O meu filho trouxe uma rapariga para o nosso apartamento e não sei como a pôr na rua.
Só em anonimato se podem confessar certas coisas como as que hoje escrevo. Sinto-me tão carregado de amargura que mal consigo aguentar. Estou pronto para as críticas, mas acredito que vou ser compreendido por outros pais cujos filhos, de repente, se tornaram adultos.
Crias um filho, educas como melhor sabes, separas-te da mãe dele porque o casamento não funciona mais, passeias com ele, fazes os possíveis para que nunca sinta falta do que perdeu, trabalhas em dois empregos, ficas junto ao fogão como se fosse um terceiro turno, compras todos aqueles telemóveis, pagas escolas e propinas, e depois:
Pai, a Matilde vai viver connosco.
Mas como assim? No nosso T2 de 44 metros quadrados em Lisboa? A rapariga vai dormir no quarto do meu filho? Também vai partilhar as refeições? Vai ajudar com a roupa suja? Ou passam a ser duas donas de casa aqui?
O meu filho ficou tão feliz ao dizer-me aquilo, como se esperasse que eu sorrisse de orelha a orelha, talvez até que corresse a esvaziar os armários para a Matilde, não sei…
Ela até é boa miúda, mas isso não quer dizer que eu queira outra pessoa a viver connosco. Adultos? Que arranjem um crédito à habitação ou aluguem casa! Porque é que hão de poupar à custa do meu desconforto? Vale mesmo a pena poupar a renda e não poupar os nervos ao pai?
Foi assim que me senti, confesso, mas acabei por deixar a rapariga entrar. O meu filho também tem direito à casa, pode bem convidar a namorada. Minto, mas prometi contar a verdade. Os meus amigos criticaram-me: Não pensas no bem-estar do teu filho? Que raio de pai és tu?
Agora chego a casa e tudo me mexe com os nervos. Mal ponho os pés no corredor, vejo logo mais sapatos na entrada, o fogão sujo na cozinha, o que significa que a Matilde andou a cozinhar. E se gastou as compras que paguei? Eu não desperdiço dinheiro. Mas e quando preciso de farinha a meio de uma receita e, sem dar por isso, já não há? E as filas intermináveis para usar a casa de banho?
Assumo, quero a Matilde fora daqui. Não preciso de outra dona de casa.
E tive uma ideia: e se eu trouxesse cá um homem? Tantos anos a cuidar do meu filho sozinho, a esconder que tinha uma relação para não o incomodar Mas ele agora tem direito ao espaço dele então porque não posso levá-lo cá para casa comigo, de mala e tudo, e ver como seria viver todos juntos em 44 metros quadrados?
Esta é o tipo de carta pouco comum que recebi. E para mim, sendo pai de um filho ainda pequeno, custa-me imaginar-me no lugar de quem escreveu, e quero muito saber as vossas opiniões.
O que acham vocês, caros leitores? Os vossos filhos já têm idade para vos pôr numa situação destas? Dão-se bem com os namorados ou namoradas deles? Acha justo que o pai deite a Matilde fora de casa?







