Lugar à Mesa da Cozinha
Margarida, adormeceste aí? Olha que os convidados já estão à mesa, sabias?
A voz da sogra cortou o barulho das panelas como uma faca afiada. Margarida Estrela Ramos nem pestanejou. Já se habituara a esse tom. A esse olha que.
Só mais um minuto, D. Beatriz.
Um minuto? Já vão quarenta!
Margarida virou os bifes de cebolada na frigideira. Chiava o azeite, subia um cheiro doce de cebola e alho. Tapou, baixou o lume e espreitou o relógio. Faltavam oito minutos para servir o prato principal. Ela já tinha feito as contas de véspera. Como sempre.
Do outro lado, vozes misturavam-se num burburinho pastoso. Hoje era dia especial: Bodas de Coral de Beatriz e Manuel Francisco Ramos. Vieram os dois filhos, as noras, quatro netos, e até o casal do segundo andar a D. Amélia com o marido. Margarida estava de pé desde as cinco. Começou pela sopa da pedra. Depois as saladas: russa, feijão-frade com atum, tábuas de enchidos. Depois rissóis, como Manuel Francisco só aceitava, nada que fosse comprado feito. Depois o caldo verde. Depois bifes de cebolada, com pão de Mafra a ensopar o molho. O bolo ah, o bolo fizera-o na véspera: pão-de-ló com doze camadas, porque D. Beatriz só tinha um bolo preferido no mundo.
Margarida tirou o avental, pendurou no gancho, ajeitou o cabelo. Pegou no prato de bifes, entrou para a sala.
Finalmente! Beatriz nem olhou para ela, falava para a sala.
Os convidados aplaudiram. Amélia apressou-se a servir-se.
Margarida, e as batatas? perguntou o marido, Paulo, olhos no telemóvel.
Já as trago.
Voltou à cozinha. Serviu as batatas novas numa travessa funda. Com coentros e azeite. Tudo como gostam. Como gosta o sogro. Como gosta Paulo.
Quando voltou, já todos riam a propósito de uma piada. Piada de quem não era dela.
Margarida tinha cinquenta e dois anos.
Vinte e sete vividos naquela casa. Alugaram primeiro um T2 em Benfica os dois. Depois foram para o apartamento dos Ramos, na Rua das Tílias, mal nasceu o Joãozinho. Diziam: é mais prático, os pais ajudam. Ajuda dos pais do Paulo, nunca vira muita. Mas a dela, dava-a religiosamente. Nos domingos, nos feriados, nos dias normais.
Margarida, traz mais pão pediu Beatriz.
Trouxe pão.
Não te esqueças da mostarda, filha.
Trouxe mostarda.
Comia de pé, encostada à bancada. Porque o seu lugar à mesa sempre fora na beirinha, sempre pronta a levantar-se. Mais valia não se sentar de todo.
Depois veio o bolo.
Beatriz cortou-o, cerimoniosa, Manuel Francisco segurou-lhe a mão. Flashs de telemóvel. O espanto aos coros.
Isto é da pastelaria? perguntou Amélia.
Ora essa torceu o nariz Beatriz isto é nosso, caseirinho.
Nossos. Margarida ergueu a chavena. Bebeu chá em silêncio.
Depois Manuel Francisco ergueu a taça e brindou. Familia, fidelidade, maior fortuna são os filhos, disse. Chamou Beatriz de rainha do lar. Ela sorriu, modesta. Palmas gerais.
Margarida também bateu palmas.
Depois, tratei da loiça. Lavei pratos. Guardei sobras. Limpei bancada. Limpei fogão. Levei o lixo. Um fim de festa igual aos outros.
Paulo apareceu na cozinha perto das onze, casa já em silêncio.
Está tudo bem?
Está.
Cansada?
Um pouco.
Sorriu, serviu água. Foi ver o futebol.
No fundo, era uma noite igual às outras. Nada acontecera. Mas algo sim. Microscópico. Como uma fenda no vidro que só se vê quando parte.
Margarida apagou a luz da cozinha. Ficou no escuro. O cheiro a bife persistia. Cheiro a cebola. Cheiro ao seu dia.
Depois foi dormir.
