“O meu marido está há seis meses sem trabalhar, dorme até à hora do almoço e acha que eu tenho de o sustentar. Eu, em resposta, pedi a demissão.”

– Inês, o almoço está pronto? – a voz do Rui veio do quarto.

Era uma da tarde. O Rui tinha acabado de acordar. Eu estava na cozinha de casaco – dentro de vinte minutos tenho de ir para o trabalho, segundo turno, fim do trimestre. Estamos casados há vinte e quatro anos. E nunca antes tinha ouvido essa pergunta à uma da tarde.

– Vou-me embora – disse eu. – O frigorífico está cheio.

– E aquecer? Tu sabes que eu não gosto de fazer isso.

Quarenta e oito anos, o homem. Mãos, pernas, cabeça no lugar. E aquecer a comida, ele não gosta.

Há seis meses, o Rui saiu da fábrica. Brigou com o novo chefe, bateu com a porta, todo orgulhoso. Eu disse na altura: não faz mal, descansa, encontras melhor. No primeiro mês, até enviou currículos. Depois, menos. Depois, parou de vez. E, sem se notar, a casa transformou-se num lugar onde uma pessoa dorme e a outra serve.

Acordava à uma. Às vezes às duas. Eu deixava o pequeno-almoço na mesa tapado com um prato. Voltava do trabalho – o prato por lavar, migalhas na mesa, caneca com chá seco. Cozinhava três vezes por dia: para ele de manhã, para nós ao jantar e mais qualquer coisa leve à noite, porque o Rui habituara-se a petiscar à meia-noite.

– Tu és mulher – dizia ele, mal eu falava em cansaço. – É a tua obrigação. O homem é o provedor, a mulher é o lar.

O provedor dormia até à hora do almoço. E o lar saía para o frio às sete da manhã.

Eu calei-me. Outra vez. Quantas vezes já me calei assim – nem sei. Mas naquele dia algo se mexeu cá dentro. Deixei de deixar o pequeno-almoço tapado. Deixei de o acordar. Quis comer – a cozinha ali, o fogão funciona. Coisa pequena. Mas algo estalou por dentro.

– Então agora tenho de ser eu? – espantou-se ele à noite, ao ver a mesa vazia.

– Tu mesmo – disse eu. E fui dormir.

Ele andou pela casa muito tempo, a bater portas de armários, à procura de algo para comer o desgosto. Eu deitada, a pensar: e o dinheiro, de onde é que ele tem tirado todo este tempo?

Na verdade, eu sabia a resposta. Só até ali tivera medo de a dizer em voz alta.

* * *

O dinheiro tirava do comum. Mais precisamente – do cartão onde caía o meu ordenado. Mil e duzentos euros. Contabilista na logística, doze horas em frente ao computador no fim do mês, quando fechamos a contabilidade. Olhos vermelhos, costas tortas, ao fim da tarde os números dançam.

Desses mil e duzentos, duzentos iam para o filho – o Tiago estuda noutra cidade, aluga um quarto. O resto – comida, contas, o crédito daquelas obras que fizemos juntos quando o Rui ainda trabalhava. E ele próprio. O Rui, que há seis meses não trazia um cêntimo, mas pedia uns auscultadores, um café de grão, mais outra coisa qualquer.

– De onde veio o dinheiro para a entrega? – perguntei um dia.

– Transferi do cartão. E então? Somos uma família.

Família. Eu trabalhava, ele gastava. E aquilo, ao que parece, chamava-se família.

Um dia, cheguei depois de um pico de trabalho. Doze horas, sem almoço nem pausa a sério. No prédio, subi ao meu andar quase agarrada ao corrimão. Abro a porta – ele no sofá, televisão aos gritos, uma lata de cerveja na mão.

– Olha, chegaste. Ouve, não há jantar. Fazes?

Eu nem tirei o casaco. Fiquei no corredor a olhar para ele. E pela primeira vez disse tudo em voz alta, tal como era.

– Rui. Eu trago mil e duzentos euros. Pago tudo. Pago por ti. Tu estás há seis meses deitado. E eu à meia-noite tenho de te fritar o jantar?

Ele fez uma careta, como se eu tivesse dito uma coisa feia.

