Foi a tua irmã que voltou cá? Sempre que ela aparece, o frigorífico fica vazio!

Manuel, a tua irmãzinha Madalena esteve cá outra vez? perguntou Beatriz ao marido, enquanto observava o frigorífico quase vazio. Sempre que ela nos visita, parece que desaparece toda a comida.
Sim, passou por cá, respondeu Manuel. Queixou-se novamente de que não têm dinheiro. Não conseguia deixá-la sair daqui de mãos a abanar, afinal, é minha irmã.
Não me digas que lhe deste também dinheiro?
Uns duzentos euros, admitiu Manuel, meio envergonhado. O Duarte anda com problemas no trabalho e nem conseguem pagar a renda.
Olha que novidade… Não entendo por que é que ela quis casar tão cedo, só tinha vinte anos! Porque é que a tua mãe não tentou demovê-la?
Já sabes como é a Madalena. Quando mete uma coisa na cabeça, ninguém a demove. Mas não te preocupes, ela há de aprender a viver por conta própria.
Beatriz suspirou. Independência é importante, mas até agora Madalena só viveu à custa da família.
* * *
Duarte era ainda muito novo, acabara de entrar no mundo do trabalho. Não fazia questão de encher a mulher de presentes. Madalena, por seu lado, recusava-se a trabalhar, convencida de que era dever do marido sustentá-la.
A mãe de Madalena e Manuel, Dona Conceição, também ficava sempre do lado da filha. Via bem que o dinheiro lhes fazia falta e estava sempre pronta a dar-lhe apoio financeiro, muitas vezes exigindo que Manuel também ajudasse.
Ela é uma jovem, tem de andar bem apresentada, dizia Conceição. A Madalena ainda não encontrou um trabalho ao seu gosto, e o Duarte não é nada generoso. Por isso, é missão nossa ajudarmos.
Manuel fazia o que podia. Mas Beatriz já estava farta. Não percebia por que é que parte do ordenado do marido tinha de ir para a Madalena, especialmente quando eles próprios viviam numa casa arrendada e apertavam o cinto para conseguir juntar algum para comprar finalmente uma casa e ainda assim, a irmã do marido era sempre prioridade.
* * *
Um dia, Beatriz chegou a casa e encontrou a sogra e Madalena em amena conversa com Manuel. Assim que Beatriz entrou, o ambiente mudou e fizeram-se logo silêncio. Era óbvio que estavam a tratar de assuntos sérios. Beatriz perguntou:
Posso saber o que se está a passar? Tenho a sensação que querem, mais uma vez, pedir-nos dinheiro.
Não estás a ver bem as coisas, riu Conceição. Temos assuntos de família, não precisas de te preocupar.
Beatriz bufou e foi para a cozinha, preparar o jantar. Poucos minutos depois, Madalena entrou, foi direta ao frigorífico e, desiludida, comentou:
Porque está quase vazio? Beatriz, não foste às compras?
Fui, claro, respondeu Beatriz, já irritada. Mas só compro o essencial até receber o ordenado no final da semana. Se quiseres, aqueço-te uma sopa.
Sopa? Eu não como disso. Eu não gasto dinheiro em comida caseira costumo pedir pizza, sushi ou sair ao café com o Duarte.
E o ordenado do Duarte chega para esses luxos todos? Não estão sempre a queixar-se de dificuldades?
Nesses casos peço à mãe e ao Manuel. É normal, numa família todos se ajudam.
Pouco depois, Conceição e Madalena foram-se embora. Beatriz virou-se para Manuel assim que a porta se fechou:
Afinal o que é que vieram cá fazer?
A mãe está a pensar vender a casa de férias e pediu-me um favor. Vai dar o dinheiro todo à Madalena, para ela começar a vida com estabilidade.
Mas e isso é justo? admirou-se Beatriz. Não te incomoda que só a tua irmã receba ajuda? Eu, enquanto tua mulher, sou contra isso. Não acho que vá resultar.
Beatriz, não te metas, respondeu Manuel seco. A casa é da minha mãe, ela decide.
Manuel encerrou a conversa, orgulhoso de ser generoso e de fazer tudo pela irmã.
* * *
Em pouco tempo, a casa de férias foi vendida. Para Beatriz, já estava visto que Madalena não ia saber usar o dinheiro. Restaurantes, roupas de marca, gadgets caros tudo servia para levar uma vida cheia de glamour.
Quando já não sobrou nada, Madalena voltou à mãe, queixando-se:
Já estou outra vez sem dinheiro! Quero tirar a carta e comprar um carro! Não há mais nada para vender? Há quem dê casas aos filhos, ajude em tudo… Porquê é que somos tão pobres?
Conceição ficou chocada. Nunca imaginara que a filha gastasse tão depressa o dinheiro.
Madalena, não temos mais. Pensei que fosses usar o dinheiro com cabeça. Está na altura de arranjar um trabalho. Formaste-te em contabilidade, vê se arranjas emprego numa empresa.
Eu? Contabilista? Passar o dia a olhar para o computador? O meu marido é que devia sustentar-me! Só tenho vinte anos! Tiveram-me para agora lavarem as mãos de mim? Obrigada, sim.
Calma, Madalena, tentou Conceição apaziguar. Podemos pedir ao Manuel. Dizemos que é para uma situação importante. Eles estão a poupar para a casa, devem ter algum dinheiro de lado.
Achas que ela deixa? Aquela Beatriz é tão forreta, poupa até na comida! Ainda bem que o Manuel nunca nos vira as costas.
Vamos falar com eles! decidiu Conceição. Não se preocupem, comigo não conseguem dizer que não.
