Petiz
Ele chamou-a de Petiz logo na primeira conversa, quando se esparramou na cadeira do lado, tão vermelha, aveludada e polida de cotovelos quanto a de Marília.
Primeiro, passeou o olhar pela sala, depois fixou-se na vizinha.
Então, petiz, aborrecida? suspirou ele, tentou cruzar a perna, mas o corredor pequeno daquela sala de conferências em Lisboa não permitiu. O sapato bico fino encravou no encosto da frente, o tornozelo dobrou-se num ângulo inédito, e Miguel fez uma careta.
Marília fingiu não se aperceber da presença dele, focou-se mais ainda no palco, embora ali nada de especial acontecesse. Mesas puxadas para um lado, tribuna, meia dúzia de pessoas de um lado para o outro a mexer nos cabos típico de congresso, sempre abafado, sempre uma estufa.
Marília nunca se sentiu à vontade em espaços cheios, assim, ombro a ombro, sem escapatória possível.
Pois arrastou Miguel, coçou o queixo. Isto está mesmo de fugir! E digo-te, petiz, não vamos ouvir nada de novo. Palavra de honra! Já li todos os relatórios, faz parte do meu serviço não há ali nada útil, acredita.
Marília virou-se e olhou-o com reprovação.
Estava impecável, de fato, gravata, sapatos de couro brilhantes. Mas havia nele um qualquer desalinho parecia que lhe colaram um blazer de fidalgo a um miúdo do bairro. Malandro, provocador, tagarela e, acima de tudo, um gozão. E aquele cabelo espetado, para cúmulo com duas rodelas em espiral, parecia algodão doce a pedir festa.
Miguel , nem deixa a Marília abrir a boca, e já estende aquela mãozarona. Quer comer, petiz? Estás tão frágil, tão magrinha, tenho vontade de te encher! A sério. Anda daí, tira-me daqui!
Baixaram a luz, já todos aplaudiam os chefes, subchefes e funcionários de ouro a subir ao palco, mas Miguel puxava a sua Petiz sem pudor, espezinhando pés, desculpando-se e metendo a gravata, teimosa, de novo dentro do blazer, como se desafiasse a moral do pessoal todo.
Ó menina! Largue-me! protestava Marília, esfolegada, mas sem conseguir libertar o braço, correndo atrás de Miguel para fora da sala.
Saíram pelos corredores enquanto a audiência atingia o clímax e alguém batia com o micro à procura de silêncio.
Solte-me! Tenho de tomar apontamentos, é o meu trabalho! retrucou ela, abraçando o bloco e apanhando a caneta que caiu. Miguel foi mais rápido.
Esquece isso, Petiz! Mando-te tudo por e-mail, lê depois. Agora tens de comer. Mas antes, água. Estás branca. E o pulso está acelerar. Olha, confirmei! Meteu-lhe dois dedos no pulso, chiou com a língua. Ar, comida e nada de congressos!
Era verdade, sentia-se estranha e o coração martelava nas têmporas.
Nunca ninguém a tratou com tanto cuidado, a não ser ela própria mãe, marido, filha. Sempre ela a tomar conta de todos. E parecia normal. Mas, às vezes, sentia falta de uns mimos, de ser parva, de beber vinho e rir-se como as atrizes das novelas, coisa para a qual nunca houve oportunidade.
Mas Miguel deu-lhe essa oportunidade.
Sem perceber, já estava à mesa de um restaurante acolhedor do outro lado da rua, enquanto o empregado trazia dois copos de sumo natural, tão laranja-limão, tão vivo, que quase cegava. O próprio Algarve engarrafado.
Toma. Bebe. E água. Pronto Agora, o que é que comemos? ponderou Miguel.
Ela devia agradar-lhe imenso. Marília tinha até um ar simpático, era toda miúda, sem excessos, até podia ser desejada, não fosse aquela máscara de cansaço crónico que nunca largava o rosto. Aproximava-se dos cinquenta, vida monótona, família, sem amor florir do nada, como?
Mas mesmo assim, Miguel gostou daquela Petiz cansada.
Não preciso de nada. Vou recuperar e já volto ao auditório! Estou bem melhor! sussurrou Marília.
