A Matilde estava à janela a olhar para o asfalto molhado. Três noites seguidas a tirar um doente de uma operação complicadíssima, sem dormir nem comer, só para que o coração daquele homem de cinquenta anos voltasse a bater firme e certeiro. E quando, na quarta manhã, ele abriu os olhos, a Matilde percebeu que tinha feito o seu trabalho. Agora só queria uma coisa: silêncio. Areia branca. O som das ondas. Ela e o Tiago pouparam para esta viagem durante um ano e meio, a juntar cada cêntimo que sobrava. No frigorífico, um íman segurava uma foto de água azul-turquesa, recortada de uma revista de viagens, e a Matilde sorria sempre que olhava para ela. Faltavam dois meses para as férias.
A sogra ligou no sábado de manhã e, num tom de ordem, disse que à noite a família toda se reunia em casa dela para jantar. A Matilde tentou recusar, a dizer que estava cansada, mas a dona Beatriz cortou: «É um assunto de família, não se discute.» A Matilde suspirou e vestiu o vestido que o Tiago lhe oferecera no aniversário de casamento. Parecia-lhe que isso lhe animaria o espírito.
A casa da sogra cheirava a pastéis e a uma tensão estranha que pairava no ar. A Inês, irmã mais nova do Tiago, estava no sofá a folhear uma revista de casamentos. O pai de família, o senhor Vítor, como sempre, calado, com os olhos colados à televisão. A dona Beatriz azafamava-se à volta da mesa, mas o olhar dela era frio e avaliador, como o de uma diretora de turma antes de chamar os pais à escola.
Quando se sentaram à mesa, a Matilde decidiu desanuviar o ambiente. Abriu as fotografias no telemóvel e mostrou uma imagem de um bungalow sobre a água.
— Nós aqui, com o Tiago, encontrámos um sítio para as férias — disse ela, a tentar que a voz soasse leve. — Imaginem: de manhã, acordamos e, debaixo de nós, o oceano. Transparente como vidro. Peixes coloridos a nadar mesmo aos nossos pés.
O Tiago assentiu e continuou:
— Sim, o voo já está reservado. Se tudo correr bem, em junho vamos para lá dez dias.
A dona Beatriz pousou o garfo devagar na mesa. O som foi metálico e definitivo. A Inês levantou os olhos da revista e olhou para a mãe com uma expectativa que parecia ter um guião já ensaiado.
— Que bonito — disse a dona Beatriz, num tom gelado. — Mas temos uma questão mais importante. A Inês vai casar-se. E o casamento tem de ser a sério, com pompa, como deve ser, e não num restaurante qualquer.
A Matilde sentiu o peito apertar-se. Os dedos agarraram-se à toalha da mesa, quase sem querer. Olhou devagar para o Tiago. Ele fitava o prato e fingia que o desenho da loiça lhe interessava imenso.
— Fizemos um orçamento prévio — continuou a sogra, com a voz a ganhar um tom de negócio. — O banquete, o animador, o fotógrafo, a decoração da sala, o vestido feito por uma boa costureira, o pedido de casamento, o passeio de barco. Tudo junto dá cerca de vinte e cinco mil euros. É uma quantia avultada, mas é o dia mais importante da vida da menina. Não podemos fazer má figura diante da família do noivo.
— Vinte e cinco mil euros? — repetiu a Matilde, com a voz a tremer. — Dona Beatriz, mas isso é uma fortuna.
— Nós sabemos — a sogra olhou para ela de frente. — Por isso é que a família toda se deve unir. Nós, o pai e eu, assumimos parte das despesas. O noivo e os pais dele também dão a sua parte. E vocês, o Tiago e tu, que são os mais bem-sucedidos e novos, têm de dar o maior contributo. Cinco mil euros. É um valor razoável para pessoas com os vossos rendimentos.
Fez-se silêncio. Noutra sala, o relógio de parede batia lentamente. A Inês olhava para a Matilde com um ar desafiador, como quem diz: «Atreve-te a contestar.» O senhor Vítor continuava a olhar para a televisão, indiferente, apesar de o som estar desligado.
