Ao longo da comprida mesa de jantar, os pratos caros e a empáfia apertavam-se. A Marta colocou a terrina de sopa de legumes diante da sogra e recuou um passo, ajeitando uma madeixa que lhe escapara do penteado. Os convidados do André – a mãe dele, Dona Glória, a irmã, a Catarina, e duas amigas delas – nem olharam para ela. A conversa corria à margem, como se ela não existisse.
– Querida, olha só para esta apresentação – cantarolou Dona Glória, dirigindo-se à vizinha de mesa, e acenou para os pratos. – Cozinhar é o único talento que consegui ver na nossa Marta. É verdade, a imaginação é curta, tudo à moda da aldeia.
A Catarina riu-se, provando o vinho.
– Mamã, o que esperas de alguém que só tem o antigo secundário? Ao menos o caldo verde é de lamber os dedos.
O André, sentado à cabeceira, sorriu com um ar trocista e ergueu o copo.
– Pela minha mulher caseira! Marta, que é que tens aí parada? Vai buscar mais um jarro de sangria.
A Marta saiu em silêncio para a cozinha. Os dedos tremiam-lhe ligeiramente, mas o rosto manteve-se calmo. Tirou do frigorífico o jarro embaciado, deteve-se um instante junto à janela. O telemóvel no bolso do avental vibrou de forma breve. Uma única mensagem. Leu-a, e os cantos da boca contraíram-se num sorriso quase impercetível – aquele que nenhum dos convidados jamais vira. Guardou o telemóvel e voltou à sala de jantar.
O jantar aproximava-se do fim. Os convidados despediam-se, o André acompanhava a mãe e a irmã à porta, cumprimentando-as exuberantemente. Quando a porta se fechou, virou-se para a Marta, que já arrumava a mesa.
– Então, ó camponesa, acabou o espectáculo? – atirou ele, tirando o casaco. – Da próxima vez, tenta não te meter no caminho. Senão, ainda me pões mal com esse teu silêncio. Também podias ter sorrido a alguém, sua saloia.
A Marta endireitou-se, apoiou as mãos nas costas de uma cadeira.
– Eu sorri, André. Só tu é que não reparaste.
Ele fez um gesto de desdém e foi para o quarto.
Três dias depois, era o aniversário do amigo da universidade e sócio de negócios, o Ricardo. O André levou a mulher – era preciso mostrar uma família sólida. A Marta vestiu um vestido azul-escuro, prendeu o cabelo num coque baixo e quase não usou maquilhagem, como o marido gostava. No restaurante, estavam pessoas do círculo dele: donos de pequenas empresas, advogados, contabilistas. O André brilhou, fez piadas, distribuiu elogios com habilidade. A Marta manteve-se perto, bebeu água calmamente e quase não falou.
A noite seguia o seu curso, até que alguém sugeriu o jogo dos tempos de faculdade – o «explica o termo». O animador gritava uma palavra complicada, e os jogadores tinham de dar uma definição espirituosa. Chamaram o André. Ele respondeu a duas rondas sem dificuldade, e depois o animador, com um sorrisinho, passou-lhe um cartão com a palavra «pleonasmo». O André hesitou. Fez-se um silêncio constrangedor na sala. Foi então que a Marta, sentada ao lado, disse baixinho, mas com clareza:
– É uma figura de estilo que repete um sentido. Por exemplo, «subir para cima» ou «entrar para dentro». Do grego, «excesso».
Caiu o silêncio. Alguns convidados trocaram olhares, outros sorriram, apreciando a resposta. O André ficou vermelho. Virou-se bruscamente para a mulher, e nos olhos dele brilhou uma raiva magoada.
– Ai, sua… – começou, mas ao sentir os olhares, calou-se.
O animador apressou-se a desviar o assunto, mas o André já estava possesso. Apertou o guardanapo no punho e, com os dentes cerrados, mas alto o suficiente para todos ouvirem, cuspiu:
– Cala-te, ó mal-amanhada! Quem te mandou meter a língua? Fica quieta e sorri, como é teu dever.
