Os chão não se limpam sozinhos
Matilde, enquanto o Rui está no trabalho, és tu que tens de olhar pela casa comentou dona Beatriz. Os chão não se limpam sozinhos. E o jantar, quem vai cozinhar? Estás aí sentada à espera de quem?
Passei a mão pela minha barriga enorme. Sete meses de gravidez, eram gémeos, e cada manhã começava com o desafio de simplesmente me sentar na cama. As minhas costas doíam tanto que apetecia-me deitar e não mexer um músculo até ao parto.
Dona Beatriz, vê bem o tamanho da minha barriga. Só me mexo pela casa encostada às paredes, e ainda quer que eu trate do jantar
A sogra encolheu os ombros como se eu estivesse a queixar-me de um arranhão.
Oh Matilde, estás grávida, não doente. Quando carregava o Rui, até ao último dia cozinhava, lavava roupa e ainda ia ajudar a minha mãe nas batatas. E tu aqui, deitada todo o dia, pareces uma senhora de posses. Isso é só cena tua. Só queres que andem todos à tua volta a lamuriar-se.
Saiu da cozinha, deixando a chávena suja e uma mágoa amarga que parecia engasgar-me.
À noite, o Rui chegou por volta das nove, cansado, com umas olheiras profundas. Esperei que ele acabasse de jantar e sentei-me ao lado dele.
Rui, precisamos de conversar sobre a tua mãe. Ela aparece cá todos os dias e trata-me como uma criança da escola. Mal consigo andar, e ela exige que esfregue o chão e faça cozido à portuguesa. Podes falar com ela, por favor?
Ele esfregou os olhos, respirou fundo. Mas percebi logo que não queria meter-se ao barulho.
Está bem, Matilde. Falo com ela. Prometo.
Os dias passaram e tudo igual. Dona Beatriz continuava a aparecer dia sim, dia não, a passar o dedo nas prateleiras à caça de pó e a suspirar ostensivamente com a loiça por lavar.
Dois meses depois, nasceram os nossos gémeos. Dois rapazes cheios de vida, com punhos rosados e vozes potentes: Manuel e Tomás. Quando mos pousaram ao peito, tudo o resto deixou de existir. Fiquei ali a chorar, agarrada aos dois pirralhos, sufocada por uma felicidade que nem cabia no peito. O Rui entrou em alvoroço, pegou no Manuel devagarinho, como se fosse feito de vidro, e ficou com os olhos embargados.
São mesmo nossos, Matilde
Uma semana na maternidade foi um casulo morno só nosso. Quando voltámos a casa, o Rui levava o Tomás e eu embalava o Manuel. Empurrei a porta do quarto dos bebés aquele verde água que pintámos juntos, o cheiro a mobília nova, as roupinhas pequenas alinhadas e parei no limiar.
Sobre um dos berços, estava um robe lilás com iniciais bordadas. Ao lado da mesa de mudar fraldas, uma mala aberta. O outro berço empurrado para o canto, no lugar dele uma poltrona desdobrável, onde se sentava dona Beatriz, descontraída com uma revista.
Ah, chegaram disse ela, com a maior calma. Aproveitei para me instalar. Vim para ajudar com os meninos.
Fiquei parada, abraçada ao Manuel, a tentar arrumar o que via. A mala. O robe. Coisas que não eram dos bebés por todo o lado, nos sítios onde na véspera só havia fraldas e babygrows. Dona Beatriz apropriou-se do quarto deles com um à-vontade que me deixou atordoada.
Olhei para o Rui, atrapalhado no corredor com o Tomás ao colo, a evitar encarar-me.
Rui, o que é isto?
Bem, a minha mãe disse que vinha ajudar no início ele fitou o chão e depois o cabide. E são dois, Matilde. Tu sozinha, eu no trabalho Ia ser puxado.
Ajustei o Manuel ao ombro, respirei fundo.
Eu desenrasco-me. Já tínhamos combinado, Rui. Eu desenrasco-me.
Dona Beatriz já se esgueirava por trás, sempre ágil, saiu para o corredor:
Matilde, não sejas teimosa. Dois recém-nascidos, tu acabada de parir, mal te aguentas de pé. Vai descansar, deixa que eu trato dos meninos. Vai tudo correr bem.
Quis protestar, mas a exaustão era tanta que nem forças para discutir havia. O parto, o regresso de carro, cada músculo doía. Entreguei o Manuel à sogra, convenci-me de que era só por uns dias.
Os três primeiros dias foram relativamente tranquilos. Beatriz levantava-se de noite para acalmar os meninos, preparava-me o pequeno-almoço, punha a roupa na máquina sem um ai. Pensei que afinal estava enganada sobre ela, que afinal ser avó lhe suavizara o engenho, que as coisas se comporiam. O Rui voltou ao trabalho e a casa mudou completamente de energia.
