«Surpresa» do ex-namorado
Ricardo, espera! gritava Mariana pela janela aberta, sem fôlego.
Mas ele já não a ouvia.
Ricardo já se sentara no seu Peugeot e ligava o motor. Desesperada, Mariana agarrou no telemóvel e correu para a porta.
Enquanto descia as escadas do quarto andar apressadamente, tentou ligar-lhe várias vezes, mas Ricardo ignorava as chamadas.
Só conseguia pensar: Só peço que ainda vá a tempo!
Talvez por milagre, quando saiu disparada do prédio, viu que Ricardo ainda aquecia o carro.
Mal a viu descalça, sem casaco, Ricardo ficou desconcertado e abriu o vidro:
O que se passa? Olha o teu estado!
Tens… debaixo do teu carro…
Mariana estava tão ofegante que não conseguiu explicar. Caiu de joelhos no chão e espreitou sob o carro.
Nem se importou com as calças a ficarem encharcadas no frio chão molhado.
Quando saiu, trazia nos braços um gato magro, de pelo baço. Ricardo estava ao lado, totalmente baralhado.
Mariana, que raio fazes? Só esta figura porquê? Estou atrasado para o trabalho!
Havia um gato debaixo do teu carro, vi-o pela janela. Tive medo que arrancasses e…
Quem estava debaixo do carro, um gato?! Por esse bicho, fizeste esta cena toda? Ena pá…
Então, e os gatos não querem viver, Ricardo? Mariana olhou-o, incrédula.
Repara… Se o gato queria viver, não estava metido debaixo de carros. E mesmo assim, com o motor ligado, fugia. Por isso…
Não fugiria, Ricardo… Olha para ele: nem forças tem para miar. Ganhaste o dia, poupando-lhe a vida.
Pronto, já salvaste o gato, parabéns. Quando voltares a casa, tiras uma pastilha da taça e fazes post nas redes sociais. Posso ir trabalhar agora? Nos vemos logo.
Com o gato ao colo, Mariana ficou a olhar a traseira do carro de Ricardo a afastar-se.
Não percebia como não tinha visto esta frieza na pessoa em quem tanto confiava.
Depois olhou para o gato.
Estava débil, quase sem expressão. Mas olhava-a com… gratidão? Sim, reconhecia-a nos olhos do animal.
Com o gato foi para casa, vestiu-se a correr e meteu dinheiro na carteira, pronta a chamar um táxi.
Para onde, menina? perguntou o taxista com um sorriso.
Já disse ao telefone, preciso ir rapidamente à clínica veterinária!
Ah, pois! Desculpe, escapou-me. O gatinho está mal? perguntou ao ver pelo retrovisor.
Está. Precisa de ajuda urgente.
Percebo. Não faço mais perguntas. Eu conheço uma clínica veterinária excelente, serve? Os veterinários lá fazem milagres, tiram bichos mesmo do outro mundo.
Quanto melhor, melhor.
Em pouco mais de quinze minutos, Mariana estava sentada na sala de espera da clínica, ansiosa pelo médico.
Havia muita gente com animais. Todos em silêncio, preocupados.
E ao seu, o que aconteceu? perguntou uma senhora idosa, com um cão ao colo.
Ainda não sei bem, respondeu Mariana. Apanhei-o debaixo de um carro. Acho que ficou ali toda a noite ao frio…
Ao frio?! escandalizou-se a senhora. Então avance à minha frente. Eu estou só num check-up com o Toby, o seu precisa mais.
A sério? Vai mesmo deixar-me passar?
Claro, somos gente.
Finalmente, Mariana entrou no consultório. Enquanto o médico auscultava o gato, ela inquieta mudava de posição a toda a hora.
Ainda era preciso esperar pelos resultados das análises. O tempo parecia uma eternidade.
Ricardo ligou várias vezes, mas Mariana rejeitou sempre: aquele momento era só do gato.
Minha senhora, disse o veterinário com voz pensativa. Encontrou este gato na rua, certo?
Sim, debaixo de um carro. Quantas horas lá esteve, não sei… talvez a noite toda.
Sim, vejo sinais de hipotermia. Mas o principal são as doenças e debilidades que encontrou. O tratamento vai ser longo e exigente. E, preciso que me diga já: está pronta a assumir esse compromisso? Se não, terá de encontrar outra pessoa que cuide dele.
Mariana imaginava que o gato precisasse de cuidados, mas não esperava nada tão grave nem caro.
Olhou-o nos olhos ternurentos e gratos. O gato não implorava, aceitava o destino.
Estou pronta, sim. Vou cuidar dele até ser preciso. Mesmo toda a vida.
Ótimo, o veterinário sorriu. Vai ficar umas semanas em internamento. Depois ensino-lhe tudo para prolongar-lhe a vida.
Obrigada, senhor doutor, Mariana mal conteve as lágrimas.
O obrigado é para si. Pouca gente se dispõe a estas coisas hoje em dia.
