Tenho 47 anos. Foram já quinze anos a trabalhar como motorista particular de um alto diretor numa grande empresa tecnológica aqui em Lisboa. Durante todo esse tempo, ele sempre me tratou com justiça. Pagava-me bem, recebia todos os meus subsídios, benefícios sociais e ainda alguns prémios extra. Levei-o a todo o lado reuniões, aeroporto, jantares de negócios e até a eventos de família.
Graças a este emprego, a minha família sempre viveu sem preocupações. Consegui dar uma boa educação às minhas três filhas, comprei uma casinha modesta com um empréstimo e nunca nos faltou nada.
Na terça-feira passada, tinha de o levar a uma reunião muito importante num conhecido hotel do centro. Preparei-me como sempre fato engomado, carro impecável, cheguei à hora certa.
No caminho, avisou-me que a reunião era essencial e que ia haver convidados estrangeiros. Pediu-me para o esperar no estacionamento, pois o encontro podia demorar muito tempo.
Disse-lhe que não havia problema, que o esperaria o tempo necessário.
A reunião começou logo de manhã. Eu fiquei no carro. O tempo foi passando veio o almoço, passou a tarde, e ele continuava lá dentro. Mandei-lhe uma mensagem a perguntar se estava tudo bem ou precisava de alguma coisa. Respondeu que tudo estava óptimo, e que lhe desse mais uma hora.
Já era noite e a fome apertava, mas continuei ali não queria correr o risco de ele sair e não me encontrar.
Por volta das oito e meia, vi-o sair finalmente do hotel, acompanhado dos convidados. Vinham todos a rir, pareciam satisfeitos. Saí rápido para lhes abrir a porta.
Pediu-me para os levar a jantar e respondi com educação, arrancando em direcção ao restaurante.
Pelo caminho, os estrangeiros conversavam em inglês. Ao longo dos anos, fui estudando o idioma à noite, depois do trabalho, para evoluir, ainda que nunca o tivesse mencionado no emprego. Percebia cada palavra.
A certa altura, um deles perguntou ao meu chefe se o motorista tinha estado à espera o dia inteiro e comentou que isso era sinal de grande dedicação.
O meu chefe riu-se e respondeu qualquer coisa que me magoou profundamente:
Para isso é que lhe pago. Ele é só um motorista. Não tem nada melhor para fazer.
Os outros riram.
Fiquei com um nó na garganta, mas contive-me. Continuei a conduzir, como se não tivesse ouvido nada.
Quando chegámos, disse-me que o jantar ia demorar e para eu ir comer qualquer coisa, e regressar dentro de duas horas. Acenei com calma.
Fui a uma tasca ao lado, pedi uma bifana e uma imperial, mas as palavras dele não me saíam da cabeça: Só um motorista.
Quinze anos de lealdade, madrugadas, horas à espera seria só isto que eu representava para ele?
Duas horas depois, voltei, apanhei-os e trouxe-os de volta ao hotel. Estava satisfeito a reunião tinha corrido bem.
No dia seguinte, como sempre, fui buscá-lo. Ao entrar no carro, cumprimentou-me e pediu para o levar ao escritório.
No banco ao lado, deixei-lhe a minha carta de demissão.
Ele olhou, confuso, e perguntou o que era aquilo.
Respondi-lhe que estava a despedir-me com respeito, mas com firmeza.
Ficou surpreendido: perguntou-me se queria ganhar mais, se algo tinha acontecido.
Disse-lhe que não era pelo dinheiro, mas porque estava na altura de procurar outros caminhos.
Insistiu com perguntas. Quando parámos num semáforo, olhei-o nos olhos e expliquei: na véspera, tinha-me chamado só um motorista, alguém sem mais nada para dar. Talvez para ele fosse verdade. Mas eu merecia trabalhar onde fosse respeitado.
Ficou pálido.
Tentou desculpar-se, dizendo que tinha sido um comentário infeliz, que não pensava assim.
Respondi que compreendia, mas depois de quinze anos tornara-se claro. Eu tenho direito a ser valorizado.
Quando chegámos ao escritório, pediu-me para reconsiderar, ofereceu-me um aumento substancial. Recusei. Disse-lhe que cumpriria o aviso prévio e depois sairia.
O meu último dia foi pesado. Tentou segurar-me até ao fim, oferecendo ainda melhores condições. Mas a minha decisão estava tomada.
Hoje trabalho noutro lugar. Recebi uma chamada de alguém que me ofereceu um cargo de coordenador não de motorista com melhor salário, escritório próprio e horário fixo. Disse-me que preza pessoas leais e trabalhadoras.
Aceitei sem hesitar.
Mais tarde, recebi uma mensagem do meu antigo chefe. Admitiu que errou, que fui muito mais do que um motorista fui alguém em quem confiava. Pediu-me desculpa.
Ainda não respondi.
Agora, no novo emprego, sinto-me valorizado, mas às vezes pergunto a mim próprio fiz o certo? Devia ter dado uma segunda oportunidade?
Por vezes, uma frase dita em cinco segundos pode mudar uma relação construída ao longo de 15 anos.
E vocês acham que tomei a decisão certa, ou fui longe demais?