As três semanas seguintes correram como sempre. Pequenos-almoços, almoços, jantares. Lavar roupa. Engomar. Ir ao mercado. Comprar frescos. Planear a semana porque Paulo detestava grão, o sogro não tocava em peixe à semana, Beatriz andava de dieta quando queria. Margarida carregava tudo de cor. Sem listas.
Trabalhava numa pequena contabilidade, três dias por semana. O resto era para a casa.
Na sexta começou com a migalha.
Jantar: frango com natas e cogumelos, receita segura, que todos devoravam. Mas nessa noite, D. Beatriz entrou sem avisar vinha sempre sem avisar, com um saco de laranjas da terra.
Ah, frango espreitou para a panela. Outra vez natas! O Paulo depois queixa-se do estômago, não sabias?
Sabia, sim. Usei light, quinze por cento. Ele pediu.
Não sei, não sei. Eu estufava só com salsa.
Pois, D. Beatriz.
Ela sentou-se, agarrou no móvel.
Olha, ontem a Sra. Otília do 4.º direito disse-me que a nora dela é chef. E lá em casa nunca falta comida fresca. Sempre pronto.
Margarida ficou à espera. Dava para onde queria ir.
Podias arranjar outro emprego, mais sério, não? Isso de três dias, nem é trabalho. Podias ao menos contribuir mais.
Margarida virou o frango. Olhou para a sogra.
Já contribuo, D. Beatriz.
Sim, pronto, eu só digo.
Ela só dizia. Sempre. Sem raiva, nem brigas. Só assim. Por hábito.
Margarida tapou a panela, baixou o lume. Sentiu cá dentro um nó, já velho, mais apertado que o costume.
No dia seguinte, ligou a uma amiga. Filomena Silveira, companheira da escola, dos tempos dos vinte. Filomena morava perto da Praça de Espanha, divorciada há quinze anos, dizia-se feliz.
Nena, como vais?
Vai-se andando. Tu? Sinto a tua voz diferente.
Está tudo bem.
Margarida.
Silêncio.
Estou cansada, Nena. Só isso. Muito cansada.
A amiga não fez discursos. Perguntou:
Queres vir até cá?
Algum dia eu vou.
Vem quanto antes. Chá tenho. Conversa também.
Margarida sorriu. Primeira vez em dias.
Depois veio aquele sábado. O tal.
Paulo convidou o irmão Miguel e a mulher, Leonor, para jantar. Avisou sexta:
Importas-te que venham cá amanhã?
Para jantar, a que horas?
Às sete, talvez.
Está bem.
Nada mais disse. Sábado, oito da manhã, estava já no mercado. Comprou carne, batata, espinafres, beringelas. Pensou no menu: perna de porco assada, salada à moda da Madeira, creme de abóbora, panquecas com requeijão. Mesa de sábado.
Por volta da tarde, estava tudo a rolar. O forno quente, a abóbora a desfazer-se, a massa a repousar.
Às três, Beatriz entra sem aviso.
Ai, hoje fazem jantarada e eu sem saber!
O Miguel e Leonor vêm diz Paulo.
Ah. Beatriz foi à cozinha, espreitou o forno. Margarida, puseste ervas?
Pus.
Quais?
Alecrim, tomilho, alho.
Ai, o Manuel Francisco não suporta alecrim.
Ele hoje não foi convidado.
Silêncio. Curto.
O quê?
Margarida virou-se.
O jantar é para o Miguel e a Leonor. O sogro não vem, e assim ponho alecrim. Fica melhor.
Beatriz olhou-a de alto a baixo. Apertou os lábios.
Está bem. E saiu.
Margarida ouviu-a cochichar com Paulo na sala. Paulo entrou.
Margarida, tudo bem?
Sim, estou a cozinhar.
Não precisavas ser assim com a minha mãe…
Não fui má. Só disse o que era.
Ela ficou magoada.
Porquê?
Ele não respondeu. Porque ali não havia resposta possível.
Miguel e Leonor chegaram às sete, risonhos, trouxeram vinho e bombons da “Arcádia”. O jantar correu bem. O assado saiu perfeito. A sopa cremosa, todos repetiram.
Margarida, tens mesmo mão para a cozinha suspirou Leonor.
