AMAR SUPORTANDO, SUPORTAR AMANDO: A História de João e Maria, Um Casamento Abençoado, Tempestades no Dia da Bênção, Filhos, Triângulo Amoroso, Deus, Perdão e Renovação da Família Portuguesa

AMAR PACIENTEMENTE, SOFRER AMANDO

O casamento de Gonçalo e Mafalda foi abençoado na velha igreja da aldeia.

No dia da cerimónia, quando o cortejo já se aproximava do adro da igreja, desatou de repente uma tempestade de verão, intensa e furiosa, como se vinda do além. Ao arrepio de todos, arrancou o véu de Mafalda. O véu subiu aos céus, rodopiando como balão branco, perdeu força, desceu e aterrou numa poça lamacenta. Todos os convidados ficaram de boca aberta. Quando o vento se calou de súbito, Gonçalo correu atrás do véu, mas não o alcançou.

O véu, outrora imaculado, agora corria à tona da lama escura. Mafalda, confusa, gritou ao noivo:

Gonçalinho, não pegues nesse véu. Eu não o visto, nem morta!

As velhotas, sempre estacionadas junto à igreja, começaram a murmurar: Agora vai ser só desgraças e tormentas na vida dos jovens…

No mini-mercado ao lado arranjaram-lhe rapidamente uma flor artificial branca, que prenderam ao cabelo com um alfinete. Não havia tempo para procurar novo véu. Não se podia chegar tarde ao próprio casamento!

Os recém-casados ficaram no átrio, em frente ao altar, com as velas de promessa nas mãos. Disseram os votos matrimoniais. Para Deus. Mas antes, no registo civil, haviam assinado os papéis, e celebraram casamento festivo para as pessoas…

Após três anos, a casa de Gonçalo e Mafalda já ressoava com as vozes de dois filhos: uma menina, Matilde, e um rapaz, Simão. Viviam dentro do compasso das rotinas, sem conhecerem grandes agruras.

…Mas passados uns dez anos, à porta de Gonçalo e Mafalda bateu uma jovem.

Mafalda sempre recebeu todos, convidados ou de passagem, com simpatia e mesa farta. Nesta tarde, a visita era fora do comum. A jovem entrou quando o marido estava ausente.

Mafalda avaliou a desconhecida num piscar de olhos: boa figura, amável, bonita e jovem.

Boa tarde, Mafalda. Chamo-me Lígia. Sou a futura esposa… do seu marido, apresentou-se ela.

Ora essa! Mafalda ficou desconcertada.

Há muito tempo é ele teu noivo? continuou o diálogo surreal Mafalda.

Há, mas não posso esperar mais. Eu e Gonçalo vamos ter um filho, respondeu sem hesitar Lígia.

Bem… parece cena de novela: mulher, amante, filho ilegítimo… Rapariga, sabes que somos casados pelo altar? Temos filhos.

Eu já descobri tudo. Mas o que há entre mim e Gonçalo é amor, também eterno! Além disso, podes anular o casamento. Ele traiu-te, já não é fiel. Informei-me bem. É possível, insistia Lígia.

Olha, menina, aconselho-te sinceramente a não te meteres em ninho alheio! Nós cá resolvemos os nossos assuntos de fidelidade e amor, começava a irritar-se Mafalda. Adeus e passa bem!

A jovem encolheu os ombros, como a dizer, fiz o meu papel, e saiu apressada.

Mafalda bateu a porta com força.

Ela já sabia tudo… Insolente! Gonçalo fica para mim!, pensava Mafalda com raiva.

Começou então a notar que Gonçalo se afastava. Era diferente com os filhos, para com ela. As desculpas prolongavam-se: trabalho, deslocações inesperadas, pescarias ou caçadas improváveis. Nunca antes tivera tais hobbies. Mafalda pressentia o cheiro a rival. Havia tensão pairando, silêncios nas entrelinhas…

Ainda assim, afastava os maus presságios. Talvez fosse imaginação, talvez o marido fosse inocente…

Naquele serão, Gonçalo chegou a casa. Mafalda chamou-o à mesa para jantar. Sabia que, primeiro, convém alimentar bem o marido antes de resolver problemas.

Quando Gonçalo agradeceu, Mafalda partiu para o ataque:

Gonçalinho, estás apaixonado? a voz tremia-lhe.

Estou, respondeu em alerta, sentindo o chão fugir.

Hoje esteve cá a tua… paixão. Isto é sério? Mafalda mal conseguiu respirar.

Sou um miserável! Sem a Lígia sufoco, não vivo! Tentei acabar, não consigo! Deixa-me ir, Mafaldinha! suplicou ele, chorando.

