Madalena, quantos anos tens? perguntou‐me o pai, baixinho. Tenho a impressão de que não estás no primeiro ano da universidade, mas sim na primeira classe. Seja o que for o amor, há que viver e comer todos os dias, não é? Para onde vão esses pressas? Amanhã vais casar, não é? Ninguém se opõe ao teu Rui, deixao vir, vamos conhecêlo, conversar e encontrarnos com os pais dele Estou certo?
Tiago, vais chegar já? perguntoua Clara, ligando ao marido no trabalho.
Já quase, estou a terminar respondeu ele.
Então vem logo, não demores! A conversa é aqui dissea de repente a esposa.
Aconteceu alguma coisa? inquietouse Tiago.
Ainda não, mas é preciso falar Clara parecia nervosa, embora ainda nada grave tivesse surgido.
Quinze minutos depois o chefe da família já atravessava a porta da casa.
O que se passou aqui? perguntou‐cauteloso à esposa.
Troca de roupa, lava as mãos, não é preciso lançar tudo ao ar e salvar o universo beijoua o marido e empurrou‐o levemente para a casa de banho.
Ele acabou rapidamente os preparativos, vestiuse de novo e saiu para a sala.
Vamos conduziua a esposa até ao quarto da filha. Madalena estava sentada no sofá, os olhos vermelhos de choro.
Então, o que houve? tentou Tiago manter a calma.
Pergunta à tua filha cutucou Clara, conta ao pai o que pensas!
Madalena virouse ainda mais para a janela, claramente sem vontade de expor os seus problemas.
É isso, meninas batucou Tiago firme na mesa. Ou falamme calmamente, sem crises nem emoções exageradas, qual é o problema, ou resolvem tudo sozinhas e eu vou descansar depois do trabalho!
Nós aqui vamos casar completou a esposa com sarcasmo ácido. Hoje mesmo, sem adiar!
Como assim? ficou ligeiramente surpreso Tiago. Casarnos agora? Por quem, se não é segredo?
Como Madalena mantinhase calada, foi a mãe de Clara, a própria Clara, que teve que intervir outra vez:
Rui Silva, lembraste, tem aparecido bastante ultimamente.
É, então Sim, filha?
Madalena continuava a calarse.
Então, minha querida. Acaba logo este jogo. Eu devo ficar a dançar à tua frente para descobrir algo? começou a falar o pai, já a sério.
Eu e o Rui amamonos! exclamou repentinamente a filha. Ele é o melhor e vamos casar!
Ora, parece que há alguma clareza suspirou o chefe da família. Ele estuda contigo?
Sim, na mesma turma.
Primeiro ano murmurou Tiago, compreendendo ou resignado crianças
Não somos crianças! retrucou a filha. Já temos dezoito anos, somos maiores de idade!
Tudo bem. Se são maiores, são adultos, certo? Então falaremos como adultos.
Não quero falar! Agora vão surgir frases como Ainda são jovens, esperem, se estabeleçam, confirmem os sentimentos, tudo isso chato. Vocês são adultos, inteligentes, corretos, mas não percebem coisa tão simples: amamosnos, temos sentimentos! E vocês querem destruir tudo!
Filha, não pretendo destruir ninguém suspirou cansado o pai. Quero esclarecer tudo. Então, tu e o Rui amamse, certo? Madalena assentiu com ousadia. Isso já me alegra. E querem casar? Os dois querem, ou só tu?
Pai, não é para ofender o Rui. Ele também quer que nos casemos.
Bom, parabéns então. Há desejo. Mas onde vão viver, com que recursos? Já pensaram nessas questões?
Não importa! Se nos amamos, o resto não conta! exclamou a filha, fervorosa.
Madalena, quantos anos tens? repetiu o pai, baixinho. Tenho a impressão de que não estás no primeiro ano da universidade, mas sim na primeira classe. Seja o que for o amor, há que viver e comer todos os dias, não é? Para onde vão esses pressas? Amanhã vão casar, não é? Ninguém se opõe ao teu Rui, deixao vir, vamos conhecêlo, conversar e encontrarnos com os pais dele Estou certo? virouse para a esposa.
Muito certo, querido. Mas há um detalhe Não podem precipitarse tanto.
O Rui vai ser chamado ao serviço?
Não, nem ao serviço nem ao Rui. Madalena, por que calas? Tenho de dizer tudo?
Não estou calada resmungou irritada a filha. O Rui e eu vamos ter um filho.
Então exclamou Tiago, surpreendido. E o que vão fazer?
Casarnos! Ter um filho! E não me impeçam de de fazer isso! O nosso bebé vai nascer!
Calma, calma! Ninguém aqui vai tentar convencerte de nada, precisamos resolver as coisas entre nós. Dizme, os pais do Rui sabem?
Ele ainda combinámos que cada um falaria hoje com os pais
E então? Ainda não ligou para dar notícias?
Não
Tudo bem, quando ligar, avisame. Enquanto isso, deixemme jantar, porque com estas paixões fico com fome.
Ele e a esposa foram à cozinha, onde Clara rapidamente aquecia o jantar e serviu o prato ao marido.
E o que vamos fazer? perguntoua ela, baixa.
Ainda não sei. Sinceramente, não sei. Vamos esperar o que os pais do Rui disserem e, talvez, decidir juntos
Logo depois do jantar chegou uma notícia desagradável de Rui: os pais eram categoricamente contra, tinham tido uma discussão pesada que terminou em desentendimento. Uma má situação
Quinze minutos depois Madalena apareceu na sala com o telemóvel na mão e, fechando o auricular, disse:
A mãe do Rui quer falar convosco
Clara cruzou os braços, impávida:
Querido, fala tu, por favor, eu não consigo
Tiago lançou um olhar repreensivo à esposa, mas atendeu ao telefone, ativou o vivavoz e colocou o dedo nos lábios.
