Cansei de cozinhar para todo mundo!

19 de junho Diário

Hoje acordei com a febre batendo nos 38°C, a garganta ardendo como brasa e o peito a ranger. A temperatura do termómetro já dizia tudo, mas a cabeça girava, e as pernas pareciam flutuar. Levantei-me com dificuldade, sentindo o mundo a girar à minha volta.

Mãe, onde está o meu pequenoalmoço? a Madalena entrou na minha casa sem bater. Vou chegar atrasada à escola!

A Nina, eu, tentei levantar, mas o tontura fezme tropeçar. O refrigerador estava vazio, exceto por uns iogurtes para a pequena.

Não há nada! Só iogurtes para a Filomena! a Madalena cruzou os braços no peito, a voz cheia de reprovação. Sempre falas só dela!

Do quarto, ouvi o choro da Filomena. Levanteime a cambalhar, os olhos a ver círculos escuros. O Miguel saiu da casa de banho, ainda trajado com a camisa azul a riscas.

Nina, onde está a minha camisa? ele gritou.

Estava no armário respondi, mas a voz saiu trêmula.

Não! A planaste ontem?

Aproprieime à parede e, lembrando que o dia inteiro fui de febre, tentei ainda cuidar da Filomena. Não consegui terminar a tarefa a tempo.

Maldita! Tenho reunião! o Miguel bateu a porta da casa de banho, irritado.

A Madalena chorava cada vez mais alto. Peguei a Filomena nos braços, e ela se agarrou a mim, soluçando.

Mãe! gritou a Madalena da cozinha. Aqui não há nada! Nem pão!

O dinheiro está na mesa, compra algo pelo caminho. respondi, tentando manter a calma.

Não vou à mercearia! Tenho trabalho! E ainda por cima, é tua obrigação alimentar a família! ela disparou.

Fui à cozinha, ainda com a Filomena no colo, retirei as almôndegas do congelador e pusas a cozinhar. A Madalena, colada ao telemóvel, mandoume ainda mais ordens.

E cozinha também o macarrão! ordenou.

Enquanto o pequenoalmoço se formava, o Miguel saiu da casa de banho com a camisa amarrotada.

Tive que a pôr assim. Parece que sou semabrigo. Obrigado por nada!

Fiquei em silêncio. Falar era doloroso, e eu não tinha forças para explicar.

Hoje é aniversário da Sofia disse a Madalena, enquanto se servia de macarrão. Depois da escola vou à casa dela, volto tarde.

Madalena, sintome muito mal. Podes ficar em casa e ajudar a irmã? pedi.

Claro, já estou a caminho! Estou à espera desta festa há seis meses! E não pedi nada à minha irmã! Esses são os vossos problemas! respondeu, pegando a mochila e batendo a porta ao sair.

O Miguel terminou o pequenoalmoço, navegando nas notícias do telemóvel.

Miguel, podes chegar mais cedo? Estou realmente doente. implorei.

Não dá. Temos um jantar de empresa depois do trabalho. Obrigações, sabes? respondeu ele, sem olhar para mim.

Mas eu estou doente

Bebe algo. Há paracetamol ali, ou o que quiseres. Não és deitarte na cama. Aguenta.

Ele deume um tapinha na têmpora, suado, e saiu.

Fiquei sozinha com a Filomena, de três anos, que pedia atenção, comida e brincadeiras. Fiz tudo o que podia, sentindo a energia a esvairse. Ao almoço a febre subiu para 39°C. Alimentei a criança, coloqueia a dormir e caí no sofá, o coração a bater descompassado.

O telemóvel vibrou. Uma mensagem da Madalena: Mãe, dá-me dinheiro para o presente da Sofia. Urgente! Não consegui responder; nem sequer apanhar o telemóvel.

Ao fim do dia foi o Miguel que chegou primeiro, trazendo sacos de compras da mercearia.

Comprei cerveja e batatas fritas! Hoje tem jogo! exclamou, jogandose no sofá e ligando a televisão.

Miguel, alimenta a Filomena, por favor. Não consigo levantarme. pedi.