A sala parou. A Marta levantou a cabeça devagar e olhou para o marido. Não havia lágrimas nem medo nos olhos dela. Sorriu – um sorriso suave, quase compassivo. E naquele sorriso havia qualquer coisa que fez o André sentir o coração a cair. O Ricardo, o anfitrião, tossiu para tentar aliviar o ambiente, mas a Marta já se levantara e, sem se despedir, dirigiu-se para a saída. O André não a seguiu – não quis perder a pose.
Em casa, ela trancou-se no quarto pequeno que outrora arranjara como atelier de costura. O André chegou já depois da meia-noite e bateu com o punho na porta longamente.
– Abre já! Que circo foi este? Pensas que és mais esperta que todos? Responde-me!
A porta entreabriu-se. A Marta estava no limiar, com papéis espalhados sobre a mesa atrás dela.
– André – disse ela baixinho, sem raiva –, vou pedir o divórcio.
Ele ficou atónito, depois desatou a rir.
– Tu? Pedir o divórcio? De que vais viver, sua tola? O apartamento é meu, o carro é meu, tudo é meu. Com que ficas? Com os tachos?
– Com o Código Civil – respondeu a Marta calmamente. – E com as certidões de nascimento dos nossos filhos. É suficiente. Agora, por favor, deixa-me descansar. Amanhã tenho um dia difícil.
Fechou-lhe a porta na cara, e o clique da fechadura soou como um tiro.
Na manhã seguinte, o André acordou na sala vazia. As crianças já tinham ido para a escola – a Marta levantara-as cedo e levara-as. Bebeu um café, a remoer as palavras dela, e decidiu agir à sua maneira habitual. Ao meio-dia, a «equipa de apoio» estava reunida em sua casa – a mãe e a irmã. Dona Glória entrou na sala com ar de general em revista.
– Onde está essa arrivista? – trovejou. – André, deixaste uma cozinheira qualquer impor-te condições?
A Catarina revirou os olhos teatralmente:
– Sempre disse que ela era muito cismada. Pronto, chegou a hora e mostrou as garras. Não te preocupes, pomo-la no lugar. Se quiser dinheiro, não leva. Se quiser os miúdos, nós tiramos-lhos. Bem sabes que o pai tem conhecimentos nos serviços de proteção de menores.
A Marta saiu da cozinha com uma chávena de chá e encostou-se calmamente ao batente. No bolso do casaco caseiro, o telemóvel estava com a aplicação de gravação ligada.
– Bom dia, Dona Glória. Bom dia, Catarina. Queriam dizer-me alguma coisa?
A sogra avançou, cadenciando cada palavra:
– Quero que voltes a ti, menina. Tu és ninguém sem o meu filho. Nós recebemo-te em nossa casa, demos-te um teto. Os teus filhos vão viver com o pai e comigo, se não acabares já com esta palhaçada. E tu voltas para a cozinha e fazes o que sabes – cozinhar bem e calar-te. Senão, andarás a pedir. Percebeste?
– Percebi tudo – respondeu a Marta baixinho. – E agora, diga-me, por favor: está a ameaçar-me de me tirar a guarda dos miúdos e os bens? Só para saber o que hei de responder em tribunal.
Dona Glória ficou vermelha, mas a Catarina puxou-a pela manga.
– Mãe, ela está a provocar-nos. Vamos embora, que não se ganha nada. Deixa-a brincar à independência até passar fome.
Saíram, batendo com a porta. A Marta parou a gravação, guardou o ficheiro e enviou-o ao seu advogado – aquele cujo nome recebera por mensagem dias antes. Depois marcou outro número.
– Teresa, olá. Sim, estou bem. Está tudo a correr como planeado. O teu pai ainda está disponível para se encontrar com o meu marido? Ótimo. Marca a reunião para amanhã.
A manhã de segunda-feira começou para o André com um telefonema ensurdecedor. Ainda mal tinha aberto os olhos, e a voz do contabilista da empresa berrava do outro lado:
– Sr. André, temos uma emergência! O tribunal penhorou todas as suas contas pessoais! E a sua quota no capital social também. A sua mulher entrou com uma providência cautelar para partilha de bens e pensão de alimentos. Não pode fazer nenhuma operação!
O André saltou da cama. Os dedos tremiam-lhe quando tentou ligar à Marta. O telefone não respondia. Então vestiu-se em dois minutos e disparou para o escritório. Na receção, já o esperava o Ricardo, o amigo e sócio em cuja festa tudo acontecera. O rosto dele era uma máscara.
