Querido diário,
Namorei o meu marido durante três anos antes de casarmos, e já estamos casados há dois anos. O João foi o meu primeiro e único namorado; nunca tive olhos para mais ninguém. Mesmo assim, sempre notei que o João era bastante ciumento.
A nossa gravidez foi planeada e, quando o teste deu positivo, ficámos ambos radiantes. O João sempre sonhou em ter um filho rapaz e, desde a primeira ecografia, estava convencido de que era menino. Por isso, quando ouvimos no hospital que íamos ter uma menina, ficámos ambos surpreendidos.
A partir desse dia, o João começou a desconfiar de mim. Insistia que, na família dele, só nascem rapazes que era sangue forte. O João não tem irmãs, só irmãos, e o sogro também só tem irmãos. Sabia perfeitamente que quem define o sexo do bebé é a mãe e a natureza, mas era exasperante ouvir aquelas ideias feitas. Senti-me revoltada e até me apetecia atirar-lhe com um manual de biologia à cabeça.
Durante a gravidez, continuava a sonhar com a possibilidade de contrariar as expectativas e ter um rapaz. Mas os médicos não erraram: a nossa filha nasceu saudável e chamámo-la Maria.
Contudo, o João não conseguia esconder a desilusão. Fingiu que estava feliz, mas não o fazia com convicção. Começou a comentar cada vez mais que a Maria não era filha dele. E a verdade é que os sogros alimentavam essas dúvidas, dia após dia, com insinuações cruéis e conversas repletas de malícia.
O que mais incomodava o João era que a Maria não se parecia nada com ele. O João é moreno, de olhos castanhos, e Maria nasceu loira e de olhos azuis, tal e qual eu quando era pequena. Era inevitável, os meus traços prevaleceram e parecia uma cópia minha. Todos os dias tinha de explicar ao João o porquê da filha ter aquele aspeto. Mas por mais que argumentasse, nunca consegui convencê-lo.
Esta situação arrastou-se durante mais de quatro meses. Fiquei exausta, sem forças para continuar a discutir o óbvio. Não queria viver a justificar-me, mas parecia que não havia outro caminho.
Subitamente, tudo mudou. O João tornou-se um pai atencioso, carinhoso com a Maria, como se tivesse finalmente aceitado a filha tal como ela era. Cheguei a pensar que tinha aprendido a ver-se nela e que se tinha apaixonado por ela. Mas, no fundo, havia qualquer coisa estranha nesta mudança súbita.
No primeiro aniversário da Maria, organizámos uma festa grande e convidámos quase toda a família dele. As conversas de sempre continuavam sempre a pôr em causa a paternidade da Maria. Até que, um dia, o João perdeu a paciência e afirmou em voz alta que tinha 100% de certeza de que a Maria era filha dele, porque tinha feito um teste de paternidade.
Nessa noite, confrontámo-nos e ele confessou-me que, quando a Maria tinha quatro meses, tinha feito o teste de ADN às escondidas. O resultado provava que era o pai, mas nunca me contou nada.
Foi aí que percebi porque razão ele tinha mudado tanto não era por finalmente confiar em mim ou amar a filha pelo que ela era, mas simplesmente porque tinha uma folha de papel a garantir que era o pai. Aquilo caiu-me como um balde de água fria. Senti-me traída, humilhada, como se não valesse nada para ele.
Afinal, o João desconfiava mesmo de mim. Se isto aconteceu agora, quem me garante que daqui para a frente ele vai confiar em mim noutros assuntos? E se noutro momento não houver provas para mostrar?
A partir desse momento, a minha imagem dele mudou completamente. Senti um nojo e uma repulsa que nunca pensei sentir pelo homem que escolhi para ser pai da minha filha. Dei por mim a pensar: será que quero passar o resto da vida a justificar-me a alguém que não acredita em mim?
Tomei uma decisão difícil: decidi pedir o divórcio. O João ficou em choque. Pediu-me desculpa, tentou explicar-se, mas não quis ouvir mais nada tal como ele nunca me quis ouvir a mim. A família dele chamou-me maluca, disseram que me ia arrepender um dia, que não era motivo para uma separação. Os meus pais ficaram tristes e não entenderam bem, mas apoiaram-me e deixaram-me voltar a casa.
Hoje, prefiro criar a Maria sozinha do que viver aprisionada numa relação onde nunca serei digna de confiança. Não posso passar a vida inteira a viver com medo das dúvidas de quem devia ser o meu parceiro.
Se fiz bem ou mal só o tempo o dirá, mas pelo menos fiquei fiel a mim própria.