Está tudo tão grave? ele finalmente olhou para mim. Por que estás tão rubra?

A febre está alta. O dia inteiro

Então chama uma ambulância se for realmente grave. Onde está a Madalena?

No berço. Deve acordar daqui a pouco.

Tudo bem, deixemos que acorde primeiro.

A Filomena acordou meia hora depois, chorando e chamando a mãe. O Miguel, relutante, largou a televisão, pegoua nos braços.

Por que choras? Vai para o pai!

Mas a pequena ainda se agarrava a mim, a voz a subir ainda mais. O Miguel ficou perdido.

Nina, ela querte!

Dá-lhe um biscoito da despensa e um sumo.

Onde? Não consigo encontrar!

Precisei levantarme, quase a cair. O chão balançou, agarreime à parede. Trouxe o biscoito, enchi o copo de sumo. A Filomena acalmouse um pouco.

A Madalena regressou às duas da manhã. Eu não consegui dormir; a febre ainda me impedia.

Por que não respondeste à mensagem? começou a Filomena. Tive de pedir dinheiro à mãe da Sofia! Que vergonha!

Madalena, passei o dia com febre a quase quarenta

E daí? Não conseguiste apanhar o telemóvel? Dois segundos!

Na manhã seguinte, o Miguel me sacudiu suavemente pelo ombro.

Nina, levanta! Tenho de ir trabalhar e a Filomena tem ensaio!

A febre abaixou um pouco, mas a fraqueza ficou. Levanteime, tomei a Filomena e comecei a vestirnos.

E o pequenoalmoço? perguntou o marido.

Faz por ti mesma. Levo a Filomena ao jardim infantil.

Por mim? Não sei fazer! E ainda não tenho tempo!

Vai aprender.

Algo na sua voz fez o Miguel calarse. Resmungou algo e foi para a cozinha.

Quando voltei do jardim infantil, a casa era um caos. Louça suja, coisas espalhadas, roupa amassada. Normalmente eu começava a limpar na hora, mas não hoje.

Tomei um banho, bebi um chá e deiteime a dormir.

À noite, reunimonos à mesa para o jantar ou melhor, ao que restava da mesa vazia.

Mãe, o que vamos jantar? perguntou a Madalena.

Não sei. O que preparares será o jantar.

Como assim? arregalou os olhos.

Falarei logo. Não vou mais cozinhar para todos! Só para mim e para a Filomena.

Por que isso? indignouse o Miguel.

Porque, na nossa família, aprendi que cada um cuida de si. Assim é que se vive!

Nina, o que se passa? o marido tentou abraçarme, mas afasteime.

Canseime de ser sirveta! Ontem mostraram que sou apenas pessoal de limpeza, sem custo nenhum.

Mãe, eu já pedi desculpa! mentiu a Madalena.

Não é desculpa. Nem o pai pediu. Ninguém sequer perguntou como me sinto.

Então desculpa! resmungou a filha. Vai ficar a passar fome agora?

O frigorífico está cheio de comida. Tenho as mãos. Cozinhem.

A primeira semana foi um inferno. Madalena fazia birras, o Miguel resmungava e batia à porta. Eu mantinhame firme, cozinhando só para mim e para a Filomena, lavando apenas as nossas roupas e limpando o quarto da criança.

Mãe, as minhas calças estão sujas! Está tudo sujo! reclamou a Madalena.

A máquina de lavar está aqui. O detergente está no armário.

Não sei usar!

Vai aprender. O manual está na tampa.

O Miguel ia trabalhar de camisa amassada, comendo nos cafés. O dinheiro desaparecia rapidamente.

Nina, isto é uma ruína! Comer fora todos os dias!

Cozinha em casa. Sai mais barato.

Não sei cozinhar!

O YouTube ajuda! Milhares de receitas.

A casa mergulhava no caos: louça acumulada, chão por limpar, pó por todo o lado. Eu via tudo, mas não intervinha, limitandome a manter a limpeza do quarto da Filomena.