Obrigada.
Sério! Invejo-te.
Aprende-se.
Que maçada riu-se Leonor. Nós quase só pedimos comida.
Vêm-se bem, meteu Miguel.
Olha que tu também os tens bem servidos respondeu Leonor, olhando para a mesa. A Margarida não para.
Não parava. Margarida arrumou tudo, trouxe panquecas, pôs a chaleira.
Margarida, senta-te! Leonor sorriu. Chega de correr.
Margarida sentou-se. Serviu-se de chá e de uma panqueca.
Ó Miguel lembrou Paolo a mãe disse que a Margarida quer mudar tudo na cozinha. Margarida, é verdade?
Pensámos, sim.
A mãe diz que és tu que queres, mas ela não deixa.
D. Beatriz tem a dela, eu tenho a minha cozinha. Não são a mesma.
Parece-me lógico, Miguel encolheu os ombros.
Nem tanto contrapôs Paulo. Afinal isto é o lar dela.
Margarida ergueu os olhos.
É de quem, Paulo?
Dos pais. Eles fizeram tudo isto.
Vivemos aqui há vinte anos.
E então?
O silêncio desceu sobre a mesa, como uma toalha pesada. Leonor olhou para o chá. Miguel pegou numa panqueca.
Estão deliciosas disse.
Ninguém voltou ao assunto.
Naquela noite, Margarida ficou deitada, olhos ao tecto. Paulo dormia ao lado, respirava tranquilo. Margarida pensou no que ele dissera: É o lar dela. Dela. Não nosso. Nem meu. Só dela, estranha.
Vinte anos. Vinte anos de panelas, bolos e limpezas. E tudo cheirava às suas mãos. Mas nunca era dela.
No dia seguinte, acordou e fez o que sempre: preparou café, o pequeno-almoço.
Passaram mais duas semanas assim.
A seguir veio o tal jantar. Bodas de Coral. Trinta e cinco anos.
Margarida começou com dois dias de antecedência. Decidiu a ementa com Beatriz ao telefone. Frio, quente, dois acompanhamentos, pastéis de bacalhau, arroz de pato porque Manuel Francisco não abdicava, e bolo. Margarida anotou tudo. Perguntou quantos. Beatriz: Quatorze, talvez quinze, já confirmo.
Confirmou à sexta: dezassete.
Margarida comprou tudo. Sábado, quatro da manhã, já estava a trabalhar.
O arroz de pato precisou de noite, pô-lo a cozer às dez. A gordura gelada no tacho, o arroz firme e saboroso. Teste para pastéis: O segredo está nas mãos a mãe dizia elas dizem-te quando está pronto.
A mãe já partiria há oito anos.
Margarida moldava a massa e lembrava-se dela. No avental velho, pó de farinha nos cotovelos, sempre a cantarolar. Modinhas populares, que ninguém hoje recorda.
Às dez da manhã pastéis prontos. Ao meio-dia, as saladas. Às duas, carnes no forno. Estava adiantada.
Convidados chegaram às três.
Margarida recebia, ajudava a sentar, levava entradas. Corria para o prato, espreitava o lume, servia chávenas. Voltava à cozinha. Mexia o molho.
Margarida, podes servir os pastéis? perguntou-se alto, porque ninguém mais perguntava nada. Outros riam, conversavam.
Trouxe pastéis. A mesa vibrou.
Caseiros! exclamou D. Amélia.
Sim, foi a Margarida disse Miguel.
Muito bem, aprovou Amélia. E logo fitou Beatriz: Tens uma nora de mão cheia!
Sim, vai-se aguentando, disse D. Beatriz.
Margarida regressou à cozinha.
Às quatro entrou com o assado. Tabuleiro grande, pesado, as duas mãos a carregar. Empurrou a porta com o ombro.
Olha só quem se lembrou de nós! gritou Beatriz à mesa. Já pensávamos que o jantar era só para amanhã!
Riram-se todos. Boas risadas, mas vagas.
Margarida pousou a travessa.
Que maravilha, elogiou Manuel Francisco.
Margarida, pões as batatas à parte? Paulo.
Já trago.
Foi à cozinha.
Nesse momento ouviu.