Pouco tempo depois, Madalena e Conceição tocaram à campainha da casa arrendada de Manuel. Beatriz percebeu logo ao abrir a porta que aquelas visitas não traziam flores, mas pedidos.
Manuel, trazemos um assunto muito importante! exclamou Conceição mal entrou. Só tu nos podes ajudar.
Beatriz preparou-se mentalmente: Lá vem mais um pedido de dinheiro
Que se passa?
A Madalena quer comprar um carro, mas o dinheiro da casa de férias já se foi, explicou Conceição, um pouco envergonhada. Por isso, achámos que podiam ajudar.
Beatriz ficou boquiaberta:
Já gastaram tudo? Receberam tanto dinheiro, onde foi tudo parar? Madalena, devias pensar melhor antes de comprares tudo e mais alguma coisa!
Não tens nada que dizer como devo viver! atirou Madalena. Sou nova, tenho direito a aproveitar a vida! Não sou nenhuma rata de feira! Quero sair, ir ao cabeleireiro, vestir coisas boas, não passar a juventude na miséria!
Já pensaste em trabalhar? provocou Beatriz. Parece que resulta, já vi que nunca te falta para pedir à família.
Manuel, com medo das discussões, tentou mediar:
Esperem, vamos conversar. Não temos dinheiro para um carro, mas podemos ajudar como pudermos.
Sabia que podia contar contigo, filho! elogiou Conceição. Estás sempre pronto a ajudar quem precisa.
E não acham que eu devia ser ouvida? indignou-se Beatriz. Desculpem, mas não vou financiar a Madalena. Ela tem marido, que seja ele a cuidar dela. Da minha parte chega, não há mais ajudas!
Manuel lançou um olhar culpado à mãe e tentou explicar-se a Beatriz:
Beatriz, é o nosso dinheiro, também posso decidir. E a mãe só pede um empréstimo, depois devolve.
Claro que devolvo! Achas que sou uma caloteira? É só uma ajuda à Madalena, depois pagamos tudo.
Beatriz sentiu-se incomodada, mas pior seria perder para sempre as poupanças tão difíceis de amealhar.
Não, não podemos ajudar, respondeu, mais baixa. Entendam, estamos a juntar para a nossa casa, isso vem primeiro.
Vamos embora, mãe, bufou Madalena. Vês? Só olham para si, os nossos problemas não são os deles.
Madalena fez questão de mostrar o quanto estava ofendida. Conceição seguiu-lhe o passo, não sem antes se virar para o filho:
Manuel, voltamos a falar. Achas bem que a tua mulher mande tanto assim?
Mal a porta fechou, Manuel atirou-se a Beatriz com recriminações.
Como pudeste? E agora? A mãe vai pensar que somos egoístas! Que preferimos o dinheiro à família!
Mas isto é mesmo necessidade? respondeu Beatriz. Alguma vez nos ajudaram para comprarmos uma casa? Não quero ouvir mais sobre a tua irmã Madalena.
Alguns dias depois, Manuel reconciliou-se com Beatriz. Mas Beatriz não sabia que Manuel estava disposto a esconder-lhe a verdade. Pegou na poupança destinada à casa e entregou-a à mãe.
Quando Conceição viu o envelope recheado, sorriu logo:
Bem jogado, filho! Sempre soube que te eduquei bem! Não te preocupes, ajudas a Madalena e depois ela há de retribuir. E nem penses em contar à Beatriz. Ainda são novos, têm tempo para poupar de novo.
* * *
Um dia, Beatriz navegava nas redes sociais e viu fotos novas da Madalena. A irmã aparecia a guiar um carro pequeno, sorridente. Beatriz estranhou e perguntou ao marido:
Manuel, sabias que a tua irmã já comprou o carro? O Duarte tem dinheiro escondido? Ela é perita, consegue sempre o que quer.
Sim, eu sei do carro, respondeu Manuel evitando olhar a mulher. Todos colaborámos para lhe dar esse presente.
Como assim todos? Tu deste dinheiro? Por que não me disseste nada?
O silêncio confirmou tudo. Beatriz correu à gaveta das poupanças e percebeu horrorizada que o dinheiro tinha desaparecido.
O que fizeste? gritou Beatriz. Daste todo o nosso dinheiro à tua irmã? Inacreditável! Manuel, como é possível?!
Desta vez o normalmente calmo Manuel explodiu:
Não te diz respeito! Eu sou o homem da casa e decido! Podemos sempre voltar a poupar, mas a Madalena precisava daquele carro já! E se continuares a criticar a minha família, penso seriamente se quero esta relação!
É assim? Olha, Manuel, eu sim, já decidi: tu não és mais o meu marido! Vou para casa da minha mãe, mas vê lá se devolves metade das nossas poupanças!
Beatriz começou a arrumar as coisas, desolada e, no fundo, à espera que Manuel a parasse ou pedisse desculpa. Mas ele ficou impassível diante da televisão.
É isto? Vou mesmo sair, disse Beatriz, já junto à porta.
Vai. Se não mudas de atitude, nem voltes, respondeu Manuel, com frieza.
Beatriz foi para casa da mãe e passado um mês pediu o divórcio. Não é fácil viver com quem não nos respeita. Ah, e das poupanças fez questão: ameaçou ir a tribunal e Manuel devolveu-lhe o que era dela. Depois, Beatriz ria-se com as amigas ao contar a história: às vezes, só nos libertamos do abuso quando deixamos de ser complacentes com quem só pensa em si próprio.

No fim, Beatriz percebeu que ajudar só vale a pena quando existe respeito e reciprocidade. Família é importante, mas mais importante é não deixarmos de nos respeitar, nem esquecermos o nosso próprio valor.

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