– André, entra, temos de falar.
No gabinete, cheirava a tabaco caro e a problemas. O Ricardo sentou-se em frente, cruzou os dedos.
– Soube dos pormenores daquela cena. E sabes, pensei muito. Somos amigos, mas não posso fazer negócios com um homem que humilha em público a mãe dos seus filhos. Perdeste a cabeça com a tua mulher por uma ninharia, à vista de todos. Amanhã perdes a cabeça num negócio. O contrato de fornecimento de equipamento vai ser rescindido. Desculpa.
O André abriu a boca, mas não encontrou palavras. Nesse momento, a porta do gabinete abriu-se e entrou a Marta. Trazia um fato de calças, cabelo apanhado, uma pasta de documentos na mão. Pousou silenciosamente uma folha de papel diante do André.
– Isto é o acordo de divórcio e de regime de visitas com os miúdos. Assina aqui e aqui. Ou encontramo-nos em tribunal, onde juntarei a gravação das ameaças da tua mãe e o relatório da escola. As crianças foram ouvidas por uma psicóloga, que confirmou que a avó lhes mete medo. Portanto, André, escolhe.
Ele olhou para ela sem a reconhecer. Diante dele não estava a dona de casa calada, mas uma mulher estranha, segura de si, que jogava segundo as suas próprias regras.
– O apartamento é bem comum – continuou a Marta –, a tua parte serve para pagar a pensão de alimentos e as dívidas do crédito que contraíste para o negócio. A empresa registada em nome da Dona Glória, como a perícia mostrou, era gerida por ti, e os lucros foram ocultados. O tribunal já penhorou a tua quota. Portanto, para breve estarás livre do trabalho e de mim.
O André caiu na cadeira. Tentou protestar, mas a voz saiu-lhe num grasnido.
O julgamento ocorreu duas semanas depois. Dona Glória tentou pressionar a juíza, a Catarina fez histeria no corredor, mas de nada serviu. A gravação, os testemunhos, os relatórios da escola – tudo fundamentou a decisão. As crianças ficaram com a mãe. O apartamento foi vendido, o dinheiro dividido. O André recebeu a sua parte, que mal deu para cobrir as custas judiciais e as dívidas. O advogado da Marta foi impecável.
Um mês depois, o André bebia amarguras num quarto alugado nos subúrbios. A mãe e a irmã, que antes bradavam pela razão, lembraram-se de repente que ele próprio destruíra a família e deixaram de atender o telefone. A amante com quem ele andava há meio ano, ao saber da ruína financeira, pô-lo porta fora sem lhe dar tempo de fazer a mala. A reputação estava em cacos. Nenhum parceiro sério queria trabalhar com ele – todos se lembravam da humilhação pública da mulher e da perda do contrato.
Passaram-se seis meses. Num bairro calmo da cidade, abriu uma pequena pastelaria com bolos caseiros. Os negócios corriam surpreendentemente bem: o salão acolhedor, o pessoal simpático, os pastéis sempre frescos. A Marta estava atrás do balcão, num avental claro simples, a sorrir aos clientes. Dispensou a empregada para a pausa e servia ela própria os cappuccinos, quando a campainha da porta tilintou.
À porta hesitava o André. Envelhecido, cara cinzenta, olhos baços. Demorou a decidir-se; depois, deu um passo em direção ao balcão.
– Marta… Queria dizer… Percebi tudo. Estive mal. Vamos tentar de novo? Pelos miúdos. Mudei.
Ela pousou o bule, limpou as mãos devagar no pano e ergueu para ele um olhar sereno.
– Cala-te, ó mal-amanhado – disse ela, com voz pausada, sem maldade, antes com alívio. – Já disseste tudo há seis meses.
Acenou ao gerente da sala, e a porta da entrada fechou-se silenciosamente diante do André. A Marta acompanhou com o olhar a figura curvada que se afastava, e depois voltou-se para o cliente seguinte:
– Bom dia! O que vai ser?
Na voz dela havia uma alegria tão leve e segura que nenhum dos fregueses adivinharia a tormenta que acabara de passar ao lado daquela mulher frágil.