Amélia perguntava a Beatriz, em voz quase baixa, mas nítida na pausa entre as gargalhadas:
E a Margarida, que profissão tem?
Contabilista, respondeu Beatriz. Vai lá três dias por semana. Mas o lugar dela é na cozinha. E é para aí mesmo.
O lugar é na cozinha. É para aí mesmo.
Margarida estacou à porta. De costas para a sala. De frente para as panelas.
Amélia riu-se, seca.
Alguém tem de cozinhar.
É isso mesmo, Beatriz concordou.
Margarida ficou mais um segundo. Pegou nas batatas. Entrou. Pousou na mesa.
Obrigada, Margarida, ou alguém.
Acenou. Sentou-se no canto. Serviu-se de água. Não vinho. Água.
Comia calada. Respondia quando era preciso. Sorria se mandavam. Recolhia pratos. Trazia mais comida. Cortava bolo.
O lugar dela é na cozinha. E é para aí que vai.
De noite, mais uma vez não dormiu.
Virava e revirava as palavras. Sem raiva. Só a ver, à lupa, de todos os lados. O lugar à cozinha. Vinte e sete anos na cozinha. Quatro, cinco da manhã. Mãos encharcadas de farinha. De massa. De água quente. Mãos para dezassete pessoas. Mãos que ninguém vê. Só o resultado.
Para onde vai a estrada? Lá, onde já foi vinte e sete vezes.
Paulo roncava. Ela mirava-o na sombra. Uma cara conhecida. A de quem conhecia melhor do que ele próprio. Sabia que não aguentava calor. Que o ombro direito lhe dói há anos. Que recusa grão, mas come quando não há mais nada. Era bom. Só era distraído. Completamente distraído.
Ergueu-se, pondo o robe. Foi à cozinha.
Luz acesa. Chaleira ao lume.
Tudo limpo. Arrumado. Pelas suas mãos. No próprio dia.
Serviu chá. Pegou no telefone. Abriu conversa com Nena.
Escreveu: Estás acordada?
Cinco minutos volvidos: Sim, a ler. Que foi?
Margarida ficou a olhar o telemóvel. Depois escreveu: Nada. Quero ir aí. Amanhã posso?
Nena: Claro. Espero por ti.
De manhã fez café. Ovos mexidos, pão torrado e tomate. Pôs tudo na mesa. Paulo apareceu, ainda ensonado, sentou-se.
Bom dia.
Bom dia.
Serviu-lhe café. Olhou para ele.
Precisamos falar.
Hmmm, já comendo.
Quero ir embora.
Para onde?
Para casa da Nena. Uns dias.
Olhou.
Para quê?
Só descansar.
Ele olhou, deu de ombros.
Vai. E eu?
Tens bifes no frigorífico, sopa de ontem, rissóis no congelador.
E depois?
Desenrascas-te.
No domingo, depois de almoço, partiu. Uma mala pequena.
Nena abriu-lhe a porta. Olhou a mala, olhou Margarida. Não perguntou nada. Só a abraçou.
Vamos beber chá, disse.
Ficaram na cozinha pequenina até à meia-noite. Gengibre na chávena, gerânios na janela, abajur romântico. Nena abriu bolachas. Margarida falou. E falou. E calou-se às vezes.
Nem estou revoltada, confessou. Só… cansei de ser invisível.
Sei bem como é, Nena respondeu.
E agora?
Agora não apresses nada.
Margarida assentiu, a chávena quente entre as mãos, o calor verdadeiro.
Três dias depois Paulo ligou:
Margarida, afinal, vens quando?
Não sei ainda.
Como assim? Está tudo vazio.
Vai ao supermercado.
Silêncio.
Não sei cozinhar.
Sabes ovos mexidos?
Sei.
Então faz ovos.
Desligou. Riu-se pela primeira vez em muito tempo.
No quarto dia, Nena contou:
Tenho uma amiga que trabalha numa escola de culinária. Estão a precisar de formadora. Bolos e pratos de casa, substituição, talvez fique. Queres tentar?
Margarida olhou.
Sou só dona de casa, Nena.
Cozinhas melhor que muitos chefes. Sei disso há vinte anos.
De certeza pedem diplomas.
Vai à entrevista.