A Matilde respirou fundo. Lembrou-se daquelas noites sem fim de serviço, das reanimações, das mãos que tremiam de cansaço quando deitava café na sala dos médicos. Lembrou-se de como ela e o Tiago contavam cada cêntimo, a negar-se até aos pequenos prazeres, para juntar para aquelas férias. E agora alguém decidia por ela para onde iria aquele dinheiro.
— Não vou pagar o casamento da vossa princesa — disse a Matilde, com a voz tão fria que o Tiago levantou finalmente a cabeça. — Ela tem pais. Que sejam eles a gastar o dinheiro.
A Inês soltou um grito. A dona Beatriz empalideceu, mas controlou-se num instante. Olhou para a Matilde com uma expressão de profundo pesar, como se olha para uma criança que desiludiu.
— Nós pensávamos que eras da família — disse ela, de forma pausada, a martelar cada palavra. — Mas és uma estranha. Fica registado.
A Matilde levantou-se da mesa. O Tiago agarrou-lhe a mão e tentou fazê-la sentar-se, mas ela soltou-se e foi para o corredor. Ele seguiu-a, a murmurar palavras de conciliação, mas a Matilde já vestia o casaco.
— Falamos em casa — disse ela ao marido, e saiu para o patamar.
Em casa, o Tiago tentou suavizar o conflito. Andou atrás dela pela casa a falar, a falar, a falar. Que a mãe só se preocupava com a irmã. Que a Inês sempre sonhara com um casamento bonito desde pequena. Que a família se deve apoiar nos maus momentos.
— Maus momentos? — A Matilde parou e virou-se de repente. — Tiago, um casamento não é um mau momento. É uma festa que ela quer fazer à nossa conta. Nós os dois, há um ano e meio, estamos a juntar para as férias. Pagamos o crédito da casa. Eu trabalho a dobrar para termos uma almofada financeira. Tu ouves o que estás a dizer?
O Tiago calou-se, mas não por muito tempo. Passado um quarto de hora, recomeçou com a mesma música. A Matilde foi para o quarto e fechou a porta.
No dia seguinte, rebentou a tempestade. A Inês apareceu em casa deles sem avisar. Entrou na sala com os olhos vermelhos de chorar e, logo à entrada, começou a gritar.
— Queres destruir a minha vida! — gritava ela, a agitar os braços. — Tens inveja de mim! Não suportas que eu vá ter tudo bonito e certo, enquanto tu tiveste um casamento modesto no registo civil!
A Matilde estava na cozinha, de braços cruzados, a olhar para a cunhada com uma cara de pedra.
— Inês, acalma-te — disse ela, com voz firme. — Ninguém te deve nada. Queres um casamento com pompa? É um direito teu. Mas quem paga são aqueles que o fazem de livre vontade. Eu não estou disposta.
— Porque és egoísta! — guinchou a Inês. — Passas a vida a contar o dinheiro dos outros! Tu tens poupanças! A mãe disse que iam para o Algarve! Não queres abdicar das tuas férias para a felicidade de um familiar?
— Familiar? — repetiu a Matilde, com a voz metálica. — Em todo o tempo que nos conhecemos, nunca te interessaste por saber como eu estou. Só ligas quando precisas de pedir dinheiro emprestado até ao fim do mês. Pessoas da família não se comportam assim.
A Inês saiu da casa a bater com a porta, que fez tremer os vidros. Meia hora depois, a dona Beatriz ligou.
— Deixaste a menina em lágrimas — disse ela, num tom glacial. — Agora está deitada, numa histeria. A tensão subiu-lhe. Era isso que querias?
A Matilde calou-se, a saber que qualquer palavra seria usada contra ela.
— Espero-vos amanhã à noite — continuou a sogra. — Vamos resolver a questão de forma civilizada. Espero que tenhas arrefecido e tomes a decisão certa.