Está bem! acenou Miguel. Mas primeiro um robalo grelhado, legumes e saladinha. E O que queres beber, Petiz?
Levantou os olhos do menu, era tão bonito, fresco, desarrumado, com aquele cheiro a tabaco e perfume. Olhou-a com uns braços de atleta.
Ela corou, franziu o sobrolho.
Estava louca! Um desconhecido arrasta-a para jantar, chama-lhe Petiz, ajeita-lhe um fio de cabelo e ela quase derrete. Era um disparate.
Onde ele tocou, ficou quente, e a pele ganhou arrepios.
Brindaram com vinho branco, Miguel falava da juventude passada a trabalhar como servente em obras, depois no Norte, vários projetos, e mais tarde
E mais tarde, Petiz, eu e o Zé Pedro o meu amigo de sempre abrimos a nossa empresa. Nada de grandeza, fazíamos moradias, montámos equipas, a coisa pegou. Toda a gente quer conforto, viver bem e nós sabíamos como. Come, vá! apontava para o prato dela. À tua! Quando te vi, só pensei: Esta miúda tem é de comer! Queres pedir mais outra coisa?
Ela abanou a cabeça. Já estava a flutuar do vinho, da comida, mas sobretudo do simples facto de, pela primeira vez em muitos anos, alguém quisesse alimentá-la, porque ela era só uma rapariga cansada.
Em casa, era diferente. Marília cresceu só com a mãe, que trabalhava dia e noite. Ela tratava de si, aquecia o jantar à mãe quando esta chegava, lavava a loiça enquanto a mãe tomava banho. Só adormeciam bem depois da meia-noite.
No Ano Novo, a mãe, D. Maria Helena, regressava perto das onze da noite, vinda do supermercado, as últimas horas do ano sempre as mais rentáveis.
Maria chegava exausta, pálida. Marília preparava-lhe o vestido, ajudava no penteado, e seguiam juntas para receber os convidados.
A casa enchia-se: vizinhos, amigas, tios improváveis, todos alegres e já tocados. Maria só bebia aguardente, chamava espumante de brincadeira, mas a sua cachaça, essa sim, era sagrada!
Corpo esgotado, adormecia ao segundo gole, a ressonar à mesa. Marília cutucava a mãe, ela acordava sem saber onde estava, pedia mais um copo, fazia um brinde, ria, mas sempre com uma amargura. Onde poderia Marília ser fraca? Nem pensar
Casou cedo. António era quase dez anos mais velho, sensato, instruído, mas frio, falava pouco, encaixou-a na vida como uma peça certa, sem dar nada mais.
Nem que ela pedisse. O romantismo, a paixão, tudo isso ficou para trás o corpo pede, mas depois acalma. O mais importante era ter família, casa fugir da mãe sempre cansada, das varizes e paredes velhas. Agora tinha, ou melhor, António tinha: casa, duas assoalhadas, cozinha espaçosa, varanda, uma biblioteca e o marido. Todas invejavam Marília! Não era qualquer uma de fora da sogra benção das bênçãos.
E sempre, desde pequena até conhecer Miguel, foi Marília, ou Dona Marília.
António, mãe e amigas todos lhe chamavam assim.
Agora, Petiz. Com vinho, petiscos e alguém quer saber o que ela pensa, o que ela quer.
Para António, nem por sombras. Discutia problemas práticos, escolhas domésticas, férias, mas limitava-se a anunciar decisões qualquer protesto dela sumia-se entre o ruído da janela aberta. António gostava de tudo arejado, fechar janela era pecado, rebentasse o vento.
Já Miguel, mal entraram no restaurante, garantiu que arranjassem mesa longe das correntes de ar.
Um mimo
Foi-lhe fazendo perguntas, e Marília foi respondendo, embaraçada. Sim, tinha marido. E filha. Como se chama? Teresa. A Teresinha está no terceiro ano de línguas, arranjei-lhe um tutor brutal, daqui a nada vai fazer Erasmus.
A Teresa não foi desejada, nem sonhada, foi fabricada. António tinha de ser pai para satisfazer a sogra, e Marília era nova, devia ser fácil. Tentativas e mais tentativas.
