No verão passado, o nosso filho foi passar umas semanas à casa da avó, lá numa aldeia do interior. Estava entusiasmado que só visto fez a mala com tanta antecedência que o verão ainda mal tinha começado e ele já sonhava com dias sem horários e sem ninguém atrás dele.
A avó, claro, é aquela figura típica: orgulho enorme no neto e dedicação total. Com ela, podia tudo liberdade quase completa, como se lá em casa não houvesse regras. Quando o João chegou à tal aldeia, sentiu-se um verdadeiro rei. Até parecia que os pais não existiam e aquele mundo era só dele. Só que desta vez, as férias não correram como ele esperava.
Acontece que, por coincidência, a segunda filha da avó a minha cunhada, que anda sempre de um lado para o outro pelo país também resolveu ir para lá. Ela é solteira, trabalha em vários sítios, e as férias dela são coisa rara. O João, habituado a encontrar só a avó e o avô por casa, nem sabia bem o que fazer com aquela novidade. No fundo, a tia era aquela pessoa distante que só via pelo telemóvel, aparecia, dava uns presentes e desaparecia, tipo fada-madrinha moderna.
Mas foi só terem de partilhar casa durante uns dias que a magia se foi logo. A tia começou a notar-lhe todos os maus hábitos: ora batia com as portas, ora deixava as roupas de qualquer maneira, ou ficava horas agarrado ao telemóvel. Resumindo, controlava-lhe todos os passos. O miúdo ficou logo de trombas, e foi cheio de azedume desabafar com a avó: Ó avó, a tia é mesmo má! Quando é que ela se vai embora?
A avó lá lhe explicou, no seu jeito despachado, que ela estava só a fazer de adulta responsável, não era por maldade. Era uma questão de educação e respeito e ao menos, que ouvisse o que a tia tinha para dizer. Só que o João mantinha-se firme. Até que ganhou coragem e foi mesmo dizer à tia que ali só a avó e o avô mandavam, e que ela não podia andar a corrigir toda a gente daquele jeito.
A tia, com aquele sorriso meio maroto típico, explicou-lhe com toda a calma que também morava ali e tinha os mesmos direitos. Pois claro, se está em casa, pode perfeitamente fazer reparos é daquelas leis universais das famílias portuguesas.
Depois desse episódio, o João acabou por pedir desculpa e, a partir daí, nunca mais houve grandes crises. Acho que foi ali que percebeu que férias em casa da avó não significam fazer tudo à vontade. Viver com a família é mesmo assim: há sempre alguém pronto a apontar o dedo, seja em Lisboa, seja numa aldeia do Alentejo.
Hoje em dia, quando lembramos aquela aventura, rimo-nos sempre. E claro, fica a moral da história: se queres descanso absoluto, talvez devas pensar duas vezes antes de ir para a casa da avó ou então convence a tia Matilde a viajar mais!