Vai, respondeu Mafalda. Sabia que apelos e chantagens eram inúteis. A vida daria o que tivesse de dar.

…E Gonçalo foi-se embora para a sua paixão.

Mafalda foi, então, à igreja pedir conselho ao padre. O pároco ouviu o seu pranto:

Filha, o amor é paciente, não acaba! Assim diz o Evangelho. Podes pedir a anulação, pois teu marido cedeu à tentação. Mas também podes perdoar, rezar e esperar. Os caminhos de Deus são insondáveis…

Dois meses depois, Mafalda sentiu um novo coraçãozinho. Era mais um filho de Gonçalo. Sentiu-se alegre, interpretando-o como sinal: Gonçalo voltaria, acabaria por arrepender-se. Viveu a gravidez embalada nessa esperança.

O menino nasceu. A mãe de Mafalda sugeriu chamá-lo Tiago, quem sabe, a sorte muda e teu Gonçalinho volta… Na vida tudo pode virar.

Felizmente a mãe apoiava em tudo: cuidava dos netos, alimentava-os, enchia-os de histórias, educava-os.

Gonçalo não esquecia Matilde nem Simão. Levava-os à praia, trazia brinquedos, enviava dinheiro num envelope.

Mafalda proibiu as crianças de contarem ao pai sobre o nascimento do irmãozinho Tiago. Mas obedecer, está quieto…

Matilde, numas férias com o pai, contou-lhe tudo. Gonçalo achou que Mafalda já tinha nova vida. Ficou agitado, encheu-se de saudade do tempo antigo. Nem sonhava que o bebé era sangue do seu sangue.

…Enquanto isso, Lígia esteve internada. Gonçalo ora trazia frutas, ora pedia pickles no minimercado, ora procurava giz do bom. Lígia devorava giz faltava-lhe cálcio. Mas tudo acabou em tragédia: Lígia perdeu a filha. Não bastava essa dor veio outro desgosto, um aborto espontâneo.

Lígia, mergulhada em luto, quis fazer pausa na vida. Adiar tentativas. Mas o destino tinha outro desígnio…

Gonçalo dedicava-se por inteiro. Sentia-se responsável por toda a amargura. Cada qual com a sua cruz.

…Foi nessa altura que um antigo colega de Mafalda, Álvaro, começou a aparecer. Na universidade, Álvaro sempre a cortejara. Quando terminou o curso, pediu-lhe casamento logo ali. Mas ela nunca conseguira vê-lo com olhos de marido; demasiado persistente, colado à saia da mãe, sério demais, sem humor. Outras raparigas suspiravam por ele, disputavam-lhe o olhar. Mas quando Mafalda conheceu Gonçalo, Álvaro foi posto de lado apenas temporariamente.

Numa tarde cinzenta de outono, dentro do autocarro a olhar chover sobre o Tejo, Mafalda sentiu alguém sentar-se ao lado:

Dá licença? perguntou o desconhecido.

Força, respondeu ela sem olhar.

Está triste, menina? insistiu ele.

Ela virou-se por fim.

Álvaro? Nem acredito! Onde tens andado? animou-se Mafalda.

Conta-me de ti, Mafalda, és feliz com o teu? insinuou-se Álvaro.

Álvaro, vem jantar lá a casa! E já o arrastava pelo braço.

No caminho, ele comprou uma garrafa de vinho, fruta, guloseimas para os miúdos.

No serão, Mafalda contou-lhe tudo, até à última gota. Precisava de desabafar. Álvaro revelou-se atento, calado, compassivo. No fim, Mafalda beijou-o na face, em agradecimento. Álvaro ficou esperançoso e foi-se embora.

Descobriu-se que ele nunca casara, nem tivera filhos. Destino esquisito.

Álvaro começou a ir lá a casa. Sempre com presentes para os miúdos, flores para Mafalda.

Ela pôs logo os pontos nos is:

“Vens quando quiseres, mas espero o meu marido. Sem liberdades.”

Álvaro aceitava: “Serei teu irmão, os meninos os meus sobrinhos.”

E assim arranjou ali abrigo.

Já a vida de Gonçalo mudava: Lígia deu à luz uma menina, abençoada e rechonchuda. Chamaram-na Benedita, a abençoada para estar perto de Deus…

Lígia devotou-se de corpo e alma à maternidade ansiada.

Recordava momentos com Mafalda. Um amor roubado nunca é doce só dor amarga.

Apenas com o nascimento de Benedita, Lígia compreendeu o mal causado a Mafalda e pensou mesmo em pedir-lhe perdão de joelhos.