Finalmente, engravidou. António, durante nove meses, mantinha distância, não lhe tocava a barriga, nada daqueles rituais de família feliz dos filmes. Para ele era estranho, desconfortável, talvez até repugnante.
Quando nascer, trato disso. E quando tens médica? Levo-te no carro se precisares! rebatia, caso Marília pedisse algum carinho.
Levava-a, buscava-a da maternidade, com balões, amigos e o tradicional obrigado pela filha. Supervisionava pesos, leite, comprava comida especial, levantava-se de noite para ajudar, levava Teresa às vacinas. Quando a enfermeira foi ver a recém-nascida, António pessoalmente verificou as mãos limpas, inspecionou a bata, aqueceu o estetoscópio para não assustar a miúda.
Estás cansada? perguntava-lhe a amiga Paula. Filhos não são uma planta, são uma escravidão! O António ajuda?
Marília encolhia os ombros. Ajuda, parece. Mas pouco
Ser mártir também tinha o seu encanto sempre exausta, sabida de que todos sentiam dó, algumas queixas do marido, por não tratar bem da sua Marília.
Esse Miguel tratava-a com mimo, enchia-lhe o prato, Marília envergonhava-se.
Vá lá, petiz! franzia as sobrancelhas Miguel. Come! Não te deixo sair daí!
Marília mordia o lábio, olhava-o com olhos tristes e comia.
Acompanhou-a até ao metro. Depois recusou boleia, alegando afazeres.
À noite, vieram-lhe para o mail todos os relatórios.
Para a Petiz, do Miguel! ironizava a nota.
Marília fechou o portátil depressa, mas Teresa pareceu ter lido algo.
Que nomes tontos inventam! queixou-se logo Marília. São documentos sérios, e eles inventam disparates.
Parece que Teresa já nem a ouvia. Virou-se, pôs auscultadores, música nos ouvidos
Marília, Teresa, cheguei! Vá, jantar! ecoou da entrada.
António, arrasado pelo metro, entrou a tirar a camisa, ficou de calças e depois vestiu calções com palmeiras verdes berrantes, abriu a varanda, respirou fundo.
Cheirava a suor, já meio azedo desde ontem.
Ó Marília, lavares-me tanto não! A pele fica-me a coçar depois. Amanhã é que tomo banho! despachava ela sempre que o tentava convencer. Estou cansado. Vamos comer.
Comeram em silêncio. Marília pensava em Miguel, sua energia, frescura, delicadeza
No dia seguinte, ele telefonou-lhe para o trabalho.
Olá, Petiz! Como estás? Já comeste? ouviu ela o timbre atrevido no telemóvel, gelou, virou-se a ver se alguém do escritório escutava. Parecia que o altifalante fazia eco nas paredes.
Não, ainda não consegui. Muito trabalho balbuciou. Petiz. Era ela, frágil, delicada. E aquele calafrio nas costas
Larga isso, desce. Estou aí no café porcaria de sítio, mas temos de comer. Estou à tua espera!
Marília murmurou uma desculpa aos colegas, apanhou o elevador, hesitou no botão a carregar. As bochechas em fogo. Todos já devem saber: D. Marília vai ao encontro do amante.
Sim, já lhe chamava assim amante. Que sensação estranha, entusiasmante.
Nesse dia, Miguel estava de t-shirt, jeans, desalinhado tão fresco como sempre.
Beberam café, Marília partilhou histórias da infância, Miguel ouvia. Até que
Petiz, és bonita, sabias? cortou ele de repente. Vamos comprar-te um vestido! Conheço pessoal numa loja top, eles ajudam-te. Quero ver-te de vestido!
E viu. Não logo ali. À noite, levou Marília ao Armazéns do Chiado, ficou sentado enquanto as assistentes a envolviam em provadores.
Meu Deus, como ele olhava para ela! Esfomeado, devorando-a com os olhos! António não tinha sequer noção.
Nunca ninguém me olhou assim! confessou Marília à Paula, sua fiel confidente. Só nos filmes! Senti-me… mulher. É ridículo, mas adorei.
E o António? lembrou Paula.