Mariana despediu-se do gato, prometendo voltar.
Ele acreditou. E, com um esforço, conseguiu até miar em despedida.
Mariana só voltou a casa ao entardecer. Exausta, só queria deitar-se, sobretudo porque trabalhava cedo no dia seguinte. Mas, ao chegar, encontrou Ricardo com ar amuado.
Mariana! Onde te meteste? Liguei montes de vezes, ignoraste?
Desculpa, tive um dia muito difícil, suspirou, tirando os sapatos dele do meio do corredor.
Difícil? Hoje até tens folga! E que fizeste para chegar nesse estado?
Passei o dia todo na clínica veterinária a tratar o gato.
Que gato?! Não entendo.
O mesmo que salvei de manhã, debaixo do teu carro, esclareceu Mariana. Estou de rastos, podemos falar amanhã?
Espera lá! Queres dizer que perdeste o dia por causa de um gato da rua?
E então? Ele precisava de ajuda, senão morria! começou Mariana a perder a paciência.
E eu, quase a morrer de fome? Chego a casa, não tens feito jantar.
Ricardo, tu não és nenhum menino, suspirou. Há rissóis na arca. Se tens assim tanta fome, podes aquecê-los. Eu sei que gostas de comer bem, mas…
Rissóis? Parece que vim do lixo, não? Trabalhei o dia todo, agora ainda cozinho?
Apesar do cansaço, Mariana fez-lhe o jantar como ele gostava.
Ele não merecia, mas preferiu evitar grandes discussões naquela noite. E nem um obrigado ouviu.
Duas semanas depois, Mariana foi buscar o gato à clínica.
Já tinha comprado tudo o que o Miró assim lhe chamou precisava, mas evitou contar a Ricardo, prevendo problemas.
Crente que ele acabaria por aceitar, pois o apartamento era dela e não estavam sequer casados. Nem intenção disso ele tinha.
Mas enganou-se. Quando Ricardo viu o gato, fez um escândalo gigantesco.
Trouxeste o gato da rua para casa?! Mariana, perdeste o juízo? Bateste com a cabeça naquele carro?
Ricardo, acalma-te. Salvei-o e agora é minha responsabilidade cuidar dele.
E quanto gastaste? E ainda vais gastar?
Que interessa? É o meu dinheiro. Tu não me prestas contas e mal compras comida, só gostas é de comer.
Já te disse, o carro precisa de manutenção. Ando com stress no emprego. Não mudes de assunto! Isto não é sobre mim, mas sobre esse…
Ele chama-se Miró.
Ainda lhe deste nome? Vais ao psiquiatra qualquer dia! Não estás boa da cabeça!
Nessa noite, Mariana dormiu no outro quarto.
A vida com Ricardo já não tinha a harmonia de há meses atrás. Ele ficava cada vez mais agressivo, humilhava-a claramente aquela relação estava a ruir. Mas, dando-lhe o benefício da dúvida, decidiu dar-lhe mais uma chance.
Só que não resultou. Ricardo não parava de implicar com Miró, desejando que o gato voltasse à rua. Mariana escutava e ponderava, até que, numa noite, não aguentou mais:
Ricardo, não te amo. E tu tampouco me amas. Vamos parar de nos infernizar, sim?
Isso quer dizer o quê?
Amanhã vais empacotar as tuas coisas e sais do meu apartamento. Chega de barulho, quero paz.
Trazes para casa esse animal sem me perguntar e eu é que faço cenas? Olha a conversa!
Se não consegues aceitar que o gato vive connosco, nem devias viver aqui. Arranja quem te aceite. Ou, melhor, compra uma casa e faz o que te apetecer.
No dia seguinte, tinha folga. Momento ideal para a separação.
Ricardo tentou convencê-la, mas bastava ouvir falar do gato e ele transtornava-se logo. Mariana sentiu que fazia a escolha certa: jamais seria feliz com aquele homem.
Ele começou a arrumar perto do almoço. Mariana apressava-o, mas ele demorava ao máximo, talvez esperando algo. Mas o quê?
Enquanto tomava um chá, recebeu uma chamada da chefe.
Marianinha, querida, sei que pediste folga, mas não conseguimos sem ti.
Dona Olívia, estou mesmo numa fase difícil Mariana espreitou o Ricardo com a mala aberta.
Ainda precisava de levar o computador, o monitor e as ferramentas da varanda.
São só uns minutos. Preciso mesmo de ti, não é de ânimo leve que ligo.
Mariana suspirou, acabou o chá, e preparou-se para sair. Disse a Ricardo para deixar as chaves na caixa do correio, ele assentiu em silêncio, com um olhar de rancor.
No trabalho ficou pouco tempo, em menos de uma hora já chamava o táxi de volta.
Como está o seu gatinho? perguntou o taxista, surpreendendo-a.
Era o mesmo senhor que a levara à clínica!
Está bem, obrigada. Pode levar-me a casa depressa?
Com certeza!