A Matilde desligou e olhou para o marido. O Tiago estava sentado num canto da sala, diante do computador, a fingir que trabalhava. Ela percebeu que a conversa mais difícil ainda estava para vir.
À noite, quando se deitaram, o Tiago remexeu-se muito tempo, depois sentou-se na cama e acendeu o candeeiro.
— Matilde, temos de falar a sério — começou ele, hesitante.
— Estou a ouvir — ela também se sentou, a endireitar a almofada.
— Percebes, a mãe tem razão. A Inês sempre sonhou com este casamento. E o noivo é boa pessoa, de uma família decente. Se nós agora não ajudarmos, fica feio. As pessoas vão criticar. Vão dizer que o irmão foi mesquinho com a irmã.
— Tiago — a Matilde esforçou-se por falar com calma, embora por dentro a raiva fervesse —, nós não temos de corresponder às expectativas de ninguém. Temos os nossos planos, as nossas necessidades. Não somos Rothschilds para deitar dinheiro à rua.
Ele baixou a cabeça e calou-se. A Matilde pensou que a conversa tinha terminado e ia desligar a luz, quando o Tiago disse uma frase que partiu tudo em pedaços.
— Já pedi um empréstimo.
A Matilde ficou imóvel. O ar no quarto tornou-se denso, pegajoso.
— O quê? — perguntou ela, num sussurro.
— Pedi um crédito pessoal — repetiu ele, sem levantar os olhos. — Cinco mil euros. A cinco anos. E transferi o dinheiro para a mãe. Ela já fez o sinal para a sala de banquetes.
A Matilde sentiu o sangue fugir-lhe do rosto. As mãos ficaram frias. Olhou para o marido e não o reconheceu. O homem com quem vivera cinco anos, em quem confiara incondicionalmente, acabava de confessar uma traição.
— Pediste um empréstimo sem o meu consentimento? — a voz dela tornou-se baixa e terrível. — Gastaste o nosso dinheiro comum no casamento da tua irmã? Sem me consultares?
— Mas não é para sempre — tentou justificar-se o Tiago. — Nós pagamos. São cinco mil euros, que é? Temos bons salários, damos conta.
— Não é do dinheiro que se trata — A Matilde levantou-se da cama e começou a andar pelo quarto. — Trata-se de teres tomado uma decisão por nós os dois. Puseste os interesses da tua mãe e da tua irmã acima dos interesses da nossa família. Traíste a nossa confiança. Apagaste tudo o que construímos juntos.
— Não exageres — fez uma careta o Tiago. — É uma situação normal na família. Toda a gente ajuda os parentes. A minha colega de trabalho até fez um crédito à habitação para ajudar o irmão com a casa, e vive-se bem.
— A tua colega fez o crédito de livre vontade — atalhou a Matilde. — Tu puseste-me perante um facto consumado. Nem sequer achaste que devias consultar-me.
Ela saiu do quarto e foi para o escritório. Ali estava o computador velho que usava para o trabalho com os relatórios médicos. A Matilde abriu o programa do banco e fez uns prints. Depois entrou no histórico de movimentos e guardou o extrato. Não sabia se aquilo viria a fazer falta, mas o instinto dizia-lhe que uma guerra a sério a esperava.
De manhã, a Matilde não tomou o pequeno-almoço. Vestiu-se e saiu de casa, a dizer ao Tiago que tinha coisas a fazer. Na verdade, foi ter com uma advogada, cujo contacto uma colega de trabalho lhe dera. A dona Clara, uma mulher de uns cinquenta anos, de olhar perspicaz e maneira de falar curta e direta.
A Matilde expôs a situação, sem esquecer um pormenor. Contou do empréstimo, da pressão da sogra, do ataque de nervos da cunhada. Mostrou os prints e os extratos. A advogada ouviu com atenção, tomou notas num bloco, e depois recostou-se na cadeira a olhar para a Matilde de forma avaliadora.
— Quer salvar o casamento ou proteger os seus interesses? — perguntou, sem rodeios.
