-te para não voltares. O anel… caiu-lhe do bolso quando deixou cair o casaco.
— E vais perdoá-la? E se ela acusar a tua mãe de roubo? Tudo se pode esperar dela. A Peixe é fria!
— Basta! Ela só tem ciúmes. — o Nuno olhou-me sério e tirou as mãos dos meus ombros.
— Nuno! Não vês mesmo nada?
— O que é que eu não vejo? — ele olhou-me com pena, como se já estivesse farto da conversa.
— Amo-te! — soltei, assustada com a minha própria ousadia. — Amo-te desde o quinto ano. Nuno, não cases com ela, por favor. — As lágrimas tremiam-me nos olhos, o rosto dele desfocava-se.
— Inês, estás a chorar? Não vai haver casamento nenhum. Acabámos.
— A sério? — pisquei, e as lágrimas escorreram pelas faces.
— És parva. — O Nuno puxou-me para ele. — A minha mãe tem alta do hospital para a semana. Vai lá a casa, ajuda-a no que for preciso.
— Claro! Nem precisavas de pedir.
Ele foi-se embora, triste e pensativo, e eu quase saltava de alegria. Não vai haver casamento!
Comecei a ir todos os dias a casa da Dona Maria, às compras, a lavar o chão, até a cozinhar. Não via o Nuno, ele chegava tarde. Passava as tardes no quinto andar. A minha mãe abanava a cabeça.
Um dia encontrei o Nuno nas escadas. Cheirava a álcool.
— Nuno, bebeste? — olhei para ele com horror, a lembrar-me do meu pai, do medo nos olhos da minha mãe…
— E daí? — ele oscilou na minha direcção. Eu recuei, os olhos cheios de pânico. — Inês, porque olhas assim? Não tenhas medo, não vou ser como o teu pai… — disse ele, de repente com uma voz sóbria.
No sábado, apareceu em minha casa com um ramo de flores e convidou-me para o cinema. Fui tão feliz!
A partir daí, o Nuno já não se demorava à noite, apressava-se a voltar para casa, onde eu e a mãe dele o esperávamos. Não tornou a beber. Íamos muitas vezes ao cinema, passeávamos, e ficávamos no quarto dele a namorar.
O meu amor acabou por derreter o coração do Nuno.
— Sejam felizes, meus filhos. Não a magoes, Nuno. — pediu a minha mãe quando ele me pediu em casamento.
— Prometo, nunca a magoarei.
Eu aconcheguei-me a ele como uma árvore nova se encosta a um carvalho alto.







