Esposa Sem Encanto

O escritório fervilhava com as conversas habituais. A gestora entrou, acompanhada por uma rapariga discreta e simples.

Meninas, apresento-vos a Leonor, que vai trabalhar convosco no lugar do Rui. Ele foi promovido. Tenho a certeza de que se vão dar bem. disse a senhora Amélia Marques, e saiu.

A Leonor sentou-se na secretária que fora do Rui. Colocou uma chávena de porcelana bonita e uma pequena moldura com a fotografia de um homem. Logo se concentrou no trabalho, como se já estivesse ali há anos.

Soou o sinal, todas, como combinado, levantaram-se para almoçar. Só a Marina ficou, a curiosidade a consumir-lhe: quem seria aquele homem na fotografia?

O retrato mostrava um homem bonito com um sorriso encantador e dentes alinhados.

Quem será? pensava Marina. Ator? Cantor?

Disfarçadamente, tirou uma foto com o telemóvel e foi juntar-se às outras. As colegas sentaram-se juntas à mesa e começaram a escutar a recém-chegada.

Eu e o Tomás conhecemo-nos há três anos, em circunstâncias tão estranhas que vocês nem imaginam.

Conta, Leonor, conta! pediam todas, com brilhos de curiosidade.

Fez uma pausa. As recordações levaram-na três anos atrás. Na altura trabalhava numa grande empresa e, por acaso ou erro do departamento de logística, foi enviado o produto errado para a empresa daquele que viria a ser o seu futuro marido. Coube-lhe a ela resolver o embaraço.

A Leonor sempre foi perspicaz e competente, mas o aspeto simples enganava todos; sem maquilhagem, cabelo ruivo preso, pouco vistosa, parecia uma “rapariga invisível”. No entanto, quando as reuniões começavam, transformava-se: delicada mas firme, a negociar como ninguém.

O chefe, conhecendo-lhe o jeito, atribuíu-lhe a tarefa. A rececionista indicou:

Sala 312, Tomás Oliveira.

Entrou sem hesitar e apresentou-se:

Leonor, da empresa, viemos por causa do engano na encomenda, uma falha nossa na logística.

Seguiram-se as explicações. Tomás olhou-a e teve a estranha sensação de já a ter visto antes, talvez num sonho antigo. O cabelo ruivo dela balançava suavemente, os olhos verdes fitavam-no com sinceridade. Ela comunicava de forma tranquila e assertiva.

Leonor preparava-se para uma negociação dura, mas, inesperadamente, Tomás disse:

Leonor, não vamos apresentar reclamação. Confio que não voltará a acontecer.

Ela agradeceu e retirou-se. Dois dias depois, ele aguardava por ela à porta do edifício. Foi a última a sair.

Leonor, espere! chamou Tomás, acenando. Falámos há dois dias.

Boa tarde, Tomás. Lembro-me, sim respondeu ela, sem grandes rodeios.

Tenho dois bilhetes para o teatro. Faz-me companhia? A minha mãe adoeceu à última hora mentiu Tomás.

Posso ir, sim, o espetáculo é quando?

Daqui a duas horas, tem tempo para se preparar. Se quiser, levo-a a casa para se trocar.

Manhoso, pensou Leonor. Mas acabou por aceitar.

Aguardou por ela junto ao prédio. Quando Leonor apareceu, de vestido preto que evidenciava a sua elegância, salto discreto, maquilhagem leve mas refinada, Tomás ficou boquiaberto. Parecia outra mulher.

Durante a peça, sentou-se ao lado dela e percebeu que Leonor conhecia bem a dramaturgia. Após o teatro, ele sugeriu jantar fora, mas ela recusou educadamente, dizendo que teria reuniões complicadas no dia seguinte. Tomás deixou-a em casa e foi-se embora. No final dessa semana voltou a esperá-la para passearem.

Dois meses depois, como de costume, estava à porta do escritório.

A minha mãe gostava de te conhecer. Importas-te?

Eu também sonho conhece-la. respondeu.

Foram juntos. D. Graça Oliveira recebeu-os com simpatia, ofereceram chá com compota de marmelo, bolo de alperce e outras iguarias. A conversa correu descontraída. Leonor partilhou com D. Graça a receita antiga da avó de compota, falou-lhe do pai, que morreu em serviço, e da mãe, professora de História.

No regresso, Tomás confidenciou:

A minha mãe adorou-te. Fiquei feliz.

A partir daí, encontravam-se quase todos os dias. Um ano depois casaram-se.