Ele nada sabe. E não pode saber! Nem eu sei abanou a cabeça Marília. Não digas nada, ouviste? E guarda o vestido contigo. Como explico isto em casa? Custou um balúrdio! Ó céus, o que vai ser de mim?!..
Paula encolheu os ombros. O que tiver de ser, será.
Não sei, Marília Tu andas a enganar-te. O António, bruto que é, ainda assim, lembra-te: andou de propósito até à terra da tua mãe buscar leite da vaca. Trabalha para ti, esforça-se. Outro ficava no sofá, a beber cerveja. O António é respeitado, trabalhador. Foi preciso carro? Comprou. Arranjos em casa? Fez. Leva-vos à praia. É transparente, previsível. E o Miguel, quem é? Donde vem o dinheiro?
Sei lá! Não me interessa. António é uma prisão, não aguento. Tens inveja!
Talvez Paula invejasse Marília mas não era por causa desse Miguel, mas por ter marido sólido.
Marília começou a chegar mais tarde a casa, cozinhava à pressa, nem comia, ficava a rodar a colher numa chávena de chá frio.
Mãe, olha que já pedi cinco vezes para me cortares pão! chamava Teresa, até ter que ir buscar. Acabou-se o pão! refilava ela.
Marília assentia, carrancuda, e fechava-se no quarto. Sonhava acordada.
António e Teresa já olhavam para ela como quem vê um quadro esquisito.
E a Marília lá ficava, só, com as mãos suadas de nervos.
Miguel era doce, sabia beijar, gozava a timidez dela, tratava-a por Petiz, alimentava-a, dava-lhe prendas que ela tinha de esconder com a Paula, de vez em quando fazia transferências generosas, outras vezes mandava mensagens pela noite dentro. Marília fugia do quarto, trancava-se na casa de banho para ler, apagava tudo, lavava a cara, voltava.
António revirava-se na cama, abraçava-a com força, ressonava, murmurava. Marília suspirava e parava quieta. Pena, pensava, que tenho um António na minha vida Tantos anos perdidos, sem nunca ser Petiz, bonita, desejada, viva.
Mas agora tinha Miguel, e ele era a sua felicidade.
Encontravam-se no apartamento dele grande, cheio de luz, janelas sem cortinas, e lá fora Lisboa moderna reluzia. Girava-lhe a cabeça o espumante, o perfume dele. E lençóis de seda mesmo!
Era um fogo-de-artifício, tudo brilhava nas noites de Miguel.
Em casa, tornou-se tudo um aperto no peito. Sentia que todos sabiam tudo, Teresa de olho, António rígido.
Arranjava desculpas para chegar tarde, assim ficava sozinha na cozinha, de chá amargo, a sonhar.
Marília! Onde estás? Comprei couve, temos de a cortar. Ficou combinado, lembra-te! ouviu o marido pelo telefone, lançou um olhar nervoso ao Miguel, a nadar à Margem Sul num daqueles clubes de piscina aberta.
Nunca tinha nadado na Piscina das Amoreiras, até que Miguel a levou lá, mandou-a trocar de roupa, e nadaram juntos a ver o vapor subir para o ar frio. Havia pouca gente, era uma paz Se subisse ao trampolim, via-se o brilho da Roda no Parque Eduardo VII. Mas nem ligava. Era só Miguel que via.
E afinal era amor. Finalmente.
Couve? balbuciou, embrulhando-se na toalha. Deixa estar. Hoje chego tarde. Fui nadar com a Paula. O médico disse para fortalecer as costas, lembra-te do exame! Comprámos um passe. Faço a couve amanhã. Está bem? Paula está a chamar Tchau!
Desligou a correr. Tinha de avisar a Paula, não fosse António ligar-lhe!
Ligou, cochichou sobre a piscina, engoliu em seco. Do outro lado, Paula respondeu:
Olha, trouxe-te cominhos. Fazes sempre a couve com cominhos. Passei no mercado e pensei em ti. O António já pôs água ao lume, respondeu Paula. Trouxe mesmo os cominhos, ouviste?
Marília mordeu o lábio e olhou à volta à procura de Miguel. Ele já estava pronto para saltar do trampolim, a exibir os músculos. Cá em baixo, um grupo de miúdas suspirava por ele.
