Querido diário,
Hoje a Inês apareceu à minha porta assim que soube que tinha comprado um apartamento para o Manuel. Mal entrei, disse que agora ia viver connosco.
A campainha tocou.
— Pai, abre, é a mãe que chegou! — o Manuel, de doze anos, largou o comando da PlayStation no sofá e correu para o corredor.
As fechaduras da porta de aço nova custavam a rodar. Tive de fazer força no puxador para virar a chave. Do lado de cá estava a Inês com um saco de uma loja de eletrónica na mão. Há cinco anos que não a via. A pensão de alimentos que pagava era uma miséria, porque contava pelo salário mínimo oficial. Mas agora estava ali, com um casaco de camurça novo a sorrir.
— Olá, pessoal! — a Inês entrou no corredor e quase pisou uma caixa de sapatos que ainda não tinha arrumado. — Olá, Manuel! Vê o que te trouxe. É o modelo mais recente, difícil de encontrar nas lojas.
O miúdo ficou pasmado. Durante cinco anos, a Inês só mandava duas mensagens por ano — no aniversário e no Natal. Às vezes transferia uns cinquenta euros. O Manuel sabia que a mãe não se interessava por ele, e não esperava um presente tão caro.
— A que vieste, Inês? — perguntei baixinho. Senti um aperto no peito, porque uma aparição repentina da ex-mulher nunca trazia nada de bom.
— A que vim? Ao meu filho! — ela pousou a caixa na sapateira e começou a descalçar os ténis. — Soube que mudaram de casa. Bairro bom, prédio novo. Parabéns, Pedro, arranjaste-te bem. Faz-me um chá, se faz favor. Precisamos de falar a sério sobre o futuro do nosso filho.
Foi muito difícil comprar este apartamento. Durante cinco anos poupei a torto e a direito, trabalhei em dois turnos numa empresa de logística e à noite fazia relatórios. Juntei cada cêntimo. Não fui de férias, não comprei roupa nova, não fui a cafés. Um T2 na periferia de Lisboa, num prédio em construção, parecia impossível. Mas o construtor entregou a obra antes do prazo e conseguimos mudar-nos.
Registei logo o imóvel em nome do Manuel, para ele ter casa própria no futuro e para que nenhum problema lha tirasse. Todos os meus amigos e família sabiam e ficaram contentes. Mas a Inês também soube da compra.
— Anda para a cozinha, — disse, porque não queria discutir à frente do miúdo. — Manuel, vai para o teu quarto e abre o presente. Eu e a tua mãe vamos conversar.
O Manuel pegou na caixa e foi depressa. Na cozinha ainda cheirava a material novo do remodelação e a mobília recente. O armário da cozinha era do IKEA, montado pelo meu irmão. A Inês sentou-se no banco, pôs os cotovelos na mesa e começou a examinar o espaço.
— Sim, nada mal, — disse. — Isto tem uns sessenta metros quadrados? A cozinha é grande. Quanto vale hoje um apartamento destes? Uns cento e cinquenta mil euros?
— Cento e oitenta mil, — respondi, enquanto enchia o chaleira. — E todo esse dinheiro fui eu que ganhei. Ainda usei umas poupanças e tive ajuda dos meus pais. Tu não tens nada a ver com este apartamento.
— Pedro, porque é que ficas logo irritado? — a Inês abanou a cabeça. — Divorciámo-nos, acontece. Éramos novos e cometemos erros. Mas o filho é um só. Eu também trabalhei estes anos todos e montei o meu negócio. Agora os meus rendimentos aumentaram. Vim ver como vive o meu filho.
Ouvi-a e admirei-me da sua descaradez. Quando saímos daquele T1 que pertencia à mãe dela, a Inês revistou os nossos sacos para ver se eu levava alguma coisa a mais. Chegou a ficar com a liquidificador que os meus pais me deram de casamento. Na altura senti-me humilhado; agora só sentia nojo.