Ela calou-se. As colegas escutavam e, em silêncio, sentiam inveja. Só Marina pensava:

O que é que ele viu nela, naquela rapariga invisível? Nem bonito rosto, nem grande figura Porque será que têm sorte assim? Eu tenho pinta, pernas longas, bem apresentada E só atraio homens complicados, ou casados, ou à procura só de um caso.

O sinal tocou. As raparigas, em sintonia, voltaram para o escritório. Marina acercou-se da Vitória:

Vê lá, este é o marido dela! Acreditas nisto? Eu não. Está a inventar. Um homem assim nunca ligava a uma rapariga como ela.

Ao final do dia, quando todos saíam, Leonor ouviu uma buzina. Tomás esperava-a, de sorriso generoso.

Leonor, estou aqui! acenou.

Era mesmo o homem da fotografia. Marina não podia acreditar: porque não eu? Eu sou melhor…

As raparigas ficaram a observa-los, cada uma com os seus pensamentos.

Quantas vezes nos questionamos ao ver um casal assim: O que terá ele encontrado nela? Se calhar, aquilo que procurava. Nem sempre é a beleza que conquista um homem. Sim, com as bonitas há flirt, jogos… Mas para casar, escolhem outras. Porquê? Talvez só eles saibam.

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Esposa Sem Encanto
Zaplatila som oslavu pätnástych narodenín mojej nevlastnej dcéry, no jej otec sa vrátil k jej biologickej mame Desať rokov. Desať rokov som toto dieťa vychovávala, akoby bolo moje vlastné. Prebaľovala som ju, keď bola malá. Vodila som ju na krúžky každý týždeň. Pomáhala jej s domácimi úlohami, učila ju postarať sa o seba, objímala ju, keď zažila svoje prvé sklamanie. Volala ma „mama“. Nie „oteckova žena“. Nie „macocha“. Mama. Keď mala pätnásť, pripravovala som jej oslavu už celé mesiace. Prenajala som krásnu sálu, objednala šaty, zabezpečila hudbu a občerstvenie pre kopec hostí. Minula som všetky svoje úspory, ale verila som, že to stojí za to. Bolo to moje dieťa. Aspoň som si to myslela. Tri týždne pred oslavou sa z ničoho nič objavila jej biologická matka. Žena, ktorá roky neprejavila záujem – žiadna podpora, žiadne telefonáty, žiadna prítomnosť. Zrazu bola u nás doma, rozrušená a tvrdila, že chce začať odznova. Mala som to vycítiť. Ale uverila som. V deň oslavy som prišla skôr, aby som všetko skontrolovala. Sála vyzdobená, všetko pripravené. Keď som dolaďovala posledné detaily, niekto ma potľapkal po pleci. Povedali mi, že by bolo lepšie, keby som odišla. Že je to „rodinný moment“. Že tam nemám miesto. Snažila som sa vysvetliť, že som to dieťa vychovala ja. Že som všetko zaplatila ja. Ale moje slová nič nezmenili. Muž, po boku ktorého som žila celé tie roky, povedal len, že takto je to „najlepšie pre dieťa“. Neplakala som. Nekričala som. Len som odišla. Večer som balila veci do škatúľ, keď niekto zazvonil. Bolo neskoro. Otvorila som dvere. Stála tam ona – v slávnostných šatách, uplakaná a unavená. „Odišla som,“ povedala. „Nemohla som tam byť bez teba.“ Snažila som sa jej povedať, že má byť s rodičmi, ale objala ma a zašepkala: „Ty si moja mama. Ty vieš o mne všetko. Ty si vždy bola pri mne.“ Silno som ju objala. Povedala mi, že keď na oslave ďakovali „rodine“, opýtala sa, kde som. Povedali jej, že som sa rozhodla neprísť. Tak pred všetkými povedala pravdu. A odišla. Zostala so mnou. Pozerali sme filmy do noci, dali si pizzu, rozprávali sa. Prvýkrát po dlhých dňoch som cítila pokoj. Na druhý deň mi volalo veľa ľudí. Nezdvihla som. O pár mesiacov bolo všetko aj oficiálne. Začala som nový život. Ona sa pustila do ďalšieho štúdia a rozhodla sa zostať so mnou. Tie šaty má stále v skrini. „Aby som si pamätala deň, keď som si vybrala svoju skutočnú rodinu,“ hovorí. A občas sa pýtam: Kto vlastne koho v ten deň opustil?