– Lá vens tu com o dinheiro. Ficaste materialista. Antes não eras assim.

Antes era parva, quis eu dizer. Antes pensava que aquilo era cuidado. Mas calei-me. Outra vez.

No dia seguinte, no trabalho, contei tudo à Teresa. Somos colegas de mesa há quinze anos, ela sabe mais de mim que a minha irmã. A Teresa ouviu, mexeu o café com a colher e disse calmamente, como quem fala do tempo:

– E tu despede-te.

– Como assim?

– Directo. Já que ele acha que sustentar a família não é da sua conta, mas sim da tua. Vamos ver como ele vive com zero. Tu estás no limite, Inês. Daqui a pouco saem daqui com os pés à frente.

Eu ri-me. Que disparate. Absurdo. Mas a ideia já se tinha agarrado cá dentro. E não me largava.

Uma semana depois, a situação tornou-se insuportável. Fui ao extracto do cartão – só para ver, para perceber em que é que o mês tinha ido. E vi: numa semana, trinta euros foram para entregas de cerveja. Cerveja simples, trazida à porta, lata atrás de lata. Enquanto eu no trabalho contava milhões alheios, o meu marido bebia o meu ordenado, sem sair do sofá.

Não aguentei. Abri o site de empregos, encontrei quatro anúncios – decentes, da área dele, dois mesmo perto de casa. Enviei-lhe as ligações, uma atrás da outra.

– Aqui. Liga. Pelo menos a um.

Ele olhou para o telemóvel com preguiça. Resmungou.

– Armazenista? Estás a falar a sério? Eu fui chefe de turno. Isso não é para o meu estatuto.

– Rui, o teu estatuto agora é um só – desempregado. Há seis meses.

– Encontro algo à minha altura. Não te apresses.

Naquela noite, a Teresa apareceu em casa – trazia uns papéis para assinar. E o Rui, na presença dela, desatou a falar: que lhe ofereciam trabalhos que não prestam, que a mulher o chateava de manhã à noite, que um homem de verdade deve procurar o seu lugar, não agarrar a primeira coisa que aparece.

A Teresa calou-se, a olhar para as mãos. E eu, de repente, ouvi-me de fora. E disse – olhando para ela, mas para ele:

– Sabes, Teresa, o meu marido acha mesmo que sustentar a família é obrigação da mulher. E que a obrigação do homem é dormir até à hora do almoço e escolher anúncios por estatuto. Vinte e quatro anos pensei que tinha casado com um homem. E afinal casei com um menino grande, a quem pago a mesada.

Fez-se um silêncio enorme na sala. O Rui ficou vermelho até ao pescoço.

– Estás a dizer isto à frente de pessoas?

– E tu não tens vergonha de dizer à frente de pessoas aquilo que eu te devo? Porque é que eu havia de ser pior?

A Teresa levantou-se devagar e foi-se embora, nem acabou o chá. E eu fiquei no meio da cozinha e senti: está. A decisão estava pronta. Só faltava fazê-la.

De noite quase não dormi. Deitada, a ouvi-lo ressonar no outro quarto, e a contar: tenho uma reserva, guardada para um dia negro. Esse dia chegou. Negro, sim, mas meu.

Na manhã seguinte, fui para o trabalho e escrevi a carta de demissão. A pedido próprio. Levei-a aos recursos humanos, pus em cima da mesa com as minhas mãos. Duas semanas de aviso – e fico livre.

A Teresa, quando soube, quase entornou o café.

– Eu estava a brincar!

– E eu ouvi a sério – respondi. E naquele instante senti um alívio, como se uma montanha tivesse saído dos ombros.

Em casa, ao fim do dia, disse uma frase apenas. Sem gritos, sem lágrimas, sem cenas. Pus a chaleira ao lume, sentei-me à frente dele à mesa.

– Rui. Despedi-me.

Ele não percebeu de início. Pestanejou.

– Despediste-te de onde? Para quê? E o dinheiro?

– Exactamente. O dinheiro. Trabalho mais duas semanas – e depois, zero. Zero mesmo. Tu durante seis meses disseste que o provedor é o homem. Que sustentar a família não é minha preocupação, é a tua honra masculina. Perfeito. Sustenta. Eu descanso. Vou dormir até à hora do almoço, como tu. A reserva guardo para mim, e o resto é contigo.