Alô, bom dia, aqui fala o pai da Madalena, Tiago Pereira.
Lurdes, mãe do Rui. O nosso filho disse hoje que ele e a vossa filha se encontram. E, ao que parece, já avançaram para algo maior, com planos ambiciosos. Sabem disso?
Sim, falámos com a Madalena.
Muito bem. Agora peçovos que considerem que somos totalmente contra esses planos grandiosos dissea com sarcasmo ácido planos! O nosso filho tem de estudar, obter a especialidade, construir a carreira. Casamento no primeiro ano e ainda um bebé não entram nos nossos planos.
Os nossos planos não incluíam um casamento precipitado para a filha, também não. Mas a Madalena vai ter um filho, do vosso filho, aliás. E o que pretendem fazer com isso?
Isso, desculpem, são os vossos problemas, Tiago Pereira. Primeiro, não estou segura de que seja realmente filho do Rui. Segundo, mesmo que fosse, não aceito que se casem imediatamente porque está grávida acrescentou, firme. Vejo a vossa filha como qualquer rapariga que queira casarse, sobretudo porque o Rui vem de boa família, tem casa e posição. Como mãe, farei o possível para que não se intrometam no meu filho. O pai concorda. Falámos com o filho e ele aceitou os nossos argumentos, pedindo que avisem a vossa filha para não o incomodar mais. Que faça o que quiser, nasça ou não não nos dizem nada. Boa noite.
Um bip curto soou. Tiago lançou um olhar pesado às duas mulheres e murmurou:
Todos ouviram? Resumindo, vamos ter o bebé o filho não é culpado por ser um irresponsável. Não há problema. Quando chegar a hora, fazse o que for preciso, pagaremos o que for preciso e cuidaremos da criança. Quanto aos vamos resolver depois. Esses irresponsáveis! Eu não sou o culpado, a casa não é minha. Chega, acalmemse, chorem se quiserem, mas não por muito tempo. Vamos ultrapassar isto!
Chamou a esposa e sussurrou:
Leva a Madalena para casa hoje, para que não faça nada de errado. Converse com ela, acalmaa. Eu fico no quarto dela.
Uma hora depois ouviuse um toque à porta.
Quem vem com tanta pressa? resmungou Tiago, a abrir.
Logo apareceu na entrada acompanhado de um rapaz jovem.
Rui! lançouse Madalena ao rapaz. Vieste buscarme?
Sim, vite, Tiago Pereira, Clara, vim buscar a Madalena.
Para onde? Como não é segredo?
Ainda não sei. Talvez alugemos um apartamento. Somos maiores de idade, por isso não nos impeçam! Vais contigo?
Claro! Onde quiser!
Esperem levantou a mão o chefe da família. Uma pergunta para a imprensa. A tua mãe disse que toda a família se opõe à decisão com a Madalena, e tu também.
Não exatamente, Tiago respondeu Rui. Foi a mãe que decidiu. O pai concorda, naturalmente usou a palavra apropriadamente, sem hesitar e eu só fiza parecer que me convenceram. Depois, peguei a carteira, o passaporte e o cartão bancário, e aqui estou.
Interessante! exclamou Tiago, visivelmente surpreendido. Agora queres levar a Madalena, alugar um apartamento, mas com que dinheiro?
Tenho trabalhado à noite, tenho um blog, um canal com seguidores. Vai dar para pagar a renda e a comida por uns meses, depois continuo a ganhar.
Não mau, não mau O que dizes, esposa, deixamos a filha ir? O jovem parece não ser tão simples como pensávamos.
Nem sei encolheu os ombros Clara. Onde, à noite, a olhar
Certo, não a deixes partir à noite. Agora vamos decidir. Vão casar?
Sim! responderam ambos.
E vão ter filho?
A mesma resposta.
Então apoiamos, mas há condições. Primeiro, tenta reconciliarte com os pais dele, e tu, Madalena, apoiao. O Rui fica aqui esta noite, nada de saídas às escondidas. Prepararemos o sofá na sala; por enquanto és só uma convidada, amiga da filha. Informa aos teus que vais dormir na casa de amigos. Depois conta a verdade, mas sem brigas! Não abandones os estudos! apontou ao Rui Madalena, estarás de licença maternidade, depois vais recuperar o ritmo. Ajudaremos no que pudermos, até dinheiro, mas não trabalharemos por vocês. O acordo tem de ser discreto, para poupar os recursos. Depois poderemos comemorar à vontade. Concordam?
Sim respondeu Rui sem hesitar.
Eu queria um casamento de verdade, com vestido, limusine, convidados disse Madalena, desiludida.
Ainda não é hora! contestou o noivo. Casaremos em silêncio e, daqui a um ou dois anos, faremos a grande festa.
Como quiseres
Tudo certo, planos claros, tarefas definidas. Preparamonos para o sono, amanhã todos levantam cedo.
Clara apanhou o marido quando ele foi à cozinha beber água.
Escuta, tenho de te perguntar, por que mudaste de curso assim de repente?
De repente? Depois da conversa com a mãe dele, tremei. E apareceu o tal rapaz, que eu achava ser apenas o filho da minha mãe. Mas acabou por ser um homem de verdade, não desistiu, não abandonou a amada. Por alguém assim, doulhe a mão da minha filha!
Tens sempre razão, querido! beijouo Clara e foi distribuir os lugares para dormir.
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