Depois de duas semanas, a Madalena tentou fazer macarrão, esqueceuse de salgar a água e deixouo cozido demais, transformandoo numa papinha.

Mãe, ajuda!

Não. Aprende sozinha.

És a mãe! Deverias ajudar!

A minha obrigação é cuidar dos menores. Não me cabe fazer-te pratos finos. Há pão, leite e cereais; não ficarás com fome.

O Miguel tentou fritar ovos e queimou. Na segunda tentativa, algo comestível saiu.

Olha, Nina! Fiz ovos fritos!

Eu acenei, voltei ao meu livro, sem elogios nem aplausos.

Três semanas depois, o apartamento parecia um depósito de lixo. Madalena chorava sobre a pilha de roupa suja.

Mãe, por favor! Só mais uma vez! Não tenho roupa para a escola!

Ontem estiveste o dia todo em casa. Poderias ter lavado.

Fiz os trabalhos de casa!

Eu trabalho remoto, preparo, limpo, cuido da Filomena e ainda arranco tempo para passear com ela. Tudo isso consigo.

És adulta!

E queres os direitos de adulto? Sair tarde, dinheiro para divertireste? Então cumpre as responsabilidades de adulto também.

No fim do mês, o protesto acabou. Madalena aprendeu a lavar, a cozinhar pratos simples e a limpar atrás de si. O Miguel já sabia fazer ovos, macarrão e até uma sopa simples.

Uma noite, voltei do parque com a Filomena. A mesa estava posta, o cheiro da comida encheu a cozinha. Miguel e Madalena estavam ali, com rostos ainda um pouco rosados.

Mãe, preparamos o jantar disse a Filomena baixinho. Eu fiz a salada, o pai assou o frango.

Obrigada respondi calmamente.

Perdoanos, mãe Madalena abaixou a cabeça. Não percebíamos o quanto era difícil para ti.

Nina, não vamos mais fazer isto acrescentou o Miguel. Prometemos ajudar.

Olheios. Não se tornaram outras pessoas, mas o medo de ficar sem a mãe, sem a esposa que tudo faz, ficou gravado profundamente.

E então souberam: se exagerarmos, a mãe pode não perdoar e deixálos sozinhos com a louça suja e camisas amassadas.

Está bem disse eu. Mas lembremse: não sou serva. Sou pessoa. Sou membro da família. O respeito tem de ser recíproco.

Entendemos acenou a Madalena. De verdade.

Durante o jantar falámos pouco, mas o clima mudou. Madalena limpou a mesa sozinha, Miguel lavou a louça. Pequenas coisas, mas para mim foram vitórias.

À noite, ao embalar a Filomena, sussurrei:

Vais crescer diferente, independente. Não pensarás que o mundo te deve nada. E encontrarás um marido que lave a própria louça sem precisar de ser lembrado.

A Filomena sorriu sonolenta, abraçoume ao pescoço. No quarto, Miguel esperava com uma chávena de chá.

Toma. O teu preferido, com mel.

Obrigada.

Nina, realmente nos deixarias?

Fiquei em silêncio.

Não te deixaria. Mas não voltaria a viver como antes. Já chega. Sou também pessoa e mereço respeito.

Realmente percebemos tudo.

Veremos bebi o chá. O tempo dirá.

E o tempo, de fato, mostrou. A família não se tornou perfeita. Às vezes a Madalena esquece de lavar a louça, o Miguel esquece de pendurar a camisa. Mas o principal mudou: o tratamento.

Agora veemme não como uma ajudanta gratuita, mas como esposa, mãe, mulher que tem direito a cansaçar, adoecer e desejar descanso.

Este é o início. O início de uma nova vida, onde cada um responde por si, mas ajuda o outro. Onde um obrigado surge após a refeição feita com carinho. Onde a mãe pode deitarse à tarde sem que alguém se indigne pela falta do almoço.

Uma pequena revolução dentro da nossa família, mas precisava tanto

Se alguém vive algo semelhante, segure este truque. Funciona

Acho que a minha esposa fez a coisa certa? Comentem o que acham! Curtam se gostarem.

Nina Ferreira.

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