Beatriz deixou de ajudar e começou a mandar. Mal eu pegava no Tomás para amamentar, já ela estava ao meu lado a resmungar: «Assim não, segura melhor a cabeça, não o abafes, deixa o miúdo respirar.» Eu a tratar do Manuel, ela a refazer a muda da fralda porque «torceste tudo, o miúdo fica torto». Se me sentava um minuto depois de alimentar-lhes, ouvia da cozinha: «Matilde, a loiça não se vai lavar sozinha, não fiques aí a olhar para o nada.»
Todos os dias, da manhã à noite, sem tréguas. Mal acabava uma tarefa, já me criticava outra. Já mal pegava nos meus filhos porque ela os tirava do meu colo: «Deixa estar, fazes sempre tudo mal.» Dei por mim a evitar tocar nos meus próprios filhos quando ela estava por perto.
Uma semana assim esgotou-me de tal forma que andava de joelhos a tremer e pensamentos confusos com tanto cansaço e nervos. Esperei que Beatriz adormecesse no quarto dos meninos, fechei a porta do quarto e sentei-me ao lado do Rui.
Rui, já não aguento. Falava baixo para não me ouvir pela casa e isso só fazia crescer ainda mais a raiva. A tua mãe não quer ajudar, ela quer controlar tudo, massacra-me. Não consigo dar de mamar sem ela se meter. Não posso descansar cinco minutos sem ela mandar trabalhar. Sinto-me uma empregada, sempre errada na minha própria casa.
O Rui olhava para o tecto, calado.
Ou ela vai embora, engoli em seco e finalizei o que já andava na cabeça há dias ou eu pego nos meninos e vou embora eu.
Ele ergueu-se sobre um cotovelo e olhou-me como se eu tivesse dito algo fora deste mundo.
Matilde, espera. A minha mãe só quer ajudar, foi assim que foi criada. Tentem conversar, pode ser que se entendam. É a avó, está preocupada.
Tapei o rosto, apertei bem os olhos para travar as lágrimas, porque se começasse, já não parava. Isto era fruto de meses, daqueles «estás só a fingir» e dos «na minha altura fazia muito mais», e agora transbordava tudo de uma só vez.
Rui, não consigo alimentar os nossos filhos há uma semana sem ela me tirar um dos braços tirei as mãos do rosto, já cheia de lágrimas. Pego no Tomás e ela logo o arranca dos meus braços. Mudo o Manuel e ela remuda tudo. Tenho receio de pegar nos meus próprios filhos em casa. Eu os pari, Rui! Mas ela faz de mim uma criada, à experiência.
A porta do quarto rangeu, Beatriz apareceu no limiar, de robe lilás, braços cruzados.
Eu estou a ouvir tudo. Isto tem paredes finas olhou-me de cima a baixo e abanou a cabeça. Deviam era ter vergonha, Matilde. Deixei a minha casa, estou aqui a ajudar com os netos, a dormir numa poltrona aos sessenta e dois anos, e tu fazes estas cenas, arrastas o meu filho contra mim. És ingrata, é o que és.
E foi nesse momento que tudo mudou. O Rui olhou uma vez para a mãe, outra para mim, desmontada e chorosa na ponta da cama, com uma camisola puída e manchada de leite, e algo nele oscilou. Percebeu enfim aquilo que tentei mostrar-lhe mês após mês.
Mãe, sentou-se na cama, faz as malas. Amanhã de manhã levo-te a casa.
Beatriz ficou petrificada à porta, como se o filho tivesse dito algo inaudito.
Rui, a sério? Vais expulsar a tua mãe por causa desta rapariga?
A sério, mãe. Esta é a nossa casa, os nossos filhos, a minha mulher. Vamos resolver as coisas a dois. Se precisarmos de ajuda, pedimos. Mas viver, vives lá.
Ela protestou até à meia-noite. Fez a mala aos empurrões, bateu portas, foi duas vezes à cozinha tomar chá de cidreira e indignava-se alto com o filho e com a nora «destruidora de famílias». Eu sentei-me no quarto dos meninos, a dar o biberão e a ouvir tudo pela parede, mas já não chorei de raiva. Pela primeira vez chorei de alívio, o peito a crescer de liberdade.
No dia seguinte o Rui levou a mãe a casa e voltou. Entrou no quarto dos miúdos, pegou no Tomás, que começava a resmungar, e deitou-o ao ombro.
Conseguimos, Matilde disse, embalando o pequeno. Juntos conseguimos.
E conseguimos mesmo. Em poucos dias criei o meu ritmo, sem ninguém a controlar o meu respirar. Alimentava os meninos quando pediam, trocava-lhes as fraldas à minha maneira e a casa deixou de parecer território alheio. O Rui ajudava nas noites, nos fins de semana levava o carrinho duplo para passear e dava-me duas horas só minhas. Voltou a paz, não num dia nem numa semana, mas cada manhã em que acordava e podia ir ter com os meus filhos sem receios, esse mundo a dois fortalecia-se.
Aprendi que, por muito que nos tentem abafar, é preciso saber levantar a voz quando é em nossa casa e pela nossa família. E, acima de tudo, só assim é que a verdadeira paz encontra espaço para crescer.






