Porque vieste até minha casa, mãe? Sempre ajudaste a Sofia a vida toda, então vai pedir ajuda a ela agora! disse-me friamente o meu filho. Miguel nem convidou-me a entrar, falou comigo à porta, e os seus olhos tinham um ar distante, quase estranho.
Filho, nem a tua própria mãe deixas entrar em casa? não consegui conter as lágrimas, sentindo o peito apertado.
Mãe, não percebo esse teu sentimentalismo. Estou ocupado e não tenho tempo para conversas sem sentido já Miguel preparava-se para fechar a porta na minha cara, mas nesse momento ouvi a voz da minha nora.
Miguel, com quem é que estás a falar? perguntou Ana, aparecendo no corredor.
Oh, mãe, é a senhora? mostrou-se surpreendida. Então porque é que está lá fora com este frio? Entre e venha para dentro.
Miguel fez um gesto de desdém, virou as costas e foi-se embora, mas eu, ao ver a simpatia de Ana, comecei a descalçar-me no corredor, e senti um alívio enorme. Afinal, tinha ido falar com eles porque precisava.
Eu tinha, de facto, culpas perante o meu filho, só agora consigo perceber até que ponto. Tenho dois filhos: Miguel e Sofia. E o destino quis que eu apoiasse sempre a filha, esquecendo o filho.
Na minha cabeça, achava que ele era independente e desenrascado. Mas estava enganada. O Miguel lutou sempre sozinho, muito do seu esforço foi para me provar que conseguia sem o meu auxílio e sem o meu dinheiro.
Dinheiro, por acaso, não faltava. Estive vinte anos a trabalhar fora, em França, a enviar remessas para a família. A minha ajuda financeira ia sempre para a Sofia, e agora, olhando para trás, arrependo-me profundamente ela não valorizou nada e, quando precisei dela, virou-me as costas.
Parti para França quando o Miguel tinha 18 anos e a Sofia 16. Deixei-os com a minha mãe. O meu marido já nos tinha abandonado há muito tempo. Vivíamos com dificuldades, pelo que ir trabalhar para o estrangeiro era o nosso único escape.
Com o primeiro dinheiro que juntei, tratei de arranjar a nossa casa em Vila Real. A minha mãe até chorou de alegria finalmente tínhamos água canalizada e casa de banho a sério.
Depois a Sofia anunciou que queria casar-se. Pareceu-me cedo, aos 19, mas não tentei convencê-la do contrário. O genro era dali da terra, vieram ambos morar connosco.
O Miguel e o genro nunca se deram, e o meu filho acabou por pedir a namorada em casamento, indo viver por conta própria com a Ana, uma rapariga humilde, criada num orfanato. O Estado tinha-lhe atribuído um quarto num bairro social em Coimbra, e foi lá que começaram a vida a dois.
A Sofia nunca teve dúvidas:
Mãe, fui eu que fiquei a tomar conta da casa, então as ajudas devem vir para mim decretou.
O Miguel nunca pediu nada. Eu, por comodismo, enviei sempre tudo para a Sofia, que gastava o dinheiro a seu bel-prazer. O meu filho, esse, desenvencilhou-se como pôde.
Com o tempo, passaram-se coisas ainda mais difíceis. A minha mãe faleceu. E logo a seguir Sofia decidiu divorciar-se. Era teimosa desde pequena, tudo fazia para conseguir o que queria.
Perguntei-lhe:
E agora, Sofia, o que vais fazer da vida?
Vou contigo para França! respondeu-me prontamente.
Lá fomos as duas. Mas a Sofia não gostava de trabalhar. Apesar de arranjar trabalho a dias, mal chegava ao fim do mês com a renda e a comida. O pouco que eu ganhava como empregada doméstica, ela queria guardar para comprar casa em França.
Ela já nem pensava em voltar para Portugal, convenceu-me a vender a nossa casa em Vila Real para juntar dinheiro e acelerar o sonho de um canto nosso.
Mas, claro, nem isso chegava. Depois, arranjou um namorado, casaram, e ele completou o valor que faltava. Assim, compraram juntos um pequeno apartamento.
Enquanto pude trabalhei, não pensei no futuro. Mas adoeci, já não podia continuar. Fui pedir abrigo à minha filha, conforme o que sempre foi acordado mas ela respondeu que havia pouco espaço e que devia tentar recuperar e voltar ao trabalho.
Não insisti. Voltei a Portugal. Mas casa já não tinha, pois fora vendida. Ficava-me apenas a grande horta que herdara no campo: quase um hectare. Mas aquilo ou se vendia ou serviria para construir, e dinheiro para tal não tinha.
A coragem levou-me a procurar o Miguel, pedir-lhe ajuda para vender o terreno… mesmo sem saber o que aconteceria depois.
A zanga do meu filho era tanta que nem queria falar comigo, mas a Ana, minha nora, teve compaixão e não só me acolheu em casa, como arranjou solução.
Mãe, estamos à procura de um terreno para construir uma casa nova. Se nos permitir, começamos a obra lá, e depois, quando tudo estiver pronto, viverá connosco sugeriu ela, com carinho.
O Miguel ainda resmungou, mas acabou por aceitar a ideia da mulher. Ao final da noite, já se ria e conversava comigo como antes.
A Ana não me deixou mais partir. Preocupou-se, deu-me de jantar, preparou-me o quarto e prometeu que no dia seguinte me levava ao centro de saúde.
Perguntei-lhe:
Ana, por que fazes isto por mim?
Porque nunca tive mãe, e agora tenho respondeu, sorrindo.
Foi assim que a vida me ensinou: por vezes não é o sangue que nos acolhe e valoriza, mas quem tem bom coração. E que nunca é tarde para pedir desculpa e começar de novo, pois o verdadeiro afeto revela-se nos gestos, não nos laços de sangue.