— Já viste? Bebe o chá e vai-te embora. Temos muito que fazer, — pus à frente dela uma chávena com chá de saquinho barato. Chá caro não comprávamos por hábito — demasiado tempo a poupar em tudo.
***
A Inês puxou a chávena para si, mas não bebeu. Fez cara séria e inclinou-se para mim sobre a mesa.
— Pedro, vim tratar de um assunto. Disseram-me que registaste o apartamento em nome do Manuel. Ou seja, ele é o único proprietário. É verdade?
— Sim, é verdade. Porque é que isso te preocupa?
— Olha que tu…! — a Inês mostrou surpresa. — Fizeste uma asneira financeira. Ele tem só doze anos. Sabes o perigo que isso é? Se te acontecer alguma coisa, vais ter problemas com a Comissão de Proteção de Crianças e com os tribunais. Além disso, não é bom para uma criança receber tudo de mão beijada. Vais estragá-lo, ele não vai dar valor às coisas.
— Não preciso dos teus conselhos sobre como educar o meu filho, — apertei o tampo da mesa para acalmar a raiva. — Durante cinco anos não te importaste se ele era estragado ou não. Eu comprava-lhe sapatos dois números acima para durarem, e vestia-lhe casacos em segunda mão de conhecidos. Onde é que estavas tu com as tuas sabedorias financeiras?
— Pronto, não vamos discutir, — a Inês levantou as mãos em sinal de paz. — Quero fazer o melhor por vocês. Tenho uma proposta. É um bom plano para rentabilizar estes metros quadrados.
— A minha empresa está a abrir uma nova filial de logística. Preciso de dinheiro para expandir. Podemos dar o apartamento como garantia para um empréstimo bancário. Ou então vendemos este T2, investimos o dinheiro no negócio, e daqui a um ano compro um T3 no centro de Lisboa para o Manuel. Conseguimos um retorno de cinquenta por cento ao ano.
Ouvi aquilo e não acreditei. Aquela pessoa vinha tirar ao próprio filho a única casa para meter o dinheiro num negócio de risco.
— Estás maluca? — perguntei em sussurro, para o Manuel não ouvir. — O apartamento pertence a um menor. Nenhum banco concede um empréstimo com garantia de um imóvel de um menor. E a Comissão de Proteção não autoriza a venda se não for comprada outra casa igual ou melhor para a criança.
A Inês sorriu.
— Pedro, isso não é problema. Arranja-se tudo. Tenho advogados conhecidos que sabem as manhas. A Comissão pode-se contornar. Podemos inscrever temporariamente o Manuel na casa da minha mãe, no Alentejo. É uma moradia grande, com área que cumpre as normas. Depois o apartamento passa para o meu nome ou para o teu, e podemos fazer as transações. Já calculei tudo. Podemos trabalhar como parceiros de negócio pelo bem do Manuel.
Nesse momento o Manuel entrou na cozinha. Trazia o tablet novo na mão e sorria radiante.
— Mãe, muito obrigado! O tablet é muito rápido. Ajudas-me a configurar o perfil? O meu telemóvel velho já não aguenta as aplicações.
A Inês mudou logo o tom de voz e falou com doçura:
— Claro, filho! Já tratamos disso. Estarei sempre aqui para te ajudar, não te esqueças. Agora vamos ver-nos com frequência. Até estou a pensar mudar-me para vossa casa. Há espaço aqui, juntos será mais divertido. Ajudava-te nos trabalhos de casa e inscrevia-te num desporto.
Senti um aperto no estômago. Percebi a verdadeira intenção dela. Não queria só o dinheiro do apartamento. Queria voltar para trás, porque agora tínhamos um bem valioso. Há cinco anos ela pôs-nos na rua com uma mala. Disse que estava farta do choro do miúdo e de me ver sempre cansado. Agora que o filho cresceu e eu tinha casa própria em Lisboa, ela resolvia reivindicar os seus direitos de mãe.
— Manuel, vai para o quarto, — disse com a voz mais calma que consegui. — Vamos acabar a conversa com a tua mãe, e depois ela vai ter contigo.