– Estás maluca? E de que é que vamos viver?!

– Não sei – encolhi os ombros. – Essa é a tua obrigação – prover. Tu próprio o disseste. Cem vezes o disseste.

Ele levantou-se, andou de um lado para o outro na cozinha.

– Isto é chantagem! Isto é uma cobardia! O nosso filho estuda!

– O nosso filho – concordei calmamente. – E eu durante vinte e quatro anos carreguei com ele e contigo. Agora é a tua vez de carregar com alguma coisa. Tenho uma reserva, dá para eu viver sozinha. Tu – logo se vê.

Ele gritou muito tempo. Que eu era uma traidora. Que o tinha abandonado na hora difícil. Que uma mulher a sério, numa altura destas, apoia o marido, não o acaba. Eu ouvia e pensava só: onde é que estava esse apoio quando eu à meia-noite lhe fritava os bifes depois de doze horas em frente ao computador? Onde é que ele esteve todos estes meses, enquanto eu carregava?

Nem um obrigado. Nem uma vez em seis meses.

Depois, foi para o quarto dele. Bateu com a porta com tanta força que os vidros tiniam. E eu fiquei na cozinha sozinha.

Silêncio. A chaleira já tinha arrefecido. As mãos finalmente pararam de tremer – pela primeira vez em muito tempo estavam completamente sossegadas. Sentei-me a ouvir o relógio na parede. E não senti culpa, nem medo. Só cansaço, que aos poucos, gota a gota, me largava.

Servi chá fresco. Tirei os biscoitos que escondia dele na prateleira de cima, atrás dos cereais. Sentei-me à janela. Lá fora, a neve caía devagar, sem vento, direita. Bebi o chá e percebi uma coisa simples: amanhã não tenho de me levantar às sete. Não tenho de dar de comer a ninguém à meia-noite. Posso simplesmente dormir.

Não foi uma vitória. Eu sabia que à frente vinham dificuldades, que a reserva não durava para sempre. Mas pela primeira vez em muito tempo era a minha decisão e a minha vida.

Passaram uns dois meses.

As primeiras semanas foram as mais duras. Eu honestamente não fiz nada – dormi, andei, gastei a reserva devagar, só comigo. O Rui esperava que eu desistisse e fosse à procura de trabalho. Eu não fui. O frigorífico esvaziava-se, não havia dinheiro no pote comum, e finalmente ele começou a perceber que já não havia ninguém para o sustentar, a não ser ele próprio.

O Rui arranjou trabalho. Não logo – primeiro irritou-se, andava mais negro que breu, batia com as portas. Depois acalmou-se. Depois, ao serão, começou a folhear os mesmos anúncios que eu lhe tinha enviado. E arranjou emprego. Armazenista. Aquele que antes era «não para o seu estatuto».

Em casa, agora quase não falamos. Assim, coisas práticas: compra pão, liga ao técnico. Ele está convencido de que o matei à fome, e conta isso a toda a gente – à mãe, aos amigos, ao vizinho do patamar. Ouvi por acaso uma queixa ao telefone: que a mulher fez uma revolta, o pôs de joelhos, humilhou o homem. A minha sogra agora cumprimenta-me secamente e franze os lábios.

E eu arranjei o meu lugar sozinha, só depois de ele ter começado o turno – noutra empresa, mais perto de casa, mais calma que a anterior. Não por medo, mas porque me apeteceu. Durmo até às oito. Cozinho uma vez por dia e só se me apetecer. A reserva está intacta, quase nem mexi. E o estranho é que já não sinto tanto nojo de viver debaixo do mesmo tecto com ele, porque finalmente ele acorda antes de mim.

Fizemos as pazes? Não. Ficou calor entre nós? Também não. Ele ainda acha que exagerei. E talvez até tenha razão.

Eu durmo descansada. Pela primeira vez em seis meses.

Digam-me lá com franqueza: fiz bem em despedir-me e deixar-nos a ambos sem um cêntimo, para que ele finalmente saísse do sofá? Ou exagerei – afinal o risco era ficarmos os dois a zeros, e o filho a estudar?

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