A Rita estava aninhada no sofá da sua pastelaria preferida, no centro de Lisboa, à espera do pequeno-almoço. Era hábito lá ir buscar um galão bem quente e um pastel de nata, sempre para animar o início do dia de trabalho. Lá fora, a chuva caía miudinha, típica de novembro, e Rita bebeu o primeiro gole do café, a sentir o calorzinho reconfortante a espalhar-se pelo corpo.
Numa mesa do lado estavam duas raparigas a conversar e riam-se alto. Devia ser amigas de longa data, diria Rita, só pelo à vontade das vozes.
Ó pá, nem imaginas! Encontrei a nova namorada do meu ex no outro dia. A sério, sem sal nenhum! O que é que ele viu nela? dizia uma delas, tentando sussurrar mas ainda assim toda a gente escutava.
Se calhar cozinha melhor do que tu! Ou então, lá na cama, deve ser craque! respondeu a outra, desatando às gargalhadas.
Nem brincos! Vê aqui no Instagram, parece um trambolho, coitada.
As duas ficaram a rir-se, mas Rita engoliu em seco. Vieram-lhe de imediato à cabeça umas palavras da mãe, que, quando ela tinha uns sete anos, ouviu na conversa com o pai: “A Ritinha não é propriamente um espanto, mas pelo menos pode-se agarrar às virtudes”.
Já crescida, Rita sempre se esforçou pelo aspeto roupa arranjada, cabelo impecável, batonzinho. Mas sentia-se sempre em falta, nunca julgava estar suficiente. A mãe repetia vezes sem conta: Cabeça erguida, filha. Pode ser que beleza não tenhas em barda, mas és esperta isso ninguém te tira. Trabalha, estuda, não vá ficares sozinha para sempre.
Na escola, morria de vergonha do corpo esquálido e da cara cheia de sardas. Na faculdade, aprendeu a vestir-se melhor, até sabia aplicar rímel sem borrar. Arranjou namorado, sim, mas ele fazia sempre piadas sobre o rabo liso e os pés de gigante. Rita, no fundo, achava que por mais inteligência e graça que tivesse, dificilmente alguém ia gostar dela de verdade. Aceitou e seguiu em frente.
Acabada a meia de leite e o pastel, apressou-se para o trabalho. Durante o almoço, tinha que passar pelo apartamento da amiga Filipa, tratar do gato e das plantas dela. Filipa estava nas férias em Cabo Verde, marido quase não punha lá os pés. “Se por acaso se cruzarem, ele nem deve dar pela Rita,” pensou a Filipa antes de partir, confiante.
Chegando lá, Rita encheu a taça do Tico, um gato pachorrento, depois foi logo ver das begónias e orquídeas. Na rádio tocava a canção dos Xutos, aquela do Contentores, e a Rita apanhou-se a cantarolar: Na estrada perdido, sozinho a pensar… E, de repente, sentiu-se leve, como se a música e o cheiro das flores a envolvessem. Foi dando uns passinhos de dança, a rir-se sozinha do espelho da sala.
Então ouviu vozes e arregalou os olhos. Era o marido da Filipa, Manuel, a entrar com o amigo dele, o Rodrigo. Ambos olharam-na, surpresos. Estou feita! pensou ela.
Olá, Rita! Este é o Rodrigo. Viemos só buscar uns papéis. Estavas a dançar tão bem que nem queríamos interromper! Desculpa lá
Eu a Filipa pediu-me para cá vir balbuciou, vermelha como um tomate.
Na pressa de sair, tropeçou no Tico, escorregou e caiu redonda no chão da sala. Tudo ficou escuro.
Acordou já numa enfermaria no Hospital de Santa Maria. Ao lado, uma rapariga simpática falou:
Olá! Sou a Catarina, a tua vizinha de cama. Não te preocupes, só foi um susto, o médico disse que estás quase boa. Já cá esteve um estafeta com um cabaz e um rapaz com flores para ti!
Obrigada murmurou Rita, ainda meia zonza.
Levantou-se devagar, chegou à janela e abriu o saco: maçãs, sumo, bolachas e, para sua surpresa, dois pastéis de nata só podiam ser da Filipa e do marido. Pegou nas flores e viu um cartão: Rita, as melhoras. Uma mulher tão bonita como tu não devia estar num hospital. Vens comigo à exposição de flores, sim? Nem penses recusar. Rodrigo.
Rita mergulhou o rosto nas margaridas brancas, sorriu e abraçou a Catarina, feliz.
Sabes, a beleza nunca tem de gritar para ser notada. Cada mulher tem o seu brilho. Às vezes, é morno e forte, vem mesmo de dentroNos dias seguintes, Rita recuperou devagarinho. Recebeu mensagens de amigos que nem sabia que se lembravam dela, até a mãe apareceu com um saco de laranjas e um sorriso embaraçado, incapaz de esconder o orgulho:
Ficaste famosa no bairro, filha. Dizem que te convidaram para sair, de flores na mão, e nem estavas de batom! Olha que isto é obra.
Rita soltou uma gargalhada, sentindo-se finalmente leve. Quando saiu do hospital, o sol de inverno rasgava as nuvens, e ela vestiu o casaco preferido, aquele amarelo mostarda que nunca ousara usar. Na porta, Rodrigo esperava-a com um ramo de malmequeres e um sorriso aberto, genuíno.
Então, pronta para ver as flores? perguntou ele, oferecendo o braço.
Dessa vez, Rita não hesitou. Entre os canteiros do jardim botânico, cheios de cores e aromas, conversaram horas como se se conhecessem há anos. Rodrigo elogiava as suas piadas, apreciava o modo como ela olhava tudo com curiosidade.
Quando o passeio terminou, Rita corou ao ouvir:
Gosto do teu riso. Fazes tudo brilhar à tua volta, sabias?
Pela primeira vez, não duvidou. Descobriu ali, no meio das flores e de um galão lembrado, que era mesmo bonita não porque alguém dizia, mas porque finalmente o sentia.
E enquanto a cidade se preparava para outra noite chuvosa, Rita caminhou de cabeça erguida, pronta para todos os pequenos milagres dos dias comuns.