Gonçalo amou perdidamente Benedita. Enchia-a de brinquedos, adormecia-a ao colo, dava-lhe banho com ternura. Lígia não se cansava daquele pai dedicado.

O rio do tempo corria, inexorável…

…Passaram cinco anos. As crianças cresciam, todos os adultos amadureciam ainda mais.

Sucedeu então uma desgraça: Lígia caiu doente, daquelas maleitas sérias. Só tinha trinta anos. Gonçalo ficou desolado. Hospitais, médicos, tratamentos caros, remédios…

Lígia preparava a alma para partir.

Gonçalo fazia o possível para animá-la, mas ela sumia a olhos vistos.

Quando regressou a casa para morrer, pediu, num fio de voz:

Leva-me à tua esposa, Gonçalo.

Ele estranhou, mas não hesitou.

Mafalda já sabia, pelas palavras de Matilde, que Lígia estava condenada. Por isso, aceitou sem reservas a visita.

Gonçalo carregou Lígia ao colo até dentro da casa.

A família esperava. Queriam explicação.

Mafalda, braços cruzados, apontou o leito do quarto. Gonçalo depositou Lígia com todo o cuidado.

Deixem-me a sós com Mafalda, por favor, pediu Lígia.

Todos obedeceram e saíram.

Mafalda aproximou-se, observou o rosto moribundo Já vi defuntos com melhor ar, pensou.

Sentou-se na beira da cama.

Perdoa-me, Mafalda! Chegou-me o castigo de Deus! Quero pedir-te: fica tu com a Benedita! Só tu, Gonçalo e… tu. Promete que a crias. Lígia chorava compulsivamente.

Mafalda pegou-lhe na mão:

Lígia, não é Deus que castiga, somos nós próprios. Já te perdoei há muito! Quanto à Benedita, não temas. E mais, fiquem cá os três: tu, Gonçalo e a menina. É melhor assim. A casa é grande, ninguém fica só!

Eu garanto vais melhorar! Vais ver! Em Deus tudo é possível. Mas não desistas!

Na casa de Mafalda, como num solar encantado, houve espaço para todos.

Cuidaram de Lígia. Álvaro, sobretudo, foi indispensável: desde o primeiro dia devotou-se à doente, encontrou sempre as palavras certas, fazia-lhe companhia salvadora. Conversavam sobre a vida. Há palavras que magoam, outras que curam. Álvaro apaixonou-se por Lígia sem notar. A Benedita chamava-lhe malmequer de Deus. Era mesmo um anjo de menina!

Lígia quis lutar por viver. Agarrava-se à ténue esperança que Mafalda incutira.

Passaram-se seis meses de angústias e tratamentos dolorosos. Lígia já conseguia sair sozinha ao quintal. Inspirava o ar fresco, deixava o rosto banhar-se no sol, sorria, murmurava sonhos. A vida regressava-lhe, gota a gota. Como quem ressuscita dos santos…

Pensava em Álvaro. Ainda amava Gonçalo, mas ele não era seu por direito. Aprendeu finalmente: casa dos outros não se cobiça. Álvaro era bom homem; aceitou Benedita como filha, amava-a, apaixonou-se por Lígia. Há famílias assim: o amor de um basta para dois. Lígia faria tudo para multiplicar esse amor, só queria sarar de vez!

Voltava à vida, pouco a pouco.

Chegou um dia, durante o almoço, em que Lígia declarou:

Mafaldinha e Gonçalinho! Eu, Benedita e… Álvaro vamos partir. Obrigada pelo vosso carinho, pelo teto, pelo amor que inesperadamente recebi! Nunca conheci gente como vocês. Que Deus vos abençoe!

Gonçalo e Mafalda trocaram olhares.

Muito antes disto, Gonçalo tivera conversa difícil com Mafalda:

Mafalda, aconteça o que acontecer com Lígia, quero voltar para ti! Não acaba o teu coração. Aceitas-me? Vou pedir perdão a teus pés, se for preciso!

Que remédio! Aceito e sou eu a pedir-te perdão! Se te fui má esposa, aprendi agora. A vida ensina. Mafalda abraçou com força o marido pródigo.

E a Benedita? És pai dela, ela ama-te! preocupava-se Mafalda.

Benedita terá sempre casa comigo. Nunca deixarei que sofra. O meu lar é dela também, concluiu Gonçalo.

Álvaro, Lígia e Benedita preparavam-se para partir.

Junto da porta, Lígia chamou Gonçalo:

Ama a tua Mafalda, mais que à própria vida. Não a faças sofrer. Nunca te esquecerei, Gonçalinho, despediu-se com um beijo.

Sê feliz, Lígia, murmurou Gonçalo, tocado por aquele estranho e sonhador adeus.

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