— Quero justiça — respondeu a Matilde. — E quero perceber até que ponto é legal o que o meu marido fez.
A dona Clara assentiu e começou a explicar. Descobriu-se que um empréstimo contraído por um dos cônjuges sem o consentimento do outro pode ser contestado, se se provar que o dinheiro não foi para as necessidades da família. Por lei, essas dívidas são consideradas pessoais, e quem as contraiu é que responde por elas. Mas na prática é mais complicado. Se o empréstimo já está a ser pago com o orçamento comum, é difícil provar que não era para a família. Além disso, o banco não quer saber quem paga as prestações — só lhe interessa que a dívida seja saldada.
— O meu conselho — disse a advogada — é que reúna o máximo de provas. Grave conversas com os familiares do seu marido. Guarde as trocas de mensagens. Registre o facto de o dinheiro ter ido para o casamento da irmã, e não para a vossa vida em comum. Se a coisa chegar a tribunal, para a partilha de bens ou para o divórcio, essas provas serão decisivas.
A Matilde saiu do consultório com o coração pesado. Não queria o divórcio. Amava o Tiago. Mas percebeu que não havia volta a dar. No momento em que ele transferiu o dinheiro para a mãe, sem sequer a consultar, tinha atravessado uma linha. E essa linha não podia ser apagada.
Naquela mesma noite, tocaram à campainha. A Matilde abriu e viu à porta a dona Beatriz e a Inês. A sogra trazia uma caixa de bolo; a cunhada escondia-se atrás dela com uma cara de culpa. Era um teatrinho, e a Matilde percebeu logo.
— Viemos fazer as pazes — anunciou a dona Beatriz, a entrar sem ser convidada. — Chega de amuos, Matilde. A família tem de estar unida.
O Tiago saiu do quarto e olhou para a mulher com esperança. Queria mesmo que tudo se resolvesse. A Matilde deixou as visitas passarem para a sala, sem dizer nada, e pôs o gravador do telemóvel a funcionar, escondido numa prateleira junto aos livros.
A conversa começou calma. A dona Beatriz servia chá, falava do tempo, de como é importante perdoar os que nos são próximos. A Inês estava calada, a remexer o bolo com a colher. A Matilde esperou que o ataque a sério começasse.
— Percebe, Matilde — a voz da sogra tornou-se insinuante —, somos todos uma família. Devia sentir-se grata por a termos aceitado. O Tiago podia ter arranjado uma rapariga mais acomodada, mas escolheu-a. E você comporta-se como se fôssemos suas inimigas.
— Não as considero inimigas — respondeu a Matilde, tranquila. — Só não percebo porque é que hei-de pagar o casamento da sua filha do meu bolso.
— Porque vive com o meu filho! — atalhou a Inês, bruscamente. — Usa o dinheiro dele, a casa dele. A casa, já agora, foi comprada com um crédito que ele paga. Você, quem é, para exigir coisas aqui?
A Matilde olhou para a cunhada longamente. Depois desviou o olhar para o Tiago. Ele estava de cabeça baixa, calado.
— A casa foi comprada com um crédito que pagamos os dois — disse a Matilde devagar, como se explicasse uma coisa óbvia. — E as obras foram feitas com as minhas poupanças pessoais. Por isso, guarde para si as suas suposições.
— Meninas, não se zanguem! — interrompeu a dona Beatriz. — Vamos ser construtivas. Matilde, nós percebemos os seus sentimentos. Mas perceba-nos também. O senhor Vítor tem o coração fraco. Precisa de um bom cardiologista, de medicamentos, e são caros. Nós não podemos assumir todas as despesas do casamento. E a Inês está grávida, não pode andar nervosa. Você é médica, deve saber como isto é grave.
— Então tenho de pagar o casamento porque o seu marido está doente e a sua filha está grávida? — perguntou a Matilde.
— Tem de ajudar a família — cortou a dona Beatriz. — Ou não é da família?