Então, petizes? Um, dois, três! atirou-se à água, saiu bem, acenou para Marília. Vem nadar, Marília! A noite é jovem!
As miúdas olharam-na, e Marília encolheu-se. Subitamente, voltou a ser vulgar, com pneuzinho e coxas. Nadava como um sapo em apuros, expressão sofrida de novo estampada na cara.
As novas petizes do Miguel irromperam num jogo. Ele ria-se, nem pestanejou quando Marília desapareceu. Ele sabia bem: assuntos, família, couve Que vá!
Entrou em casa às escuras, na cozinha luz acesa.
António pôs-lhe à frente uma frigideira com ovos.
Deves estar morta de fome, depois da piscina. Queres fiambre? E despejou-lhe uma caneca de chá.
Ela abanou a cabeça. Não conseguia encará-lo. Pegou na garfo, espicaçou os ovos.
Saberá ele? E agora? Por que está tão calmo?
Ó Marília rompeu o silêncio António. A Paula veio cá deixar umas coisas. Andava a querer ajudar, eu mandei-a embora. Que mania a tua amiga tem. Lá deixou os sacos. Diz que são teus. São?
Ela levantou devagar a toalha, olhou os sacos, encolheu os ombros.
Pois, também achei estranho! como se se alegrasse com a dúvida. Serve-me chá. Ou melhor, tira um cálice de brandy. Apetece-me um brandy hoje, pediu.
Ela foi a correr, parou.
Petiz, ouviu a voz do marido, gelou, virou-se. Digo, petiz na mesa limpa. A Teresa está sempre a deitar pão para o chão. Vai buscar o pano e limpa, acabou ele, virou-se de lado
Beberam brandy em silêncio, a fugir ao olhar um do outro.
Finalmente António saiu.
Paula, ouve, ele foi-se mesmo embora! Levou a roupa, deixou as chaves na mesa. Paula! chorava Marília ao telefone, via-se ao espelho, via o rosto destorcido, já sem beleza, já não era Petiz que há três horas brincava na piscina com Miguel. O cabelo cheirava a cloro, as costas doridas. Paula! Como pode? É assim que fazem os homens? Deixou-me a mim e à Teresa, simplesmente!
De repente, zangou-se, deu um soco na mesa.
Como um homem de verdade, Marília. Outro teria te batido. O António simplesmente foi. Da própria casa. E ainda tens o descaramento de o julgar? replicou Paula. Não entendia o que se passava na tua vida. Dinheiro não falta, Teresa é boa miúda, António não é bêbado, trabalha. Sim, é calado, mas podia ser tagarela, trazer amigos para beber. E tu querias vida de filme, beijos e festas? Ainda nunca lhe disseste uma palavra meiga. Os homens são crianças, elogias e eles retribuem dez vezes mais. Eu cá não te apoio, Marília. Vai dormir.
Marília pousou o telemóvel, curvou-se na cadeira, chorou baixinho
Teresa passou nos exames, foi para a praia com os amigos. À mãe deixou um papel: não chateies.
Miguel surgiu passado uma semana, esperou por Marília à entrada do prédio, saiu das sombras.
Olá, Petiz! soprou, escondendo o nariz vermelho do frio na gola da jaqueta. Tiveste saudades?
Ela tinha-lhe ligado várias vezes a desabafar, ele nunca atendeu, agora estava ali.
Miguel disse ela, sem energia. Que fazes aqui?
E olhou à procura do carro dele.
Vim ver-te. Tenho contas a ajustar, Petiz! abraçou-a.
Que contas? Mas
Ela tentou soltar o braço, mal conseguiu. Ele apertou mais.
Alimentei-te? Alimentei. Diverti-te? Sim! sussurrou com voz melosa ao ouvido. Agora preciso de ajuda, mô. Dá-me dinheiro, gata velha! Tenho problemas, a casa da tua mãe vale uns trezentos mil euros. Vamos vender. E esta também. Vá, sobe, vamos tratar disso!
Petiz soltou-se num lamento, tentou fugir, mas não conseguiu, foi até ao prédio, numa oração mudinha para que alguém aparecesse. Mas nem um gato.