Quando Mariana chegou ao prédio, foi logo à caixa do correio, mas nada de chaves, e nem sinal do carro do Ricardo.
Deve ainda andar na mudança, levou o carro…, pensou.
Subiu ao quarto andar e, ao entrar, viu tudo trancado. Usou a chave, mas estranhou: não havia nem malas, nem computador, nem ferramentas. Ele levara tudo.
Pedi-lhe tão bem para deixar as chaves… Agora tenho de trocar o canhão.
Mariana entrou no quarto. Gelou.
Miró não estava na cama. Nem a caixa de transporte, sempre pousada num canto.
Correu pela casa, chamou, revirou tudo. Nada. Ficou claro: Ricardo levara Miró! Mas porquê?
Ricardo! Estás maluco?! Para que levaste o Miró? gritou ao telefone, assim que ele atendeu.
Para quê, perguntas…? É uma surpresa, Marianinha! Quando vieres a rastejar, penso se te devolvo o gato!
Sabes que ele precisa de cuidados e dieta especial! Não podes tratá-lo assim!
Mariana gritava e chorava, mas Ricardo já desligara.
E agora? Onde o encontro?, soluçava, desolada na cozinha.
Antes do namoro, Ricardo vivera noutra cidade, mas nunca lhe dissera qual. Prometera levá-la à terra dele, mas nunca cumpriu.
Sem dormir, de manhã foi à empresa de Ricardo. Responderam-lhe:
Tirou folga uns dias. Que se passou?
Mariana resumiu-lhe o caso, e o chefe prometeu tentar saber algo ao ver Ricardo.
Do lado de fora, pegou no telemóvel e tentou novamente Ricardo. O número estava desligado.
Precisa de boleia?
Assustada, viu o velho conhecido o taxista, já à sua espera.
Pode levar-me a casa?
Mariana já nem sabia o que fazer da vida.
Entre, disse o motorista.
No caminho, o telefone tocou. Número desconhecido.
Estou? Quem fala?
É a Mariana? perguntou uma voz feminina.
Sim… Quem é?
Ontem à noite, o Ricardo apareceu aqui. Trabalha com o meu marido, pediu para passar cá uns dias.
Veio com um gato, certo?!
Sim, vinha com ele… Daí a chamada. O Ricardo ontem esteve a beber e disse que, com este gato, ia obrigá-la a voltar para ele. O animal está triste, só mia preso na transportadora. Coitadinho, tem mesmo saudades suas.
Por favor, não lhe dê comida qualquer. Ele tem dieta restrita, não pode comer tudo.
Notei: não quis comer nada. Liguei-lhe porque o Ricardo saiu, deve estar no bar ou num café. Pode vir agora buscar o gato? Detesto gente como ele e o gato não merece isto.
Claro que sim! Dê-me a morada!
Mariana explicou tudo ao taxista. Ele fez o que sabia: conduziu depressa, de forma hábil e calma.
Mal saíram do carro, Mariana disparou pelas escadas até ao terceiro andar. A moradora abriu-lhe a porta, Mariana agarrou imediatamente Miró, agradeceu do fundo do coração, e mal se despediu, já estava de volta ao táxi, onde o senhor a esperava com portinha aberta.
Quando aquele prédio ficou para trás, Mariana finalmente respirou de alívio.
No caminho chorou, mas não de tristeza: de gratidão por aquelas pessoas. Pela senhora idosa, o taxista, a mulher compreensiva… enquanto houver gente assim, o bem vence sempre.
Precisa que fique consigo, não vá o seu ex aparecer? ofereceu-se o taxista.
Por favor! aceitou Mariana.
Nessa tarde chamou um serralheiro para trocar os canhões das portas. O taxista, o senhor Victor, ficou a fazer companhia a Miró, que ronronava satisfeito no colo dele.
Mariana sentia imensa gratidão por Victor por tudo. Pela companhia, pela gentileza, pela amizade inesperada. E assim terminou esta história.
O mais curioso: a amizade entre Mariana e Victor viria a transformar-se no mais bonito dos sentimentos: o amor.
Quanto a Ricardo, merece algumas palavras.
Foi expulso do apartamento onde estava hospedado: o amigo não tolerou ouvir que tratou mal a mulher e pô-lo fora até lhe deu um olho negro por recordação.
No dia seguinte, no trabalho, mandaram-no apresentar a carta de despedimento.
Mas porquê?! indignou-se Ricardo.
Porque sim, respondeu o chefe, sério. Anda lá, não quero desculpas.
Ricardo teve de regressar à sua terra qual era, ninguém sabia.
Foi bem feito.
Pois ninguém tem o direito de tratar assim outro ser humano. Nem animal. Mesmo que não se goste, é preciso, no mínimo, respeito.
E assim aprendeu Mariana: às vezes, do pior momento nasce a oportunidade de recomeçar. E que a bondade atrai gente verdadeiramente valiosa à nossa vida.