Nesse momento, a Inês não se conteve. Levantou-se da cadeira e começou a gritar, a espumar de raiva:
— Você destruiu o meu casamento! Só pensa em si! É uma galinha estéril que tem inveja da minha felicidade! Nunca vai ter filhos, por isso quer estragar a minha festa!
O silêncio ecoou pela sala. O Tiago ficou branco. A dona Beatriz fingiu-se chocada, mas a Matilde viu-lhe nos olhos uma satisfação. Aquela cena tinha sido ensaiada.
A Matilde levantou-se devagar, foi à prateleira e pegou no telemóvel. Parou a gravação e guardou-o no bolso.
— A conversa terminou — disse ela, num tom gelado. — Peço-lhes que saiam da minha casa.
— Também é a minha casa! — gritou o Tiago.
— Exatamente — a Matilde virou-se para o marido. — Por isso, vamos discutir isto a sós. Sem testemunhas.
Quando as visitas saíram, a Matilde pôs a gravação a tocar. As vozes encheram a sala, e o Tiago ouviu, com o rosto a mudar de cor. Quando chegou a parte da «galinha estéril», ele estremeceu e olhou para a mulher com dor. Mas quando a gravação acabou, disse algo que a Matilde não esperava.
— Gravaste a minha família? Estiveste a espiá-los? Tens noção do que isso parece?
— Estava a defender-me — respondeu a Matilde, calma. — E agora tenho provas de que os teus parentes me insultam e me extorquem dinheiro.
— Não te extorquiram! — gritou o Tiago. — Pediram ajuda! Pediram como pessoas! E tu transformaste isto num processo criminal!
Ele andava de um lado para o outro, a apertar a cabeça, e a Matilde percebeu de repente que estava diante de um estranho. Não era o rapaz com quem tinha ido ao cinema no primeiro encontro. Não era o homem que lhe segurava a mão quando ela saía do hospital depois de um turno da noite. Era outro. Alguém partido. Dependente da aprovação da mãe. Capaz de sacrificar a mulher para continuar a ser um bom filho.
— Tens de te desculpar — continuou o Tiago, parando. — Desculpar-te e pagar pelo menos metade. Assim a mãe amolece. Ela esquece-se. Nós resolvemos tudo.
— Não vou pagar nada — disse a Matilde. — E não tenho nada para desculpar.
— Então temos de falar a sério sobre o nosso futuro — a voz do Tiago tornou-se dura. — Se não respeitas a minha família, não vejo sentido em continuar.
Nesse instante, o telemóvel da Matilde tocou. No ecrã, uma mensagem da Inês. A cunhada enviava o link de um vestido de noiva caríssimo e escrevia: «Bem que podias pagar-me isto, não ias ficar pobre. E pronto, eu perdoo-te, se fizeres tudo direitinho.»
A Matilde mostrou a mensagem ao marido. Ele leu e desviou o olhar.
— São só emoções — murmurou. — Ela não tem más intenções.
Então a Matilde, sem dizer palavra, foi para o quarto, abriu o armário e começou a tirar as roupas do Tiago. Dobrou camisas, calças, camisolas e meteu-as numa mala de viagem. O Tiago ficou à porta, de olhos arregalados de pavor.
— O que estás a fazer? — perguntou.
— A arrumar as tuas coisas — respondeu a Matilde, sem se virar. — Vais para casa da tua mãe. Lá, gostam de ti e valorizam-te. Eu preciso de pensar.
— Não podes pôr-me fora de casa! — gritou o Tiago. — Esta casa é nossa!
— Por isso mesmo, vais tu — a Matilde fechou a mala e pô-la no corredor. — Eu fico. Se quiseres, vai a tribunal e reclama a partilha dos bens. Mas, por agora, o melhor é estares com a tua mãe.
Abriu a porta de entrada e esperou, em silêncio, que o marido calçasse os sapatos. O Tiago hesitou muito tempo, depois agarrou na mala e saiu para o patamar.