Abre, Petiz, estou gelado, empurrou-a ele.
Marília chorou, caiu de joelhos na neve artificial das calçadas lisboetas, quando de repente Miguel soltou-a, falhou o golpe de vento, caiu de lado e gemeu.
Atrás dele estava António, despenteado e furioso. Os punhos cerrados.
Desaparece! Vai-te daqui, ou parto-te os ossos! berrou, foi para cima do rival, mas Marília agarrou-o e travou-o.
Miguel, percebendo o perigo, riu-se com escárnio: agora António é corno, mas calou-se com um murro.
Rua! Se apareces perto da Marília, mato-te! gritou António, apanhou o gorro perdido, limpou o nariz e virou-se para a mulher. Anda, vamos para casa. Está frio.
Ninguém sabe o que se disse naquela noite, só a lua o ouviu, espreitando, o vento entrou pela janela entreaberta. Duas chávenas de chá por tocar, relógio a fazer tic-tac, e depois escuridão marido e mulher, juntos sem saber porquê.
Nunca, ninguém mais chamou Marília de Petiz. Se chamasse, ela até estremecia.
Miguel desapareceu da vida dela, não sobreviveu ao marido persistente.
Ao ouvir um dia Marília falar ao telefone no autocarro, sobre o apartamento herdado, sobre como está cansada, sozinha, Miguel percebeu que podia resolver-lhe os problemas (e o dela) com um golpe. Faltou-lhe jeito, apressou-se, e o Zé Pedro a cobrar-lhe. Ocorreu-lhe: com mais calma talvez recebesse tudo. Mas não foi desta vez. Há de haver outras petizes, carentes, murchas, sonhadoras. Ele há de as encontrar e lucrar.
Por enquanto, foi despejado do ninho com lençóis de seda e vista para Lisboa. Pacífico, há de dar a volta. Se o Zé Pedro assim quiserDepois daquela noite gelada, Lisboa seguiu os seus dias indiferente. Quem olhasse para Marília na paragem do autocarro via nela uma mulher igual a tantas: bolsa no colo, olhar na distância, as mãos fazendo e desfazendo um nó invisível.
António voltou ou melhor, nunca se foi embora de verdade, limitou-se a regressar, cansado, abrindo a janela de manhã, varrendo o silêncio dos quartos com pequenos gestos rotineiros. Não houve palavras grandes só chá, pão e o mesmo ar resignado. No entanto, quando Marília lavava a loiça ou dobrava as roupas, sentia as mãos dele a seu lado, aproximando-se de um modo discreto, como a admitir: também falhei.
Um dia, ao arrumar um armário, reencontrou o vestido novo que Paula escondera. Tocou-lhe devagar. Não o vestiu. Não precisava. Sentiu algo mudar por dentro: uma ternura nova, sem nome. Não era paixão nem alegria. Era aceitação.
A Teresa, ao regressar da praia, notou a mãe diferente. No lugar da dureza, havia agora uma certa leveza, uns olhos mais limpos como se tivesse chorado até correr todo o sal, toda a amargura.
De vez em quando, alguém na rua ainda lhe chamava senhora Marília. Ela sorria, agradecia, ajustando a tiracolo. Ninguém mais lhe diria Petiz mas agora, finalmente, era ela quem cuidava de si própria, sem precisar de permissão, sem mirar-se pelos nomes alheios.
Numa dessas manhãs claras, Teresa entrou na cozinha de mansinho e encontrou a mãe a cantarolar sozinha, mexendo o café. Antigamente, Marília teria interrompido, envergonhada. Dessa vez, não. Continuou, desafinada, mas feliz.
À mesa, António sentou-se defronte dela, estendeu uma fatia de pão não disse nada, mas deixou a mão repousar um segundo a mais sobre a dela. Marília retribuiu o gesto sem pressa.
Resgatou, ali, no silêncio partilhado, uma novidade simples: não era preciso ser petiz de ninguém para ser vista. Já não aguardava festas de novela nem esperava milagres. Bastava-lhe o calor de uma casa habitada, o murmúrio do cotidiano lento, e o dom secreto mais precioso do que paixão de pertencer, finalmente, a si mesma.