Dois dias depois estava na escola de culinária Sabores & Tradição. À frente, a directora, Sílvia Alvarenga, mulher de quarenta-cinco, despachada.
Disseram-me que cozinha bem. O que faz?
Margarida pensou.
Comida portuguesa tradicional. Bolos, massas lêvedas, folhadas. Carnes. Conservas… um pouco de tudo.
Massa lêveda faz de raiz?
Sempre. Nada de pacotes.
Sílvia sorriu.
Vamos fazer uma aula-teste. Se gostarem, fica contratada.
A aula foi à sexta. Tema: pão alentejano de fermentação lenta.
Margarida passou a véspera sem pregar olho. Pensava: é loucura. Nunca ensinei ninguém a nada. Que vai dizer Paulo? Ou a sogra?
Depois pensou: por que interessa o que eles dizem?
Sexta, apresentou-se. Oito mulheres, de idades e estilos vários. Olhos atentos.
Margarida cumprimentou e agarrou na tigela.
Começamos pelo início: pão não se faz só de receita. Faz-se das mãos. Sentem isto? Mostrou o ponto da massa. Quando descola da tigela e pede mimo, é aí que acerta. As mãos valem mais que qualquer relógio.
Explicou, amassou, sorriu. Mostrou texturas, temperatura da água, como não apressar a fermentação.
Uma miúda perguntou:
E se não sair à primeira?
Sai à terceira, Margarida devolveu, calma. A massa não se ofende.
Riram-se. Riso bom.
Sílvia espreitou à porta.
No fim, veio ter com ela.
Sabe ensinar.
Não tinha pensado nisso.
Justamente por isso sabe. Fechamos contrato?
Aceitou segunda-feira.
Três aulas semanais. Boa remuneração. Melhor que a da contabilidade.
Ligou ao emprego antigo, pediu licença sem vencimento.
Depois ligou a Paulo.
Arranjei trabalho. Vou dar aulas.
O quê? Quando voltas?
Não sei ainda.
Estás a falar sério?
A falar.
Pausa.
A mãe ligou. Achou que estavas magoada com ela.
Não estou magoada. Só cansada.
Cansada porquê?
Pensou nas palavras. Simples.
Porque ninguém me via, Paulo. Só pratos prontos, roupa lavada, mesa posta. E eu, nada.
Silêncio.
Margarida…
Não te culpo. Só constato.
Ele não achou resposta. Ela ouviu-lhe o calar.
Depois falo, disse ele.
Fica à vontade.
Mais quinze dias passaram. Margarida morava em casa da Nena. Ajudava a cozinhar, Nena agradecia sempre não era por obrigação.
Estás diferente, disse um dia Nena.
Em quê?
Mais tranquila. Sem aquela pressa nervosa.
Margarida pensou.
Talvez.
Na escola de culinária, os grupos enchiam rápido. Sílvia disse que queriam a Margarida, recomendavam-na.
Tem algo raro. Sabe dar-se.
Margarida dava-se. Isso sempre soube.
Agora reparavam.
Paulo visitou-a no fim da segunda semana. Marcou antes. Nena saiu. Sentaram-se à mesa com gerânios.
Vens para casa.
Ela olhou para ele. Estava mais magro, cansado.
Para quê?
É casa, família. Estou sozinho.
Há três semanas estás sozinho. Eu estive vinte e sete.
Olhou para baixo.
Não percebia.
Eu sei.
Então, acabou? Vais perdoar-me?
Suspiro fundo.
Não há o que perdoar. Só mudei.
Como assim?
Não volto ao que era. Não é zanga. Só não caibo mais.
Ficou em silêncio.
E agora? Divórcio?
Não sei. Talvez não. Só diferente. Trabalho. E não sou empregada de ninguém.
A mãe não queria magoar-te.
Paulo, ouve. Não se trata só disso. Ouviste o que ela disse? O lugar é na cozinha, é para lá que vai. Sabes o que quer dizer?
Ergueu os olhos.
Ouviste.
Ouvi. E tantas vezes.
Silêncio.
A mãe errou, reconheceu. E eu também. Não via.
Sim.
Entreolharam-se. Ele lembrava o Paulo de há décadas. Frágil e honesto.