— Ainda te vais arrepender disto — disse ele, a despedir-se. — Estás a destruir a nossa família.
A porta fechou-se. A Matilde encostou-se à parede e fechou os olhos. A casa ficou em silêncio. Só se ouvia a pingar da torneira mal fechada na cozinha. Ela foi até lá, fechou-a bem e sentou-se num banco. Não tinha pensamentos. Só cansaço — um cansaço profundo, imenso, como o que se sente numa reanimação quando o doente morre, apesar de todos os esforços dos médicos.
As duas semanas seguintes foram um pesadelo. A dona Beatriz ligava todos os dias, a mudar de tática: das ameaças à falsa compaixão. Ora prometia que iria a tribunal para a partilha dos bens e deixava a Matilde sem nada. Ora começava a lastimar a infeliz nora, que se tinha desorientado e precisava de orientação. Ora prometia que o Tiago arranjaria uma mulher direita e a Matilde ficaria sozinha para sempre.
A Inês não ficava atrás. Nas redes sociais, publicava posts sobre como era difícil preparar um casamento quando as pessoas próximas metem paus nas rodas. Mandavam à Matilde prints dessas publicações, e cada uma doía mais que a anterior. A cunhada não mencionava nomes, mas todos os conhecidos percebiam de quem se tratava.
O pior começou uma semana depois. A dona Beatriz apareceu à porta da Matilde, acompanhada pelo Tiago e por dois homens desconhecidos. Exigia que a Matilde abrisse a porta e «devolvesse ao filho a sua legítima casa». A Matilde não se meteu em conversas. Chamou a polícia.
O agente chegou ao fim de vinte minutos. Era um sargento já de idade, de cara cansada e olhar atento. Ouviu os dois lados e pediu que todos se acalmassem. A dona Beatriz tentou comover, a contar como a nora tinha posto o filho na rua. O Tiago, ao lado, abanava a cabeça em silêncio. Os dois acompanhantes, que se apresentaram como familiares, protestavam aos gritos.
A Matilde pediu calmamente ao agente que entrasse para conversar. Mostrou-lhe os documentos do crédito à habitação, onde ambos os cônjuges eram fiadores. Mostrou os extractos bancários que provavam que as prestações mensais eram pagas com o cartão dela. E depois pôs a tocar a gravação da conversa, onde a Inês gritava sobre a galinha estéril e a dona Beatriz exigia o dinheiro para o casamento.
O agente ouviu e franziu o sobrolho. Saiu para o patamar, onde os familiares continuavam a barulheira, e disse em voz alta:
— Minha senhora, meus senhores, estou a avisar-vos oficialmente. Se não pararem de pressionar a cidadã, a vossa conduta pode ser considerada extorsão. O Código Penal prevê isso. E dá prisão efetiva. Por isso, aconselho-vos a irem todos embora e a resolverem as questões de forma civilizada, em tribunal.
A dona Beatriz abriu a boca para protestar, mas o sargento levantou a mão.
— Já disse — atalhou. — Acabou-se. Vão-se embora.
Os familiares foram-se, a lançar olhares de ódio à Matilde. O Tiago saiu por último, e nos olhos dele a Matilde viu confusão. Parecia que até ao fim não acreditara que a coisa fosse tão longe.
E depois chegou o dia do divórcio. A Matilde foi ao registo civil com um fato azul escuro. O Tiago apareceu com a mãe, que durante toda a cerimónia suspirou e abanou a cabeça. Ninguém perguntou por reconciliações. O juiz tratou rapidamente dos papéis, dividiu os bens conforme o acordo pré-nupcial e proferiu a sentença. A Matilde ficou com a casa, porque se comprometeu a pagar sozinha o resto do crédito. O Tiago ficou com o carro.
Saíram os três do edifício do tribunal. A dona Beatriz começou logo a falar com o filho, mas a Matilde não quis ouvir. Entrou no autocarro e foi para casa, a sentir ao mesmo tempo um vazio e um alívio imenso.