O miúdo concordou e saiu. A Inês olhou para mim com ar de vitória.
— Vês como o miúdo gosta de mim? Precisa de uma educação materna. Tu criaste-o sozinho, pareces pálido e exausto do trabalho. Aceita a minha proposta, Pedro. Volto para a família, e vivemos normalmente. Metemos o apartamento no negócio e ganhamos muito dinheiro. Podes deixar esse emprego pesado e ficas em casa.
— A tua mãe mora numa casa velha de madeira no Alentejo, que está a cair, — disse eu, olhando-a nos olhos.
— Queres tirar o miúdo de um apartamento novo em Lisboa e inscrevê-lo numa casa sem aquecimento central? Tudo para pedir um empréstimo e gastá-lo nos teus projectos? Lembro-me dos teus esquemas anteriores: máquinas de café e peças de automóveis. O que sobrou foram dívidas que os meus pais pagaram para os oficiais de justiça não levarem os nossos electrodomésticos.
A Inês perdeu o sorriso. A cara fechou-se, os lábios apertaram-se.
— Como é que falas comigo? — perguntou em voz alta. — Sou a mãe dele! Tenho direito legal a educar o meu filho. Se for a tribunal pedir a regulação das responsabilidades parentais, vais ter dificuldades. O meu rendimento actual é o triplo do teu. A Comissão de Proteção vai ver que o pai trabalha em dois empregos e não passa tempo com o filho, enquanto a mãe tem horário flexível e muitos recursos financeiros.
Senti uma mistura de riso e nojo ao ouvir aquelas ameaças. Há cinco anos teria ficado com medo, chorado e pedido para ela não fazer isso. Mas nestes anos trabalhei tanto que deixei de ter medo. Aprendi a lidar com cobradores de dívidas quando ela me deixou com os microcréditos por pagar. Aprendi a preencher documentos e a falar com funcionários públicos.
— Vai a tribunal, — respondi calmamente, enchendo um copo de água. — Apresenta a acção. O juiz vai ficar muito admirado quando vir o teu atraso na pensão de alimentos. Quanto deves do ano passado? Uns cinco mil euros? A base de dados da Segurança Social é pública, Inês. O teu casaco novo e o presente para o filho são bonitos. Mas a lei protege os pais que sustentam os filhos todos os dias, não os que aparecem de cinco em cinco anos.
A Inês levantou-se depressa do banco. Toda a arrogância se desfez.
— Estás é com inveja e raiva porque a minha vida está a correr bem! — começou a gritar. — Fica no teu apartamentozinho e fica sozinho aqui. Achas que vai dar certo? O Manuel vai crescer e vir viver comigo, porque tu não tens nada para lhe dar além desta casa!
— Vai-te embora, Inês, — abri a porta da entrada. — E leva o teu tablet. Vivemos sem os teus presentes cinco anos e continuaremos a viver sem eles.
A Inês foi ao quarto do Manuel e tirou a caixa com o tablet das mãos do miúdo, que ficou com os olhos arregalados.
— Vocês não sabem dar valor às coisas boas! — gritou ela enquanto calçava os ténis à porta. — Não recebem mais um cêntimo meu. Um dia vens pedir-me ajuda quando não tiveres dinheiro para pagar as contas!
A porta bateu com estrondo. No corredor fez-se silêncio. O Manuel saiu do quarto a chorar. Tinha pena de ter perdido o tablet, mas percebeu tudo. Abraçou-me pela cintura e encostou-se a mim.
— Pai, não faz mal. Posso continuar com o meu telemóvel velho. O mais importante é que agora temos a nossa casa nova.
Passei a mão pela cabeça dele. Já não tinha qualquer esperança naquela pessoa. Havemos de viver sozinhos, sem os planos perigosos dela e sem aquela vontade súbita de ser mãe, que nos sairia tão cara. Aprendi que o amor verdadeiro não se mede por presentes caros, mas pela presença constante e pelo sacrifício diário.