Como faço?
Começa pelo sopa. Aprende.
Quase sorriu.
Sério?
Sério. Não custa. Cebola, batata, cenoura. Posso ensinar. Agora ensino.
Ficou a olhar para ela.
Vais voltar?
Margarida pensou. Mesmo a sério. No apartamento das Tílias. No cheiro das manhãs. Em Paulo, companheiro de meia-vida. A vida nunca perfeita, mas real.
Tinha cinquenta e dois anos. Não dezoito. Nem noventa.
Talvez, disse. Mas não já. Preciso de tempo.
Quanto?
O que precisar.
Ele foi-se. Margarida ficou à janela, ao lado dos gerânios, o Outono caía vermelho na rua.
Depois abriu o frigorífico. Tirou farinha, ovos, manteiga. Fez massa. Só para si.
A massa morna, maleável, viva. Moldava-se, feliz.
E não pensou em mais nada.
Um mês depois, Sílvia ofereceu-lhe o lugar fixo.
Queremos ficar consigo. Três módulos e um workshop mensal. Salário aqui. Aceita?
Leu. Normal. Livre. Não fortuna, mas liberdade.
Aceito.
Saiu, respirou o ar de final de Outubro.
Telemóvel: Nena.
Fiquei com o lugar fixo.
Margarida! Isso merece festa!
Eu levo um bolo.
Só podia.
Sorriram.
Com Paulo, as chamadas eram serenas. Ele contava dos cozinhados primeiro ovos, depois sopa, depois apanhou jeito e pediu receita de feijoada. Margarida explicou. Ele perguntava mais: quanta couve, quando pôr arroz, porque ficou aguado.
Pus-te salsa como disseste.
E puseste à última?
Pausa.
É diferente?
Ela riu. Ele também.
No fim de Outubro, voltou. Trouxe flores: crisântemos, aqueles de Outono, os favoritos dela. Ele já sabia. Nunca trouxera antes, nunca julgara preciso.
São lindos, disse ela.
Sabia que ias gostar.
Beberam chá, falaram de tudo. Netos, Miguel e Leonor a ponderar mudar-se, Manuel Francisco doente mas melhor.
Depois Paulo:
A mãe quer falar contigo.
Ficou calada.
A sério. Mudou um bocado desde que saíste.
Em quê?
Fez tudo sozinha. Pastel, não saiu grande coisa, mas fez.
Margarida olhou a chávena.
Fez bem.
Ela disse que errou, naquele dia, na tua presença.
Ainda bem que percebeu.
Vais falar com ela?
Olhou-o.
Sim. Quando estiver pronta. Não hoje.
Percebo.
Não apressou. Era novo. Ele antes apressava tudo. Agora, parecia saber esperar.
No fim, já na porta.
Margarida.
Sim?
Tinhas razão. Nunca vi bem isto.
Ela olhou.
Sei.
Lamento.
Assentiu. Não disse que estava tudo bem não estava. Mas talvez, um dia, pudesse ficar.
Liga amanhã, disse. Fala-me da sopa.
Combinado.
Porta fechada.
Margarida ficou na entrada. Depois foi à cozinha. Pôs a chaleira ao lume. Espreitou a cidade, agora dourada nas luzes de Outubro.
Pensava: depois de amanhã aula nova. Tema: massa quebrada. Mãos frias, manteiga fria, não pressionar. Senão perde a leveza.
Explicará. Sabe explicar, afinal.
A chaleira chiou. Serviu chá, sentou-se à janela.
Ali, onde a vida agora acontecia. Antiga e nova, juntas, por resolver. Ainda não sabia se voltaria às Tílias. Ou se ficaria. Ou se havia um sítio novo a nascer.
Mas naquele serão, bebia chá ao lado dos gerânios de Nena. Com o seu ordenado, a ensinar outros a sentir a massa nas mãos.
Por agora, era tudo o que precisava.
No dia seguinte, Paulo ligou à hora do almoço.
Fiz sopa, disse.
E como saiu?
Boa. Até tem cor.
Então deixaste a couve no final.
Como disseste.
Estás a aprender.
Pausa.
E tu, como estás?
Estou bem, respondeu Margarida. E era verdade.