Passou um mês. A Matilde meteu-se no trabalho de cabeça, a tentar não pensar no que acontecera. Começou a sorrir outra vez, a sair com as amigas, e até se inscreveu na piscina, como sempre sonhara. O espaço vazio no frigorífico, onde antes estivera a foto da água azul, foi tapado com uma fotografia da última vez que fora a casa dos pais.
Num sábado, a Matilde foi ao supermercado. Estava diante da prateleira dos laticínios, a escolher iogurtes, quando ouviu uma voz conhecida. Virou-se e viu a Inês. A cunhada estava na caixa com um carrinho cheio de congelados baratos, de ar cansado e abatido. Nenhum sinal do esplendor do casamento.
A Inês também reparou na Matilde e ficou imóvel por um instante. Depois, decidida, dirigiu-se a ela, e a Matilde preparou-se para mais uma cena.
— Então, estás contente? — perguntou a Inês, a parar a dois passos. A voz soava rouca e partida. — Arruinaste a minha vida. Espero que agora te sintas bem.
A Matilde olhou calmamente para a ex-cunhada. Não sentia nem raiva nem triunfo. Apenas uma tristeza ligeira, como a que se sente ao ver a desgraça alheia que a própria pessoa criou.
— Não te arruinei a vida, Inês — respondeu ela, com calma. — Tu própria a arruinaste, quando decidiste que alguém te devia alguma coisa.
— Tu não percebes — fungou a Inês. — O noivo foi-se embora. Quando soube quanto a mãe pedia à tua família, disse que não queria saber de gente assim. Disse que não queria uma mulher dessas. O casamento foi por água abaixo. E o empréstimo agora está em cima do Tiago. E a mãe e o pai andam aos berros, o pai foi para casa do irmão no campo, a dizer que já não aguentava mais aquela loucura.
A Matilde ouviu em silêncio. Lembrou-se do que a advogada dissera: «Um empréstimo contraído sem o consentimento do cônjuge para fins não familiares é considerado uma dívida pessoal.» Portanto, o Tiago ia pagar aqueles cinco mil euros sozinho. Mais os juros. Durante cinco anos. E o banco não podia exigir nada à Matilde.
— Lamento que tenha corrido assim — disse ela, com sinceridade. — Mas não podia fazer de outra maneira. Não sou obrigada a pagar os caprichos dos outros.
A Inês ia responder, mas a Matilde já se tinha virado e se dirigia para a saída. Ouviu a cunhada ainda a gritar atrás dela, mas as palavras não se percebiam.
Três dias depois, a Matilde estava no aeroporto com uma pequena mala de viagem. Ao lado dela, a brilhar de felicidade, estava a Helena, a melhor amiga dos tempos de faculdade. No ecrã, luzia o número do voo e o destino. Areia branca. Água azul-turquesa. Dez dias de silêncio e descanso, que ela merecia mais do que ninguém.
— Então? — perguntou a Helena, a espreitar os olhos da amiga. — Não te arrependes?
A Matilde abanou a cabeça. Lembrou-se de tudo: os turnos da noite, as discussões com a família, a traição do marido, as idas a tribunal, as noites solitárias em casa vazia. E percebeu que não se arrependia de nada. Tudo aquilo fora como uma operação cirúrgica, necessária para cortar o tecido doente e dar ao corpo uma hipótese de sarar.
— Nem um bocadinho — respondeu ela, e sorriu.
No bolso do casaco, o telemóvel com o som desligado. No ecrã, uma mensagem por ler do Tiago: «Podemos falar? Já percebi tudo.» A Matilde leu-a, pensou uns segundos e apagou-a sem responder. Depois passou o braço pelo da Helena, e as duas foram juntas para o balcão de check-in.
O avião descolou à hora certa. Debaixo da asa, as nuvens passavam, parecidas com chantilly batido, e algures, lá em baixo, ficavam as dívidas, os créditos, as ofensas e os casamentos alheios, que ninguém mais a obrigaria a pagar.







